terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

John Updike, um poema de Tiago Nené

JOHN UPDIKE

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Morreu sem um critério rigoroso.

Não se poderá dizer que tenha sido a lei da vida

ou a lei da morte

ou uma derradeira e infinita

composição da urgência.

Hoje morreu-lhe o corpo, morreu porque assim

disseram os médicos, porque assim

disse o seu pulso frágil como o equilíbrio

da terra, e porque agora é o tempo que o respira.

Hoje morreu-lhe o corpo, repito em voz alta.

E isso é tudo o que,

da perspectiva da nossa memória incompleta,

precisamos de saber.

.

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Tiago Nené

(in Instalação, obra a ser lançada em 2009)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

dois poemas de barack obama escritos em 1981

Poemas de Barack Obama em português na Casa dos Poetas traduzidos por mim.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

poème a trois

um conto de Tiago Nené na Letrário Editora.

para ler [Aqui]

terça-feira, 8 de julho de 2008

micro-ensaio sobre a amizade









Na biblioteca um livro assinado e dedicado, com a sua amizade, a alguém pelo seu autor. Que terá acontecido ao dono do livro para este ter ido parar à biblioteca? Terá morrido? Terá o Estado penhorado o livro entre um montão de coisas da sua bela moradia e depois doado à biblioteca? Se o Estado penhorou o livro, e sublinho o que já disse – um livro assinado e dedicado a alguém – então o Estado já penhora sentimentos e já se imiscui na Poesia enquanto algo mais do que o mero livro penhorável entre uma série de objectos pessoais.

O autor chama-se Abelardo Rodríguez. Resolvo não procurar informação acerca da sua pessoa, não sabendo questões básicas como, por exemplo, se vive, morre ou está morto. Olho para ele através da foto que consta de uma das páginas iniciais, com uma barba escura e séria. “Abelardo Rodríguez”, repito a mim mesmo. Enquanto escrevo isto resulta que se me afigura possível que o Abelardo (ou os seus filhos ou netos, legítimos ou bastardos) , procure no google pelo seu próprio nome e encontre estas considerações de alguém que não conhece, seu equidistante a muita ou pouca distância.


O Abelardo ficará triste. A biblioteca é detentora de parte da sua amizade. E hoje apeteceu-me requisitá-la.



Texto de Tiago Nené
foto de manuel a. domingos

domingo, 1 de junho de 2008

o princípio do amor




também publicado no Texto-Al

domingo, 25 de maio de 2008

Na rádio!

Blogue das Artes na Rádio!

para ouvir [Aqui]

domingo, 30 de março de 2008

Caracóis

O meu apetite deserto fez-me criar amizade com dois caracóis. Disse-lhes que se eles quisessem, e em virtude de me terem ouvido tão pacientemente, poderia possibilitar-lhes, por algum tempo, a vida que os humanos levam. Quando o meu apetite se alagou de novo, chamei-os para a mesa e todos comemos caracóis. Porém, senti-me vexado ao constatar que eles levavam muito tempo a comer, logo suspeitando que não os tinha confeccionado bem. Depois, o Rafael tranquilizou-me, dizendo-me que só se estavam a certificar que não comeriam nenhum familiar.


Tiago Nené
(antes publicado no blogue do Texto-Al)

quinta-feira, 27 de março de 2008

Genoma Poético

Apreendido no aeroporto quando me revistaram.
o meu poema. o meu poema.
nada mais levaram.
ao menos levassem também os meus sessenta e cinco, quase sessenta e seis, anos de idade.
ao menos varressem, com todo aquele material técnico, a minha infância
e a sombra das minhas casotas.
Podiam até furtar-me o nascimento.
Que se fodesse.

Eles sabiam muito bem ao que vinham.
Quiçá tal acto tenha sido precedido de denúncia anónima
depois difundida, tímida ou amplamente - desconheço - , nos órgãos de comunicação social.
o meu poema. o meu poema continha o genoma poético,
era o poema dos poemas o meu poema!
continha os códigos e os caminhos secretos das palavras cruas,
e representava anos e anos
da mais completa solidão, do mais completo estudo
sobre o tempo que espera demais.

