Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013

Priolando

Vagueio pela Floresta.

Anseio encontrar-te em cada endémica ou nativa.
Vou lançando o meu canto ao vento para que brote dessa semente plântula;
para que cresça azevinho, uva-da-serra, ginja-do-mato ou faia-da-terra.

Vem a chuva e eu resisto.
Saboreio; sinto cada gota na minha face como se fosse a primeira.
Deambulo em cada trilho, cada tempo ou condição.
Há tanto para descobrir.
Ramo acima, ramo abaixo, voo, escondo-me, saltito, procuro.
Procuro.
Não só alimento para a boca se não também para a alma.

Faço o meu ninho para ti, com musgo, queiró, cedro, urze e sargasso.
Sou esse Priolo, pássaro pequeno, perseguido outrora e protegido hoje, pelas leis de homens, mulheres, crianças, jovens, adultos ou idosos; pelas leis daqueles que vêem em mim beleza.
E ainda que o meu canto ecoe apenas nesta Floresta, este meu assobio chega a todos os cantos do mundo.
E neste canto, hoje, sei de uns seres maravilhosos que se juntaram por mim, para mim. Mas na minha Festa, ainda faltas tu.
Vagueio. Deambulo.
É difícil encontrar-te, tu olhos negros, bico grosso, cabeça preta e corpo roliço.
Continuarei a ser Priolo, pássaro pequeno, persistindo, resistindo, assobiando, vagueando e voando sempre mais.
E eis se não quando se ouve: piu, piu…


(Escrito para a Priolo Fest, organizada pela SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves) e Galeria/Bar Arco 8, com apoio da Yuzin, que decorreu a 16 de Fevereiro de 2013, de forma a dar a conhecer a Campanha Internacional de Crowdfunding "Let's Preserve the Azores Bullfinch", lançada pela SPEA com o objectivo de angariar fundos que permitam dar continuidade ao trabalho de preservação do Priolo e da Floresta Laurissilva, desenvolvido pela SPEA e parceiros desde 2003, na ilha de São Miguel. Apoie e divulgue: http://www.indiegogo.com/PreserveAzoresBullfinch/)

Terça-feira, 29 de Janeiro de 2013

Exposição (des)escrita de Alexandra de Pinho

Horário:
2ª a 6ª das 9h00 às 20h00; 
Sábados e Domingos: Visitas por marcação p/ geral@weart.pt ou 234290205/915300488.


"São trabalhos feitos com tecidos, linhas e tinta acrílica sobre a tela. Há muito que a artista plástica Alexandra de Pinho nos habituou a isto: fibras roubando lugar ao traço da pintura, pigmentos têxteis a concorrer com a tinta. Nas suas obras encontram-se palavras cosidas com agulha e fragmentos de roupas que podíamos ter usado ontem mesmo - e aí é quase inevitável sentirmos essas palavras junto ao nosso corpo, pois são palavras enroupadas e a roupa é desde que nascemos a nossa segunda pele perante o mundo. Esta série de trabalhos evoca "um discurso de reflexão que torna possível escrever/ler o corpo e com o corpo", explica Alexandra de Pinho no texto de apresentação da exposição "(des)escrita". A mostra pode ser visitada até 12 de Abril na WeArt, em Aveiro, de segunda a sexta-feira das 10h às 20h."

(P3, Público 21.01.2013)

Terça-feira, 13 de Novembro de 2012

Celina da Piedade no Misty Fest | Centro Cultural de Belém | 16 Nov 2012 | 21H00

Celina da Piedade apresenta disco de estreia "Em Casa" no Misty Fest
Centro Cultural de Belém | 16 de Novembro | 21H00

Nas palavras de outros:
Celina da Piedade tem levado o seu acordeão até aos mais diferentes contextos e agora estrea-se a solo com um disco recheado de surpresas.
"Em Casa", vai ser apresentado no Pequeno Auditório do CCB, juntamente com alguns convidados como, por exemplo, Samuel Úria. No acordeão e ao microfone, Celina é um tesouro que agora urge descobrir no centro do palco.
Algures entre as formas e cores tradicionais, com viagens pelas memórias das danças portuguesas, e um sentir mais moderno e universalista, Celina desenha uma música cheia de alma e de personalidade que em palco ganha com a sua formidável presença.
Quem já a viu em concerto, pisando palcos ao lado de Rodrigo Leão, Mayra Andrade ou Ludovico Einaudi reconhece-lhe o imenso carisma.

Nas minhas palavras:http://evirgula.blogspot.pt/2012/10/assim-te-explico.htm

Não percam!
http://www.misty-fest.com/index.php/pt/

Domingo, 4 de Novembro de 2012

Palavrilhas - Julho 2012



Palavrilhas é uma rúbrica de Carla Veríssimo na Yuzin -  Agenda Cultural de São Miguel.

Design por Isidro Fagundes - YUZIN

Quarta-feira, 3 de Outubro de 2012











Começar por onde?
Pela beleza das capas do álbum? Pelas letras das músicas, pelas composições, pela musicalidade como um todo?
Pela divulgação da música popular / tradicional portuguesa?
Pela presença em palco, e daí como se depreende facilmente, também na vida: com alegria?
Pelo carisma, como se sente e se lê nos mais variados meios de comunicação social, onde agora a Celina brilha ainda mais com as suas flores no cabelo?
Pela Mazurcas que nos fazem enebriar e sentir apaixonados?
Pela boa disposição do Calimero e a Pêra-verde que nos faz dançar?
Ou pelo Assim me explico, que para mim é o que mais me toca cá dentro... mesmo quando tudo não vai mal... ;)
E assegurar que cá dentro vou sentir muitas vezes essa voz e toada, e hei-de traulitar amiúde:
Assim me explico
sem palavras, com sons
...
Possa eu cantar
quando tudo vai mal
e isso me faça acreditar
que é natural
 

Possa eu te dar
sons que nasçam em mim
e que juntos queiramos cantar
Assim...

E pedir mais letras e músicas assim: bonitas, como a Celina das flores no cabelo!

Para quem escreve, sentir que alguém sente através da música aquilo que se sente através da escrita é a expressão máxima de uma emotividade que está dentro de nós, e que nos sai do coração, com toda a alma, pelo que a frase da Celina diz tudo:
Para mim cada música é um tesouro. Todas as escolhas de temas, instrumentos e convidados são feitas com muita emotividade. Faço música com o coração, e com ela o preencho, a música é a minha casa e faço-a com quem tenho partilhado a minha vida..."

