sábado, 13 de dezembro de 2008

O cheiro da carne




Tudo morre à nossa volta porque a carne se degrada, apodrece, arde. Os amantes morrem com o acabar dos minutos. O sabor de um beijo piora com as rugas. O cheiro da boca, o hálito, apodrece à medida que os pequenos ossos alojados nos maxilares, os dentes, ganham cáries. A tempestade abate-se sobre a árvore e racha-a, abate-a, tira-lhe vida. É trágico ser madeira que dá fruto no meio de trovões. Mas a carne existe, é real, faz-te respirar. Tem muito poder. Desvia-te do essencial: o espírito, o pensamento, o interior do cérebro. A carne vicia-te na carne, dá-te vontade de comer, de mastigar, de fornicar. Degolar o porco para chupar meia dúzia de costeletas sebosas. Passar a tarde a olhar para as pernas da mulher à espera que essas mesmas pernas lancem o convite da cama. Prazer da carne, imbecilidade. Como esperar que o amor dependa da saliva, da transpiração, do esperma, dos fungos, do sexo, se o que persiste não reside no corpo? Fazer amor não é o corpo. Este está a mais, ocupa espaço, como os bifes de galinha que enchem o frigorífico. Dar importância à alma, portanto. Mas como não pensar que aquela linda mulher está ali a olhar para ti, aguardando que te esqueças da cobardia para a galanteares? Como fazer amor sem sair do intelecto? Esquecer que o pénis tem as suas próprias necessidades. Acontece que estás sentado numa sala da qual não podes sair e sentes-te observado por duas belas pernas. Coras, ficas vermelho, derretes. Julgas que não mereces tanta atenção por parte da perfeição. Pensa, no entanto, que nada de perfeito surgirá a partir daquilo que encarquilha. Olha para as pernas: envelhecerão, ganharão varizes. Queres lamber as futuras linhas verdes das pernas da mulher? Repara nisto: a carne tem pêlos. Se a moça não os cortar, terá tantos que te dará vontade de vomitar Olha para aquelas pernas. Ai pernas, belas perninhas. Imagina o nojo. Vê o pavor da carne e salva-te, salva-te. Toda a gente quer ser salva de algo. Do Inferno, do fogo inextinguível que tudo consome, da consequência do pecado, do minuto após o prazer, da condenação, do castigo.

sábado, 8 de novembro de 2008

O soldado a voltar para casa

A felicidade existe, embora nunca se lhe toque. Ou está num futuro sonhado ou num passado sem retorno. Às vezes, dá-se o caso de duas pessoas se encontrarem juntas, sentirem-se deprimidas e, só após um final, se aperceberem de que eram feitas uma para a outra. Infelizmente, o amor não é como o desporto. Depois das palavras feias terem sido derramadas, do murro ter sido desferido, não se pede desculpa. Vai-se embora para sempre. Mas há o presente, sim, palavra importante. O presente é quase como a felicidade: existe em função de um passado ou de um presente. Tudo isto para quê? Para dizer que em dia X do ano Y, uma mulher foi-se embora do quotidiano de um homem, tendo-o deixado a pensar no que poderia ter feito para que tudo tivesse corrido de outra maneira.

Um dia, sentado num banco de jardim, vês uma mulher, apaixonas-te, dizes-lhe: «Olá, queres casar comigo?» E se não disseres isto dirás qualquer outra coisa patética e corarás tanto que te apetecerá fugir. E ela responde-te que sim, que se quer casar. Dás-lhe a mão. Quando se procuram sentimentos, o gesto de dar a mão é muito importante. Sentir o cheiro, olhar para as flores (ou imaginá-las). Tudo da maior relevância.

O maior solitário é aquele que vive com fantasmas.

Ela está à mão de semear e decides dar-lhe o teu melhor beijo. Quando vais para descolar os teus lábios dos dela, eles não saem, por conseguinte, a inocência vê-se obrigada a eternizar aquele momento. A boca na boca, os braços no braço, o umbigo no umbigo, os pés que pisam os pés, a dor boa. Tu a pensares que queres morrer ali, naquele lugar, naquele momento, já que não há mais nada para aprender.

Eis uma ausência de presente: ainda hoje, após tantas batalhas perdidas, o soldado deseja voltar para casa.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A voz que se cala

Ele já não conseguia falar com ela. Este facto tão simples complica-se quando se descobre que A sofre por B. O corpo dela dava ares de ser possuidor de uma corrente eléctrica tão potente quanto o peso da baleia em cima do pescador. Andava com aquela mulher há quatro anos e, pela primeira vez, começava a sentir que lhe era, de certo modo, estranha, alguém com quem não se poderia partilhar os mais íntimos pensamentos. Perdes o parceiro quando te deixas de sentir à vontade para convidá-lo para a dança. Para a levar para a cama, ele precisava de implorar, pôr-se de joelhos e pedir: «Por favor.» Às vezes, quando começava a contar uma piada, parava a meio, como se do outro lado não houvesse nada para além da distracção. Todos os dias ele fazia esforço para conseguir suportar a companhia de uma pessoa que, pela indiferença, o fazia querer voltar atrás no tempo. Imagine-se a sensação de ter dois pratos na mesa e só haver um indivíduo sentado para comer. Estar com ela era pior do que estar sozinho. Muito pior. Um homem só tem-se a si próprio. Com ela, aparecia a dor de se sentir perdido e de não ter companhia nem amor. Ele queria ir embora, no entanto, era demasiado cobarde para o fazer. Mais do que isso: egoísta. Preferia ficar com um pássaro na mão do que com dois a voar. Por conseguinte, ia ficando, cada vez mais enroscado na sua pequena teia-de-aranha, cada vez mais peça de mobília, azulejo de parede, fotografia da qual a memória não se recorda do nome.

