sábado, 28 de junho de 2008

Memória versus Esquecimento



Memória: Quando um homem de barba rija, que escarra, que arrota, que vomita, se põe a chorar por uma fêmea, não tem outra solução que não seja atirar-se juntamente com os restos do jantar para dentro de um caixote do lixo. Isto dizia Adam, que garantia que nenhum homem deveria sofrer por uma mulher. Todavia, à semelhança de outros indivíduos, também o que defendia a indiferença dos machos em relação às mulheres padecia do lado esquerdo do peito. E muito. Mas nos cafés, onde a moralidade masculina nunca poderia ser abalada por coisas tão banais como os sentimentos, Adam nunca se mostrava fraco. «Para mim, elas são todas umas porcas. Levo uma para a cama, amanhã outra. Elas procuram todas o mesmo que eu: ejaculação, ejaculação. Um dia, uma delas disse-me que queria falar sobre um assunto muito sério: estava apaixonada por mim. Sabem como sou, caros colegas, disse-lhe que comigo não existem sentimentos mais elevados do que aqueles que o pénis proporciona.» Às vezes, de cerveja na mão, Adam trocava as palavras por piropos. Não se envergonhava por elogiar o rabo de uma mulher que nunca desejaria passar uma noite com um tipo ridículo.

Esquecimento: Eva considerava-se feliz. Durante muito tempo, fora casada com um homem que não amava nem desejava. Agora, a conversa era diferente: vivia com um jovem mancebo que a endeusava, que tratava os filhos dela como se fossem seus, que dizia amá-la mais do que o céu azul do Verão.

Memória: É verdade que uma pessoa pode conseguir manter uma história verdadeira e uma falsa. Mas não é verdade que uma história falsa possa existir na mesma medida que uma história verdadeira. Adam era um sujeito solitário que, por vergonha, por não se querer sentir humilhado, passava o tempo a inventar ficções. Dizia aos amigos que não precisava de amor, de mulheres, de prostitutas, de crianças, de família, de nada. De certa forma, não estava errado, uma vez que não tinha ninguém. Nem mesmo os seus amigos se poderiam considerar dignos do nome. Adam conseguia manter histórias verdadeiras e falsas. Mas, enquanto as histórias verdadeiras não desapareciam nunca interior do homem, as histórias falsas, por não serem reais, não conseguiam sobreviver durante a totalidade das vinte e quatro horas do dia. Quem o ouvia falar, recebia informações falsas que, de tanto serem repetidas, circulavam como verdades: não tinha filhos, não tinha mulher, não tinha nada, à excepção de grandes prazeres hedonistas. À noite, no escuro do quarto, a história verdadeira suplantava a mentira: havia uma mulher chamada Eva que o abandonara, que o tratara como um cão, que não queria saber dele, que lhe pedia centenas de euros para a educação de crianças que mal conheciam o pai. Assim se comprova que a força de uma mentira nunca é superior à força da verdade dentro da cabeça de um mentiroso.

Esquecimento: A felicidade não aparece do acaso. Não se descobre como ouro. Não cai dos céus como a chuva. Não tropeças nela como acontece quando a ponta do teu sapato bate contra uma pedra. És feliz depois de muito sofreres. Precisas de sentir muita dor para conseguires pensar que afinal este alegre sentimento existe. É como no mar: depois da tempestade vem a bonança. Esta era a disposição de Eva. A de alguém que saiu de algo muito mau para algo quase etéreo. A de alguém que, apesar de ter estado preso inocentemente, se viu de repente com o prémio do totoloto nas mãos. Compreende-se que a minoria pessimista da humanidade desconfie que o conceito de felicidade possa ser simplesmente inexistente. Compreende-se, de igual modo, que, se o animal está bem, se sorri, se é bem alimentado, é feliz. Melhor: se o homem diz que a relação entre um macho e uma fêmea se resume a ejacular, e se realmente ejacula muitas vezes, é feliz. E ainda é mais do que isto: para ser feliz, o homem que diz que ejacular é bom (e que ejacula), precisa de esquecer, de fazer desaparecer do pensamento tudo o que faz lembrar os tempos em que o esperma não se dava a mostrar.

Memória: Antes do bem, está o mal. Por vezes, não chega a aparecer o bem. O mal é muito forte. Muito forte. Quase mais forte do que os pregos que impedem que duas mãos se descolem de uma cruz. Sentado na cama, nu, a fumar cigarros atrás de cigarros, Adam costumava passar as noites com o telefone encostado ao ouvido. Marcava um número do qual o seu cérebro não se conseguia desapegar e não falava, só ouvia. «Estou?» Sempre esta palavra. Como se não houvesse outra no mundo. Adam não falava porque sabia que nenhuma palavra o salvaria da perdição. Do outro lado do telefone, havia uma mulher que tinha dado um passo em frente no seu caminho para o absoluto. Ele é que não se conseguira libertar do passado, da saudade, do cheiro a carne e a perfume.


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1 Comment:

© Piedade Araújo Sol said...

raramente deixo coment, mas sempre que o tempo o permite venho aqui. gosto da maneira como abordas os temas, consegues prender o leitor sempre à procura do fio condutor do texto...

bfs

beij