quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O Papa-jornais


Na minha rua existe uma personagem singular – um comedor de jornais. Devora todos os que encontra, quer os que são abandonados nas mesas do café, quer os que o vento empurra rua fora. Uma vez por outra, já o vi debruçado pela abertura do Papelão.
Como seria de esperar, está sempre bem informado, quer das notícias do dia, quer das de véspera que já todos esqueceram. Também por isso é motivo de falatório na rua. Estranham-lhe a bizarria – dizem.

A mulher que salga sempre a comida inveja-lhe a memória. O rapaz que sonha com pescarias no tanque do fontanário diz que ele assusta os peixes com a sua maneira ruidosa de mastigar. As primas que plantam jacintos nos charcos da calçada dizem que ele nem pensa na floresta. O oriental, de cujo livro, que lê constantemente, saem, de vez em quando, pétalas coloridas, olha-o de lado com desconfiança.

Tão grande mal-estar desapareceu, hoje, milagrosamente. Quando, esta manhã, saí à rua para comprar pevides de melão, as conversas giravam à volta dele. Todos asseveravam a bondade do Papa-jornais, que, afinal, não era assim tão esquisito, e que a sua preferência gastronómica até era útil para o asseio do bairro. E lamentavam-no com lágrimas nos olhos. Parece que morreu ontem de uma indigestão de Destak’s.

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Uma semana para esquecer


Na Segunda-feira, ao sair de casa, deparei com um carro estacionado mesmo em cima da passadeira de peões que dá acesso à minha casa. Incomodado, afixei-lhe a meio do pára-brisas um pequeno autocolante amarelo, que trago sempre comigo, que diz: Estacione bem – Respeite os outros.

Na Terça-feira, lá estava o mesmo carro estacionado na passadeira. Indignado, apliquei-lhe, desta vez, um outro pequeno autocolante vermelho que diz: Mal estacionado – Sujeito a reboque.

Na Quarta-feira, o carro estava outra vez na passadeira. Irritado por a minha acção pedagógica não resultar, levantei-lhe os limpa pára-brisas.

Na Quinta-feira, lá estava o carro na passadeira. Exasperado com tanta falta de respeito pelos outros, coloquei-lhe um pauzinho na válvula do pneu dianteiro direito. O ar ficou a vazar.

Na Sexta-feira, o carro estava, uma vez mais, na passadeira. Furibundo, dobrei e amarfanhei-lhe ambos os limpa pára-brisas.

No Sábado, o carro já não estava na passadeira, finalmente. «Há pessoas que só entendem a linguagem da violência» – pensei. Estava um pouco mais atrás. De dentro, um tipo mal-encarado seguia todos os meus movimentos.

No Domingo, o carro não estava visível mas verifiquei, com horror, que o pára-brisas do meu carro, bem estacionado, estava estilhaçado e do lugar do condutor espreitava uma perna, em cimento, de um tanque de lavar roupa.

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A carta anónima

Esta manhã, ao levantar-me, deparei com a seguinte mensagem, junto à porta, escrita com palavras recortadas de jornais e coladas num pedaço de papel: «/ milhões / anjinhos / visitaram / capataz / Bicicleta / servida / em saquinhos /».

Enigmática como é, não lhe liguei grande importância. Teria sido, com certeza, composta por algum grupo de miúdos desocupados tentando divertir-se à custa dum vizinho. Espreitei pela janela do quarto a ver se descortinava os malandrinhos alapados por detrás de algum arbusto. Ninguém. Atravessei o corredor e espreitei pela janela da sala. A rua estava deserta, ou antes, com os esporádicos passantes habituais. Nem sombra dos catraios.

Sentei-me no sofá e atentei melhor neste conjunto de palavras alinhadas no papel. Seria algo a levar a sério? Ná! Parecia tão desconexo, sobretudo a segunda frase.
De repente, um sobressalto. Pareceu-me detectar uma ameaça, velada mas grave. «Anjinhos» remete abertamente para a outra vida, ou antes, a morte. E uma bicicleta retalhada em pedaços e entregue em saquinhos pareceu-me uma ameaça típica da Máfia.
Senti-me empalidecer.

O tempo do verbo na primeira frase – «visitaram» – fez-me temer por uma intrusão já realizada. Levantei-me de um salto e vistoriei a casa. Tudo em ordem. Aparentemente. Espreitei para o quintal. O cão também estava vivo e de boa saúde. Estava entretido a remexer a terra. Nada parecia indicar que alguém tivesse entrado enquanto eu dormia. Aliás, o cão teria dado sinal.

Parei a admirar o seu dinamismo. Havia alguma coisa de estranho na maneira como se movimentava. Talvez a sua atitude furtiva. Observei-o melhor.
Foi então que percebi que a azáfama em que estava empenhado tinha por objectivo enterrar vários pedaços de jornal, uma tesoura e um tubo de cola!

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A noite aconteceu aqui...

A noite aconteceu por aqui...escureceu o meu quarto com rapidez e sem pedir licença! Com ela veio o silêncio cheio de segredos, de lamúrias dos apaixonados, de estratégias dos criminosos, de pecados das prostitutas ...A noite é imensa, está repleta de tudo e de nada.





A noite trouxe-me a escuridão áspera que me fere a pele. Trouxe-me os pensamentos longos e distantes acorrentados no porão do passado! As recordações caem como gotas de chuva no vidro da janela embaciada.





Finjo dormir para enganar a saudade que ecoa ao fundo do ventrículo direito. Ela chama por mim como uma louca!Parece um lobo a uivar! Não quero escutá-la, quero fugir, fingir se não consigo esquecer! Deixa os meus poemas sentirem essa saudade, não eu!





Uma sombra começa agora a surgir na parede vazia do meu quarto. Não são fantasmas nem a Morte!










É o dia que me vem salvar!





@Thunder



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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Aventura Gramatical

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.

Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parêntesis, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.
Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.

Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.

Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.
Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.

Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.

Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.

Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.

Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisto a porta abriu-se repentinamente.

Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.

Que loucura, meu Deus!

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.

Só que, as condições eram estas:

Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.


Fernanda Braga da Cruz*


* aluna de letras, que venceu um concurso interno, promovido pelo professor da cadeira de Gramática

Génesis


«O mundo era ermo e inóspito. Os pedregulhos erguiam-se crispados, sobranceiros à aridez dum mar de dunas. As areias estendiam-se, cálidas e mortíferas até ao horizonte. O céu, ofuscante de branco, não concedia qualquer matiz, em toda a abóbada exposta. Só o Sol ardente, a pique, presidia às coisas inanimadas.

Então, nos interstícios da rocha calcinada, numa brecha ínfima, por uma singularidade improvável, formou-se uma nesga de sombra. O espírito da árvore acordou, reconheceu a sua essência e formou um pensamento.
E um manto verde cobriu a terra inteira.»

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]