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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Fraqueza, incapacidade, ignorância

Fraqueza: não despejar a raiva no ouvido do monstro, não dizer à avó que se gosta dela mais do que de tudo o resto que anda, não dar o beijo na boca da rapariga que passa, não protestar quando se deve, não só não saber perder como não saber ganhar, querer ganhar acima de tudo mas só conhecer o sabor da derrota, querer dinheiro, trabalho, prazer, querer fugir da dor, dessa maldição que cobre o planeta, especialmente o planeta de um só homem, o quarto, a carne, o lenço que fica molhado após o contacto com a pálpebra molhada. Fraqueza e incapacidade: duas palavras que moldam uma vida. Ignorância: a palavra mais forte. Perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem, não sabem mesmo, desculpai-os por todo o mal, Senhor. Os pequenos animais, os macacos que rapam os pêlos da cara, que fingem saber o abc dos livros, que colocam perfume na camisa de seda, que matam, que desprezam, que fazem sofrer, que sofrem desalmadamente, como se não existisse mais nada para além de um longo sofrimento. Agonizar dentro da fogueira em que a mão de carne deita fogo à biblioteca de papel. Defecar, urinar, vomitar, tossir, espirrar, arrotar. Eu defeco, tu defecas, ele defeca, nós defecamos, vós defecais, eles defecam. De certo modo, a palavra feia cria mais repulsa do que o balde cheio de fezes, do que a boca cheia de esperma, do que o prego espetado nas costas. Perder, ninguém aparecer na vida daquele que quer gente a surgir-lhe à frente do olhar com intenções de amizade, ter sempre o jogo perdido por mil . Não haver talento para nada, nem para a masturbação, que dura três segundos.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Canção de saída

O despertador começa a tocar. Dez da manhã. Bem que poderiam ser duas ou três da tarde. Não há nada para fazer, ninguém com quem contactar. Os amigos não estão, nunca estiveram, foram uma invenção. Não se pode imaginar dois cães enraivecidos a manterem laços sem que saia um sorriso. Uma curva que se põe nos lábios. A família não está, nunca esteve. Outra invenção. O pai, a mãe, a avó, a tia, o primo, tudo invenções. Ninguém existe realmente. O despertador toca e uma pessoa vê-se obrigada a sair da cama porque perdeu o sono e não quer ficar debaixo dos lençóis a ter pensamentos tristes. Mas fora da cama também não há nada. O homem coloca os pés no chão, arrepia-se com o gelo outonal e levanta-se para um banho de água fria. À inglesa. Para enrijar. Enrijar, é assim que falam os homens grandes. Ganhar músculo, tesão, levá-las para a cama e fazer-lhes filhos. À homem. Mas os homens não são rijos. Tomam banho de água fria por não terem dinheiro para uma botija de gás. Um objecto para custar meia dúzia de tostões. Onde está o rijo? Passar os dias a escrever, a ler, a dormir, a iludir-se com o futuro que nunca chega a ser futuro, porque é cada vez mais passado. Isso é ser rijo? E abandonar um filho, é ser rijo? De forma breve, quase meteórica, o homem toma o seu banho gelado (outra solução seria não o tomar e ir para a rua todos os dias com um cheiro a novilho) e veste uma camisa surrada na gola. Olha pela janela: a humanidade é imensa e infeliz. O que fazer? Ir procurar trabalho? Dormir? Deixar o mundo correr e mandar o amanhã às urtigas? Pôr perfume no pescoço. O homem põe perfume e penteia-se para não sair de casa. Fica todo cheiroso para nada, ou melhor, para abrir um livro e o começar a ler. Talvez a loucura inclua gente que quer fazer amor com papel nas suas instalações. A namorada? Nunca existiu, tudo ficções. A mulher? Uma ficção ainda maior. O homem lê trinta páginas de um livro de poemas, pisca os olhos – primeiro o esquerdo, depois o direito – para perceber se ainda vê do mesmo modo que via antes de ter começado a ler. A solidão dá para tanta coisa. Às vezes, dá para sofrer, para sentir uma dor tão grande, mas tão grande, que se quer morrer. Um homem levanta-se e deita-se e não faz nada e não há nada e nada existe porque nada faz sentir felicidade e isso magoa, magoa tanto, tanto, tanto, que se deseja morrer.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Sonho versus pesadelo



Acabar com a dor. Ter a ferida no braço e rezar aos céus para que o sangue deixe de correr, para que não se dê uma razia. Uma hecatombe, palavra pesada que lembra um elefante a estatelar-se no chão poeirento. A bomba no céu que se vai deixando cair, cair, cair cada vez mais, até tornar inevitável a destruição de um indivíduo, de uma aldeia, de uma cidade. O homem que se vai deitar com uma granada no bolso das calças do pijama, que beija a mulher e diz boa noite, até amanhã, e que sabe que o amanhã não chegará nunca porque há a bomba, a granada, a ferida, os pêlos chamuscados, a pele rasgada, as vísceras de fora, o osso descarnado, a destruição. A criança que não dormiu de noite porque pensa na rapariga bonita e que sofre, que sente um aperto na barriga, na garganta, por ter perfeita consciência de que não a beijará, de que nunca a apertará nos seus braços, que tudo pertence ao domínio do sonho. Tudo pertence ao domínio do sonho: «Bem-vindo ao meu reino. Sê feliz, procria, enriquece, trabalha, dorme, fornica, descansa, sorri, abraça a mãe e o pai, almoça com os amigos, passeia com a namorada. Acorda. Acaba com tudo.» Sonhar é como estar num futuro ideal mas ao mesmo tempo não estar, não tocar, não sentir. É cheirar o perfume da mulher sem tactear. A velha que sonha com o passado que não teve, com os filhos e os netos que não nasceram. O não ter uma descendência para a frente nem para trás, não ter um pai nem um filho. Ser só, peão isolado na longa estrada que leva ao desaparecimento. Ser isolado e ver uma mulher a passar na rua. Sentir paixão no peito. Agarrá-la pelas pernas e lambê-la, encostá-la à parede e dizer: «Casa-te comigo, foge comigo, vem comigo.» E ele não querer casar, não querer fugir, não ir a lado algum. E ser o cavaleiro sem espada no meio da floresta recheada de lobos. Tudo o que não pertence ao reino dos sonhos faz parte da dura realidade que é o pesadelo. Quase tudo é duro, pesado, agressivo, mortífero. Quase tudo o que não é felicidade é pesadelo. E o pesadelo é quase toda a vida. É sentir dor, gritar no meio da praia vazia, estar deitado numa maca de hospital, pedir ajuda, virem médicos com garantias de que não se pode matar o paciente. Ter o veneno à frente da boca mas ser controlado pela cobardia. Fechar os olhos deitado num prado e entrar num outro planeta: «Nasceste rico, vais para a escola dos meninos bonitos, tens namoradas, mil namoradas, dás mil beijinhos. Terás a melhor das adolescências. Quando chegares a adulto, os bolsos das tuas calças estarão sempre cheios de notas de mil e de cinco mil e de um milhão. Envelhecerás com calma, terás filhos, crianças lindas , os teus pais morrerão, claro que sim. Os pais morrem sempre. Mas os teus morrerão felizes por te verem feliz. Tu próprio morrerás, mas será tudo lá para a frente, para o infinito. Agora, és uma espécie de arco-íris.» Acordar, sair da cama, tomar o ansiolítico, trabalhar, levar com o cajado nas costas, ser tudo mas mesmo tudo mentira.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Nenhum, nada, zero