A nós, público, resta-nos Explicar-te EM CASA e ao mundo ;)














Fotos por Rita Carmo

Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Casulo de Cetim

Para quem gosta de poesia e contos com um travo de poema, deixo-vos Casulo de Cetim, um blog recentemente inaugurado, um lugar onde se tecem pequenos fragmentos de inspiração e sentir poético:


      das asas do vento
  à folha caída,
      dos braços da árvore rasgada
  ao colo da maresia...

Visitem www.casulodecetim.blogspot.com

Comentem, partilhem, deixem fluír o vosso sentir e complementem com o que a inspiração vos ditar...

Segunda-feira, 9 de Abril de 2012

"Le project de ma vie"


Titulo: O meu projecto de vida
Dimensoes: 140x160cm
Data: 2012
Tecnica utilizada: empastes e acrilico sobre tela

Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

só talvez um lugar feito de gentes-nata-do-saber, do conhecimento, da amizade, partilha, da dedicação, das pequenas boas coisas pequenas, da calma, do sossego, da boa educação, da vida comunitária.
só esse lugar para plantar um filho a crescer.
só esse lugar, sem maldade, sem dependências absurdas, sem comportamentos bizarros.
CAVV|09|06|2010
só este despertar-vos a todos, bloguers deste blog - "a maior sociedade de bloggers em Portugal e do mundo"
despertar 62 menos 1 (que sou eu) magníficos sócios para que plantem aqui os vossos filhos, o vosso lugar, as vossas pequenas boas coisas pequenas, aquilo que faz de nós "a" sociedade!

Quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Marionetas

Que pessoas são aquelas que manipulam as marionetas?
Que fazem tudo o que a mente lhes ditar?
Porquê que as marionetas não ganham vida e soltam-se daquelas amarras e começam a agir sozinhas sem o controlo de uma MÃO? 

Manipulação.

Quarta-feira, 20 de Abril de 2011

Homenagem a Couto Viana

Quinta-feira, 31 de Março de 2011

Lançamento de "Candomblé em português"

(carregar na imagem para ler)

Quinta-feira, 10 de Março de 2011

Cátia Rodrigues

Terça-feira, 8 de Março de 2011

Quando o Fado é Oração


MISSA

“ QUANDO O FADO É ORAÇÃO “

De José Campos e Sousa

DOMINGO 13 DE MARÇO ÁS 19H30

EM

LISBOA

NA IGREJA DO SACRAMENTO AO LARGO DO CARMO

BERNARDO COUTO-GUITARRA PORTUGUESA

FILIPA GALVÃO TELLES-VOZ

JOSÉ CAMPOS E SOUSA-VOZ E GUITARRA CLÁSSICA

Angariação de fundos para as obras na Igreja do Santíssimo Sacramento

Domingo, 6 de Março de 2011

Escrita em dia

não tenho uma caneta para mandar ao ar, e o meu lápis é o de sempre. por isso, não voa, mas cai sobre o papel.
não tenho clientes e o meu corpo não tem que se esforçar. não posso ir apanhar conchinhas na praia, porque sei que continuas aí, mas a minha íris capta os últimos raios do sol de hoje no horizonte de sempre. penetram por entre as nuvens e mergulham no mar sereno.
vejo toda a baía .
apetecia-me fotografar-te neste entardecer.
apetecia-me sorrir para a tua objectiva quando a máquina passasse para as tuas mãos.
apetecia-me esta aventura.
apeteciam-me: gaivotas, e a LIBERDADE delas. (Ser como um desejo/Ser herói de um beijo/Sobre a cidade/Viver numa estrela/E sem dar por ela/Gritar: LiBeRdAdE!!!)
O lápis chama por mim e foi isto que quis (ele) escrever, porque o texto faz-se como ele quer.
Imagino a tua cara. Esse teu sorriso envergonhado...
apetecias-me tu!
Já foste comprar o meu livro?
não tenho uma caneta para mandar ao ar, e o meu lápis é o de sempre. por isso, não voa, mas cai sobre o papel.
antes de vir o breu vejo ainda uns rasgos de vermelho no céu.
ouço as ondas a rebentar. ouço ainda um avião por cima dos raios que penetram por entre as nuvens e mergulham no mar sereno. É mesmo bom voar?
Em que céus já voaste? E em que terras estiveste?
As luzes começam a acender-se no cais.
e hoje cais na minha folha de papel. E hoje és o meu lápis.
apetece-me a tua mão na minha barriga.
apetece-me a tua mão no meu pescoço.
apeteces-me: tu
apetecem-me os teus lábios
E apetece-me escrever tudo isto!

Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

NO TEMPO APROPRIADO

A palavra recorta o tempo do olhar global, conjugando as secções dos equilíbrios atómicos, redimindo o meu desejo, transportando-me a um outro patamar onde vomitarei os meus sentimentos no papel antigo, como se isso pudesse resolver o meu vazio.
O dia do antigamente guardou pedaços de ti no bilhete de uma memória imortal entre os gigas de informação ao fluxo da corrente sanguínea. Gravo-te no DVD do meu coração e fazes a história da minha vida, sem que possas imaginar o quanto gosto de ti!
Missões, viagens ao planeta vermelho, na reconstituição ao ADN da alma, equacionando os momentos da física perdida.
Chegam as tecnologias e divulgas o amor… dentro do iPad, algo incontornável e o sonho ascende a uma nova dimensão. Sempre pensei em ti, de um modo diferente e navego pelos prazeres urbanos, invento nomes, mas não deixo de dizer-te o que sinto! Escrevo-te e aceitas sem saber que sou eu; transformo-me assim de um modo que te ultrapassa.
Todos os dias novas experiências… sensores da percepção. A nova era é inaugurada todos os dias, entre os prazeres da ocasião! O desejo atómico conduz-me para uma outra perspectiva, nas estradas da condução do amor. Esse sorriso da alegria funde-nos pela cumplicidade… alinho-te entre os felinos e o silêncio das aves, numa cristalografia espirituosa, ainda que me tenhas bloqueado no facebook e noutras redes sociais! Sei que estás lá… sei isso.
A vida íntima das palavras guarda-nos para sempre, na nossa galáxia tão diferente, à aspiração de uma nova via láctea. Pensamentos não-lineares sobrepõem-se, posicionam ritmos alucinantes, depois de uma micro pausa, ainda que estridente para o orgasmo dos sentidos intocáveis, ao teu (meu) sabor… passo ao silêncio e deixo que o corpo responda no tempo apropriado.

