terça-feira, 8 de julho de 2008

micro-ensaio sobre a amizade









Na biblioteca um livro assinado e dedicado, com a sua amizade, a alguém pelo seu autor. Que terá acontecido ao dono do livro para este ter ido parar à biblioteca? Terá morrido? Terá o Estado penhorado o livro entre um montão de coisas da sua bela moradia e depois doado à biblioteca? Se o Estado penhorou o livro, e sublinho o que já disse – um livro assinado e dedicado a alguém – então o Estado já penhora sentimentos e já se imiscui na Poesia enquanto algo mais do que o mero livro penhorável entre uma série de objectos pessoais.

O autor chama-se Abelardo Rodríguez. Resolvo não procurar informação acerca da sua pessoa, não sabendo questões básicas como, por exemplo, se vive, morre ou está morto. Olho para ele através da foto que consta de uma das páginas iniciais, com uma barba escura e séria. “Abelardo Rodríguez”, repito a mim mesmo. Enquanto escrevo isto resulta que se me afigura possível que o Abelardo (ou os seus filhos ou netos, legítimos ou bastardos) , procure no google pelo seu próprio nome e encontre estas considerações de alguém que não conhece, seu equidistante a muita ou pouca distância.


O Abelardo ficará triste. A biblioteca é detentora de parte da sua amizade. E hoje apeteceu-me requisitá-la.



Texto de Tiago Nené
foto de manuel a. domingos

terça-feira, 13 de maio de 2008

Vício interior

Pela maneira com que não olhava as coisas dava a entender que queria sempre chegar cedo. Não ligou aos jornais, aos poucos ignorou a televisão. Houve momentos que nem parecia estar com roupa. E pela maneira com que olhava as pessoas dava a entender que queria sair tarde. Conversou, riu-se e sentou-se perto de alguém, e de outro alguém e de outro alguém e de outros. Durante as palavras triunfantes, tocava no ouvinte. Como uma pedra no charco, questionava se a bebida era do agrado do falante. Tudo se tornou para mim claro, quando nos cruzámos na casa de banho. Vi-o ignorar o espelho e olhar o seu rosto. Olhava fixamente os seus próprios olhos. Que droga tomaria para ser tão viciado no que interessa aos outros, sem que os outros percebessem o interesse que tinha, naquilo que só interessava a ele?

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domingo, 30 de março de 2008

Caracóis

O meu apetite deserto fez-me criar amizade com dois caracóis. Disse-lhes que se eles quisessem, e em virtude de me terem ouvido tão pacientemente, poderia possibilitar-lhes, por algum tempo, a vida que os humanos levam. Quando o meu apetite se alagou de novo, chamei-os para a mesa e todos comemos caracóis. Porém, senti-me vexado ao constatar que eles levavam muito tempo a comer, logo suspeitando que não os tinha confeccionado bem. Depois, o Rafael tranquilizou-me, dizendo-me que só se estavam a certificar que não comeriam nenhum familiar.


Tiago Nené
(antes publicado no blogue do Texto-Al)

quarta-feira, 12 de março de 2008

7x7 pequenas histórias viciadas

O MONGE
Abandonou o hábito e entregou-se ao vício.

COERÊNCIA
Profissão: percussionista. Desporto preferido: ténis. Vício: masturbação.

TEMPOS MODERNOS
Para poupar tempo fornicava sempre de pé.

CONDIÇÃO FEMININA
Sabia-lhe bem, a ele sabia-lhe ainda melhor.

A FEMINISTA DETERMINADA
Amava-o mas não tinha escolhido amá-lo. Deixou-o.

EN PASSANT

Deixou de jogar xadrez. Perdeu vinte quilos.

O VIRA-CASACAS

Morreu e passou a acreditar em Deus.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Os Crimes dos Outros

Numa altura em que praticamente não havia bens materiais, ele era um indivíduo avulso da Classe B. Antes de se poder interpretar cada frase que dizia, era necessário interpretá-lo a ele. Só os indivíduos da Classe A tinham legitimidade para fazer tal tipo de interpretação (assim ditavam umas quaisquer leis orais).
Os da Classe C, entre eles e em segredo, faziam interpretações clandestinas dos indívíduos das Classes A e B. Os da Classe A, incomodados, infiltraram alguns elementos nas tertúlias da Classe C a fim de alterarem este estado de coisas que, segundo eles, era danoso para a saúde das relações entre pessoas que nasceram e cresceram diferentes.
Já os da Classe B era gente que não se reunia porque das duas uma: ou eram pessoas de razão individual, ou viviam numa qualquer surrealidade. De todo o modo, a moral desta história até aqui diz-nos que só as classes que se encontravam nos extremos, A e C portanto, é que se achavam presas a doutrinas e opiniões. Os da Classe A em razão do berço, os da Classe C em razão da proibição social.
Muito tempo depois, os indivíduos da Classe B eram muito poucos, em virtude da sua natureza fechada. Por isso, a mentalidade teve de mudar e a solução foi agregarem-se à Classe C. A influência foi tão grande que os da nova classe, a que chamaremos por conveniência Classe BC, jamais emitiriam opiniões acerca da Classe A. Esta, achando-se sozinha, baixou um nível e já se encontrava próximo do que fora a extinta Classe B. Depois, passando pelo mesmo problema que passara a extinta Classe B, agregou-se, aos poucos, na Classe BC. Poderia chamar-lhe de Classe ABC mas dar-lhei o nome de Classe Única. Aquela sociedade acabara de dar a si mesma a liberdade. Pouco tempo depois, e devido à falta de união da Classe Única, mormente e inclusive devido à falta de discussão e de ideias políticas que levasse, não só mas também, à criação de um exército, ainda que mínimo, este simpático povo desta aldeia asiática fora engolido por uma sociedade maior, mais evoluída e consciente do que era o mundo. Quando isso estava a acontecer, a Classe Única tripartiu-se, e as
Classes A, B e C estavam de novo em vigor. Houve até famílias, entretanto formadas com membros das três classes primitivas, que se separaram, e algumas crianças foram levadas para muito longe e dadas à adopção. Uma delas era eu, um famoso criminoso reformado, escrevendo a sua biografia numa entrada da Wikipédia, utilizando apenas, para o efeito, os crimes dos outros.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