As têmporas inchadas, as veias a quererem ultrapassar os limites da pele, a testa franzida, enrugada, engelhada, velha, estúpida, podre. A dor na cabeça que não pára de crescer, os olhos a diminuírem. Os ossos que vão estalar, o maxilar deslocado, o nervo do dente que foi atingido pelo relâmpago e que precisa de desvitalização. O crânio que parece apertado pelo crescimento de um cérebro oco, vazio, fútil. O adjectivo na frase necessitada de algo mais compacto e substancial. A dor, os diferentes tipos de dor. O orgasmo que magoa e que simultaneamente dá prazer. O murro no estômago que faz chorar. A dor tem diferentes registos. Muda de pessoa para pessoa, de contexto para contexto, de segundo para segundo. Enterrar um prego no pé não é, certamente, receber um pénis de proporções inimagináveis num dos orifícios do corpo. Partir uma perna não é ganhar uma prova de atletismo com os pulmões esgotados. A mesma dor varia. Numa guerra, dois homens que levaram o tiro na mesma parte do braço poderão ter reacções diferentes: basta um ganhar e outro perder a guerra para tudo mudar. Aquele que consome droga por desgosto não sofre do mesmo modo no momento de se injectar e no momento da ressaca. Tudo muda, tudo se altera, tudo se agudiza, tudo desaparece. O desaparecimento. Haverá palavra mais importante para o ser humano? Nascer, crescer, atingir um metro e oitenta de altura, noventa quilos de peso e, no fim, acabar dentro de um frasco cheio de cinzas, sinal de memória para os que ficam. Ser herói, liderar a cruzada, a revolução, o golpe de estado, levar com o machado nas costas, acabar deitado dentro de uma caixa de madeira com as carpideiras a servirem de pano de fundo. O rasgar de pano nos ouvidos. A esposa a beijar os lábios de um homem que não o marido. Acertar com o martelo no polegar, deixando o prego ileso. A agulha nos olhos do pardal. Ficar sozinho, estar sozinho, andar sozinho, traído, abandonado, despojado de tudo, não fazer sentido, nenhum sentido possível, e abandonar tudo, sair do barco vazio e cair no mar à espera que o destino decida se a morte chegará ou não. Partir para uma realidade diferente da actual e ser feliz, feliz com o que não existe, com a imaginação, com as plantas, com os anos verdes, com a dama, com a rainha, com o cofre do dinheiro. O sono, a vontade de dormir, o começo de final, de escuridão, de treva, de inferno.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Diz-se que o homem morreu

A morte, não a pequena mas a grande. A Morte. Desaparecer. Os dias parecem lentos, cada vez mais lentos, até se tornarem mais rápidos do que a velocidade da luz. A vida demora sempre muito tempo a ir embora. A vida está sempre a ir embora. Os dias são velozes. As expectativas desaparecem mais depressa do que aquilo que já aconteceu. O futuro tem sempre uma grande dose de passado. Pensa-se no amanhã quando o ontem está mesmo a dar à costa. Com catorze anos, dizes que queres morrer aos vinte e sete, imitando a vedeta rock. Ficas espantado quando descobres que treze anos passam com a rapidez de um trovão. O tempo passa muito depressa. Um ano passa mais depressa do que o teu sonho de ser feliz. Às vezes, um homem nasce e morre sem nunca ter conhecido a felicidade. Depois diz-se que o homem morreu sem um sorriso na boca. E culpam-se aqueles que ficaram no mundo dos vivos por nunca terem feito feliz aquele que perdeu o ar. Mas a verdade é outra: podes morrer sem nunca ter tido tempo para aquilo que realmente importa. Os homens falam mais do que agem e depois não mordem. Morrem, isso, morrem sempre um bocadinho mais a cada momento que passa. Parece trágico. Talvez. Também dá para morrer sem nunca ter sido infeliz. Como é que se morre sem infelicidade? Não conhecendo ninguém. Ser sozinho sem nunca ter conhecido pessoas. Sem nunca ter conhecido. Esta é uma parte muito importante. Sem nunca ter conhecido. Se te isolares após teres conhecido, por exemplo, o cheiro de uma linda mulher, não poderás fugir à dor. O ideal é um homem estar dentro da caverna escura, não querendo sequer olhar para as sombras. Quando se liga a televisão, dá-se a mostrar o físico da sereia. Na rua, mesmo fixando os olhos nas pedras da calçada, não se pode fugir ao encanto de certos corpos que dançam como serpentes. Não podes fugir à dor se conheceres pessoas. És livre de fingir deficiência, cegueira, surdez, mudez, retardamento cognitivo, tudo. Podes atirar o monóculo para o lixo, partir os óculos com graduação de sete para ver ao longe. Se já viste, de nada vale fingires que não podes ver. O presente é sempre ultrapassado pelo passado. Estás aqui agora, neste preciso momento, e sabes que não podes fugir ao processo natural de envelhecimento. A tua vida é o passado: a tua felicidade, melhor, todas as tuas causas de infelicidade residem no passado. O beijo perfeito foi dado no passado. O amor da tua vida apareceu há ano e meio. O teu casamento foi há vinte anos. Agora, estás em queda livre para a infelicidade. A pele envelhece, o cérebro apaga-se. Como as velas que não têm cera nem pavio suficiente para arder eternamente. Foste feliz, dizes. Concordo. Palmas. Mas queres saber o seguinte: a tua infelicidade é consequência directa da tua felicidade. Quanto mais alegre fores, mais triste serás. Conheceste a perfeição há três dias? Nunca mais a verás. Foi-se, acabou, é passado. Solução: atrasa o relógio duas horas, três, se o teu calendário disser Setembro, atrasa-o para Janeiro e imagina que estás a começar o ano que começou há nove meses. Se estiveres no século XXI, finge-te do século XX e pensa nos cheiros, nas roupas, nas pessoas. Lembra-te da forma que as mulheres tinham de beijar no século passado.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Problemas



