sexta-feira, 27 de junho de 2014

MOMENTO PROSAICO

Palavras e vida, concertos do corpo e da alma, um reflexo turvo, entre olhares cegos, atentos a uma conspiração interior. Imagens alternativas, momentos prosaicos… na arte do silêncio e da redenção de todas as metáforas. Paralelos e guindastes de uma entrega sem sentido ou a procura dos sentidos que se esfuma entre as entranhas da presença. Mas será que estou presente nessas presenças? E este momento como o posso entender? Será que sou capaz de me envolver nisso mesmo do qual sinto um chamamento? Tão complicado, confesso. Lanço-me e nunca mais volto, tentei e perdi-me de imediato, como tantas vezes. Tantas são as vezes que nunca chegam a ter possibilidade do momento que idealizei.

Silves, 27 de Junho de 2014 – 11:04h
Jorge Ferro Rosa
Escrito na Escola Secundária de Silves (Sala de professores)

DEVANEIO DO SENTIMENTO



O que dizemos das coisas? Dizemos! Perfeição requerida? Silêncio sem nome? Homeostasia do olhar? E para quê olhar? O emocional traça linhas de consideração, no jogo do ser e do estar. Não sei porque estou nesta consideração, na oscilação dos sentimentos, numa expressão sem relação, desvinculada. Todas as palavras são poucas e não quero outras, contudo, querer não significa que obtenha aquilo que desejo e o meu desejo oscila muitas vezes. Algo perturba o sistema do meu desejo, onde estou e não estou. As minhas emoções apelam a uma transferência fluídica, a um amor cuja ânsia é a minha “morte”!
Os meus sentimentos são forças que parcialmente mostram algo de mim, o mim é uma aproximação do “eu”, essa força estranha, num estado de actualização permanente; contrários executam o jogo do equilíbrio, em ângulos de compensação muito intensos.
Momentos insolúveis, alguns a que estou sujeito.
Paragem obrigatória, facticidade e fantasia de conceitos cujo critério é a tentativa de anulação do exterior. Estou, tento estar mas nunca estou e tudo é temporário, passa demasiadamente depressa.
Aproximo-me dos que me rodeiam, passado algum tempo afasto-me e tudo fica como se nunca os tivesse conhecido. Está em potência, dentro de mim uma luta entre o querer e não querer, isto é constante neste jogo.
Estou aqui junto do castelo de Silves, na esplanada do café inglês, tenho muito calor, procuro conforto, acabei de tomar um café, o preço aqui foi exagerado (1.25€), preço turístico. Enfim… os meus sentimentos são pequenos vulcões, cada vez me deixam mais confuso e o social lança-me a inibição da relação, uma vez que neste momento tenho consciência do inalcançável, o contexto de presença parece-me estranho.
Regresso a mim, pelas diferentes formas de sentir a realidade, no relevo do meu corpo, votado ao tempo, à ancoragem das situações numa métrica sem remetente de memória, enquanto o sonho embala a frescura da brisa que me acolhe.
O jardim dos pensamentos continuam a florescer… a orla singular toma-me num beijo lírico, com o verbo que vai solidificando a minha presença, ainda que só! Em meu torno falam inglês, não faço o mínimo esforço para entender… não. A música da tarde desfolha-se num compromisso declarado, na arte da tinta e nas rimas que me assaltam o espírito. Nomes, muitos nomes, demasiados neste movimento que me rodeia e a luz começa a escassear! Esplanada cheia… quase. Modos diversos, o pendor da sensibilidade, sentido convocado ao diverso, o espasmo do tempo das panaceias de ancestralidade, a presença do meu sangue colateral na flor do olhar.
As minhas vias são cordas que me seguram o corpo, neste silêncio implacável onde se relevam os mistérios da carne que possibilita a cor do espírito.
Ao longe o horizonte parece encerrar o seu espectáculo, a noite começa a chegar ante a desigualdade dos iguais! Tarde deverão, classificação de cenários, passagens, herdeiros da crueza das imagens, algumas escondidas, entre os traços mais vincados ante o arremesso da morada plena. Tonalidades diferentes, perspectivas da contingência do enlace das pausas. Expressão inolvidável, fruição deste delírio ancestral, o sublime trágico de um biografismo, este lugar, a minha morada, puramente factual, a iniciação de uma viagem em aberto. Impar momento, este, entre as coisas que ficaram por dizer. Tudo é muito breve e o devaneio do sentimento perde-se lentamente.

