sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Suposições nocturnas...



Foto por Daniela Pereira in www.olhares.com/blueiela
Direitos reservados

Poema em "psyco-fire mode"



Cala-me os sons da noite
porque só a tua respiração me importa ouvir...
Prende-me as luzes do quarto
que trago soltas no meu cabelo
e afaga-me delicadamente a pele
até me sentires apagada nos teus braços...
Existe um perfume no ar
e o meu corpo é uma maçã verde
que suculenta vai-se desfazendo na tua boca
e nos teus dedos
já se faz em pedaços...
Quero Vinho do Porto a regar-me o umbigo
e ser um cálice pronto a partir
ao primeiro toque
Quero lamber-te a pele
com a boca molhada
e a língua enrolada em puras brasas
mas sem te queimar o sangue
e só chamuscar-te de mansinho...
Quero beijos no pescoço
dados sem pressa
e sem destino nenhum
quero ver-te a percorrer-me as pernas
com as mãos pingando desejo
e os olhos aprisionados junto aos meus seios...
Podes fugir com a boca inquieta
e escalar-me o corpo com carinho
porque tens montanhas em êxtase
à espera de sentir a terra tremer...
Não me apetecem sombras nas paredes...
todos os objectos neste quarto
estão deformados no meu olhar
e eu só quero a tua sombra sobre mim
a esconder-me as curvas
entre vagas com uma ondulação vigorosa...


Murmuras baixinho
quando te desenterro a alma
com as pernas arqueadas
e voamos juntos
de asas abraçadas
deixando no chão do quarto
segredos curtos sussurrados e longas marcas de prazer...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Por coisa nenhuma e por uma coisa de nada...





És o meu amor de coisa nenhuma..

e por coisa nenhuma assim te fizeste em mim...

Se o mar tivesse voz e não um rugido rabugento...

à muito que teria dito...

Basta, desta onda alucinada

tu não levas mais nada!

E eu teria deitado as lágrimas na areia..

teria escondido o rosto num rio improvisado

e só quando o mar

me cuspi-se para fora

eu saberia a verdade...

e não precisaria de coisa nenhuma

para a saber...

Que és um gesto no meu olhar...

uma gota de luz sombria

que na cor disfarça

todas as sombras...

Arco-íris de tudo e todos os sabores

a rasgar-me o céu

com a boca cheirando a fumo

e eu não morro sufocada...

habituo-me ao teu gosto

e fumo-te os lábios

até à exaustão dos meus pulmões...

E assim..

por coisa nenhuma e por uma coisa de nada

aqui ficaste no meu corpo...

a atravessar a minha alma

de lès a lés

como se eu fosse um quilómetro ainda por percorrer

mas já tão batido pelos teus passos

que em pouco tempo

lhe adivinhaste toda a paisagem...

E o que nasceu por coisa nenhuma

parece querer morrer por uma coisa de nada...



Daniela Pereira

Direitos Reservados

http://devaneiosazuis.blogspot.com/

domingo, 11 de maio de 2008

Poema com fôlego curto




Porque todas as chamas se extinguem...
todas as velas se apagam...
Mas nenhuma palavra há-de morrer
por lhe lamberem o rastilho...


Daniela Pereira
Direitos Reservados

Foto words two by ms73 in DeviantArt

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Dor original...




Original é o poeta
que luta contra as ondas
mesmo quando sabe que se vai afogar...
O poeta que inventa o sol
em dias de chuva
mesmo que morra no salgado das lágrimas.

Original é a rosa
que brota solitária num jardim
sem temer a solidão
do vento quando este lhe toca...

O poeta é banal
porque chora
e tem medo como todos os mortais
que deixam passos na areia...
O poeta nunca será original
só porque sente que a sua escrita é imortal...
O Amor também dói
como dói toda a poesia no peito
mas até ele morre
como toda a gente...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

Foto de Pokosandiva in http://pokosandiva.deviantart.com/art/Je-t-aime-76434118

domingo, 30 de dezembro de 2007

Tirem-me a madrugada dos olhos!

A noite é o momento mágico dos poetas...