Morrer é um problema. Perder a respiração ou ficar debaixo de um camião. Morrer é um problema. A pessoa sabe que vai desaparecer e tem medo de que não haja mais nada do que isto. Isto. Este bocadinho de nada. A Terra. Tão bonita e tão cheia de lixo. A pessoa vai morrer e não quer admitir que está velha, cansada, e que precisa da ajuda de todos. É um problema grave, o da morte. O de se ir chegando a um final, a uma meta sem prémio. Não há nada pior do que se saber que os doutoramentos, as roupas e as festas de agora, pouco sentido fazem perante a evidência de que o corpo animal se vai deteriorando progressivamente, até se tornar num pequeno pedaço de excremento e depois de cinza. Mas há a vida, dizem. Há a festa. Há a luz, o sorriso, o Sol, o amarelo, um vestido de mulher na Primavera, o cigarro, a cerveja, os filhos, os pais, o Carnaval, a felicidade. Na verdade, há tão pouco, mas tão pouco, que, se tivéssemos real percepção da quantidade de momentos bons que vamos tendo ao longo dos dias, acabávamos com a reserva nacional de veneno para os ratos. É tudo muito triste. O neto rezar todas as noites para que a sua avó não morra. A avó desaparecer. O neto crescer, tornar-se avô e também ele morrer para os seus netos. Os ciclos, pois. Uma mãe dar à luz uma pequena criança morta. Um cidadão vulgar assistir ao atropelamento de um desconhecido. Um grupo de adolescentes pegar em armas para matar. O expirar. Como o passaporte. Expiras no ano x. Acabas aí. Como é que alguém se convence que vai desaparecer, deixando o mundo continuar a sua trajectória habitual? Querer que o Elvis não tenha morrido. E o Morrison. E o Dean. E a juventude cada vez mais velha. Os cabelos a ficarem brancos, os pêlos no nariz, os dentes amarelecidos, acastanhados. Pretos, podres. Estúpidos, os dentes. O amor eterno. O casamento. Declaro-vos marido e mulher. É para sempre, meu amor? É, minha queridinha, meu mais que tudo, meu sei-lá-que-mais. Pode beijar a noiva. Beije a noiva. Beije-a. Um beijinho. Atirem arroz aos noivos. Deixem-nos correr para as varizes. O rapaz e a rapariga debaixo de uma árvore num dia de Agosto. Com um canivete, desenham um coração na madeira. Ele ama-a. Que bonitos. Vais ficar comigo? Sim, claro, que pergunta. Para sempre? É para sempre que aqui ficas nos meus braços? Sim, é para sempre. Vamos sobrevoar o espaço e as estrelas e os planetas. Vamos abrir uma cova e enfiar os nossos ossos lá dentro, para que nos ponham flores cheirosas. Para que nos chova em cima e para que os vermes nos comam. Os bichos. Adoro animais, não adoras também? Muito, meu doce. Especialmente quando nos comem os pêlos, a pele, a carne e o osso. Quando nos desfazem, quando nos transformam em fertilizante natural para o pasto das vacas, dos bois. O progresso, o contínuo caminhar até ao desaparecimento. Nascer com ideias, com sonhos, com projectos. Querer ser arquitecto, estudar vinte anos, exercer vinte anos, acabar com um cancro espalhado pelo corpo. Dor infinita. Morfina. Quimioterapia. Qual a sensação de começar uma carreira de escritor? A mesma de apanhar uma pneumonia, ficar de cama. A mesma de pregar um prego no pé e ir a correr para o colo da velhinha que já não cá mora. O ter um livro, um quintal, uma beterraba a nascer. Problemas.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O Vómito

Ele conhecia os homens. Mal viam uma mulher sozinha, tratavam de a tentar engatar. Sim, engatar, palavra feia, pegajosa, peçonhenta, nojenta. Só conhecia homens maus. Não conseguia confiar em nenhum. Como poderia tal situação ocorrer se, da única vez em que decidira depositar alguma confiança num amigo, fora traído, espicaçado? Não poderia voltar a dizer palavras como estas a um sujeito de barba: «Guarda a minha mulher que não me demoro muito. Vou só ao outro lado do mundo ganhar a vida mas volto já. Um ano, dois. Confio em ti como se fosses meu irmão.» Nem pensar. Voltaria a sofrer, a estar deprimido, a tomar comprimidos para doenças cujos nomes não lhe eram de fácil memorização. Era um facto: ele conhecia os homens. Todavia, essa sabedoria não lhe chegava para conhecer o lado feminino da espécie. Conhecera uma grande mulher: a avó. Uma santa, um ser humano tão perfeito, mas tão perfeito, que não tinha lugar entre o mundo dos vivos. Infelizmente. Se a avó fosse viva, costumava pensar, o ecossistema estaria em melhor estado. Menos pessimista.

Os homens. Que fizera ele para conhecer tantas caras de rato, tanta maldade, tanta sujidade? Olhava para o lado e via tipos a lamberem o ânus de outros a troco de ninharias. Uma promoção, uma pequena ascenção social. Preferia saber que toda a espécie morrera num grande incêndio ou numa guerra devastadora, do que continuar a ter que apertar a mão a pessoas que apenas o procuravam por interesse, que mentiam, que suavam. Ele detestava mais o suor das mãos das pessoas do que a bomba atómica. Davam-lhe nojo, não conseguia evitar. O único elemento que o impedia de se suicidar sempre que se lembrava da Humanidade era ele próprio, um ser humano cheio de pêlos no nariz. Às vezes, quando se sentia um pouco mais irreal, punha-se dentro de uma banheira cheia de água a escaldar e gritava, gritava, gritava. «Desapareçam.» O que o enojava mais era a sua figura. Odiava-se. Pedia a Deus que o fizesse morrer de morte súbita todos os dias. Em adolescente, chegara a cortar as veias dos pulsos. Sentira um pouco do significado da palavra desaparecer invadir-lhe o pensamento. Mas logo apareceram os pais, os médicos e a comunidade a garantirem que o suicídio era feio, que, dessa maneira, São Pedro não o deixaria entrar no Paraíso. Desde essa vez, nunca mais se tentara matar.Mesmo sofrendo cada dia mais, preferia esperar que alguém o viesse buscar ao planeta dos demónios.

Ele tinha trinta e seis anos, pouca inteligência dentro do crânio e muito sofrimento entalado no peito. Gostava do Sol porque era amarelo e, apesar de nunca ter sido feliz, lhe lembrava dias de felicidade. Gostava de girassóis porque eram amarelos e o amarelo era a cor de quem nunca chorava. E ele chorava tanto, tanto. Até dava nojo. Vontade de vomitar. «Como pode um só elemento da espécie sofrer de modo tão absurdo?», pensava ele. «Será que ficou tudo reservado para mim?» Ele gostava de imaginar que, um dia, conseguiria obter resposta para todas as suas perguntas. «O que é o amor?» O problema de muitos sonhos é serem perfeitos. Isto porque, sendo perfeitos, não existem. E, se não existem, desaparecem mais depressa do que o tempo de um segundo se esgotar. Para ele, um sonho perfeito era ter uma namorada e dar-lhe um beijo e pedi-la em casamento. Mas acordava sempre sozinho, sempre cada vez mais sozinho e cada vez mais em pânico com a dura certeza de que a vida não valia mais do que dois tostões furados. E dava pulos em cima da cama, partia os móveis com pontapés, feria as mãos com murros nas duras paredes de cimento.