Silves, 26 de Junho de 2014 – 20:10h
Jorge Ferro Rosa
Escrito na esplanada do “Café Inglês”, em Silves.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

NO TEMPO APROPRIADO

A palavra recorta o tempo do olhar global, conjugando as secções dos equilíbrios atómicos, redimindo o meu desejo, transportando-me a um outro patamar onde vomitarei os meus sentimentos no papel antigo, como se isso pudesse resolver o meu vazio.
O dia do antigamente guardou pedaços de ti no bilhete de uma memória imortal entre os gigas de informação ao fluxo da corrente sanguínea. Gravo-te no DVD do meu coração e fazes a história da minha vida, sem que possas imaginar o quanto gosto de ti!
Missões, viagens ao planeta vermelho, na reconstituição ao ADN da alma, equacionando os momentos da física perdida.
Chegam as tecnologias e divulgas o amor… dentro do iPad, algo incontornável e o sonho ascende a uma nova dimensão. Sempre pensei em ti, de um modo diferente e navego pelos prazeres urbanos, invento nomes, mas não deixo de dizer-te o que sinto! Escrevo-te e aceitas sem saber que sou eu; transformo-me assim de um modo que te ultrapassa.
Todos os dias novas experiências… sensores da percepção. A nova era é inaugurada todos os dias, entre os prazeres da ocasião! O desejo atómico conduz-me para uma outra perspectiva, nas estradas da condução do amor. Esse sorriso da alegria funde-nos pela cumplicidade… alinho-te entre os felinos e o silêncio das aves, numa cristalografia espirituosa, ainda que me tenhas bloqueado no facebook e noutras redes sociais! Sei que estás lá… sei isso.
A vida íntima das palavras guarda-nos para sempre, na nossa galáxia tão diferente, à aspiração de uma nova via láctea. Pensamentos não-lineares sobrepõem-se, posicionam ritmos alucinantes, depois de uma micro pausa, ainda que estridente para o orgasmo dos sentidos intocáveis, ao teu (meu) sabor… passo ao silêncio e deixo que o corpo responda no tempo apropriado.

Porto, 02 de Janeiro de 2011 – 17:33h
Jorge Ferro Rosa
Escrito no café “A Barcarola”

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Não acordes antes do café da manhã ou destapas-me a vergonha



são quatro e meia da manhã e eu ainda acordada a ver-te dormir. a tua mão uma concha na minha perna. a minha perna apenas a minha perna. jantamos qualquer coisa que puseste no forno, delicioso como sempre. depois fomos ao cinema ver um filme da última sessão que tinha estreado. não me lembro já do nome. só de olhar para ti ao meu lado, tu a sorrires à pressa para voltares ao enredo, e eu a trincar com força o meu lábio inferior para ter a certeza que tu és verdade. depois o caminho para casa, uma música antiga no rádio, eu com vontade de dizer que também sofro de um problema de expressão, vários até, que a música é para ti ou como se fosse. sobre mim. que te amo e que não sei porquê a minha língua não consegue articular as palavras. tu sereno ao lado, os teus olhos azuis a iluminar a escuridão. (aposto que não sabes por que te chamo pirilampo) a casa que começa a aparecer ao fundo. mais tarde o quarto, tu a despires-te, eu a fingir que faço o mesmo, mas antes a tentar decorar todos os sinais das tuas costas. a cor exacta de cada centímetro da tua pele. depois o pijama aos quadrados brancos e azuis a cobrir-te o corpo. um rasgão na manga. e tu na minha cama. tu na minha cama. e eu sem saber o que fazer da música que me enche a cabeça e das flores que me querem nascer da boca mas não conseguem. muito menos da vontade de te decorar. de modo que continuo acordada às quatro e meia da manhã, com as minhas mãos no teu rosto na breve esperança de que estejas a sonhar comigo a contar-te do muito amor que te tenho.
[Também aqui]

