domingo, 31 de agosto de 2008

O Iluminado


photo: Betina Moraes

A mãe não atinava, por mais que pensasse, a razão para Deus lhe oferecer tamanho castigo! Era menino de ficar quieto e acertar perguntas difíceis, porém era um grande problema. Apesar dos seis anos desnutridos e da barriga abrigando parasitas, o menino se aprumava quando o assunto era adivinhar. Das moedinhas postas na mão do irmão mais velho ele acertava o número exato e a quantia em dinheiro! Era um espanto para os bêbados da vendinha que apostavam em cada resposta correta. Houve vez de o menino ser raptado de casa para servir de atração esdrúxula na noite do morro.

As pipas eram a coisa que o menino mais gostava, quando as via voar corria gritando: "Viva!!!" Qualquer um que prometesse um bom papagaio colorido levava o menininho pela mão. Não estudava, o nariz escorria, a comida era pouca, os irmãos eram muitos, a mãe era doente, mas de tudo, parecia que nada desagradava o pequeno.

Uma mãe de santo profetizou a santidade do menino, uma vizinha sugeriu exibir o milagre em um programa de televisão, o pastor ofereceu-lhe a Igreja, mas a mãe calava maldizendo o dia em que pariu a aberração. Para todos os efeitos, ter um filho diferente é aborrecimento. Apontavam para ela na rua como se fosse de outro planeta. Até um possível pretendente desistiu quando soube da popularidade exagerada em torno da cria daquela mulher. Ela mesma tinha certo receio quando o guri fitava seus olhos lá no fundo, como se fosse catar os pensamentos mais escondidos, as idéias mais inconfessáveis.

O começo do tormento maior veio com a profecia do menino para a morte do sapateiro. Disse em alto e bom som na porta da vendinha: “seu Severiano sapateiro vai ver papai do céu semana que vem”. Foi uma confusão! A mulher do sapateiro veio correndo e quis dar uma surra no profeta, a mãe quase deixou para ver se o menino sossegava daquilo, mas o povo em volta ameaçou linchar as duas. Um camarada mais temido puxou a arma e ordenou: ninguém toca no santo! Vamos ver no que dá! Mandou cada um para as suas casas.

Semana seguinte falhou o coração do sapateiro! Foi ao meio-dia, num domingo, muito sol, todo o mundo esperando. A mãe perdeu a força nas pernas, passou mal, chorou, estendeu as mãos para o céu em desespero. O pequeno brincava inocente no beco imundo e foi cercado por um monte de gente querendo saber o futuro, o irmão mais velho acudiu, pegou o moleque e sumiu no morro. Quando já era madrugada, voltou para a casa com ele dormindo nos braços. A mãe precisava dar cabo daquilo. Pegou o dinheirinho que havia guardado para o natal, enrolou o filho em uma coberta e saiu pela madrugada como fugitiva. Ao raiar o dia já estava em um ônibus para o interior do estado. O menino sorria doce ao aconchegar no colo da mãe. Não reclamava de nada, nem fome tinha.

Desceram do ônibus em uma cidadezinha qualquer. Ela largou o menino em um banheiro público, tomou condução de volta ao Rio. Sozinho no banheiro ele sentiu apertar o pequeno coração, viu despencar um ônibus no abismo. Foi a única vez em que a criança chorou.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O velho anexo


photo: Betina Moraes


O calor no quarto, por causa da telha crua e sem nenhuma beleza no amianto, fazia seu olho arder e os ossos serem uma coisa pesada, além. Hugo, que já havia tido várias denominações durante a existência: Filho, menino, rapaz, marido, contador, pai, era agora o velho no andar anexo. E logo hoje, que já acontecia o natal, deu para cismar com desnecessidades imbecis. Havia sempre uma ou outra queixa claro, quem não as tem? Mas ali, diante do par de sapatos, resmungando, dava-se conta do quanto era ridículo. Raciocinou. Onde estava a ofensa? Pelo menos ganhou um presente. Talvez a coisa toda tenha desandado quando o sapato não coube... Ou quem sabe, antes? O fato é que ao calçar e perceber os dedos ali entranhados um sobre os outros, foi lhe dando um desamor, um desconsolo, um desmedido sentido de fim da linha.... Já era o tempo de saberem o quanto lhe cabia no pé, qual o número de sua camisa, se a gola iria enforcar!

Das duas meninas ele tinha “de cabeça” cada um dos numerários que lhes coube durante as idades: Carla, miudinha, vestia um número 38 para sempre, desde a adolescência, independente dos netinhos que lhe deu. Verônica, um pouco mais fornida, tinha obsessão por regimes e variou muito de peso! Ficou magríssima quando da paixão pelo professor de química e gordíssima quando a paixão lhe disse não, mas nunca deu para esquecer o quanto lhe cabia. Mesmo os homens, Henrique e Moisés que tanto se modificaram e cresceram, ele visualizava com perfeição seus corpos.

Talvez fosse isso, não lhe visualizavam mais, nada mais lhe cabia.... Aos 82 anos, um sótão quente e uma viuvez que doía nas entranhas, quem sabe tenha passado já os limites dignos para a ocupação do espaço, assim como mobília que é transferida para a garagem? Tentou conter as lágrimas, mas a musculatura flácida das pálpebras colaborava para a humilhação de chorar. Então chorou. Cuspiu tanta solidão, tanta, que lhe veio uma absurda vontade de vestir-se, na vontade veio junto o entendimento do vestir-se. Era esse o assunto para o sapato, ali estava a tanta coisa para a qual ele estava sendo preparado e o motivo de o calçado não ser o seu número. Entendeu a metáfora. Era uma mensagem de sua família: “seus pés perderão as peles tão logo, por que um sapato mais largo?” Imaginou a filha mais velha dizendo isso diante de todos, do jeito alegre e irresponsável como ela conduzia as festas de natal. Parou e considerou as coisas.

Mesmo já tendo passado muito da meia noite, ainda não vira motivos para ir cear. Antes, mais cedo, ao receber o presente, não quis descer, ficou cismando ali. Agora estava diante da resposta. Um homem deve saber duas coisas na vida, a hora de começar e a de parar, o resto é bobagem. Ajeitou o terno azul marinho, dos bons tempos de contador e a pele reagindo, o fez sentir o tecido. Forçou os dedos dos pés a aceitarem os sapatos. Colocou no bolso a foto de seu grande amor. Única mulher para quem um dia, entregou o coração. Mesmo severo no gostar, quando juntos na mesma cama, havia entre eles uma luz que nem cabia descrever. Incrível como os filhos desconhecem o que se passa entre os pais... Apagou a luz e abriu a janela. Ao ficar de pé, constatou que era realmente muito apertado o sapato. Lá embaixo encontrou a cama de grama que ele mesmo plantou.