Pouco sabia o que fazer, cancelei o meu voo.
nos dias seguintes tentei sem sucesso
reproduzir aquela artilharia poética,
tentei refazer mentalmente os testes que conduziram àquelas palavras.
nada fazia sentido.
nada mais fazia sentido.
depois voltei a ligar o meu telefone
e a responder a algumas mensagens
e fiz até alguns telefonemas a familiares que viviam longe
e fiz dois amigos num minimercado perto de minha casa
e que hoje passarão cá um belo serão.

deixei de querer acumular todo o conhecimento
para viver em segurança
até porque, vistas bem as coisas, não disponho de outra vida.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Os Crimes dos Outros

Numa altura em que praticamente não havia bens materiais, ele era um indivíduo avulso da Classe B. Antes de se poder interpretar cada frase que dizia, era necessário interpretá-lo a ele. Só os indivíduos da Classe A tinham legitimidade para fazer tal tipo de interpretação (assim ditavam umas quaisquer leis orais).
Os da Classe C, entre eles e em segredo, faziam interpretações clandestinas dos indívíduos das Classes A e B. Os da Classe A, incomodados, infiltraram alguns elementos nas tertúlias da Classe C a fim de alterarem este estado de coisas que, segundo eles, era danoso para a saúde das relações entre pessoas que nasceram e cresceram diferentes.
Já os da Classe B era gente que não se reunia porque das duas uma: ou eram pessoas de razão individual, ou viviam numa qualquer surrealidade. De todo o modo, a moral desta história até aqui diz-nos que só as classes que se encontravam nos extremos, A e C portanto, é que se achavam presas a doutrinas e opiniões. Os da Classe A em razão do berço, os da Classe C em razão da proibição social.
Muito tempo depois, os indivíduos da Classe B eram muito poucos, em virtude da sua natureza fechada. Por isso, a mentalidade teve de mudar e a solução foi agregarem-se à Classe C. A influência foi tão grande que os da nova classe, a que chamaremos por conveniência Classe BC, jamais emitiriam opiniões acerca da Classe A. Esta, achando-se sozinha, baixou um nível e já se encontrava próximo do que fora a extinta Classe B. Depois, passando pelo mesmo problema que passara a extinta Classe B, agregou-se, aos poucos, na Classe BC. Poderia chamar-lhe de Classe ABC mas dar-lhei o nome de Classe Única. Aquela sociedade acabara de dar a si mesma a liberdade. Pouco tempo depois, e devido à falta de união da Classe Única, mormente e inclusive devido à falta de discussão e de ideias políticas que levasse, não só mas também, à criação de um exército, ainda que mínimo, este simpático povo desta aldeia asiática fora engolido por uma sociedade maior, mais evoluída e consciente do que era o mundo. Quando isso estava a acontecer, a Classe Única tripartiu-se, e as
Classes A, B e C estavam de novo em vigor. Houve até famílias, entretanto formadas com membros das três classes primitivas, que se separaram, e algumas crianças foram levadas para muito longe e dadas à adopção. Uma delas era eu, um famoso criminoso reformado, escrevendo a sua biografia numa entrada da Wikipédia, utilizando apenas, para o efeito, os crimes dos outros.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

A Avó e o Lobo

Sozinha no bosque,
sobras de um conto de fadas,
A avó prepara a refeição para um lobo.
Porém ele não comerá a sua comida
nada pessoal
Somente ela não percebe a sua natureza,
não percebe as suas necessidades.
E enquanto a avó se debruça
sobre a cozinha quente,
o lobo caminha pelos arredores,
apreende o seu cheiro,
localiza-a,
lança-se sobre ela e come-a viva.
Esta é a sua natureza.
nada pessoal.


Howard Camner
(tradução para português: Tiago Nené)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Double Jeopardy

amei duas vezes a mesma pessoa
primeiro o seu exterior que era tudo
depois o seu interior que era tudo
depois odiei duas vezes
essa mesma pessoa
primeiro o interior que era tudo
e depois o exterior que já não era nada


Tiago Nené
(Direitos Reservados)

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Atum

Dizem na tv que o atum está em vias de extinção.

Tenho medo que quem possa fazer algo contra isso, simplesmente não aprecie a espécie ou então que prefira enguias fritas.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Mergulho








Escreve um poema
Mergulha no branco
Entra no improvável
Sê humilde
Não penses no que sabes
Esquece o que sentes
Sente
Se não sentes tira a roupa
Bebe água
Pinta um quadro
Esquece as cores que conheces
Imagina cores
Troca-lhes a lógica
Segue
Persegue
Respira debaixo da água do quadro
Transpira
Bebe água
Bebe mais água
Grita
Chora
Chora pela tua mãe
No teu sonho
Ela vem buscar-te
Inspira
Expira
Continua a pintar
Pinta até que o dia nasça no quadro
É difícil
Então mergulha mais fundo
Até veres os peixes
Ouve os seus lamentos
Eles também nadam neles
Não há só água no seu oceano...
No teu também não há só sorte ou amor ou lógica
Há contradições
Por isso não nades só...
Também mergulha
Mergulhar é fugir
Sem que a fuga seja cobarde.