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quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Castelo de areia

Acordou de manhã com o telefone a dizer-lhe que homem X havia morrido. Lembrou-se imediatamente da personagem de Camus que não conseguira chorar no funeral da mãe. Acabara de ser informado da morte do homem que o costumava levar ao futebol em criança, no entanto, não se conseguia emocionar. Sofria, sentia uma facada no peito, queria desaparecer, estar longe de tudo, no Pacífico, no Alaska, na neve. Precisava de estar sozinho e de desabar em lágrimas, como a criança que ainda não bebeu o seu leite. Acontece que este sofrimento, que lhe aparecera tão repentinamente, era seco, mudo, e não necessitava de gestos ou de palavras para se propagar. Vinha-lhe à lembrança a imagem de uma criança e de um avô dentro de um carro a tentarem chegar à conclusão se o jogador dos vermelhos se superiorizava ao dos verdes. Apertava-se-lhe o estômago por saber que, a partir daquele momento, da morte, já não havia pai, nem avô, nem avô em substituição. Haviam fotografias, mas nem essas eram certas. Umas estavam adormecidas dentro de gavetas trocadas, outras haviam desaparecido com o vento, com a poeira e com as cinzas. Crescera a pensar que poderia escapar à morte. Não à sua, mas à dos outros. Nunca imaginava a morte da mãe, dos irmãos ou da avó. Sofria a ver programas na televisão que abordassem a problemática em torno de certos seres humanos perderem a respiração e de serem enterrados debaixo da terra. De repente, aparecia-lhe uma notícia de tão explosiva natureza: morrera o símbolo da beleza da infância e da adolescência. Com aquele desaparecimento, iniciar-se-ia uma contagem decrescente até ao momento do seu próprio desaparecimento. Talvez fosse essa falta de tempo que o impedia de exteriorizar a dor.

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sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Um mais um menos um


Marilyn Minter, Splish-Splash, 2005




Ele amava uma mulher. Por esse motivo, quando a encontrou na rua, pegou-lhe pelo braço e levou-a para casa. No quarto, encostou-a a uma parede, rasgou-lhe a camisa, levantou-lhe a saia e penetrou-a como se tivesse a certeza de que, naquele momento, não haveria outra coisa a fazer. Durou sete minutos e meio, o sexo. Quando acabou, pegou num cigarro, acendeu-o, puxou as cuecas para cima e disse: «Vou casar contigo.» Era este o grande objectivo de vida dele. Levá-la ao altar e enfiar-lhe o anel da santa ligação no dedo. Minutos depois, ao vê-la deitada no chão ainda com o esperma espalhado pela roupa rasgada, ele sentiu que um pequeno monte se começava a manifestar um pouco abaixo da sua cintura. Voltou a enfiar o pénis dentro dela. Ela começou a chorar.

«Não faças isso», murmurou-lhe ele aos ouvidos.

«Não faças tu isso», respondeu ela.

«O quê?», perguntou ele, meio surpreendido.

«Violar-me.»

Paragem. Algumas palavras doem mais do que certas doenças.Violação. Um homem pegar numa mulher à força e possuí-la. Fazê-la sentir-se um lixo. Não ligar à existência dela. Transgressão. Estupro. Profanar um templo. Se ela lhe tivesse dado um murro no estômago, teria mais hipóteses de receber alguma compreensão do que a dizer: «Violar-me».

«Não te violei, querida. Amo-te praticamente desde a primeira vez que te vi. Já lá vão três anos. Hoje, encontrei-te na rua. Como não encontrei palavras que te pudessem convencer do quanto te adoro, peguei em ti e trouxe-te para dentro da minha intimidade.»

«A tua intimidade deixou-me a deitar sangue», respondeu ela muito secamente.

«Não te violei.»

«Deixa-me ir», pediu ela.

«Espera.»

Ele foi buscar uma corda à garagem. Despiu-a completamente e atou-a à cama, não a deixando sequer com liberdade para mexer um braço ou uma perna. Se ele quisesse, ela ficaria naquela espécie de prisão para sempre.

Ela começou a berrar. «Deixa-me ir embora, peço-te.»

Ele foi buscar uma câmara de filmar e começou a filmá-la. Pediu-lhe para sorrir, que deveria ter uma cara bastante fotogénica. Mas ela só sabia chorar. Ele aplicou-lhe o remédio: deu-lhe uma bofetada na cara.

«Agora, ri-te.»

A muito custo, ela esboçou um sorriso.

«Agora, diz que me amas.»

«Amo-te», disse-lhe ela.

«Sou o homem da tua vida, diz.»

«És o homem da minha vida.»

«Muito bem, temos filme.»

Depois, deitou-se em cima dela e penetrou-a. Ela adormeceu. No dia seguinte, acordou sozinha, na cama que a sua mãe lhe comprara no Natal. Não haviam sinais de cordas ou de homens violentos. Só ela e um despertador a garantir que chegara a hora de ir para a escola.


terça-feira, 8 de julho de 2008

Desprezo



Um escritor de fracos recursos começou a escrever: O que é a justiça? Ficar com as duas pernas cravejadas de balas para que nenhuma se fique a rir da outra. Receber um murro em cada um dos olhos para que nenhum permaneça esbelto. O que é justo? Ver o assassino que nos matou o filho apodrecer na cadeia. Sentir que o filho assassinado não vai voltar à vida. Contradição. Existe a justiça, sem dúvida. Várias justiças. Mas nenhuma delas consegue existir sem a contradição. Nenhuma alegria é eterna: passamos anos a sonhar com um prémio e, quando o recebemos, ficamos com uma ligeira sensação de desilusão. Nenhuma justiça é total: um mata, o outro morre. É sempre assim. Não existe a balança, o medir de diferentes pesos. Não existe o equilíbrio. A realidade é feita de pequenos e de grandes sofrimentos. De pequenas e de grandes dores. Respirar é habitar um mundo que pede ao animal para que escolha entre o herpes no lábio e a apendicite, entre a rótula amachucada e o punhal no coração.

Quando acabou de escrever, o homem, que dava pelo nome de Adam, foi ao quarto espreitar a sua princesa. Eva. Dormia com um sorriso. O escritor não a quis incomodar. Foi fazer um café à cozinha, acendeu um cigarro, coçou os testículos. Voltou para o computador mas não lhe saíram mais palavras dos dedos. Quem escreve não consegue provar, como o carpinteiro, que o seu trabalho é honesto e que merece ser pago. Uma dúzia de linhas por dia não dá para pagar o pão da mercearia. Naquele momento, o escritor não tinha mais nada a afirmar. Por esse motivo, ligou-se à Internet e foi ver pornografia. Passados trinta minutos, desligou a máquina e levantou-se com o intuito de perturbar o sono à sua nobre dama. Eva, a que dormia de forma sorridente, foi acordada com um pénis dentro de si. De início sentiu-se um pouco violentada. Contudo, à medida que o pénis do escritor aquecia, ela própria ia ficando excitada. Até que chegou a ejaculação precoce. A pornografia estraga a performance masculina.