À solta

Instrumentos a postos, corpo e alma a envolverem-se como um cocktail. Os olhos procuram as notas musicais perdidas no penteado do dragão de mil cabeças. Luzes, acção. Deixam de haver indivíduos, deixa de haver privacidade, deixa de haver amanhã, deixa de haver vocabulário, deixa de haver hesitação, deixa de haver uma ou outra lei. Um ciclone de som mistura tudo. Acelera, abranda, mantém o ritmo preso a cada coração. A luz assiste e diz que sim a tudo. Acena que sim tantas vezes que deixa de ter personalidade e mal se dá por ela. Três, dois, um. A hora não estava marcada mas o regresso sim. As portas dão lugar a braços. Braços imensos que empurram mas sorriem, cumplices.
Num outro momento tudo será lembrado, ainda que a repetição só seja possivel no sangue que cada um gravou.

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http://www.mentequebrilhas.blogspot.com/

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Atum

Dizem na tv que o atum está em vias de extinção.

Tenho medo que quem possa fazer algo contra isso, simplesmente não aprecie a espécie ou então que prefira enguias fritas.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Jardim caído

O jardim estava caído dentro da cidade. Nunca tinha saído daquele sítio, nunca tinha muito menos subido para espreitar o topo dos prédios, nunca tinha sido um qualquer gesto. Mas estava agora caído, e tudo nele estava caído também. As flores que em invernos como este não eram flores mas pelo menos sussurravam ao vento a vontade de o serem, os caminhos que tinham vários fins e que agora restavam-lhes o mesmo ínicio, os candeeiros que diminuiam a electricidade com o glamour das suas formas e que agora tinham nela o único motivo para lá estarem, o portão que tantas vezes viu prevenida a ferrugem já não sabia passar sem esta, sem a cumplicidade de quem chega sem anunciar, deixando-nos depois a vontade de não pensar num anúncio de despedida.
Hoje vi assim o meu jardim. Caído. Amanhã talvez esteja levantado, ou até hoje mesmo, mas por outros olhos.
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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Génesis


«O mundo era ermo e inóspito. Os pedregulhos erguiam-se crispados, sobranceiros à aridez dum mar de dunas. As areias estendiam-se, cálidas e mortíferas até ao horizonte. O céu, ofuscante de branco, não concedia qualquer matiz, em toda a abóbada exposta. Só o Sol ardente, a pique, presidia às coisas inanimadas.

Então, nos interstícios da rocha calcinada, numa brecha ínfima, por uma singularidade improvável, formou-se uma nesga de sombra. O espírito da árvore acordou, reconheceu a sua essência e formou um pensamento.
E um manto verde cobriu a terra inteira.»

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

domingo, 4 de novembro de 2007

exercício de produção de texto

AS ÁRVORES

Porque somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente estão apenas pousados na neve e com um ligeiro empurrão conseguir-se-ia afastá-los. Não, não é possível porque estão firmemente ligados ao solo. Mas reparem que até isto é apenas aparente.

*

Utilizando a estrutura deste pequeno conto de Franz Kafka escreva um novo conto, frase por frase, de acordo com as instruções seguintes:

1- Comece com uma frase semelhante à primeira frase do conto, a qual parece responder a uma pergunta omissa. Poderá desde logo, ou no desenvolvimento do texto, formular a pergunta a que pretende responder com a comparação.
2- Continue descrevendo a ilusão que a palavra “aparentemente” introduz e que iniciará a segunda frase.
3- Continue desfazendo a ilusão, com uma negação igual ou semelhante à do texto.
4- Termine com a mesma frase do conto.

Tente seguir as instruções, sendo no entanto livre de lhes desobedecer como bem entender. Não produza apenas um novo conto, mas vários. Faça-o primeiro pela diversão pura e simples. Poderá numa segunda fase introduzir-lhes alterações com vista a melhorá-los.

[inicialmente publicado no blog d'apontamentos]