Porto, 02 de Janeiro de 2011 – 17:33h
Jorge Ferro Rosa
Escrito no café “A Barcarola”

Algumas coisas

Arte de sucata, mostra Dom Quixote, Brasil, São Paulo


Uma estátua de 4 metros de altura com personagens do livro Dom Quixote foi instalada nesta semana na estação Sacomã do metrô, na zona sul de São Paulo. O protagonista foi montado com 2.000 latas de refrigerante pelo artista Silvio Galvão.

Sancho Pança, que tem 2,5 metros de altura, foi feito com tampinhas de garrafa de cerveja e câmaras de bicicleta.

O cavalo Rocinante também é de material reciclável. Galvão usou nessa parte da obra sucata de ferro, plásticos, pentes, vassouras, teclados de computador e máquinas de passar.

Domingo, 2 de Janeiro de 2011

BREVIDADE

A tua sensibilidade perdida,
O teu amor no cósmos... perfeito
Dissipa-se a ansiedade da vida
Porque tudo é uma breve corrida
Porque afinal, fica o lado imortal
Não entendo o que significa afinal
O forte pulsar deste peito.

Corre neste novo ano outra postura...
Não sei se engano
Quem sabe uma aventura.

Porto, 02 de Janeiro de 2011 - 19:51h
Jorge Ferro Rosa

Sábado, 1 de Janeiro de 2011

A Morte do Cisne, A Morte da Arte

[por Pedro Gabriel - www.lituraterre.wordpress.com]

Le Carnaval des Animaux é uma peça de Camille Saint-Saëns datada do já distante 1886. Sua beleza que desconhece o envelhecimento a torna atualíssima e capaz de nos comover quase 150 anos depois de passado o contexto de sua produção. Talvez por não ter sido obra datada que, como o que se produz hoje sob o nome de arte, apenas atende a demandas transitórias a fim de angariar fama (moeda do nosso tempo) e espaço no show business (sempre mais business do que show). Arte não é o que se "faz para", não é o que o artista opera e sim o que se opera no artista tornado mero instrumento (tanto mais transparente quanto mais sublime a arte) e Le Carnaval des Animaux é exemplo dos maiores de uma certa zona de involuntariedade do artista em relação à obra, aqui expressa na vergonha que Camille Saint-Saëns tinha de sua composição. Ao finalizar sua obra notou aterrado que a mesma possuía um tom indisfarçavelmente lúdico e, considerando-a perigosa para sua reputação de homem sério, proibiu sua execução até sua morte (quando a peça veio integralmente à tona em sua magestosa simplicidade).



Suplico ao meu leitor que não proceda uma leitura daltônica e que distinga (tão bem quanto puder) as nuances intermediárias das cores que lanço nessa tela: não afirmo aqui uma concepção metafísica da arte como uma instância divina e distinta do homem que aparece quando este, renunciando aos ruídos da vida, tranca-se em um estúdio e pode simplesmente transcrever o que, já pronto, paira sobre sua cabeça. Não é disso que se trata. Entre esses dois opostos há uma confusão entre as categorias de suficiente e necessário. Evidentemente a história de vida do artista é necessária: sem a crueldade com a qual a vida nos lesa não há arte. Entretanto a história e a fronteira contextual que circula o artista não são suficientes (embora, como já dito, é algo necessário). O que transcende o necessário e aponta para a suficiência é o que está na delicada e breve zona do que não pode não ser produzido: aí está a arte. Numa bela imagem a qual cito de modo irresponsavelmente breve, Heidegger (entre um e outro passeio pela Floresta Negra) diz que o que faz a jarricidade da jarra é sua vazão e que o vazo assim o é como borda do vazio que contém.

O Carnaval dos Animais cumpre todos esses requisitos para ser considerada uma verdadeira obra de arte e, mais que todos eles, envelheceu muito bem. Resistiu à suprema prova do tempo demonstrando densidade e que tal peça comporta um dito. Mais do que isso, tornou-se matéria de mais produções que não seja o mero falatório descompromissado com o ser: as tais fofocas geradas pelo rame-rame que se tornou a crítica artística atual. Avançando para esferas interiores de si própria, a obra cresce pra fora (tornando-se imortal) e internamente (gerando crias e multiplicando-se). É nesse movimento de expansão que um de seus movimentos (Le Cygne) é destacado por Michel Fokine e transformado, ele próprio (o movimento, não Fokine) em uma peça autônoma: uma das mais belas coreografias de Ballet de que se têm notícia.



Fokine, no ano de 1905, teve o privilégio de trabalhar esta composição ao lado de Anna Pávlova, uma das maiores dançarinas russas nascida em um subúrbio miserável de San Peterburgo. Eram vistos juntos, absortos na sua soberba tarefa, nos parques e jardins admirando cisnes e lendo, juntos, a poesia de Alfred Tennyson. O resultado de todo esse investimento é uma explosão de uma beleza interior indescritível: uma das peças mais belas já apreciada pelos sentidos humanos. Com pouquíssimos minutos de duração, “A Morte do Cisne” (nome que recebeu o formato final) ilustra os últimos momentos de um cisne ferido. Com uma graça quase impossível de ser executada pela anatomia humana, o ballet mostra um suave entregar-se ao seio do esquecimento: uma morte sem resistências, sem questionamentos inúteis, sem anseio de continuidade (dignidade quase impossível para humanos). A morte aqui é apresentada como evento da vida e se é verdade o que diz Carner, que toda arte é arte por nos ensinar a morrer, encontramos mais um atributo presente nesta peça que a torna imortal. A maioria de nós vive esquecidos da morte: como se ela não fosse conosco. A boa arte no entanto nos apresenta o verso: a vida entendida como perda e não como um somatório de coisas que devem ficar eternizando essa composição que um dia respondeu por um nome próprio e que como as demais coisas no universo deve passar.


Esquecidos da morte os homens deslembram-se da arte que morre em silêncio sem que a maioria se dê por isso. Em seu túmulo, as instalações e performances dançam um ritmo fugidio feito de som e fúria (desses nos entram violentamente pela janela e por meio das tantas fontes de ruído atuais) que em breve dará lugar a outra expressão igualmente irrelevante. A arte é um cisne ferido de morte que em sua dignidade não se recusa a passar.