domingo, 28 de dezembro de 2008

SIMPLICIDADE E SENTIDO

Procuro-te no infinito, mas isso não passa de uma abstracção, uma paralaxe após a matéria, num embarque de enlevos. A insuficiência da descrição gera o silêncio, deixando um trémulo de focagem. Só a razão clarifica, a fé ilude, injecta a ilusão.
Todos os efeitos ecoam a sua origem e a razão conduz o entendimento cada vez mais perto do primeiro princípio!
Ainda estou distante… o cansaço apodera-se lentamente para que o corpo se desprenda! Vamos a isso? Interrogo-me imensas vezes acerca do nada e nada sei, ou a possibilidade de saber presentificado é apenas uma ilusão. As vivências são manifestações da realidade… um atrito separa as formas, sobram ideias que procuram o seu repouso, uma possível adequação. Adequações…!
Nenhum sentimento é universal, o que interessa é o lado prático, aquele que produz, aquele que cria, que é motor gerador de situação.
O tempo conduz-te para as propriedades íntimas da matéria onde perdes a noção da presença e o esquecimento anula o ser. O acesso está desprovido da essência, por isso nunca estás, és aparência, projecção… ainda que te tente dizer, nunca estás, ficas distante, numa ebulição e evaporando, lentamente. Tenho por aqui uma presença temporária, tal como tu, apenas o regulamento mantém as situações e os desfasamentos. A cegueira absorve-te, pois que fiques nessa preocupação, eu, lentamente me irei afastando de ti, até à ausência total. Não vale a pena chorar, o fim anuncia-se! A harmonia unifica e reconduz a desordem para o adormecimento da origem. O sopro eterno promove o esquecimento, reconhece a estabilidade do sono sem a preocupação do restante. O único sentido é o sentido da harmonia, onde não existem preocupações. A matéria é motivo de apego… é esta azáfama que produz a inquietação, a angústia, nas suas diversas manifestações. A razão ainda vive o seu estádio de infância, abe-lhe o amadurecimento! Ainda é cedo… não compliques o que é simples.

Fuzeta, 28 de Dezembro de 2008 – 13:02h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

NA DIALÉCTICA DO VERMELHO

Perco-me na procura de mim, entre a doçura dissimulada, no arrojo do espírito que se perde na libido, no verbo sânscrito, entre a metade da incompreensão.
O cantar vulgar amordaçou o ventre do bem e do mal, onde a suavidade acrescenta uma alcova contemporânea, tomada da letargia das horas místicas. Falas da minha filosofia e dos encantos que o coração não contorna.
As pedras continuam duras com o sopro ausente do invisível, conjugando a lei da estética.
Ética privada e depravada, prostituída pelo inconsciente… lugares mitológicos, carne e sangue no erotismo do espelho degradado a um eterno retorno de refúgio.
O verbo maldito não possui mais piedade, ficou contaminado pelo retorno, pelo sexo instintivo onde repousa depois das horas dos porquês. A visão sublime desorganiza-se, encarna no gesto das metáforas, depois do café em comunhão!
O enlevo da carne torna-se impessoal, sustenta a figura do multiplicável nas orações do caminho das flores, violetas e orquídeas, ante o espelho renegado, por uma ilusão que a aurora sustenta.
Tomo no meu sangue a ilusão cósmica, o juízo das coisas que se perdem no jardim da corrupção. Não sei o que resta… as horas foram prostituídas e o conceito de Deus não tem acordo possível! A discussão é uma constante… não existe comunhão, corromperam-se as posturas e os prazeres e o mestre da boa vontade está morto.
O meu livro das gargalhadas foi tomado pelo cântico dos ventos e o ribombar dos trovões, a um visionário de misóloga visão.
Ofereço-te o trópico poético de um texto profanado, na batalha dos mitos e da luz trémula. O teu olhar missionário não guarda mais a parábola das horas, nem o sol nem a noite, apenas a dialéctica do vermelho no silêncio da premonição.

Tavira, 26 de Dezembro de 2008 – 13:16h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

