segunda-feira, 6 de outubro de 2008

poème a trois

um conto de Tiago Nené na Letrário Editora.

para ler [Aqui]

domingo, 10 de agosto de 2008

surrealismo - a única real tradição viva

para quem é fã do movimento surrealista o nosso querido amigo ricardo pulido valente oferece-nos um bom espaço.

afinal de contas é a única real tradição viva, não é?

domingo, 1 de junho de 2008

o princípio do amor




também publicado no Texto-Al

quarta-feira, 30 de abril de 2008


Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.


Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.


Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.


Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa evidência me matar agora.
E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?
Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.



José Lúis Peixoto
Foto: Katia Chausheva

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Museu da Pedra em Cantanhede


Poema da pedra lioz

Álvaro Góis,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na brutidão dos calcários.

Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca… truca…
Lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada românica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

Álvaro Góis,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de surrobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.

No friso largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um Cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.

Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.
Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaros celestes,
entre cometas e sóis.
Mulheres e homens, sem paz,
esgazeados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.

Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se estende o truca… truca…
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.

No desmedido caixão,
grande senhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.

António Gedeão


Este poema está exposto, com destaque, no Museu da Pedra em Cantanhede, um museu muito pedagógico sobre a pedra, desde as formações geológicas da região até aos produtos finais, com realce para os escultóricos, passando pelas patologias da pedra e pelas ferramentas do trabalho, tantas vezes anónimo, da transformação do informe oculto em delicada forma revelada.



Lioz é o calcário brando da zona de Lisboa com o qual foram construídos quase todos os seus monumentos, desde a Torre de Belém à Sede da Caixa Geral de Depósitos. O calcário da zona de Cantanhede é a chamada Pedra de Ançã extraída nas pedreiras de Ançã, Portunhos e Outil e que moldou a face arquitectónica e escultórica de Coimbra no século XVI.

[publicado no blogue Universos Assimétricos]

quinta-feira, 27 de março de 2008

Genoma Poético

Apreendido no aeroporto quando me revistaram.
o meu poema. o meu poema.
nada mais levaram.
ao menos levassem também os meus sessenta e cinco, quase sessenta e seis, anos de idade.
ao menos varressem, com todo aquele material técnico, a minha infância
e a sombra das minhas casotas.
Podiam até furtar-me o nascimento.
Que se fodesse.

Eles sabiam muito bem ao que vinham.
Quiçá tal acto tenha sido precedido de denúncia anónima
depois difundida, tímida ou amplamente - desconheço - , nos órgãos de comunicação social.
o meu poema. o meu poema continha o genoma poético,
era o poema dos poemas o meu poema!
continha os códigos e os caminhos secretos das palavras cruas,
e representava anos e anos
da mais completa solidão, do mais completo estudo
sobre o tempo que espera demais.

Pouco sabia o que fazer, cancelei o meu voo.
nos dias seguintes tentei sem sucesso
reproduzir aquela artilharia poética,
tentei refazer mentalmente os testes que conduziram àquelas palavras.
nada fazia sentido.
nada mais fazia sentido.
depois voltei a ligar o meu telefone
e a responder a algumas mensagens
e fiz até alguns telefonemas a familiares que viviam longe
e fiz dois amigos num minimercado perto de minha casa
e que hoje passarão cá um belo serão.

deixei de querer acumular todo o conhecimento
para viver em segurança
até porque, vistas bem as coisas, não disponho de outra vida.

segunda-feira, 3 de março de 2008

A propósito de estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz

por ele se interessar por estrelas

se me interessei por estrelas por me interessar

pelo rapaz hoje quando penso no rapaz

penso em estrelas e quando penso em estrelas

penso no rapaz como me parece

que me vou ocupar com as estrelas

até ao fim dos meus dias parece-me que

não vou deixar de me interessar pelo rapaz

até ao fim dos meus dias

nunca saberei se me interesso por estrelas

se me interesso por um rapaz que se interessa

por estrelas já não me lembro

se vi primeiro as estrelas

se vi primeiro o rapaz

se quando vi o rapaz vi as estrelas



(Adília Lopes)

Nadi (I parte)