Acendeu um cigarro.

«Dormiste bem?», perguntou.

«Como uma fada.»

«O teu sorriso excitou-me.»

«Nem sabia que olhavas para mim», disse ela.

Os artistas são egoístas, diz-se. Adam tinha consciência de que o seu cérebro só produzia ideias que envolvessem a sua própria pessoa. Mesmo assim, decidiu mentir.

«Estou sempre a olhar para ti, querida.»

«E as outras?»

«Quem?»

O mesmo de sempre. As mulheres, as traições, os textos falhados, as relações frustradas, o mau sexo.

Eva sabia que era amada pelo seu homem, mas de forma pouco normal. Ele passava os dias a escrever no computador, tentava publicar alguns artigos em revistas, publicava um romance de tempos a tempos, e, nos intervalos, arranjava tempo para a beijar, para lhe dizer palavras bonitas. Mas pouco. Na maior parte do tempo, Eva estava sozinha a pensar no que poderia fazer dos seus sonhos, nas vidas que poderia ter, no tempo que estava por vir. Sofria por ele. Sabia que existiam outras mulheres, outras amigas.

«O que vais fazer hoje?», perguntou ela.

«Vou escrever.»

«E amanhã?»

«Vou escrever.»

«E nos outros dias todos?»

«Vou escrever.»

«E daqui a um milhão de dias?»

«Vou escrever.»

«Nesse caso, adeus. Vou fazer as malas.»

«Porquê?», perguntou ele.

«Porque és um mau escritor que deveria dar mais importância às partes boas da vida.»

«Quais são essas partes boas?»

«Eu, por exemplo.»

Eva não se iria embora, não ganharia nunca coragem para abandonar o seu homem. Não que fosse uma pessoa fraca por natureza, apenas padecia da doença do amor. Ele também a amava, mas isso não chegava para se comportar de forma diferente com ela.

Um fragmento dos cadernos do escritor falhado: O desprezo é um sujeito fornicar com uma mulher que dorme.

Um pensamento de Eva: Embora preferisse morrer do que me separar dele, não aguento mais; quero desaparecer, afogar-me em alto mar, começar tudo outra vez.

«Dá-me um beijo.»

«E um abraço.»

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sábado, 28 de junho de 2008

Memória versus Esquecimento



Memória: Quando um homem de barba rija, que escarra, que arrota, que vomita, se põe a chorar por uma fêmea, não tem outra solução que não seja atirar-se juntamente com os restos do jantar para dentro de um caixote do lixo. Isto dizia Adam, que garantia que nenhum homem deveria sofrer por uma mulher. Todavia, à semelhança de outros indivíduos, também o que defendia a indiferença dos machos em relação às mulheres padecia do lado esquerdo do peito. E muito. Mas nos cafés, onde a moralidade masculina nunca poderia ser abalada por coisas tão banais como os sentimentos, Adam nunca se mostrava fraco. «Para mim, elas são todas umas porcas. Levo uma para a cama, amanhã outra. Elas procuram todas o mesmo que eu: ejaculação, ejaculação. Um dia, uma delas disse-me que queria falar sobre um assunto muito sério: estava apaixonada por mim. Sabem como sou, caros colegas, disse-lhe que comigo não existem sentimentos mais elevados do que aqueles que o pénis proporciona.» Às vezes, de cerveja na mão, Adam trocava as palavras por piropos. Não se envergonhava por elogiar o rabo de uma mulher que nunca desejaria passar uma noite com um tipo ridículo.

Esquecimento: Eva considerava-se feliz. Durante muito tempo, fora casada com um homem que não amava nem desejava. Agora, a conversa era diferente: vivia com um jovem mancebo que a endeusava, que tratava os filhos dela como se fossem seus, que dizia amá-la mais do que o céu azul do Verão.

Memória: É verdade que uma pessoa pode conseguir manter uma história verdadeira e uma falsa. Mas não é verdade que uma história falsa possa existir na mesma medida que uma história verdadeira. Adam era um sujeito solitário que, por vergonha, por não se querer sentir humilhado, passava o tempo a inventar ficções. Dizia aos amigos que não precisava de amor, de mulheres, de prostitutas, de crianças, de família, de nada. De certa forma, não estava errado, uma vez que não tinha ninguém. Nem mesmo os seus amigos se poderiam considerar dignos do nome. Adam conseguia manter histórias verdadeiras e falsas. Mas, enquanto as histórias verdadeiras não desapareciam nunca interior do homem, as histórias falsas, por não serem reais, não conseguiam sobreviver durante a totalidade das vinte e quatro horas do dia. Quem o ouvia falar, recebia informações falsas que, de tanto serem repetidas, circulavam como verdades: não tinha filhos, não tinha mulher, não tinha nada, à excepção de grandes prazeres hedonistas. À noite, no escuro do quarto, a história verdadeira suplantava a mentira: havia uma mulher chamada Eva que o abandonara, que o tratara como um cão, que não queria saber dele, que lhe pedia centenas de euros para a educação de crianças que mal conheciam o pai. Assim se comprova que a força de uma mentira nunca é superior à força da verdade dentro da cabeça de um mentiroso.

Esquecimento: A felicidade não aparece do acaso. Não se descobre como ouro. Não cai dos céus como a chuva. Não tropeças nela como acontece quando a ponta do teu sapato bate contra uma pedra. És feliz depois de muito sofreres. Precisas de sentir muita dor para conseguires pensar que afinal este alegre sentimento existe. É como no mar: depois da tempestade vem a bonança. Esta era a disposição de Eva. A de alguém que saiu de algo muito mau para algo quase etéreo. A de alguém que, apesar de ter estado preso inocentemente, se viu de repente com o prémio do totoloto nas mãos. Compreende-se que a minoria pessimista da humanidade desconfie que o conceito de felicidade possa ser simplesmente inexistente. Compreende-se, de igual modo, que, se o animal está bem, se sorri, se é bem alimentado, é feliz. Melhor: se o homem diz que a relação entre um macho e uma fêmea se resume a ejacular, e se realmente ejacula muitas vezes, é feliz. E ainda é mais do que isto: para ser feliz, o homem que diz que ejacular é bom (e que ejacula), precisa de esquecer, de fazer desaparecer do pensamento tudo o que faz lembrar os tempos em que o esperma não se dava a mostrar.