ELEMENTOS DE UNIFICAÇÃO

No seio da ânsia profunda acolho-te ainda que o teu silêncio humedeça o meu olhar e todos os corolários da grande passagem. Guardo a tua palavra pela máxima compreensão dos encantos entre o anónimo de uma passagem ocasional. Ainda tenho nas veias a sedimentação do todo, a vaga flutuante do templo do amor! Sou a tua ponte, o universo do inacabado por um maior granjeamento, voluptuoso… senti-me cúmplice da floração no momento de aceleração da imagem. Profanei uma vez mais o olhar da manhã, tomei-me na poeira do tempo entre sucos purificados ao fôlego da existência. Todos os sabores tomaram-me no anónimo do tempo! Vou com esta fisionomia, não posso ter a que não tenho, apenas estamos separados por uma muralha que tu criaste naquele dia. A minha pátria também é a tua, o que nos separa é a água da nascente e o vento unificado.
Sou contigo no suspiro implacável, na ânsia funesta e deserdeira, onde as pregas da palavra insuflam cadencias, mecânicas de um novo compromisso. Não quero compromissos, sempre te disse isso!
Uma luz brilhou em agradável momento, numa ardência de inspiração por um timbre silencioso.
A mecânica dos laços ainda faz mover a grande roda do tempo e as palavras do grande livro enchem as veias de renovada serotonina! O encanto é fogoso… continua a arder no grande império ante a forja do corpo alveolar. A epiderme é o nosso elemento de unificação, somos na respiração o grande encontro e a vontade de fervor desdobrado.
Na força do meu desejo escondes a tua existência… pela dinâmica múltipla da identidade concilias o ideal do encanto que fica por acontecer.

Tavira, 17 de Dezembro de 2008 – 11:49h
Jorge Ferro Rosa
Escrito no café “Veneza”. In Caderno da Alma

sábado, 29 de novembro de 2008

A PALAVRA QUE GUARNECE

No laço que o meu peito dá enlevo deixo-te a palavra que guarnece a felicidade, outras ficam por dizer, de todas, a maior é a amizade, aquela enorme, a totalidade que faz do fim o princípio do viver. Amizade, é a semente que deixo para que no teu coração possa crescer.

Olhão, 29 de Novembro de 2008 – 17:55h
Escrito no Clube da Simpatia
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

sábado, 11 de outubro de 2008

NO INEFÁVEL DA ARTE

NO INEFÁVEL DA ARTE

Perco-me na arte, na escultura que a natureza concebeu, no momento de todos os momentos, por traços cada vez mais totais, mais perfeitos, mais cheios de desejo, com todas as cores, desde a manhã e a noite. Somos noite e o dia exibido! Somos neste reino de sentido por vezes proibido.
Artes, talvez um pouco daquilo que o espírito contém, talvez! Direi talvez, porque não sei, não posso saber, quando tento saber disso que deve ser, perco-me no esquecimento e toda a verdade derrama-se na terra do esquecimento. A arte é mesmo este esquecimento das coisas prometidas, das coisas que te digo, do que te continuo a dizer e tanto que não podes avaliar. Hoje foste capaz de avaliar tudo o que fiz, tudo o que disse e escrevi e a arte traçou uma nova aventura. Sabes bem que toda a nossa arte conjuga-se na arte da existência e de tudo isso que foste capaz de traçar no reino dos sentidos. Apurei todos os sentidos e os sentidos lançaram um novo ser, o ser que te foi dado a tomar, no corpo singelo e complexo, mas total. Apuro as palavras e apenas ficas no lugar inefável.

Vila Franca de Xira, 11 de Outubro de 2008 - 23:32h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

domingo, 21 de setembro de 2008

As águas que choram algures

As águas que choram algures acariciam-nos, levando de nós e das nossas vidas tudo o que é impuro, tudo o que já não serve e que a alma já estranha...
Peço à chuva que dance em mim e me ajude a deixar para trás o passado e todas as suas amarguras...
Nas minhas margens, resta o silêncio perante a vida que foi mas já não é, a vida que muda a cada instante e transfigira experiências e sentimentos...
O vento mágico devora a chuva caída e os restos de tudo... de tudo o que passou de tudo o que tem de ficar para trás para nos libertar do seu peso e nos permitir prosseguir...
Qual de nós sabe que chão pisa?... E ainda assim pisamo-lo... vendo-o por vezes virar-se contra nós, como se tivéssemos outra alternativa além de pisá-lo...
Sinto frio na alma, como tu... o frio do vazio deixado pelo passado que se esvai à medida que um presente novo e desconhecido se instala, um presente bom, prometendo ser quente, mas que ainda é frio e desconhecido... um presente que não deixa sulcos, ao contrário desse passado de que me pretendo desprender... não me reconheço, sempre fui susceptível a sulcos, parece que não me deixo atingir já como antes...
Um corpo é sempre frágil; este move-se apressado, tentando esconder dos demais os seus medos e as suas confusões... numa dança de palcos fantasiados que aos poucos se transformam em realidade, perante a minha espupefacção... e a minha vida sedenta de beleza vai-se enchendo dela... não escondo nada do vento nem da chuva... tudo o que precisar ir vá, sem dó nem piedade... não desejo nada que pertença a esse passado, nada que não me pertença a mim.
Abandono quem fui aqui e deixo-me acariciar pelas águas que choram algures...
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Prosa poética inspirada após as leitura do poema
"Abando-me aqui" de Piedade Araújo Sol http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/
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Autora :Porcelain Doll
Foto:Q

