sábado, 14 de junho de 2008

O desprezo

Dás de caras com um homem que desprezas. O que fazes?


Dou-lhe um murro na cara, no estômago, no peito. Aperto-lhe os testículos com as mãos e faço-o dar gritos do tamanho de montanhas. Emprego-lhe pontapés nos joelhos, nas costelas, na cabeça. Faço-o sangrar, faço-o chorar. Mato-o sem o matar. Faço-o preferir morrer do que estar perante mim a sofrer. Aplico-lhe tanta pancada que nem o melhor dos médicos o conseguirá deixar inteiro. Cuspo-lhe na cara. Um escarro verde na cara. Coloco-lhe os dedos da mão direita no pescoço e tiro-lhe o ar. Olho-o nos olhos. Olho-o nos olhos e faço-o chorar a olhar para mim. Digo-lhe: «Não prestas.» E ele aceita, uma vez que não lhe resta mais nada do que aceitar. Humilho-o. Parto-lhe a cabeça. Parto-lhe o crânio com uma pedra de calçada. Esmago-lhe o focinho chamando-lhe nomes. Corto-lhe a pele com uma lâmina. Corto-lhe a carne, corto-lhe o sangue, corto-lhe a língua. Chamo-lhe nomes. Nomes e mais nomes. Arranco-lhe dentes com um alicate de electricista. Parto-lhe dentes com murros. Dou-lhe joelhadas na barriga.

Dás de caras com um homem que desprezas. Bates-lhe. O que fazes se ele te pedir desculpa pelo desprezo que fez levantar em ti?

Bato-lhe mais, sempre mais, como se não houvesse tempo para mais nada. Murro um, murro dois, murro três. Pontapé no focinho. O sangue a escorrer pelo nariz. Os golpes de lâmina na cara nojenta, no focinho peçonhento. Os gritos de dor. O pedido de perdão e o sabor da vingança que não é vingança mas que, mesmo assim, nunca deixa de ser agradável. Bato-lhe mais. Mais. Mais. Mais. E vejo-o com dor, com muita dor e solto gargalhadas alarves. Baixo as calças e deito-lhe urina e fezes em cima. E, quando já não me restarem fezes, soltarei o perfume dos intestinos para cima do nariz dele. E vomito-lhe em cima. E aplico-lhe mais pontapés no focinho.

E o perdão? E a culpa?

Puxo do revólver e disparo dois tiros. Acerto-lhe no pé esquerdo. Vejo-o quase morto e não me sinto culpado. Não me posso sentir culpado. O homem é nojento. Imita-me, persegue-me, odeia-me, odeio-o. É um parasita, um reles, um imbecil, um idiota, um ordinário, uma prostituta, um touro. Não posso deixar de o culpar por me perseguir, por querer ser tão igual a mim, por querer ser eu, por querer ter o meu nome. Não o posso perdoar por vê-lo a lamber os pés de todos aqueles que lhe oferecem comida. Os dentes podres dele dão-me nojo. O penteado dele dá-me nojo. Todo ele é um nojo. Bater-lhe, cortar-lhe os braços, furar-lhe os olhos com uma agulha, puxar-lhe as orelhas com uma dentada. Quebrá-lo.

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