Memória: Antes do bem, está o mal. Por vezes, não chega a aparecer o bem. O mal é muito forte. Muito forte. Quase mais forte do que os pregos que impedem que duas mãos se descolem de uma cruz. Sentado na cama, nu, a fumar cigarros atrás de cigarros, Adam costumava passar as noites com o telefone encostado ao ouvido. Marcava um número do qual o seu cérebro não se conseguia desapegar e não falava, só ouvia. «Estou?» Sempre esta palavra. Como se não houvesse outra no mundo. Adam não falava porque sabia que nenhuma palavra o salvaria da perdição. Do outro lado do telefone, havia uma mulher que tinha dado um passo em frente no seu caminho para o absoluto. Ele é que não se conseguira libertar do passado, da saudade, do cheiro a carne e a perfume.


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sexta-feira, 20 de junho de 2008

O inteligente

Não existiam provas palpáveis da inteligência de Adam, no entanto, ela existia e tinha muita força. Quem olhasse para o homem, diria: «Não prestas, não sabes fazer nada, és um mentecapto, um calão, um parasita.» A inteligência dele assemelhava-se deveras a certos sentimentos que, apesar de terem muito impacto, não se vêem.

Por vezes, a olhar para uma mulher que o deixava louco de desejo, Adam pensava: «Se esta mulher me atrai tanto, se daria uma costela para a beijar, para abraçá-la, por que motivo aquilo que não digo não se torna mais forte do que tudo aquilo que é vaidade?

Certos homens são muito inteligentes quando ninguém lhes pergunta nada, quando estão adormecidos dentro do seu cérebro. Têm uma lógica semelhante à da saudade: quando estão presentes, deixam de funcionar.

sábado, 14 de junho de 2008

O desprezo

Dás de caras com um homem que desprezas. O que fazes?


Dou-lhe um murro na cara, no estômago, no peito. Aperto-lhe os testículos com as mãos e faço-o dar gritos do tamanho de montanhas. Emprego-lhe pontapés nos joelhos, nas costelas, na cabeça. Faço-o sangrar, faço-o chorar. Mato-o sem o matar. Faço-o preferir morrer do que estar perante mim a sofrer. Aplico-lhe tanta pancada que nem o melhor dos médicos o conseguirá deixar inteiro. Cuspo-lhe na cara. Um escarro verde na cara. Coloco-lhe os dedos da mão direita no pescoço e tiro-lhe o ar. Olho-o nos olhos. Olho-o nos olhos e faço-o chorar a olhar para mim. Digo-lhe: «Não prestas.» E ele aceita, uma vez que não lhe resta mais nada do que aceitar. Humilho-o. Parto-lhe a cabeça. Parto-lhe o crânio com uma pedra de calçada. Esmago-lhe o focinho chamando-lhe nomes. Corto-lhe a pele com uma lâmina. Corto-lhe a carne, corto-lhe o sangue, corto-lhe a língua. Chamo-lhe nomes. Nomes e mais nomes. Arranco-lhe dentes com um alicate de electricista. Parto-lhe dentes com murros. Dou-lhe joelhadas na barriga.

Dás de caras com um homem que desprezas. Bates-lhe. O que fazes se ele te pedir desculpa pelo desprezo que fez levantar em ti?

Bato-lhe mais, sempre mais, como se não houvesse tempo para mais nada. Murro um, murro dois, murro três. Pontapé no focinho. O sangue a escorrer pelo nariz. Os golpes de lâmina na cara nojenta, no focinho peçonhento. Os gritos de dor. O pedido de perdão e o sabor da vingança que não é vingança mas que, mesmo assim, nunca deixa de ser agradável. Bato-lhe mais. Mais. Mais. Mais. E vejo-o com dor, com muita dor e solto gargalhadas alarves. Baixo as calças e deito-lhe urina e fezes em cima. E, quando já não me restarem fezes, soltarei o perfume dos intestinos para cima do nariz dele. E vomito-lhe em cima. E aplico-lhe mais pontapés no focinho.

E o perdão? E a culpa?

Puxo do revólver e disparo dois tiros. Acerto-lhe no pé esquerdo. Vejo-o quase morto e não me sinto culpado. Não me posso sentir culpado. O homem é nojento. Imita-me, persegue-me, odeia-me, odeio-o. É um parasita, um reles, um imbecil, um idiota, um ordinário, uma prostituta, um touro. Não posso deixar de o culpar por me perseguir, por querer ser tão igual a mim, por querer ser eu, por querer ter o meu nome. Não o posso perdoar por vê-lo a lamber os pés de todos aqueles que lhe oferecem comida. Os dentes podres dele dão-me nojo. O penteado dele dá-me nojo. Todo ele é um nojo. Bater-lhe, cortar-lhe os braços, furar-lhe os olhos com uma agulha, puxar-lhe as orelhas com uma dentada. Quebrá-lo.

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sexta-feira, 13 de junho de 2008

Pó

Ele sabia que, mais tarde ou mais cedo, encontraria uma mulher que o quisesse fazer sentir alegria no peito. Só não sabia que, quando a encontrasse, a quantidade de dor que ela lhe traria seria superior à de felicidade.

Ela costumava dizer que, em termos de relações amorosas, era a pessoa mais infeliz do mundo. O homem da sua vida enganara-a vezes sem conta. Os outros – aqueles com os quais ia fornicando sem sentimento – não existiam, eram lixo.

Ele pensava que o mundo era um bom sítio para se viver. Acreditava na beleza da natureza, na bondade dos animais.

A partir do momento em que deixou de ser amada pelo homem que a fizera deixar de acreditar no Céu, ela não mais separou indivíduos da multidão. Apenas continuou a ir para a cama com diferentes homens, porque se queria vingar de todas as traições que recebera em tempos de ingenuidade.

Mal a viu, ele achou-a perfeita. Pediu-a em casamento. O máximo que conseguiu foi uma noite com ela. Ele ainda tentou procurá-la novamente, no entanto, mal o conhecera, ela avisara-o: «Para mim, és pó.»

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Cândido

Adam tinha um sol chamado Eva. Um dia, esse sol desapareceu. O rapaz, não sendo dotado de um forte instinto de sobrevivência, deitou-se na cama à espera da morte. Chorou, chorou, chorou. Quando a falta de vontade para tudo desapareceu-lhe do corpo, pensou: «Vou matar-me.»

Haviam-se passado dois meses desde que uma rapariga sem sentimentos dissera a um pobre rapaz para desaparecer, que já metia nojo. Sessenta e um dias. Oito semanas. Tempo suficiente para coisas como o sofrimento, a dor, a diversão, o prazer, a solidão, a alegria ou o sexo. Tempo para uma pessoa se esquecer da existência de outra. Não sendo propriamente idiota, Adam estava certo de que Eva não deveria ter perdido muitos minutos a sofrer por ele. Contudo, como no jogo dos sentimentos nem sempre entra a razão, o homem não conseguia parar de pensar que a sua relação com a dona do pecado poderia ser reatada. Sentado no sofá a ler o jornal, a ver televisão, na escola a dar aulas às crianças, nas esplanadas dos cafés a observar os pombos, Adam não conseguia deixar de pensar em Eva.