quarta-feira, 23 de julho de 2008

PRAZER OU LEI DE SI MESMO

Falo-te da experiência do prazer, ainda que este seja filtrado pelo pensamento! Entendo que seja muito complicado falar-te daquilo que na sua verdadeira esfera é abismal, dando-se no imediato de si. Nada de patologias ou transfigurações maiores… Constituis uma dessas dimensões na grande dimensão da actividade livre do grande jogo da alma. Não te vou falar do caderno da alma e os desvios tresmalhados, mas disto que me direcciona, face à minha modéstia força ante o sentimento de prazer convertido, na admiração de um foco, ao que se obedece. Não te admires, mas toma em ti a felicidade que é possível e não derrames o fôlego do espírito nem coloques em causa o que não tem razão absoluta. Respeita e cumpre a palavra porque tentarei fazer o mesmo… já comecei. Doseamos o racional com o sentimento. Como sabes, o sublime arrasa e assinala momentos específicos de que não se pode dar conta! Perco-me! Viste isso! Será que dás conta de mim nesta cobertura que alimenta um outro tipo de conhecimento do prazer? Será? Nada de espanto! Encontramos nos obstáculos grandes experiências particulares, são estes dados que nos aproximam daquilo que fora dialogado parcialmente. Pouco ficou esclarecido… abriu-se uma fronteira que carece de elucidação face aos procedimentos em causa.
A alma tem o seu poder, ela afeiçoasse com as suas regras e os seus modos, integrando, traçando diversos caminhos da imagem, pela surpresa daquilo que está disponível. Este estado não conhece preenchimento definitivo, nada toma em si, mas exerce o núcleo da entrega. Entregamo-nos no momento para o momento, onde os sinais excluem o raciocínio. Agora falta preencher a rigor o entendimento da forma disso mesmo que me falaste pelo diálogo construtivo. O segredo do funcionamento do teu olhar neste diálogo ultrapassa a minha percepção, a minha imaginação… reside sim nesse foco um emblema, cuja imagem não consigo reproduzir na totalidade, escapa algo ao que me causa grande dificuldade. O julgar perde-se pela ausência de imagem, como a do teu sentir face ao meu. Não julgues muito, orienta o fim e ajusta-te do modo agradável…
A experiência alarga o olhar e vamos fazendo construções… a relação que temos é uma construção, onde buscamos um sentido, a orientação para o fim prazenteiro. Não será agradável?
O sentido do sentimento é interior ao sujeito onde a compreensão unifica determinados princípios de uma disposição específica em acordo com a produção das vontades e das intenções um dia fundadas. O fim foi o acordo… lembras? Isso. Perfeito! Apresento-me pela ideia da forma na conformidade do desejo, orientado pelo fogo da imaginação. Nada de derrubar o ponto de vista contingente, nada mesmo… sustenta aquilo que puseste à vista! Avança pela concretude e mantém-te como és no respectivo contexto de implicação; reavalia toda a situação porque nada mais do que isto para fundamentar todo o sentido evocado.
No seio do grande fogo não existem mais regras, somos a força do sentido no comportamento particular da lógica unificadora. Neste acordo, é bela a unificação dos parágrafos que construímos, fundindo o gosto e ultrapassando os critérios impostos, esses circunscritos à nossa revelia. Ilumina a dificuldade pela afeição, toma-te para lá do plano crítico.
Este diálogo produz a nova forma, a força exemplar, o concerto perfeito, o único, cujo trilho vivencial é singular, alimenta a leveza do encontro que não esgota… o prazer. Estamos em vida pelo prazer! O prazer é a lei de si mesmo, a esfera que não constitui outras representações. Não penses na forma, toma-te na acção da vontade e deixa o vulcão lançar as suas lavas… lá fora começa o calor e o tempo apresentará a verdadeira resposta que entendo ser insuficiente. Não prives lança-te no projecto tomado por acordo, o acordo vivencial do prazer que ilumina a dificuldade! O passado permite a reflexão e o presente é a verdadeira realidade daquilo que temos, o fundamento deste estar aqui.

