segunda-feira, 14 de abril de 2008

O teu nome a velar-me os sonhos


As palavras não ditas, Não gosto do teu sotaque lisboeta, mas amo-te, pesam-me como 100 anos no meu corpo. Não acredito em contos de fadas, mas sei que és uma estrela cadente que caiu na minha varanda numa noite de lua cheia. Mas hoje lá fora está escuro, amor, e a chuva cai sem piedade na janela do quarto. Não sei o que fazes em noites como esta. Sei apenas que foi naquele beijo em frente ao Tejo que fiquei com o teu nome na boca. Voltarei a dizê-lo agora durante o meu sono. Tivesse eu a capacidade de viver a dormir e era lá que te teria.





Nem o tempo vai chegar
P'ra dizer o quanto eu sinto
Você longe de mim
É uma especie de dor
[Rodrigo Leão]


Foto: Graça Loureiro
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sexta-feira, 4 de abril de 2008

por...menor



3 coisas que o sábio deve evitar:




Esperar o impossível.
Chorar pelo irrecuperável.
Temer o inevitável.



"De que nos serve o corpo...se não temos a alma?"
foto
daqui

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Morada de silêncio


as certezas trazem-me pendurada no fio das realidades quotidianas. caminho pelos dias como quem nada espera. sentada nesta mesa pintei um mundo que fica para lá do horizonte. mas a noite devolve-me a monotonia, os medos e uma casa que guarda demasiados rancores. fujo. conheço as palavras que fazem uma existência feliz. escrevo-as. penso como gostaria de dizê-las. mas é no silêncio que moro. é para lá que volto sempre.
[Foto: Robert Gojevic]
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quarta-feira, 26 de março de 2008

Resquícios pascais


as noites bem dormidas denunciam o habituamento à solidão de um corpo isolado. toco as minhas mãos e sinto-as geladas. não sei quando deixei arrefecer o meu coração, nem quando deixei de sentir a tua falta. queria acordar amor. mas não acredito na ressurreição dos mortos.
´


[Foto: alicja pietras]
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quinta-feira, 13 de março de 2008

A rotina é a sanguessuga dos sonhos


rodou duas vezes a chave depois de bater a porta. tirou os sapatos gastos de pisar dias e arrumou-os à entrada. abriu o velho frigorífico. fechou-o. aqueceu a comida feita há dias e que lhe vai forrando o estômago nas noites, e acendeu a televisão. sabia de cor o que passaria em cada canal desde a precisa hora em que se sentava no sofá até àquela em que desligava o aparelho. ria, chorava, apaixonava-se e julgava-se igual às personagens que lhe preenchiam as noites. vivia por substituição. de vez em quando o telefone tocava. e aí vestia a sua personagem de mulher independente e dizia
- está tudo óptimo
mas a verdade é que há muito que não sabia o que era afinal estar tudo bem. perguntavam-lhe e a resposta saia maquinalmente
- está tudo óptimo
o emprego certo, o dinheirinho ao final do mês, a casa alugada nos subúrbios da velha cidade, a missa aos sábados, os almoços em família aos fins-de-semana, o passeio de tarde aos domingos
- está tudo óptimo
a voz segura, as certezas nas palavras, a atitude madura, os passos certeiros
- está tudo óptimo
as onze horas e trinta minutos a bater no relógio avisavam-na da hora de dormir. obedeceu. maquinalmente carregou no botão off do comando da televisão, pegou no pequeno tuppeware de etiqueta amarela que reservara no fim-de-semana para o dia seguinte- cozido à segunda, estofado à terça, sopa à quarta, umas sandes à quinta. e sexta logo se vê, talvez vá àquele restaurante perto do trabalho. dizem que fazem lá uns bifes muito bons.
apagou as luzes e fechou os olhos. dormiria oito horas certas, sem sonhos (a rotina é a sanguessuga dos sonhos). amanhã recomeçaria tudo outra vez.
- (está tudo óptimo)
Por isso, disse para mim mesmo que tinha de levar aquele.
Porque o Pai dizia que os relógios matam o tempo.
Dizia que o tempo está morto enquanto se for esgotando
no tic-tac de minúsculas rodas de engrenagens;
só quando os relógios páram é que o tempo ganha vida.
Os ponteiros estavam estendidos, não rigorosamente na horizontal,
mas com uma ligeira inclinação, como uma gaivota planada ao vento.
Prenúncio de tudo o que me costuma entristecer,
como a Lua nova é prenúncio de chuva, como os negros dizem.
Foto: Katia Chausheva
Excerto: William Faulkner
[Também aqui]

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Se ouvir




















Há luz, há cor
em todo esse labor
da tua escrita.
Mesmo da palavra dor
se solta amor:
é isso que
- se te ouvires -
tu gritas.

in Ver inVerso

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

wake me up


A Primavera trouxe pendurados nas copas das árvores pedaços de memórias tuas. Mas dentro de mim vive ainda uma estação que desconheço. Que não muda com a chegada das primeiras flores ou com o canto dos pássaros pela manhã. Procuro-te ainda em todos os rostos, em todas as coisas. És uma sombra que me cobre com o seu manto e me faz manter as janelas fechadas. Tenho medo da luz. Medo que ela não te devolva como te devolve ainda o meu sono.