Enquanto escrevo tenho o grato prazer de ouvir um vizinho em algum lugar da rua aprendendo violino. Com alguma dificuldade ele maneja o arco ensaiando o Canon em D de Pachelbel. Talvez haja alguma esperança afinal.


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Imagens usadas no Post:

01) Natureza Morta com Jarro e Maçãs, tela de Pablo Picasso
02) Anna Pavlova executando sua obra prima
03) Martin Heidegger em um de seus passeios matinais pela Floresta Negra

Vídeos Indicados:

01) http://www.youtube.com/watch?v=TCMvMEzQ6y - A Maya Mikhailovna Plisetskaia, na minha leiga opinião a que melhor exerceu a mímese corporal que o ballet proporciona. Ela inseriu algumas variações no desenho original de Anna Pavlova.

02) http://www.youtube.com/watch?v=YW01o9x0Alc - Coreografia original executada pela própria Pavlova para cotejamento.

Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

Lançamento de "Finis Mundi"


Até final de Dezembro chega às livrarias uma nova publicação, a revista “Finis Mundi” (FM), que reúne na sua lista de colaboradores alguns dos pensadores, académicos e autores mais notáveis do País. A revista surge no rescaldo do quase desaparecimento de revistas de pensamento em Portugal, com o encerramento das “Atlântico” e “Magazine Grande Informação” e ainda a aparente paralisação da “Futuro Presente” (digo quase porque, felizmente, existe também a “Nova Águia”, publicação semestral cujo 6º número já se encontra nas livrarias), entenderam os editores que fazia falta, urgia até, o surgimento de uma revista como esta que colmatasse a actual ausência de publicações do género, pensada desde raiz num formato para-académico, não para os quiosques onde se amontoam revistas de banalidades mas para as livrarias que são, hoje como sempre, o último bastião de qualquer cultura.

Objecto

Como é óbvio, ninguém cria uma revista apenas porque sim, a FM sendo uma revista de pensamento e cultura portuguesa, privilegia textos referentes à nossa história, regimes, lendas, tradições, mitologia, artes (monumentos, escultura, pintura, música, arquitectura, literatura, cinema, banda desenhada, teatro, poesia), biografias de personalidades (referentes às artes anteriormente mencionadas), crítica (de discos, livros, álbuns de banda desenhada e publicações terceiras), geopolítica e filosofia, resumindo: a FM tem por objecto central Portugal!

Não é inocente o título que escolhemos para a revista, entendemos que Portugal (e talvez até todo o Ocidente, mas o nosso foco central é Portugal) se encontra num final se ciclo, numa nova Era que está somente a começar na qual os pais começam a perceber que é quase certo que os seus filhos tenham uma vida pior que a sua, um período de transição, o fim do “nosso” mundo tal qual o conhecemos… assim sendo, há que recordar o Portugal que existiu, o Portugal que ainda existe e o Portugal que pode vir a existir.

Selecção Nacional

Tende em mente este propósito, convidámos a participar na revista uma trintena de personalidades, muitas delas já bem conhecidas do grande público e outras que futuramente, temos a certeza, o serão, há que referir a transversalidade deste projecto que, estamos em crer, muito colaborou para que, neste primeiro número, contássemos com a participação de trinta escribas nacionais, acederam ainda em ser entrevistados duas figuras de proa da nova cultura portuguesa, Manuel Fúria do grupo de ‘novo roque’ Os Golpes que tantas salas tem enchido por todo o país desde o lançamento do álbum de estreia, “Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco”, em 2009 e Filipe Faria, que alguns apodam de “Tolkien português”, autor da septologia “As Crónicas de Allaryia”.

Neste primeiro número colaboram António Marques Bessa, Vítor Luís Rodrigues e Brandão Ferreira (todos familiares aos leitores do “Diabo”), Sónia Sebastião (autora de “A Democracia Directa Ainda Interessa?”), Alexandre Franco de Sá (“O Poder pelo Poder: ficção e ordem no combate de Carl Schmitt em torno do poder”), Henrique Salles da Fonseca, Joaquim Reis, Francisco G. de Amorim, Mendo Castro Henriques (cujas obras mais recentes são “1910 a Duas Vozes” e “Vencer ou Morrer”), Manuel Brás, Basílio Martins (revista “Premiere”), Renato Epifânio (director da “Nova Águia” e autor, entre outras, de “A Via Lusófona” e “Agostinho da Silva e o Pensamento Luso-Brasileiro”), Vítor Martins, Rainer Daehnhardt (“Homens, Espadas e Tomates”, “Portugal Cristianíssimo”, etc.), João Gomes, Carlos Melo Bento (“História dos Açores”, em dois volumes), Filipe Miguel Dias Cardoso, Júlio Mendes Rodrigo (“Summa Techno(i)logicae”), José Almeida (“Newsletter da Fundação António Quadros”), Eduardo Amarante (“Mitos e Lugares Mágicos de Portugal”, “Portugal, a Missão que Falta Cumprir” em parceria com Rainer Daehnhardt, etc.), Rui Baptista (crítico do “Bela Lugosi is Dead”), Constança Araújo (revista “Elegy”), Roberto Mendes (jornal “Conto Fantástico” e revista “Dagon”), Luís Couto (Teatro Grotesco e The Joy of Nature), João Franco, Sandra Balão (“A Fórmula do Poder”) e Mário Casa Nova Martins (revista “Plátano”).

Steering Committee

A FM possui, já neste primeiro número, um Conselho Consultivo Inicial, um verdadeiro “steering committe” de “referees” que velarão pela manutenção da qualidade dos conteúdos da mesma. Inicial, porque contamos aumentar os nossos “referees” de número para número, este Conselho Consultivo Inicial conta já com o Doutor António Marques Bessa, UTL-ISCSP-UAL; a Doutora Sónia Margarida Sebastião, UTL-ISCSP, a Doutora Sandra Rodrigues Balão, UTL-ISCSP e o Doutor Miguel Varela, ISNP-GL.