Vila Franca de Xira, 23 de Julho de 2008 – 02:03h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

segunda-feira, 21 de julho de 2008

MERIDIANOS DO ENCONTRO

Pedaços de folhas soltas constroem uma grande verdade, autentica, sustentando o difuso do nosso envolvimento, as memórias e os segredos do perfil por rostos que o imaginário retém em memória. Este rosto vinha do passado, na ressonância do silêncio, com os feitiços do crescimento, ainda que a nostalgia balouçasse as sobrancelhas do berço perpétuo.
Os meridianos do nosso rosto guardam sempre um misticismo dourado, conduzem a terra do coração pela espessura do sorriso.
O espelho da tarde traçou os puros devaneios do epílogo arrefecido e a dança foi um culminar do projecto dos anos. Os meus olhos brilham corrosivamente, descem o rio das lendas repousando no campo da tua paz. Os pequenos segredos guarnecem as nossas viagens, as fontes da abertura unificadora, este todo tornado unidade que desliza na dança do amor pelas horas que se conquistaram.

Vila Franca de Xira, 21 de Julho de 2008 – 09:34h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A face escura da noite


quando o medo se nos apega à pele não há fogo ou sol ou canto de pássaros ao entardecer que o destrua. porque estamos presos às raízes da infância. no caso dela, ao medo das palavras gritadas do outro lado do telefone. e nem mesmo o barulho das ondas ao fundo a salvou do sangramento diário do coração.
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[Foto: Andreaa Anghel]
Também aqui
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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Com as luzes apagadas

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tinha decidido fechar o coração à chave. em vez disso abria o corpo a quem parasse à sua janela e a olhasse.
até que o corpo se cansou e começou a tremer. nunca tinha sentido nada de semelhante. as mãos primeiro num desassossego, as pernas depois, todo o corpo de seguida.
desejou então que lhe contassem uma estória de princesas, fadas e jardins secretos, como quando vivia de olhos fechados, no sonho. mas os monstros que tinha deixado ficar na sua casa sabiam apenas de entradas forçadas e violentas. nunca tinham ouvido falar de um rosto encostado a um peito, de abraços apertados ou de palavras sussurradas durante o sono. quis livrar-se deles mas a fechadura do seu coração há muito que estava enferrujada, não havendo, portanto, chave que a libertasse.
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sexta-feira, 20 de junho de 2008

PARA LÁ DAS PARTÍCULAS DO IMEDIATO

Não vou fazer mais desenho nenhum, nem para isso reúno preparação, apenas vou, sim, vou… coloco a mão em cima do papel, deixo que o tempo avance, olho as curvas, apito no momento, procuro sustento e navego no vazio. Continuo a navegar. Teclo no absurdo dos rios que não correm, lanço-me na viagem dos enigmas, penso um pouco e as sensações são cada vez mais diferentes! Torno-me ausente ficando presente, na rota dos empurrões. Olho a sala vazia, com o silêncio que preenche os cantos e os vermes são invisíveis. Espaços com veneno, ácido, corrosão metálica… caveiras no braço! Implicas com as minhas caveiras, o fim último antes do pó… que aborrecido, toca-se sempre a mesma tecla, repetem-se as tretas da existência e o cansaço absorve as multidões. Sim, também estás lá!... Estamos lá. A saudade é um chamamento; chamei por ti, tu não ouviste, pouca importância dás ao que tem valor, sei que o valor é relativo e as posturas são divergentes. Não faz mal, já me habituei, sigo outros caminhos, esses que se possam ajustar aos meus estados de espírito, ainda que o teu entendimento se altere. São sabores da vida que dão cor à existência! Por aqui, por ali e o todo é espartilhado em átomos e moléculas, experiências de possibilitar a reflexão. Códigos e números que se combinam uma entrega redutora. As diversas reacções da existência exibem o efémero, decalcam as posturas e servem as bênçãos do prazer e as suas contradições.
Deste lado, olho para o outro lado, o que me permite tal contacto é a janela da sala; sinto-me como que numa prisão, com critérios diferentes… serviço da inutilidade de mim sendo útil. Serviço a cumprir! Mais uma, mais duas e outras se seguirão. A mesa está cheia de papéis, canetas, lápis… duas pessoas na frente, exercem-se concentrações sobre o exame, tudo se confirma, tudo é importante, decisivo para o futuro de alguns. O pensamento dá voltas, exercitam-se os neurónios, roubam-se sorrisos na faixa da frente.
Nunca mais chega o fim! O mergulho é feito de disposições enquanto se pressionam teclas, enquanto se assumem dígitos, caracteres que envolvem a animosidade do humano. Não, não te vou falar de ciência nem de filosofia, apenas estou rodeado de partículas enquanto os curiosos anseiam por saber o que estou a fazer. A cidade emite o seu ruído específico, este envolvimento faz esquecer outras situações e a tarde aproxima-me da noite, guardando as virtudes do segredo envolvente, para lá do sono e do sorriso.