NADI (sânsc.; tib. TSA/ RTSA) - canais de energia pelos quais circula o PRANA.
Escrevi os textos sobre Nadi julgando que a palavra significava felicidade, e depois surpreendeu-me o facto que sintacticamente me tinha induzido em erro, fiquei naquela se haveria de alterar o nome à personagem mas depois pensei... qual é a importância se a palavra está certa ou não? O que importa é o signifante que se dá nos e através dos textos.
Enfim, a minha primeira participação neste blog é então com as narrativas da primeira parte de Nadi. A segunda e última parte estão ainda rascunhados no meu caderno preto. Tentarei publicá-los brevemente. Sem mais nada a acrescentar,
Lara Fanny Reis
***
Ignoro a forma do porquê do teu sorriso, ignoro porque se moldam os teus lábios desse jeito, Nadi, de cada vez que te chamo, por esse nome. Tu, hoje, estás naqueles dias em que não percebes porque me encontro assim. Dizes-me estranha. E, no entanto, sinto-me perfeitamente bem e normal. Perguntas-me se aconteceu algo e abano com a cabeça. Nada Nadi. Não aconteceu nada. Hoje não é um dia diferente de ontem, nem tão igual ao de amanhã. Hoje choviscou em cima da minha cabeça pequenas gotas de orvalho que nem chegaram a tocar-me o tecido do corpo. Mas era bonito sentir carícias anti-fisicas da água miniatura.Alguém perguntou onde ficava o metro. Disse-lhe que não valia a pena explicar, bastava seguir-me. Ele contou-me que era parecida a uma senhora que conhecia. Terrivelmente parecida só que mais nova. Talvez essa senhora fosse mesmo igual a mim quando da minha idade. Agora era casada e já andava um pouco longe dos trinta. Expliquei que também já lá andava perto. Não acreditou e eu não me importei. Continuei a ouvi-lo chamar-me menina. Menina-isto e menina-aquilo. Agradeci porque nesta vida devemos ser sempre gratos pelas coisas bonitas que nos dizem ou nos fazem.Os nossos passos apressaram-se. O orvalho transformou-se em chuva e olhei para cima onde debaixo de um céu bipolar, entre o cinza e o azul, parei para roubar um pouco de um dos dois arco-iris que nasceram, só para interrogar-me, outra vez, porque é que se moldam os teus lábios cada vez que te chamo Nadi.
a) Hoje vesti uma saia e não me senti bonita. Olhei para o espelho e não vi ninguém. Tentei procurar o quer que fosse mas do outro lado se instaurou um grande nada. Ninguém. Estava sozinha e mal vestida. Fui ao quarto e troquei tudo, mas essencialmente, troquei de roupa.
b) Nadi, acho que o mundo está doente. Sofre de males incuráveis de amores crónicos. Até entendo que as gentes de hoje sinta a necessidade gulosa de comprar e jogar fora, como embalagens de plástico, o que se vende e brilha em montras e espaços fluorescentes. Não me tinha apercebido é de que o amor também estava em saldos.Corrige-me se estiver errada, não era pressuposto ser um bem de afeição perpétua? E, no entanto, o mundo diz-se carente, com falta de ternura e afecto. Pelo menos, é aquilo que qualquer gente, como quem me cruze na rua, prega a quem queira ouvir. Onde é que eles falham Nadi? Porquê esse tédio? Essa constante troca. Esse “não-se-dar-ao-trabalho” e tratam o amor como de uma capote gasta. Repara que até é irónico. Já notaste a mecânica do gesto de se usar um preservativo? Não é irónico a verificação do mesmo no movimento das relações?Tu vais dizer-me que digo coisas tontas, porque ando com o coração triste. Dizes-me que deveria ouvir-me mais vezes e deixar o mundo ir à descoberta dos seus psicólogos, consultar psicanalistas, conselheiros matrimoniais, sexólogos ou tarologos. Estás olhar para mim? Ainda por cima com aqueles olhos de quem procura mais do que devia e até encontra. Perguntas-me o que é que (realmente) se passa. A mim, basta-me encolher os ombros. Evito de chorar. Tu percebes e não insistes na pergunta, em vez disso, agarras em mim e esconde o rosto na curva do meu pescoço. «-Cheiras bem.»; dizes. Eu nem me lembro se tomei banho.
c) Ainda falta uma eternidade antes de começar. Entrei porque lá fora está frio e chuva. E hoje, logo hoje, sai de casa sem casaco. Estou com fome mas a tristeza até camufla o ruído hediondo do meu estômago. Queria muito falar contigo, Nadi, porque cada vez que fico neste estado de (pseudo) depressão-compulsiva tu nunca me dizes nada. Não inventas discursos de demagogia floreada de como tudo vai, novamente, correr bem. Limitas-te a ouvir-me num rosto fechado, onde me é impossível entender a linguagem dos teus pensamentos.Não moves os olhos, nem acenas com a cabeça. Simplesmente, fixas-me com o olhar demasiado aberto. Mas sei que me estás mesmo a ouvir. Desconfio até que registas palavra a palavra como se a curva do teu ouvido fosse um gravador que trabalhasse em simultâneo com as pequenas movimentações da minha boca.As vezes, mas só as vezes, gostava que me calasses com a tua boca, e talvez, aí dizeres o que toda a gente diz: «- Vai tudo, novamente, correr bem.» Não posso prometer que iria concordar. Iria pensar que te cansaste de toda a rotatividade do meu discurso que está triste. E que esse beijo seria simplesmente um gesto de desespero de causa. Acho que, afinal, não seria boa ideia. Ficaríamos ambos sem saber como agir. Paralisados pelas convenções sociais que para momentos como estes não têm um guião de instruções e, provavelmente, num ataque de genuína compaixão pela causa sussurraria: «-Nadi.» Aí, eu sei que irias olhar para mim, e perguntar-me afinal que peça é que fui ver. Eu, ainda semi envergonhada, encolheria os ombros e responderia: «- Não sei, Entrei porque estava frio e chuva, lá fora.»