Foto: June Miller
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domingo, 10 de fevereiro de 2008

O amor é fodido


A minha bondade deve ter sido pouca para eu tê-la gasto toda contigo. Mas o meu amor era imenso. Escusavas de tê-lo açambarcado todo. Pobres coitadas que me levarão ao Inferno. Tão merecedoras de carinho e tão desinteressantes. Eu bem lhes dizia "Não me ames - deixa-me ser eu a amar-te"... Mas as mulheres do que gostam é amor. Sobretudo quando não há ali mais ninguém que se preste a isso.
Acordo às cinco da tarde e o meu dia, sem que eu deixe, já começou - as páginas felizes por ficarem brancas, as pessoas aliviadas por eu não lhes falar. Um dia o meu dia há-de ter um atalho à minha beira, um caminho por onde eu possa seguir - mas duvido.
Sou um eremita. Tornaste-me num perito da saudade. Não posso estar contigo. Não consigo viver. Sou impróprio para consumo - um incontestável peixe grande, fora do seu habitat, que nem sequer se conhece. Serei um lembrador, uma conservatória, com os meus assentos de mortes e nascimentos. Tenho jeito para recordar - é a única coisa que me resta fazer desde que nasci. Tive sempre consciência que os momentos e as experiências eram só matérias-primas, primeiros passos - os únicos.
Serei o teu lembrador, quem te lembra, quem te aproxima de quem eras. Não falarei com ninguém, mas ai de quem vier falar comigo. Hei-de chatear toda a gente com a tua pessoa. Ai, as histórias que vou contar, nunca mais acabarão, serão feitas só de coisas simples, como cafés e cinemas, nada de íntimo ou de interessante, só banalidades, daquelas que dão cabo de mim, que não consigo esquecer por mais uma - nem Deus, como vou chorar! Ninguém se poderá ir embora. Vai ser uma tortura. É bem feito para não se meterem com quem não foi feito para viver.
Se alguém me mostrar algum sentimento, como-o.
Hei-de ser o caseiro do teu coração, no sotão do meu. Guardarei os teus restos num caixote da minha cabeça. Serei quem se lembra de quem tu eras e em nada me impedirá o facto de eu não fazer ideia do que isso seja.
Miguel Esteves Cardoso
Foto: Katia Chausheva

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Uma bomba relógio no peito


É melhor
fechares
os olhos,
meu
amor,
antes que o
mundo
inteiro seja um
incêndio.

Os ventos todos
fechados dentro
da minha mão.
quantos ciclones
queres?

Procurava
nos outros a
ternura, mas
só encontrava
poços cheios
de ódio e
nitroglicerina

Aquele
poema,
ao contrário
dos outros,
tinha pólvora.
só lhe faltava
o rastilho.

Éramos
rebeldes por
sistema,
a sonhar uma
revoluçao por dia.
à tardinha,
na esplanada,
bebiamos um
cocktail molotov.

O terrorista
apaixonado
carregava, às
escondidas,
uma bomba
-relógio
. era
no peito. era o
coração.
Em contagem decrescente
Dez, nove, oito, sete
Cresces
Seis, cinco, quatro
E entras dentro de mim
Três, dois, um
Fogo de artifício.
Constelações de estrelas.
O teu olhar que queima.
[Foto: Graça Loureiro
Música: Naifa]
(Também aqui)

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Poesia e fotografia versão experimental

Eras como o cão no veterinário. Trazias na cabeça um funil invertido para não te lamberes
(como se as costelas não te impedissem)
. Há já muitos anos que tentavas poesia, mas deixá-la em paz
(como ao cão que lambe os tomates)
, que é já tão fácil fazer, tão fácil compor. Mas não tinhas fotografias tratadas, imagens de braços abertos e poemas de amor
(e escreveste sobre o cão com o funil que não se conseguia lamber)
como quem escreve sobre si mesmo depois de vir do médico a retomar maleitas antigas e recentes.