Internacionais

A FM conta também com uma bem nutrida equipa de colaboradores internacionais encarregues, essencialmente, de uma análise geopolítica global, entre estes destacamos o filósofo argentino Alberto Buela (Universidade de Buenos Aires, La Sorbonne – Paris, vice-presidente do Instituto Sul Americano de Estudos Estratégicos), o filósofo francês Alain de Benoist, que estará em Portugal para o lançamento da revista, a 9 de Dezembro, no Palácio da Independência, autor, entre outros, do “Nova Direita, Nova Cultura”, o pilotólogo Aleksandr Dugin (Centro de Estudos Conservadores da Universidade Estatal de Moscovo, ex-conselheiro do presidente da Duma e presidente do Centro de Análise Geopolítica), James Petras (Universidade de Binghamton, Nova Iorque, e Saint Mary’s, Canadá, ex-conselheiro de Estado dos governos da Grécia, da Venezuela e do Chile, revista “Foreign Policy”), Matthias Chang (ex-Secretário de Estado do primeiro-ministro da Malásia, Mahathir Mohamad), Paul Craig Roberts (ex-editor do “Wall Street Journal” e da “Business Week”, ex-secretário adjunto do Tesouro no governo de Ronald Reagan), Leonid Savin (Un. Estatal de Moscovo, editor da revista “Geopolítica” e colaborador do “Journal of Internacional Affairs”) e Tiberio Graziani (director da “Eurásia”, revista académica de estudos geopolíticos e da colecção Cadernos de Geopolítica, Itália).

Trimestralmente nas livrarias, “Finis Mundi”, antes que Portugal acabe… dia 9 de Dezembro, na SHIP, António Marques Bessa e Alain de Benoist falam-nos exactamente do fim do “nosso” mundo, um evento a não perder.

http://revistafinismundi.blogspot.com

O Diabo, Jornal Independente
30 de Novembro, 2010.

Domingo, 28 de Novembro de 2010

A Caracóis

A minha mulher tem um sinal na barriga. 4 dedos abaixo do umbigo, e um pouco para a direita. Na perspectiva dela.
Tem um pêlo um dedo abaixo do umbigo. No mesmo alinhamento. Nem mais para a direita, nem mais para a esquerda.
Tem um outro sinal castanho na face esquerda. É bonito. Não é daqueles pequeninos, sem grande piada, mas também não é grande, daqueles exagerados. Tem um tamanho ideal. Tem mais uns quantos a rodeá-lo.
Conheço os sinais todos do corpo dela. Os sinais. Os sorrisos. Os olhares.
Tem 3 sinais na virilha direita. Um deles apareceu há uns dias. Não me lembro de o ver ali…
Tem um sinal carnudo, mas de tamanho médio, ao cimo das costas. Às vezes acho que o devia mostrar ao médico.
Tem um sorriso quando gosta realmente de alguma coisa. Outro, mais leve, a tentar mostrar que gosta, …
Tem um olhar quando tem medo, um quando está surpreendida, outro de incrédula.
A minha mulher tem cabelos louros cheios de caracóis.
Tem olhos verdes.
Tem sinais no olho esquerdo.
Tem a marca no pulso de quando se queimou no ferro de engomar.
Tem mamilos escuros, a contrastar com a sua pele branca.
Tem um olhar quando tem prazer. Nem é um olhar Às vezes É um sorriso.
Um sinal. E o meu corpo no dela.

Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

Sessão de lançamento do livro "Já não se fazem Homens como antigamente





Convite para a sessão de lançamento do livro "Já não se fazem Homens como antigamente"...


Livraria Leitura Books & Living-Shopping Cidade do Porto-PORTO dia 27 de Novembro às 16h .Apareçam:)
http://www.esferadocaos.pt/newsletter/newsletter_edc_20101103.html

Os autores:

Daniela Pereira
João Pedro Duarte
Miguel Almeida
Pedro Miguel Rocha

Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010

(Para António Feio)

17.10.10:
Bem António, saíste de São Miguel (estiveste em Ponta Delgada – “porque tão depressa nos parece que estamos na Suíça, como na América Latina, como numa cidade colonial africana” ;) já te levei para a Graciosa, para a Terceira, mais depressa ainda voámos para o Faial, de barco atravessámos para o Pico (a maré não tava baixa o suficiente para fazer escala nos ilhéus!), novamente de barco para São Jorge, voltámos tudo pra trás, às mijinhas, ora pára no Pico, ora dorme, ora levanta, ora apanha outra vez o barco, e Faial novamente.
Ainda há pouco, fomos contar estorninhos por essa ilha fora. Claro que dessa bicheza, nem vê-la!! Mas o almoço até foi bom, em Pedro Miguel (ainda tou pra descobrir se o homem foi alguém importante nesta rotunda gigante, com mar à volta, para terem dado esse nome aqui ao sítio!! Já imaginaste uma Freguesia aí numa ilha paradisíaca, com o teu nome?! António Feio! Isso é que era! Um homem importante! E já estou mesmo a ver, o pessoal agarrado à placa, dentes arreganhados, tanto um, como o outro! ;), e a máquina a disparar fotos!), Bem, mas ia eu a dizer, o almoço até foi bom, quase uma lágrima a escapar-me com a tua Carta de Despedida, mas lá me aguentei antes que o senhor do café notasse! Claro que com os textos do Mini-Mini Diário, quis lá saber, e foi só rir!!!
Já te levei pra casa-de-banho, já respingou água pra cima de ti, enquanto penteava o cabelo, já te achei parecido com o rapaz da loja do aeroporto da Terceira, onde fui comprar o meu primeiro relógio da Fossil!, Agora é só esperar que o rapaz acerte o compasso e veja bem os meus ponteiros!!
Já escrevi tantos textos, muitos dos quais enveianenada pelo meu querido Lobo Antunes, e agora dou por mim, a escrever à Moda do Feio!, só porque com 31 anos, estou a conhecer um homem de 55, com quem me cruzei uma noite no Porto, e me lembro de pensar: Olha o António Feio. Epá, é mesmo alto! (pudera!, eu no meu metro e meio, toda a gente é alta!) E segui, e tu seguiste, e nada. Ai, se fosse hoje! Eu lá deixava escapar um homem interessante, inteligente, maduro, com um sentido de humor espectacular, e único, como tu?! Pedia-te logo que me fizesses um filho!! (Bem, teria era de conseguir “levar-te” na conversa, durante, pelo menos, um ano.... e nisto de paixões, também ando cá com uma colecção, que vai lá vai... e não tem ido a lado algum! Acho que a minha média vai pra i em 1,4... !).
E agora que te acabei de ler, parece que não sei bem o que fazer a seguir... ou não sabia até vir sentar-me nesta cama, contigo ao lado, a sorrir pra mim, claro, com esse olhar profundo, cristalino (De Pura Lino ;) (e agora a senhora do hotel bateu-me à porta, e tu caíste-me (e não caisteme!!) ao chão! Ó homem, tu anda cá, que na caminha é que estamos bem! ;)
Vá, agora deixem ouvir A Banda!
E até vou parar de escrever porque a Conversa sem ti, está a ficar uma Verdadeira Treta.
Um bom resto de continuação ;)

Domingo, 31 de Outubro de 2010

Varatojo - Portefólio 2010

Sábado, 30 de Outubro de 2010

Varatojo - Portefólio 2010

Varatojo - Portefólio 2010

Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010

Sad Cello with Piano Accompaniment

Pinturas de Rassouli ao som magnífico de Sad Cello! Lindo...