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Double Jeopardy

amei duas vezes a mesma pessoa
primeiro o seu exterior que era tudo
depois o seu interior que era tudo
depois odiei duas vezes
essa mesma pessoa
primeiro o interior que era tudo
e depois o exterior que já não era nada


Tiago Nené
(Direitos Reservados)

domingo, 10 de fevereiro de 2008

O amor é fodido


A minha bondade deve ter sido pouca para eu tê-la gasto toda contigo. Mas o meu amor era imenso. Escusavas de tê-lo açambarcado todo. Pobres coitadas que me levarão ao Inferno. Tão merecedoras de carinho e tão desinteressantes. Eu bem lhes dizia "Não me ames - deixa-me ser eu a amar-te"... Mas as mulheres do que gostam é amor. Sobretudo quando não há ali mais ninguém que se preste a isso.
Acordo às cinco da tarde e o meu dia, sem que eu deixe, já começou - as páginas felizes por ficarem brancas, as pessoas aliviadas por eu não lhes falar. Um dia o meu dia há-de ter um atalho à minha beira, um caminho por onde eu possa seguir - mas duvido.
Sou um eremita. Tornaste-me num perito da saudade. Não posso estar contigo. Não consigo viver. Sou impróprio para consumo - um incontestável peixe grande, fora do seu habitat, que nem sequer se conhece. Serei um lembrador, uma conservatória, com os meus assentos de mortes e nascimentos. Tenho jeito para recordar - é a única coisa que me resta fazer desde que nasci. Tive sempre consciência que os momentos e as experiências eram só matérias-primas, primeiros passos - os únicos.
Serei o teu lembrador, quem te lembra, quem te aproxima de quem eras. Não falarei com ninguém, mas ai de quem vier falar comigo. Hei-de chatear toda a gente com a tua pessoa. Ai, as histórias que vou contar, nunca mais acabarão, serão feitas só de coisas simples, como cafés e cinemas, nada de íntimo ou de interessante, só banalidades, daquelas que dão cabo de mim, que não consigo esquecer por mais uma - nem Deus, como vou chorar! Ninguém se poderá ir embora. Vai ser uma tortura. É bem feito para não se meterem com quem não foi feito para viver.
Se alguém me mostrar algum sentimento, como-o.
Hei-de ser o caseiro do teu coração, no sotão do meu. Guardarei os teus restos num caixote da minha cabeça. Serei quem se lembra de quem tu eras e em nada me impedirá o facto de eu não fazer ideia do que isso seja.
Miguel Esteves Cardoso
Foto: Katia Chausheva

