As águas que choram algures acariciam-nos, levando de nós e das nossas vidas tudo o que é impuro, tudo o que já não serve e que a alma já estranha...Peço à chuva que dance em mim e me ajude a deixar para trás o passado e todas as suas amarguras...
Nas minhas margens, resta o silêncio perante a vida que foi mas já não é, a vida que muda a cada instante e transfigira experiências e sentimentos...
O vento mágico devora a chuva caída e os restos de tudo... de tudo o que passou de tudo o que tem de ficar para trás para nos libertar do seu peso e nos permitir prosseguir...
Qual de nós sabe que chão pisa?... E ainda assim pisamo-lo... vendo-o por vezes virar-se contra nós, como se tivéssemos outra alternativa além de pisá-lo...
Sinto frio na alma, como tu... o frio do vazio deixado pelo passado que se esvai à medida que um presente novo e desconhecido se instala, um presente bom, prometendo ser quente, mas que ainda é frio e desconhecido... um presente que não deixa sulcos, ao contrário desse passado de que me pretendo desprender... não me reconheço, sempre fui susceptível a sulcos, parece que não me deixo atingir já como antes...
Um corpo é sempre frágil; este move-se apressado, tentando esconder dos demais os seus medos e as suas confusões... numa dança de palcos fantasiados que aos poucos se transformam em realidade, perante a minha espupefacção... e a minha vida sedenta de beleza vai-se enchendo dela... não escondo nada do vento nem da chuva... tudo o que precisar ir vá, sem dó nem piedade... não desejo nada que pertença a esse passado, nada que não me pertença a mim.
Abandono quem fui aqui e deixo-me acariciar pelas águas que choram algures...
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Prosa poética inspirada após as leitura do poema
"Abando-me aqui" de Piedade Araújo Sol http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/
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Autora :Porcelain Doll
Foto:Q