(Tiago Nené)



in Versos Nus, Magna, 2007

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Cocktail Bukowski

Cocktail Bukowski

Naquele dia
Vestira o meu corpo
Sem a alma,
Vestira o meu corpo
Sem a alegria,
Lavei os dentes
E esqueci-me do sorriso no lavatório,
Lavei as mãos
E deixei o tacto na toalha;
Nesse dia
Após o trabalho fui dormir,
Deitei o corpo
E reecontrei a alma.
No dia seguinte
Vesti a alma
E deixei metade do corpo esquecido
E a memória no secador de cabelo...
E algo inesquecível de que não me lembro aconteceu:
Porque hoje tenho a alma mutilada
E nem o corpo tenho.


Tiago Nené (direitos reservados)

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

A forma de...

Conhecer a forma de conhecer
estudar a forma de estudar
matar a forma de matar
beber a forma de beber
respirar a forma de respirar
sentir a forma de sentir
ler a forma de saber
tirar uma cópia de mim
e mandá-la viver a minha vida.


(Tiago Nené - direitos reservados)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Psicopatia

Oh sim, talvez aceite
a informatização dos meus sentimentos
talvez aceite a evidência
uma vez que estou quase morto.

Há uma jovem miúda que documenta
os vestígios da sede do meu espelho
o que senti um dia e fossilizou
com uma pinça recolhe a bela moça...

Cientistas vieram dos Estados Unidos
com aparelhos iniventados
para estudar o caso da minha psicopatia
e enfim me tornar real.



Autor: um amigo meu chamado Pedro.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Não resolve!

"Não resolve!"

Cortar a língua não resolve
quando muito impossibilita em termos práticos
mas não resolve

Porque:
enquanto houver vento, e porquanto sensações

enquanto houver nuvens, e porquanto lágrimas
enquanto houver sol, e porquanto alegrias
enquanto houver sorrisos, e porquanto felicidade em potência...

haverá naturalmente coisas por dizer
quer em vida, quer em morte
quer de língua, quer directamente da alma.


Tiago Nené (direitos reservados)



PS: não esquecer: este sábado apresentação do meu livro Versos Nus, na Fnac do Algarve Shopping (Guia), às 16 Horas. Quem faltar leva processo disciplinar:P

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

A memória de um tempo satisfeito (O Lago)

cuspi para cima de um papel
porque queria escrever a imagem de um lago
e me faltavam as palavras.

Com a caneta contornei
aquele lago momentâneo, que escorria vivo
e que me animava de alívio.

Passado pouco tempo secou.
ficaram os contornos
e a memória de um tempo satisfeito.

sábado, 10 de novembro de 2007

O mundo é um bom lugar para viver















quero viver no mundo
sim, o mundo é um bom lugar para viver
um dia experimentei viver numa estrela
mas fazia muita luz
antes ainda vivera próximo do sol
e estava quente e perdi as ideias
no dia que me apaixonei
pagaram-me uma noite na lua
mas senti-me incomodado
pois apercebi-me que já lá vivia muita gente

quero viver no mundo
definitivamente o mundo é um bom lugar para viver
viver no mundo é ter um sítio para me perder
ninguém se perde numa estrela!
ninguém se perde no sol!
ninguém se perde na lua!
quem não se perde não se encontra
quem não se perde não se esquece
quem não se esquece não se reiventa

quero viver no mundo
ser cronicamente emotivo
qualquer que seja a origem e a direcção da emoção
qualquer que seja o local onde ela durma
ou o lugar do meu corpo onde se esconda
ou a pessoa em que ela encarne
ou a veia por que corre
ou a ferida onde se revele...

e agora com licença que vou fazer as malas
e vou apanhar o primeiro foguetão
para esse lugar onde vou passar a viver:
o mundo.



Tiago Nené (todos os direitos reservados)

Foto de John Sadowski

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O iogurte

Bebi um iogurte. Fi-lo como quem bebe um pouco da vida que lhe falta. Bebi fragmentadamente, sorvendo cada ingrediente a uma só vez, cada sonho de cada pessoa que o terá pensado.
Era um iogurte adagio, daqueles com pimenta e chocolate preto, daqueles que só quem tem poesia na vida consegue criar.
E bebi o seu corpo em vinte segundos que desafiaram a não infinidade da vida, sorvi vinte segundos de quem cria, faz, transporta e trafica aquele produto, vinte segundos de quem publicita na TV com uma cara bonita de quem bebe mais do que um por dia.


Tiago Nené