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

POEMA -Mário Cesariny

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Tiago Bettencourt & Mantha - O Jogo

Mais um dia em vão no jogo em que ninguém ganhou
Dá mais cartas, baixa a luz e vem esquecer o amor
És tu quem quer
Sou eu quem não quer ver que tudo é tão maior
Aqui está frio demais p'ra apostar em mim.

Vê que a noite pode ser tão pouco como nós
Neste quarto o tempo é medo e medo faz-nos sós
És tu quem quer
Mas eu só sei ver que o tempo já passou e eu fugi
Que aqui está frio demais p'ra me sentir... mas queres ficar?

Tudo o que é meu
É tudo o que eu
Não sei largar

Queres levar
Tudo o que é meu
É tudo o que eu
Não sei largar

Vem rasgar o escuro desta chuva que sujou!
Vem que a água vai lavar o que me dói!
Vem que nem o último a cair vai perder.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A progressão aquática da vírgula

A progressão aquática da vírgula
descalça o náufrago - olhos de dezembro
na miopia das areias rastejantes,
é assim o recomeço de todas as linguagens.

A árvore o barco a quilha da vicissitude aquática
o mimetismo da espuma no núcleo da sombra
quem espreita pela fechadura de deus?
eis um resultado nómada.

40 braços do que pensas enquanto o sonho levanta uma heresia?
A progressão aquática da vírgula

descalça o náufrago.



poema de rui dias simão - poeta algarvio - in hipantropias

domingo, 9 de dezembro de 2007

Mergulho








Escreve um poema
Mergulha no branco
Entra no improvável
Sê humilde
Não penses no que sabes
Esquece o que sentes
Sente
Se não sentes tira a roupa
Bebe água
Pinta um quadro
Esquece as cores que conheces
Imagina cores
Troca-lhes a lógica
Segue
Persegue
Respira debaixo da água do quadro
Transpira
Bebe água
Bebe mais água
Grita
Chora
Chora pela tua mãe
No teu sonho
Ela vem buscar-te
Inspira
Expira
Continua a pintar
Pinta até que o dia nasça no quadro
É difícil
Então mergulha mais fundo
Até veres os peixes
Ouve os seus lamentos
Eles também nadam neles
Não há só água no seu oceano...
No teu também não há só sorte ou amor ou lógica
Há contradições
Por isso não nades só...
Também mergulha
Mergulhar é fugir
Sem que a fuga seja cobarde.





(Tiago Nené)



in Versos Nus, Magna, 2007

Entrevista a Gonçalo M. Tavares









Gonçalo M. Tavares ao Círculo de Leitores








«Jerusalém» Canto Interrompido - O Incomodar -


Quase não se nota, quase nos podemos enganar. Mas há um fio, um transparente e inquebrável fiozinho que liga todas as palavras dos seus livros. Falará de loucos, de jogos, de inversões, de mundos ao contrário, de contrariadas solidões, de insólitos rostos, de estranhos lugares com pessoas tão estranhas como cada um de nós. O mago é Gonçalo M. Tavares. Talvez não goste do nome. A sua arte talha-se afinal numa constante leitura dos outros, só depois numa descoberta da sua própria escrita. Nasceu em Angola, tem 34 anos de idade e começou por editar um livro de poesia seguindo-se o ensaio, a ficção, o teatro. Com «O Senhor Valéry» obteve o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal «Expresso», e o Prémio Revelação de Poesia da APE com «Investigações. Novalis». Em 2004 é distinguido com o Prémio LER/millennium bcp, em 2005 com o Prémio Literário José Saramago. «Jerusalém» inclui-se no que designa de Livros pretos, a tocarem o desencanto.



Círculo de Leitores online - Prefere um leitor (dos seus livros) satisfeito ou perplexo?