Isto é prosa poética com origem na produção “Kranker Hund” de Michael Sowa.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Grito calado


Sento-me nesta sala apagada e escura. sozinha.
Lá fora é tarde e a cidade já dorme.
E penso que sou como este tapete onde me deito:
Pisada, asfixiada.
Quando foi que perdi a capacidade de gritar?

If I lay here
If I just lay here
Would you lie with me
and just forget the world?



[Excerto: Snow Patrol
Foto: Katia Chausheva]

domingo, 23 de dezembro de 2007

Para ti

Penso deitar-me, mas não conseguiria dormir. A minha mente ecoa memórias agora distantes, que me sufocam o peito com saudade.
Olho o relógio e sei que dormes. Imagino-te deitado. Vejo-me ao teu lado, acariciando o teu corpo, beijando os teus lábios.
Puxo para dentro a vontade que tenho de te ter comigo, em mim.
Quero saber dar tempo ao tempo, mas ele apenas me aperta contra a realidade que agora evito: gostar de gostar de ti.
Espero que o pesadelo acabe depressa, mas ninguém me acorda a tempo de o fazer parar. E os minutos não páram...
Será que ainda me queres da mesma forma? Talvez me esqueças aos poucos, a cada dia que passa... Não sei e não quero saber, porque ainda guardo a esperança de te ter na minha boca e nos meus braços, puxando-me para ti.
A intensidade do teu olhar está presa na minha mente. Gosto de a reter por alguns minutos e sentir o teu cheiro percorrer o meu corpo.
Ah, que falta me fazes...
Desculpa a minha fraqueza, mas preciso de ti...

Fotografia de Ayshynek @ Cadeia da Relação / Instituto de Fotografia

"Since you've gone I've been lost without a trace
I dream at night I can only see your face
I look around but it's you I can't replace
I feel so cold and I long for your embrace
I keep crying baby, baby, please..."


Postado também aqui.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Feliz solstício!



Esta é a maior noite do ano. É nela que este ano se situa o solstício do Inverno, lá para as 6 da manhã. Se queres celebrar adequadamente este acontecimento cósmico, simbólico pela viragem no tamanho dos dias e belo no seu carácter cíclico, agasalha-te, aquece-te à volta duma fogueira e aconchega-te no calor da comunidade dos amigos.

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007


já não és tu que me fazes falta, sabes
lembro-me de dançar contigo pelas ruas
mas já não me comovo como dantes.
escorre-me uma lágrima no rosto pela saudade
de ser amada.
apenas.
serves apenas para isso:
para um tremer de corpo
uma incompletude de alma.
és já tão pouco amor
tão pouco.


[Foto: Maria Flores]
(também aqui)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A sombra dos corpos


Foi há pouco tempo que a fotografia se apoderou de mim... (a fotografia está tremida, mas é algo que a longo prazo pretendo melhorar)
A imagem sempre me fascinou, desde como é que se forma uma imagem no nosso cérebro até às emoções que ela nos pode suscitar. Recordo-me que os meus primeiros versos na poesia, surgiram pela vontade de um lápis traduzir a expressão das sensações de uma imagem muito concreta no meu íntimo...
Imagens-poesia-fotografia...
É difícil atribuir um nome a esta fotografia, mas a sombra que um corpo pode ter, parece adquirir formas no vazio, preencher o mundo de palavras.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Convite

convido a todas as pessoas interessadas em visitar e apoiar estes artistas a estarem presentes em mais um evento importante para eles :)
obrigado :)

Cátia Rodrigues

Nó


Trago a tua falta num nó de garganta. Apertado.
[Foto: Dr. Joanne]
[Também aqui]

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007


A destacar, no mundo da fotografia, o site http://www.olhares.com/ , em especial a galeria do fotógrafo Alberto Silva , um misto de dinâmica e equilíbrio de linhas.
"A fotografia é o momento que fica e que nos liberta a alma na mais íntima expressão."

As cores de um fim de tarde


Jardim da Cordoaria - Porto
por: Pedro Ferreira

(Pedro Ferreira assina no blogue como anarquistaduvall)

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Metamorfose. Quase.


Transformava-se o Porto na capital, a admiradora no génio e o texto em baixo quase poderia ser escrito aqui e agora. Os locais e as épocas e as pessoas são diferentes. O sentimento é o mesmo, atrevo-me a dizer.




Lisbon Revisited (1926)


Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-se todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia
ver na rua.
Não há nada na travessa achada número de porta que me
deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem
sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha
angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me
náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar,
E aqui de novo tornei a voltar?

Ou somos todos os Eu que aqui estive ou estiveram,
Um série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Causal na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através de sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco que se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de
mim - Um bocado de ti e de mim!...


[Álvaro de Campos]
[Foto: Fernando Figueiredo]

(Também aqui)