Aveiro, 20 de Junho de 2008 – 17:46h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Os monólogos insurrectos - XII

Ainda há mortos por florir nas âncoras. Não falam. Trazem seringas na boca e o sangue cosido à terra. Fundam raízes de linfa e abdicam das veias, nada após nada, somando os lábios ao coração das petúnias. Os mesmos mortos.
Assinam a noite. Vêm do horizonte das valsas, sem leme, com certidões de ódio vedadas a solidão. O mesmo silêncio, o mesmo quebranto. Os mesmos mortos.
Se falassem, estaríamos ambos mais longe do dom dos cancros. Eu e tu. Inscrevem-nos os órgãos por ordem alfabética e aguardam, clandestinos do destino, em idades vazias à beira do incesto.
Vem. Longe é uma palavra que arde na boca. Velemos a pele que jorra dos ossos como perfumes em lume brando. Levemos ao altar a tibieza das formas e enchamos os adros com exércitos de búzios. Ouve-os. Dentro estão as pautas da última chuva, quando o mundo era ainda uma janela plácida de barcos a ovular.

terça-feira, 27 de maio de 2008

URGÊNCIA DA ESCRITA

Algo acontece, algo surge em mim e vou sendo nesta força que me exibe!
Tu passas, chegas até mim, olhar e questionas... vais embora e deixas a sombra.
Muitos são os desejos e as palavras não cobrem o envolvimento, porque a casa ficou vazia.
Lembras do vazio do passado? Ficou lá. Vim aqui para escrever, para ir sendo tal como tu, como tudo o que é. É urgente dizer-te que não te direi. Sim, não te direi, deixo que chegues pelos teus próprios passos. Os passos custam a dar, não dês, sente os teus pés que vou tentar sentir os meus. Aqui, os meus dedos ainda deslizam e o meu pensamento discorre... não sei até quando.
O telemóvel toca, continua a tocar, mas, não posso atender, é mais urgente escrever, ficará para depois. O depois já é depois do agora, por isso é que é depois. Calma! O amanhã anula o dia de hoje e não serei mais o que sou agora, este agora que passou após a inundação do digito seguinte… é por isso que acontece a urgência da escrita.
Acabei de ser mordido por uma melga! Coisa aborrecida. Sim, acabei de dar sangue a um mosquito... preciso colocar algo para atenuar a couceira. Preciso. Estou em casa e em casa vou continuar. Tenho bastantes testes para corrigir, o final do período está aí e é urgente dizer o que não foi dito. Vamos dizer se restar tempo, o tempo de dizer.

Aveiro, 27 de Maio de 2008 – 17:40h
Jorge Ferro Rosa, in http://myspace.com/jorgeferrorosa e Caderno da Alma

sexta-feira, 2 de maio de 2008

NO ACRÉSCIMO DAS CONTRACÇÕES

O mundo parece cada vez mais desconcertante, trocam-se fluxos materiais, num pulsar intenso de energias. O universo encontra-se numa contracção constante, tomado por êmbolos invisíveis, grandezas que ultrapassam as expectativas do impulso sensível. De equilíbrios e desequilíbrios forma-se o jogo! A vida é o jogo de acção e comunicação de fenómenos, situações menos habituais mas evidentes nos seus estranhos comportamentos. A ânsia é pelo equilíbrio, aquele que na hora do silêncio te falei.
Processos somam-se a processos… a instabilidade implica sistemas, probabilidades no acompanhamento de simetria. A energia agita-se no grande complexo, este que sendo meu também é teu. Criam-se necessidades, vertentes crepusculares na ordem dos enlaces da noite. O potencial do ser está em tensão e a aventura do conhecimento cria condições exigentes, somas de vida mesmo no insignificante, interacções megalómanas de extensão! Invasão de hierarquias… crenças nos deuses de faz-de-conta, o inapropriado que se consola com a baralhação, somas de tudo que não são nada. Tomo-me na trajectória do parêntesis e vou na desorientação do tempo infinitesimal, no movimento da linguagem fisiológica, execução e maquinaria, o modo mais próximo do ambíguo. Criou-se um vácuo e a visão exibe um outro espelho, sem parágrafos, apenas apropriação de possibilidade, na relação de probabilidade linguística, um todo de vibrações que se anulam na lentidão do tempo que ainda não é tempo.
Fico contigo no acréscimo das contracções sem resposta, fico sem mais, assim, no arquipélago das metáforas.