Gonçalo M. Tavares - Talvez o prefira, no final, satisfeito por estar perplexo. Alguém ficar intrigado é, julgo eu, um ganho. Há uma satisfação diferente quando se entende tudo por completo ou quando se entende em parte, e a parte que falta provoca mudanças, curiosidade, etc. Eu, pessoalmente, como leitor não gosto de ler aquilo que já sei ou estou à espera.


CLonline - A pergunta anterior não é obviamente inocente. Sente-se em jogo com o leitor ou consigo mesmo? Há uma notória inversão de lógicas neste livro, e nos editados anteriormente. Essa construção é algo com que se diverte e a que acedemos de fora, ou em que nos quer incluir?


GMT - Considero que estes três romances, «Um Homem: Klaus Klump», «A Máquina de Joseph Walser», e agora o «Jerusalém» são livros emocionais e portanto que incluem o leitor no seu mundo. Não há nada de abstracto em «Jerusalém», a violência entre pessoas e os laços amorosos e familiares existem em todo o lado. Estamos todos no mesmo barco: temos medo e se necessário somos agressivos.

CLonline - Permita-me a insistência no termo “jogo”. O lugar que conta, as personagens que cria têm vida própria ou são peças que move a seu bel-prazer? E, a movê-las, pretende afirmar o quê com este livro?


GMT - Quando escrevo um livro nunca sei o que vou fazer, o que vai sair. Começo a escrever sem saber nada: sem saber se há personagens, quantas são, sem saber o que vai acontecer, desconhecendo factos, episódios. Escrevo, apenas. Nunca escrevo com um plano. Pode parecer estranho para quem lê, mas é mesmo assim: a cada linha do «Jerusalém» não sabia o que iria acontecer a seguir. Portanto, as personagens não as movo ao meu bel-prazer. É como se nem sequer visse as personagens, elas aparecem sem eu as convidar.


CLonline - Que lugar habitam as personagens? Um lugar paralelo ao nosso? Subterrâneo? Estrangeiro?


GMT - Aparecem num lugar paralelo ao nosso. Não é num lugar estrangeiro, porque não há nenhum lugar estrangeiro ao medo, à agressividade, à loucura, à ligação entre pais e filhos. Pertencemos todos ao mesmo país.

CLonline - Theodor afirma a procura de Deus como um imperativo de sanidade: «...um homem que não procure Deus é louco. E um louco deve ser tratado». Porquê o ancorar da razão em Deus?


GMT - A ideia mais antiga, que o ser racional por excelência, que é o Homem, vai espalhando pelo mundo é a ideia de Deus. A ideia de Deus é uma consequência de um pensamento racional absoluto. Podem existir, mas não se conhecem deuses dos cães ou dos mosquitos. A razão e Deus estão muito ligados. Theodor, o médico, também sente isso.


CLonline - Theodor é um cientista ou um crente?


GMT - Julgo que é as duas coisas. Theodor é médico e os médicos contactam com um dos limites essenciais do humano: o limite da saúde. Este contacto com os limites do corpo humano é sempre muito forte, não será por acaso que muitos dos que têm profissões que trabalham com os limites humanos se aproximam de crenças mais ou menos explícitas.
Acaso . Destino


CLonline - Há uma sensação de ameaça ao longo do livro. Como se tudo pudesse acontecer - e como se tudo o que acontece não tivesse necessariamente um sentido. Concorda, ou é aparente o acaso?


GMT - Todos os acontecimentos do livro são, ao mesmo tempo, um acaso, e como que um destino. O livro talvez não pudesse terminar de outra forma.CLonline - A cura, dirá Gomperz, passaria pelo esquecer de um trajecto. A loucura abre ou fecha portas? GMT - A interpretação romântica da loucura, associando-a aos actos amorosos ou criativos, não me é muito agradável. Estar apaixonado ou ser criativo nada tem a ver com a loucura pesada, dura, que é algo que se deve respeitar pois relaciona-se acima de tudo com o sofrimento humano e individual. A loucura é uma coisa má e negra. Os textos de Artaud, por exemplo, são excelentes. A loucura de Artaud foi certamente terrível e negra.CLonline - Quem não é louco neste livro?GMT - A prostituta, o médico, quase todas as personagens são como nós. A mesma extraordinária porcaria saudável.