A hora dos sonhos e dos sonhadores

que nada mais sabem fazer

quando se alimentam de escuridão

e de olhares invertebrados...

Que não param para pensar

no tempo que passaram

de pernas fechadas à curiosidade do mundo...

Roubam-se palavras ao silêncio

e a dor de um grito profundo

encontra um refugio na lágrima de um amor perdido

e chorado num poema

escrito com sal e pimenta.

Não há luz...

Talvez o luar seja uma opção

para o poeta esfomeado pelas estrelas...

É noite e tudo é realidade

na ilusão dos dias.

Fogem amantes dos seus ninhos...

Porque as asas queimam

e o voo é desejado

com as bocas em fogo.

É noite...

Tenho uma onda na garganta

dificil de engolir

e nos dedos rebentam-me palavras sem fim.

Quero gravar aquele amor sonhado

no meu cubículo de papel...

Quero lamber as gotas de mel

paridas nos seus corpos...

Porque a poesia está nua

e os poetas já perderam a pele...

É noite...

Tirem-me a madrugada dos olhos

que eu ainda não terminei de sonhar

e a minha noite tem alma de criança.





Daniela Pereira

Direitos reservados

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Um livro infernal com olhos de anjo



Foto (Poetisa ao espelho-por Daniela Pereira)

Lê-me por favor!
Tira-me da estante e rouba-me a poeira do corpo...
Quero ser o teu tesouro mais bem guardado...
o teu objecto preferido.
Lê-me apressado
ao chegares a casa depois de um dia de trabalho...
ou então , lê-me descansado
num sofá juntinho à lareira.
De cigarro na mão...se quiseres ser um leitor com estilo...
Ou então,não fumes...se o fumo te incomodar.
Mas não me deixes esquecida
a sufocar com ele num canto.
Lê-me nos versos puros
com olhos de quem devora a sua última estrofe de carne.
Absorve-me no odor preso à capa
porque passeias nas minhas linhas
a imaginar todas as viagens que realizei com os meus dedos.
Leva-me debaixo do braço...
sempre segura ou só aconchegada...
mas mostra-me o sol que brilha lá fora
para eu ganhar outras cores.
Lê-me com cheiro a mar
ou molha-me com pingos de chuva
mas não me deixes com o sorriso humedecido.
Lê-me em poemas
e mostra-me emocionado
que me adivinhas as histórias...
mas lê-me inteira e com amor!
Procura-me nos segredos e folheia-me com cuidado...
Tens medo de me estragar a beleza
com a avidez do teu toque.
Saltita-me com os dedos no papel
e espreita-me nas palavras como se fosses um miúdo curioso.
Mas..não morras inculto de mim!
Partilha-me as emoções e empresta-me ao vizinho do lado...
mas promete-me que vais perder a cabeça
se me devolverem com os sentimentos machucados.
Fechas-me os olhos...?
Será que já te sentes cansado desta leitura...
supostamente infernal?
Então...atira-me à fogueira platónica
e quando me vires sucumbir nas chamas
com os sonhos a gritar de dor...
Recorda-me que fui sonhadora
e que com olhos de anjo ...sonhei para ti.
Depois...
Deixa-me voar
com letras queimadas na boca e cinzas fundidas ao peito...
Cheguei ao fim!

Daniela Pereira
Direitos Reservados

sábado, 17 de novembro de 2007

Sombras violadas no tecto

Vou fazer na minha noite escura
um cenário de luz com estrelas de papel
brilhando no tecto do meu quarto.
Do cobertor de veludo estendido na cama
faço uma mesa requintada
com dois corpos servidos na sobremesa.
Com a boca esborratada com restos de morangos
vou provar essa pele de pêssego
pedacinho por pedacinho
sem me preocupar com a falta de guardanapos de papel.
Vou lambuzar os dedos
com a doçura que escorre nesses lábios famintos
até empanturrar o amargo da língua.
Depois vou ficar de barriga cheia
contemplando em silêncio
a noite reflectida nas sombras do tecto.


Daniela Pereira in Cortar as Palavras num só golpe-Corpos Editora
Direitos Reservados