Passatempo na página do facebook do livro Já não se fazem Homens como antigamente




Bom dia :)



O sapinho encantado dá inicio ao 1º passatempo da semana...

Neste 1º passatempo teremos um exemplar do livro para oferecer através de um sorteio entre todos os participantes que responderem correctamente no mural da página às seguintes questões:



1- Qual foi a data de lançamento do book trailer da obra Já não se fazem Homens como antigamente no blog do livro?



2- Em que colecção inserida no catálogo da Editora Esfera do Caos podes encontrar o livro Já não se fazem Homens como antigamente?



O passatempo irá decorrer a partir deste momento e até Domingo dia 31 até à meia noite.



Boa sorte!!!



Vamos lançar um conjunto de passatempos em que os vencedores serão premiados com um exemplar autografado. Estes passatempos irão decorrer de dia 27 de Outubro a dia 14 de Novembro. Convidem os vossos amigos a juntarem-se a nós na página

http://www.facebook.com/pages/Livro-Ja-nao-se-fazem-Homens-como-antigamente/153081791398468



Pista: As respostas podem ser encontradas no blog oficial do livro e no catálogo da Editora Esfera do Caos... ;)


Autores da obra: Daniela Pereira, João Pedro Duarte, Pedro Miguel Rocha e Miguel Almeida

Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010

POESIA DE CHOQUE (16)

Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010

O poder terapeutico da expressão pela arte...


Permear os caminhos da arte é traçar um equilíbrio entre consciente-inconsciente, matrizando as potencialidades e as limitações do Ser.
- Yasmin

Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010

Gostava de encontrar um lugar para ti
neste meu armario de absurdidades,
viver como um pato vive,
flutuar em marès feitas de aperitivos,
descalçar-me e escrever sobre a relva
e as tuas pernas,
olhar-me ao espelho numa poça qualquer
e lidar com a solidao
como uma estàtua lida com uma comichao,
ser bòia,
sem precisar de olhar para ninguem que passa na rua.

Gostava de encontrar um lugar para mim
nessa tua gaveta de reflexao descontraida,
guiando mundos com a ponta da ìris
no palco dos dentes
com deuses a fazer de clientes,
na mira da fisga da curiosidade
o barco bate asas
e adormece no chao
despido
durante a tarde
com as portas e as janelas todas abertas
para fazer corrente de lar,
como uma conversa que começou
como a imprevisibilidade de tropeçar
numa avioneta subterranea,
um citrino, um lìrio.

Gostava de construir algo imortal sobre nòs,
ilegìvel, intocàvel, inviolàvel,
numa cidade de reflexos
feita sò de corpos sem interesse
que deslizem pela musica do seu cerebro,
sem nunca pensarem,
sem jamais se compararem;
uns
entre
todos.

2010
WWW.MOVIMENTO-XEXE.BLOGSPOT.COM

Sábado, 4 de Setembro de 2010

O TEU SORRISO PARECIA FECHADO

O teu sorriso parecia fechado…
A verdade esculpida, silenciosa
Todas as palavras perdiam-se no nada
O olhar, fundo, desfocado…
Levou-me para uma mensagem agrilhoada.

Jorge Ferro Rosa
Escrito no Centro Comercial, Grand Plaza
Tavira, 04 de Setembro de 2010 – 11:03h
PS. Dedicado à minha grande amiga Isabel Carmo, com a amizade eterna.

PS2 – Após escrever esta estrofe, soube que a Isabel Carmo partiu às 11:00h. Fiquei sem palavras, contudo, algo parece que foi comunicado (primeiro toque – inspiração). Que a sua alma descanse em paz, circula no espaço à velocidade do pensamento, em luz, livre, desprendida de toda a matéria, do resto nada mais sei. Até breve Isabel! Somos eternamente… 13:32h
Jorge Ferro Rosa

Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010

II

O meu apetite é fugaz, tem pressas, tem fome.
Quer comer rápido e sair. E seguir.
Não consegue esperar. Não se importa se a cebola fica crua ou se a carne fica um pouco queimada.
O meu romance não tem lume brando; tem uma chama ardente e fugaz, de um fósforo que acende rápido e depressa se apaga.
Mas o meu amor quer aprender a servir um prato quente.
Quer degustar...
E o meu romance tenta.
Ao lume, está já um tacho de água quente e umas pedrinhas de sal.
q.b.

Domingo, 8 de Agosto de 2010

Quanto tempo dura o amor?


A raiz filológica da palavra amor guarda alguns mistérios. Palavra que tem sua origem no latim arcaico (como a maior parte do léxico de nosso vernáculo, bem como suas regras e sintaxes) praticado na Roma antiga, resume em si uma enorme gama de sentidos. Pode significar desde uma leve afeição até a mais cega paixão comportando, na história de seu uso, todos os tônus afetivos intermediários a esses dois extremos, tais como a compaixão, a misericórdia, o apetite sexual, etc.

Mais prudentes que os romanos, os gregos reservavam palavras distintas para afetos distintos. Daí surgiram eros, ágape e filia para as principais modalidades de amor que variava quanto ao objeto dos investimentos afetivos, sendo eles, respectivamente: a contraparte sexual (eros), o semelhante (ágape), o familiar (filia). Embora os romanos possuíssem outras palavras para o amor (dilectio, charitas, etc), estas eram quase sinônimas, de modo que para estes o amor permanecia soberano em seu mistério e em suas contradições.