Escrever . Pressentir



CLonline - Fez algum tipo de pesquisa para este livro?


GMT - O instinto de pesquisa é este: quero tentar perceber. Começamos a pesquisar quando não sabemos e nunca se pára de pesquisar, porque nunca se sabe, sobre um determinado assunto, tudo. Para mim a escrita é um estado de investigação, e o que me interessa essencialmente é investigar os comportamentos humanos.CLonline - Permita-me voltar um pouco atrás. Como surgiu a escrita de «Jerusalém»? Enviou o original a concurso mas inclui este inédito no subtítulo«Livros pretos». Porquê esta designação? GMT - O romance «Jerusalém» pertence aos livros pretos, e tem uma ligação clara com os romances «Um Homem: Klaus Klump» «A Máquina de Joseph Walser», ambos editados na Caminho. São livros pretos, no sentido de uma certa dureza, e de um certo desencanto. Desencanto é a interrupção do canto, é uma coisa que incomoda.


CLonline - Para além da ordem interna de cada um dos livros, designa-os“Cadernos”, mais especificamente, «Cadernos de Gonçalo M. Tavares». O que liga estes cadernos?


GMT - É evidente que os Cadernos têm ligação entre si. São escritos pela mesma pessoa. Claro que, por vezes, há uma ideia de que uma pessoa é só uma pessoa. Mas não, todos somos uma quantidade de coisas diferentes, como toda a gente sabe e sente. Por vezes no mesmo dia, em menos de dez ou doze horas sinto-me completamente angustiado e farto de uma certa existência estúpida que toda a gente tem, e passado algumas horas posso estar genuinamente divertido com algo dentro da minha cabeça. O mundo tem vários tons e devemos respeitar isso. Em relação aos cadernos, e tentando organizar mentalmente os diferentes livros, vejo que há livros que têm objectivos diferentes. Com certos livros tento interferir na linguagem, com outros tento interferir na literatura e com outros ainda (onde julgo se inclui o «Jerusalém») tento interferir na existência das pessoas ou pelo menos na forma de se pensar sobre certos acontecimentos. Há livros que os vejo como investigações, livros que muitas vezes são fundamentais para outro tipo de livros mais concretos como os romances. No entanto, apesar de colocar no meu trajecto principal alguns livros, como os romances, livros de estrutura mais clássica, não quero deixar nunca de escrever livros que procuram caminhos diferentes na literatura, fora de qualquer género literário assente. A classificação de géneros literários é uma prisão e uma predeterminação do exterior que quem escreve não deve aceitar. Se do escritor saiu um romance, tudo bem. Se saírem naturalmente contos, tudo bem. Mas se sair qualquer outra coisa, que não é colocável em nenhum género literário, tudo bem à mesma, e muito bem mesmo, desde que seja algo que ajude a investigação sobre a linguagem e sobre as ideias.


CLonline - Gostaria de saber um pouco mais sobre o seu método de escrita.


GMT - Não há nenhuma elaboração mental prévia. As personagens e os acontecimentos vão surgindo à medida que escrevo. Por vezes, a meio, há pressentimentos sobre o que poderá vir a acontecer, mas nunca sei exactamente o que vai suceder. A folha está em branco, começo a escrever. No livro «Biblioteca», publicado recentemente relembrei uma brincadeira de Lewis Carroll que de certa maneira se ajusta à descrição do meu método de escrita: começo a escrever no início, continuo a escrever, e quando chega ao fim, paro. É este o meu método.


CLonline - Este tipo de pergunta - que tenta desmontar a sua escrita -alicia-o a mentir?


GMT - Não. Mas eu próprio não consigo desmontar a minha escrita, precisamente pelo que disse antes: quando escrevo pela primeira vez algo não sei como o faço. Não domino esta primeira parte. Começo a escrever, simplesmente. A segunda parte, sim, a de revisão, a de vigilância sobre o que foi escrito, aí domino, sei como faço. Mas o essencial já está antes feito, e isso não sei desmontar. Apenas rezo para continuar a fazer, mesmo que nunca venha a saber como faço.