Uma página do diário do sofredor: Eva, querida Eva, para onde foste? Para que lado do labirinto desapareceste? Preciso de te ver, nem que para isso te faça sofrer, sentir dor. Os meus olhos necessitam de se cruzar com os teus. Não sabes o que é não estar contigo. O não sentir o teu cheiro, a tua voz. O não ouvir a forma como pronunciavas mal certas palavras. Até o modo como me desprezavas me faz falta. Sabes, não me sinto muito apegado à vida. É verdade. Isto de acordar todos os dias irrita-me, incomoda-me. Por vezes, dou por mim a partir candeeiros, a dar pontapés nas portas. Todos os dias penso em ti, minha dama, minha senhorita. Todos os dias choro por estar sozinho, por me ver obrigado a cumprimentar pessoas na rua, por ficar preso no trânsito, por me perder na multidão. Nunca te vejo, Eva. Sabes o que é não te ver? Um rio.


Em pequeno, Adam sonhava com grandes profissões, com grandes ordenados, com grandes mulheres. Não punha a hipótese de vir a sofrer, de não ter trabalho, nem dinheiro. Os pais mimavam-no. Davam-lhe tudo o que pedia. Fizeram mal: não o prepararam para o mal, para as trevas, para o escuro. Não o prepararam para sofrer muito todos os dias. Quando o pai morreu, o rapaz pensou que o mundo lhe cairia em cima. Nunca até aí desconfiara que o ser humano poderia ser dotado de uma grande capacidade de chorar, ao ponto de quase se afogar. Em pequeno, Adam brincava com bonecos de borracha e sonhava com inocentes beijos de mentol. Não conhecia um nome de três letras. Não sabia que nem sempre uma ida implicava um regresso. Olhava para as pétalas das flores e suspirava, porque tinha a certeza de que o futuro lhe reservava momentos perfeitos.

Sessenta e um dias após ter sido abandonado pela princesa dos seus sonhos, Adam pegou numa faca e cortou os pulsos.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Gavetas vazias

De nada adianta procurares o teu homem nas gavetas com meias ou nos copos cheios de gordura: não o encontrarás. Repara que este «não encontrarás» não se aplica apenas ao dia de hoje ou de amanhã. Não voltarás a ver o teu marido. Tens noção do que isso quer dizer? Não voltar a pôr os olhos numa pessoa com a qual se costuma partilhar o tempo e o espaço. Não mais sentir a carne dentro da carne. Passar o resto dos tempos a contemplar fotografias. Tens noção do impacto que pode ter uma simples frase? Não voltarás a estar com o teu marido. Ele desapareceu. Esta é uma palavra errada. O teu marido não desapareceu. Morreu. Como explicar uma morte? Com uma faca. Lembras-te do momento em que ele te disse que ia passear o cão pelas ruas da cidade? Lembras-te? Certamente que sim. Cinco minutos depois de ter pegado o cão pela coleira e de se ter posto na rua, foi interpelado por um sujeito sujo, com cara de vilão, que o assaltou, que o esmurrou, que lhe espetou uma faca na barriga, que o fez esvair-se em sangue. Sabes receber um murro no nariz? Não deve ser como cantar ou ouvir música, deve ser bem mais doloroso. Conheces a sensação de levar uma facada no estômago? Sabes descrever o sabor do sangue na boca? Não procures o teu homem nos cantos escuros da casa: ele não é um fantasma. Poderia ser, reconheça-se. Caminhava como se tivesse asas nos ombros. Os seus gritos eram murmúrios. Claro que te recordas de tudo isto. Eras uma boa esposa.

O tempo passa depressa. Na tua cabeça, foi ontem que te casaste com um príncipe encantado, que te vestiste de noiva e que choraste de alegria por sentires que eras feliz. Nem toda a gente se consegue aperceber de que é feliz, no entanto, naquele dia, tu conseguiste. E foste conseguindo ao longo de vários anos. Bastava que o homem que amavas te beijasse nos lábios para que te derretesses, para que chegasses à conclusão de que, para ser feliz, uma mulher apenas precisava de palavras bonitas e de cafés na cama. Isto foi ontem. A realidade mudou, deixou cair os teus momentos de alegria para dentro de uma caixa de papelão que se guarda na cave. O homem de todos os teus dias morreu. Percebe isto: morreu. Daqui a pouco, um polícia bater-te-á à porta, dizendo que tem péssimas notícias para ti, que fulano tal foi visto morto numa ruela perigosa. Chorarás. Impossível não deixar cair um rio quando se é roubado pela morte. Depois, irás reconhecer o corpo. Durante o caminho, manterás uma pequena esperança de ter havido um engano. «Ele não morreu.» Quando deres de caras com o corpo, verás que aquilo já não é o teu marido, o homem que representava tudo para ti, a tua vida, os teus dias, o teu tempo, o teu espaço. Verás que aquilo, sim, aquilo, já não é um corpo: é uma barriga aberta, um pedaço de víscera no chão, uma boca aberta, uma cara pálida. Um pedaço de lixo.

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quarta-feira, 14 de maio de 2008

Astronauta

Tens seis anos. Queres ser astronauta. Se não fosses tão bem tratado pelos papás, não te imaginarias tão bem colocado no futuro. Talvez sonhasses com ocupações mais modestas, como a de bombeiro ou de polícia. Mas tens seis anos e não precisas de te preocupar com problemas que não te dizem respeito.

Daqui a uns anos, chegarás à conclusão de que, mesmo tendo muito dinheiro nos bolsos, não podes ter tudo. Não serás astronauta. Nem sequer de números perceberás. Serás artista. Artista. Agora, por não saberes o que isso quer dizer, olhas para os escritores, para os escultores e para os pintores com um ar de admiração. Vem-te à cabeça a possibilidade de os livros que o teu pai vai lendo tenham sido escritos por gente que vivia do campo e de puros ideais. É compreensível que assim penses: és novo.

Um dia, terás filhos e também eles chegarão a uma altura na qual quererão ser astronautas. Quando esse momento chegar, andarás na casa dos quarenta. Os teus papás já terão morrido. Não terás dinheiro. Precisarás da ajuda de todos os teus amigos (e inimigos). Acreditarás que o mundo é frio e feio. Escreverás poemas. Tu, que sonhavas com o topo do universo, serás um desgraçado, um homem sem jeito para nada que tenha utilidade económica.

Mas tudo isto acontecerá no futuro. Neste preciso momento, estás a comemorar o teu sexto aniversário. Mordes a vela do bolo e pedes um desejo: «Que seja astronauta.»

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