Fernando Pessoa, poeta Maior, pôs a questão do amor nos seguintes termos: “Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?”. Salienta aí a suprema gratuidade do amor que não guarda em si MOTIVOS para sua ocorrência. Não se ama por uma razão específica. Padre Antônio Vieira, um dos maiores oradores da história luso-brasileira, disse em um de seus discursos que “quem tem um porquê para o seu amor não é um amante, mas um pagador de favores; e quem ama ‘para’ um bem além do amor não é outra coisa senão interesseiro”. Ainda sobre a gratuidade e a não inscrição do amor nos padrões da lógica, Drummond refuta um famoso adágio popular escrevendo “As Sem Razões do Amor” afirmando que amor NÃO se paga (nem mesmo com amor). Amor: fruto que se semeia no vento, foge a qualquer regulamento e se impõe como irmão do ódio (como diz o psicanalista Jacques Lacan) e primo da morte (como afirma Drummond no mesmo poema).

Sigmund Freud, em sua postura estoica diante da existência, antecipou todos esses poetas ao afirmar o impossível do Amor bem sucedido salientando os aspectos incontornáveis da solidão humana (que se atualiza na solidão cotidiana do dormir, do acordar e se cristalizará na solidão última do morrer). Jacques Lacan, continuador de Freud e um dos mais argutos observadores atentos da condição humana, elegeu o Amor como uma das três principais paixões do ser: ao lado da Ignorância e do Ódio, o Amor figuraria como uma das questões cruciais da existência.

Confundido com o mero “habitar com” as pessoas costumam responder aos apelos do amor negando o que este tem de impossível elegendo para si mitos tal como é expresso popularmente nos ditados: “a tampa da panela”, “a metade da laranja”, etc, considerando haver no mundo um duplo de si próprio e que, ao ser detectado no meio de tanta gente que vem e vai, aniquilaria por sua simples presença os impasses do amor. Influenciados pela herança platônica do amor entendido como um reencontro de partes outrora separadas, os códigos sociais de uma união “até que a morte os separe” reforça essa ideia de que o amor deve durar na saúde e na doença, na felicidade e na infelicidade, na agressividade, no flagelo do outro, na crueldade, fazendo com que os casais (num misto de obediência aos códigos sociais vigentes e das sobras que os conflitos geradores da personalidade têm de influenciadores no presente) esperem situações críticas (ocorrências de crimes e às vezes até mesmo a iminência de morte) para oficializar um desenlace.

Eis o principal engano do amor: considerá-lo infinito e maior que a vida. Nessa aposta os amantes se fazem surdos aos sinais de que a vida necessita de uma reinvenção e da tomada de novos rumos para que ambas as partes possam experienciar o cotidiano sem o sentimento de que andam pela vida carregando bolas de aço (como os grilhões arrastados penosamente pelos prisioneiros das masmorras).

A complexa teia de afetos conflituosamente inconscientes que marcam a subjetivação de toda pessoa sempre deixam restos que, no dizer de Freud, retornam em forma de repetição e na chamada Pulsão de Morte. Esses vestígios da infância que assombram todo adulto são os principais responsáveis pela falta de liberdade em reconhecer que se a vida (que é maior que o amor, pois o amor ocorre dentro desta como uma de suas experiências possíveis) acaba, o amor que é uma de suas experiências possíveis não precisa ser necessariamente eterno e imortal (posto que é chama, para citar outro poeta). Ser “infinito enquanto dure” o encanto, o respeito e a capacidade de convivência sem conflito dariam por si a medida exata da beleza e da plenitude do Amor.

Evidentemente não excluo a possibilidade de que esse tempo do Amor possa ter a duração de uma existência, atando-a de ponta a ponta, ou mesmo transcendendo-a. Romântico que sou, busco uma companhia para toda a vida. Mas reconheço que um amor duradouro somente pode resultar de um conjunto de afinidades profundas entre os dois amantes e de uma disposição mútua para essa permanência irrestrita. Minha experiência demonstra que a tal “delícia de sentir as coisas mais simples” como fala Manuel Bandeira só pode advir de um certo costume, oriundo da convivência habitual e persistente, entre os amantes.

O exercício de se observar criticamente o cotidiano demonstrará exatamente o contrário, que as pessoas entendem a companhia com o outro (flerte, namoro ou casamento) como experiência necessária independentemente de haverem ou não afinidades. Como se qualquer companhia (mesmo aquela que transforma o cotidiano num inferno) fosse alternativa melhor que uma velhice solitária. E nisso vão protagonizando uma história de amor que só muito tardiamente é reconhecida como fracassada. Por essas imbricadas razões que transitam livres nas ruas de sombras em que se constitui o coração humano (uma obscura cidade de surpresas), as pessoas vão enganando-se imaginando que tudo está bem e o amor é algo possível sem maiores cuidados. Como diz um amigo: cultivam o amor como deus cultiva batata.

Que meus leitores (se é que tenho algum) não entendam que postulo aqui a inexistência do amor. A vida está cheia de suas demonstrações. O que postulo é que ele seja uma experiência passageira e fugaz sobretudo para quem o encara como um jogo já ganho. O amor como “o que se aprende no limite” e como “o ganho não previsto” (duas belas imagens drummondianas) revelam o amor como uma causa perdida. Para os que assim encaram, os que sabem dos melindres dessa experiência, das diferenças incontornáveis entre homem e mulher e da natureza vacilante do amor (que na mitologia é filho de poros e penia, fartura e demanda) ele pode trazer uma fagulha de eternidade.

Tom Jobim e Vinícius de Moraes arruinaram minha vida. Fizeram de mim um românico esperançoso crédulo no amor verdadeiro que um dia vem (se é que vem) e para ele sigo o conselho drummondiano de me guardar todo e inteiro. Entretanto entendo que a vivência plena desse sentimento que nos torna magníficos está diretamente relacionada à capacidade de se suportar a si mesmo. Eu ousaria dizer que quem não está pronto para a solidão não estará pronto para o “viver com”. O modo sórdido e traidor como as pessoas vivenciam seu rame-rame cotidiano a que chamam de amor talvez clame pelo contrário, mas ouso aqui também afirmar algo ainda mais subversivo para ouvidos calejados de descrença: ouso pensar que duas pessoas que possuam afinidades profundas e estejam cientes dos zigue-zagues da condição humana (e nela a experiência do amor) podem (se assim desejarem) construir uma concha de amor e recolhimento onde é possível a fruição de todo o encanto prometido pelos mitos, pelas canções e pelos poetas mais lúcidos. Eterno enquanto dure. Duradouro para sempre na gratuidade com que se propõe a saciar a nossa sede infinita.