CLonline - Como e quando começou a escrever?


GMT - Escrevi muito à mão, em cadernos, durante muitos anos. Comecei cedo a ler e a escrever, não consigo separar a leitura da escrita. A certa altura percebi que escrevia quase instintivamente e que precisava disso para me sentir bem. Quando não escrevia ou não escrevo, fico irritadíssimo. Depois estive muitos anos a ler e a escrever obsessivamente. E no meu cantinho. Só comecei a publicar aos 31 anos. Como às vezes brinco: foi para desocupar metros quadrados da minha casa.


CLonline - É isso que se considera: um escritor?


GMT - Escrever é um acto natural, quase instintivo. Escrevo mais naturalmente do que falo. Não tenho necessidade de falar, tenho necessidade de escrever. Necessidade e instinto são palavras que não têm a ver com ofícios, relacionam-se sim com o organismo. Escrever não é um ofício, apesar de requerer uma certa disciplina.


CLonline - Novos projectos?


GMT - Há muita coisa já feita ainda para sair. E estou a fazer outras coisas. Sairão provavelmente alguns livros ainda este ano. Estão também a começar a acontecer várias traduções de livros meus para França, Espanha, Brasil, Índia, talvez Itália. O que é óptimo.


CLonline - Uma última pergunta. É Mylia quem se refere a Jerusalém. Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita. Que Jerusalém é esta?


GMT - Eu só escrevi o livro. Não sei mais nada.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Tic-Tac

Os ponteiros, de súbito esconderam-se atrás do tempo,
A multidão desvanece-se no silêncio das ruas.
Sem rosto, os corpos movem-se como loucos que procuram no caos
um sentido, um quadrante, uma fórmula que elimine a indeterminação das horas.

O tempo assiste, sereno.
O tempo sorri.
O tempo sem horas...
O tempo sem tempo.

Os ponteiros voltam
e num ápice, devolvem o tempo...ao tempo.
...
O tic-tac recomeça
A multidão respira, aliviada.
O tempo é tudo
O tempo é ... nada.



(Sara Rocha)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Grande Evento na Ler Devagar (Lisboa)

Sulscrito/Palavra Ibérica na livraria Lerdevagar,

dia 8 de Dezembro às 21:30.

Rua da Fábrica do Material de Guerra, nº1 (em frente aos Correios do Poço do Bispo).

Projecto Cultural – Círculo Literário do Algarve


Programa:

- Apresentação da revista de literatura Sulscrito, com a presença de alguns autores/colaboradores.

- Apresentação da colecção de poesia Palavra Ibérica.

- Apresentação da 3ª edição do encontro de autores Hispano-Lusos Palavra ibérica (Punta Umbría-Huelva, 2008).

- Apresentação do projecto cultural ALIANÇA CULTURAL – Faro. (Literatura, Artes Plásticas, Património, Música).

- Apresentação de um jovem poeta de Faro, recentemente publicado.


Sulscrito:

Fernando Esteves Pinto
Pedro Afonso
João Bentes
Tiago Nené


Editor:

Luís Filipe Cristóvão (Livrododia Editora)


Aliança Cultural:

José Bivar
Adão Contreiras
Rui Dias Simão

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

A forma de...

Conhecer a forma de conhecer
estudar a forma de estudar
matar a forma de matar
beber a forma de beber
respirar a forma de respirar
sentir a forma de sentir
ler a forma de saber
tirar uma cópia de mim
e mandá-la viver a minha vida.


(Tiago Nené - direitos reservados)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Psicopatia

Oh sim, talvez aceite
a informatização dos meus sentimentos
talvez aceite a evidência
uma vez que estou quase morto.

Há uma jovem miúda que documenta
os vestígios da sede do meu espelho
o que senti um dia e fossilizou
com uma pinça recolhe a bela moça...

Cientistas vieram dos Estados Unidos
com aparelhos iniventados
para estudar o caso da minha psicopatia
e enfim me tornar real.



Autor: um amigo meu chamado Pedro.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Grande Entrevista

Para ler Aqui