Aveiro, 02 de Maio de 2008 – 21:32h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Morada de silêncio


as certezas trazem-me pendurada no fio das realidades quotidianas. caminho pelos dias como quem nada espera. sentada nesta mesa pintei um mundo que fica para lá do horizonte. mas a noite devolve-me a monotonia, os medos e uma casa que guarda demasiados rancores. fujo. conheço as palavras que fazem uma existência feliz. escrevo-as. penso como gostaria de dizê-las. mas é no silêncio que moro. é para lá que volto sempre.
[Foto: Robert Gojevic]
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quarta-feira, 2 de abril de 2008

PRETEXTO DE CIRCUNSTÂNCIA

O tempo mata! O tempo é o maior inimigo e o maior conselheiro, o tempo traduz a possibilidade daquilo que é… é neste fluxo que este escrito ganha corpo enquanto o sorriso acende e apaga. No tempo a grande verdade silencia e adormece e o seu rasgo é a ausência de respiração.
Interrogo-me, estou condenado, não tenho hipótese, ainda que neste momento esteja em vida, tal como aquele que lê, eu neste momento enquanto escrevo estes caracteres; o resto não serve para nada, nem nada posso esperar do quer que seja. Sou na derradeira existência absurda onde todos os nomes são balas de distanciamento!
Dogmas e posturas caricatas encurtam o fôlego da liberdade, amachucam os filamentos da existência do sujeito, conduzindo-o para as portas do degredo. A existência converte-se em abismo, cuja derrapagem desemboca no precipício do silêncio intemporal. Todos os dias a surpresa estende o seu manto na actividade da decadência. Os fôlegos do sabor existencial são assassínios, deixando tudo em colisão até à pura extinção cuja desfragmentação envolve um processo do qual a consciência não é atrevida. Situações temporárias de remedeio é o que resta, o resto são possíveis suposições para apaziguar o envolvimento do nada e tão subtilmente a ausência de fôlego acontece ainda que as crenças religiosas um dia se tenham implementado como salvação… a salvação é a não salvação, diga-se ou acredite-se no quer que seja, não existe modo de dar volta à situação. O início ergue-se na tensão do fim, esse “isso” tende ao lugar do antes de ser “isso”, sem consciência, o irremediável da situação construída. Resignação absoluta dadas as circunstâncias… vergo-me, a frustração é a impotência onde tudo o que existe não tem sentido algum! A hora derradeira é absoluta… confesso-te que o desprendimento das coisas e dos outros é a verdadeira paz, isso que absorve para o nada eterno. Todas as filosofias tentam fazer brilhar o lugar escuro da eternidade, posturas de esperança gritam e tudo não serve absolutamente para nada! Lembras daquela conversa quem um dia tivemos? Ainda consegues? Que tal está o corpo? Alguma preocupação? Ligação mente corpo como vai? Não digas… o tempo é a própria resposta à situação! As situações criam-se por si e os pretextos tendem a manipular os mais fracos. Entendo a tua postura… todo o significado que um dia tiveste, o próprio tempo o roubou, desliguei-me e deste modo lancei-me na ausência. Todas as palavras que te possa dirigir não servem para nada uma vez que a credibilidade passou à história.
Sabias que a esperança mata e o tempo é muito curto? Tudo o que te digo passa ao lado… confesso que não estou preocupado uma vez que me cansei das tretas e banalidades, desses pretextos de circunstância. Detesto esperar dos outros o quer que seja, tal postura é condição de inquietação, tal como a promessa de um café que nunca acontece.

Aveiro, 01 de Abril de 2008 – 22:16h
Jorge Ferro Rosa, in Fronteiras