(por Pedro Gabriel - pedro.gabriel@ymail.com - http://lituraterre.wordpress.com)

Domingo, 18 de Julho de 2010

Manter-se bem, é uma ARTE!


Desde 2008 o Projeto Zen, (evento anual) do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da USP, formado por profissionais voluntários oferecem à população (durante todo o dia),diferentes terapias, orientais ou não, voltadas para o bem-estar, relaxamento e auto-estima.
“Essas terapias são pouco divulgadas. O objetivo do projeto é fazer com que as pessoas que normalmente não teriam contato com elas possam conhecê-las e percebam que podem se beneficiar delas também”, explica Osvaldo Hakio Takeda, coordenador do projeto.
Na sua segunda edição, em novembro de 2009, o projeto ofereceu aos participantes terapias complementares como Shiatsu, Integração Craniossacral, Meditação dinâmica, avaliação do estresse por Biofeedback, Tai Chi Chuan e dança de salão.

Este ano o Projeto Zen, em sua terceira edição, vem como “ZEN IPq”, trazendo novidades nas terapias integrativas e mais um dia de jornada. O evento acontecerá nos dias 17 e 18 de Setembro.

Quinta-feira, 24 de Junho de 2010

HOMENAGEM A JOSÉ SARAMAGO

(dedicado a José Saramago)

Bateram as horas, senti as forças tomarem-me como que se algo dentro de mim se fosse separar, assim de um modo violento! Um poema possível, uma outra mensagem que as entrelinhas guardavam entre mundos possíveis de palavras em construção ou talvez desconstrução. Os sons parecem inchar e os segmentos de recta quedarem-se sem que exista mais aquele atrevimento do ensejo… os caminhos conduziram-me aos pântanos da interrogação e das formas verbais com que escrevi o teu nome entre tantos nomes. Todos os nomes! Escrevi, fechei o caderno, mas senti que devia dizer-te muito mais ante tudo o que noutros tempos tivera escrito e que nunca partilhei.
As gotas do coração são manhosas, a angústia existencial corre, deixa-me tonto, vazio e sinto algo que me transporta para um outro patamar, muito esquisito. Relembro amigos e conhecidos, alguns morreram, outros ainda estão por cá! Sinto saudades e a dor atenua quando circulam as memórias… leio livros, desfolho recordações e nada passa de momentos. Morreste! Morreste-me diria o José Luís Peixoto! Recordo-te. Penso-te. Sinto o teu olhar, ouço a tua voz e toda a verdade corre-me pelas veias, o sangue do sentido… eras aquilo que eras, não podias ser outra coisa, a não ser um ser, uma verdade resistente!
Eras o homem que guardava aquilo que sentia de modo único, tu dizias por mim aquilo que silenciei… os outros ouviam, incomodavam-se mas, preferiam viver na ignorância. Agora digo, e continuarei a dizer. Desculpa-me, não tenho que partilhar contigo isto. Contigo, com alguém ou com ninguém. Esses outros preferiam… sentiam ódio por ti, por não conseguirem dizer o que tu dizias. Sempre disseste a verdade! Eras o que eras. Eras isso mesmo. Um homem, um humano, um talento, um racional, um verdadeiro… nada de hipocrisias, nada de faz-de-conta! Defendias a realidade e não a mentira ou mundos de outras palavras. Eras assim, assim como sempre achei que a realidade fazia e faz sentido. Que dizer depois? Que fazer? Nada. Político, poeta, escritor, Filósofo. Um homem de grande luz. O povo esteve contigo, ainda continua contigo mesmo depois de teres partido! José Saramago! Isso. Estamos todos contigo para sempre, ainda que as cinzas sem a poeira do cosmos!
Como me lembro de ti! Lembro… lembro-me desde os tempos de Faculdade, desde o tempo em que te lia com alguns amigos que já partiram – o Luís Caldeira! Outros… entre os meus amigos de Faculdade, figura o José Luís Peixoto, sim, aquele jovem que tem um pedaço de ti. Naquele tempo eram os poemas… Tudo é em determinado momento da vida! Não sei porque ao lembrar-me de ti me lembro também dele. Estranho! Li os dois escritores e os dois tocaram-me de modo diferente. É tão estranho isto, muito estranho mesmo. Mas deixa estar.
Palavras de homenagem, palavras que ninguém as pode apagar, nem com a cegueira, nem com os evangelhos, muito menos com todos os ensaios… nada. És imortal. Qual terra de pecado, apenas são as tuas palavras deste e do outro mundo, são nesta viagem apontamentos que ficam em cadernos, dos dias do sim e do não, seja de Caim a Abel! Seja o que possa ser, tu morreste-me como diria o José Luís Peixoto ou como escrevi naquele tempo no caderno da minha alma que agora ficou reservado a um outro período, a um outro cortejo! Não sei porque estou meio estranho nesta noite, apenas estou e o tempo continua a passar...
Chama-me do que quiseres, serei indiferente à tua posição, sou ateu, comunista, sou tudo e nada sou, porque parecendo que sou, a morte diz que não sou nada, apenas recordação temporária, mas tu, sim, tu és imortal neste meu Portugal. Este ano é o ano da morte! Foi a tua morte… terrível, essa maldita, assassina. Que impotência perante a morte, total resignação. Desgraçada morte e quem te inventou. Seria melhor que não existisses, uma vez que causas revolta e desordem. Esta é a desordem da noite neste momento em que o único momento é este, o ter-te no pensamento e em glória te dedico este texto, num erguerem-se todas as palavras à tua imortalidade pelos feitos das tuas palavras. José Saramago, és eterno e o mundo contigo é racional.
Bem, neste momento falar da morte pouco adianta! Porque ela te levou? O facto é que ela é a grande dona de tudo… já levou tanta gente da minha família, das mais diversas formas. Leva todos e a ti também que lês os meus desabafos, estas palavras ácidas, corrosivas, mas quentes, com o cheiro a sangue! Sobejamente agrada-me o ainda poder pensar-te e recordar-te, sinal que ainda estou vivo. O que me resta entre os devaneios da memória são palavras para te coroar e com todos os que estão contigo, José Saramago, o teu nome é para perpetuar. Até ao nosso outro encontro, face aos apetites do divino que será o descanso eterno entre as palavras que ficam por pronunciar.

Vila Real de Santo António, 22 de Junho de 2010 – 23:02h
Jorge Ferro Rosa