domingo, 16 de novembro de 2008
Um poema de Pablo Neruda: saudade
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terça-feira, 24 de junho de 2008
O fato novo do imperador
Tenho 31 anos e estou cansado.
Todos os sítios me vão parecendo, finalmente,
igualmente maus.
Todas as pessoas, incluindo as que gostam de mim,
insuportáveis.
Não encontro sentido nem para o que faço
nem para as coisas que deixo por fazer.
Olho para os outros
com a absoluta certeza de quem vê
não semelhantes,
serenos, resignados, envilecidos extraterrestres.
Olho para mim
e sinto-me como se não tivesse outros com quem partilhar.
Para onde quer que eu olhe,
a insuportável mentira que faz ninho, germina, destila
este tempo, este país, este modo de viver
a que chamam
progressista, tolerante, solidário, democrático,
avançado, europeu, e melhor e melhor
que todos os existidos,
que todos os possíveis.
Este modo de viver
onde falta tudo o que foi nomeado.
Que desfez a classe trabalhadora sem uma única bala,
que encarcerou as consciências sem uma única grade,
que me afasta sem um único cassetete,
que me exclui sem um ferro candente,
sem sequer uma estrela amarela na lapela.
Este tempo
de fatos novos,
de Imperadores.
antonio orihuela
poesia espanhola anos 90
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000
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quinta-feira, 13 de março de 2008
A rotina é a sanguessuga dos sonhos
Porque o Pai dizia que os relógios matam o tempo.
Dizia que o tempo está morto enquanto se for esgotando
no tic-tac de minúsculas rodas de engrenagens;
só quando os relógios páram é que o tempo ganha vida.
Os ponteiros estavam estendidos, não rigorosamente na horizontal,
mas com uma ligeira inclinação, como uma gaivota planada ao vento.
Prenúncio de tudo o que me costuma entristecer,
como a Lua nova é prenúncio de chuva, como os negros dizem.
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segunda-feira, 3 de março de 2008
O bosque educa as suas árvores
Desabituando-as da luz, obriga-as
a remeter todo o verdor para as copas
A capacidadede respirar por todos os ramos,
o talento de deitar galhos assim só por prazer
vão estiolando
Coa a chuva, prevenindo
a paixão da sede
Deixa crescer as árvores
coruto a coruto:
nenhuma vê mais que as outras,
ao vento todas dizem o mesmo
Reiner Kunze
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
A Avó e o Lobo
Sozinha no bosque,
sobras de um conto de fadas,
A avó prepara a refeição para um lobo.
Porém ele não comerá a sua comida
nada pessoal
Somente ela não percebe a sua natureza,
não percebe as suas necessidades.
E enquanto a avó se debruça
sobre a cozinha quente,
o lobo caminha pelos arredores,
apreende o seu cheiro,
localiza-a,
lança-se sobre ela e come-a viva.
Esta é a sua natureza.
nada pessoal.
Howard Camner
(tradução para português: Tiago Nené)
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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Outono - Russel Edson
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terça-feira, 25 de dezembro de 2007
Christmas
Bob tremia a aproximou-se mais da régua. Teve por um momento a ideia de agredir Scrooge com ela, enquanto o segurava e pedia socorro para o pátio e um colete de forças.
- Feliz Natal, Bob! - disse Scrooge, com uma sinceridade que não podia ser confundida, enquanto lhe dava palmadinhas nas costas.
- Desejo-te, meu bom amigo Bob, um Natal mais feliz do que aqueles que te tenho dado de há muitos anos! Vou aumentar-te o salário e comprometer-me a ajudar a tua necessitada família e esta tarde discutiremos acerca de negócios, em frente duma tigela de Natal com ponche fumegante, Bob! Acende os fogões e vai comprar um balde de carvão antes que o Diabo esfregue um olho, Bob Cratchit!
Scrooge excedeu as suas promessas. Fez tudo e infinitamente mais e para o pequeno Tim, que NÃO morreu, foi um segundo pai. Tornou-se um bom amigo, um bom patrão, um bom homem, como toda a boa cidade sabia ou qualquer outra boa cidade, vila ou lugar do nosso bom mundo. Alguns riam-se da sua modificação, mas ele deixava-os rir e pouca atenção lhes prestava, porque era suficientemente sensato para saber que nada de bem acontecia neste mundo sem que as pessoas lhe troçassem, a princípio; e sabendo que esses, de qualquer forma, seriam sempre cegos, pensou igualmente que podiam fazer rugas de tanto rir ou apanhar a doença com forma menos atraente. O seu coração ria e isso era quanto lhe bastava. Não voltou a ter contactos com os espíritos, mas viveu, a partir de então, em voto total de abstinência e dele sempre se disse que sabia como conservar o Natal, se é que alguém possuia essa sabedoria. Que isso possa ser dito de nós! E, tal como dizia o pequeno Tim: que Deus nos abençoe a todos!
[Foto: Carlos Pedro]
Também em www.meninadosolhosdeagua.blogspot.com
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sábado, 1 de dezembro de 2007
Vice-versa

Necessidade de ver-te
Esperança de ver-te
Frustrações de ver-te
Tenho vontade de procurar-te
Preocupação de procurar-te
Certeza de procurar-te
Pobres dúvidas de procurar-te
Tenho urgência de ouvir-te
Alegria de ouvir-te
Boa sorte de ouvir-te
E temores de ouvir-te.
Ou seja,
Resumindo
Estou fodido
E radiante.
Talvez mais o primeiro
Que o segundo
E também
Vice-versa.
Mário Benedetti
Tradução: Tiago Nené
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Então queres ser Escritor?
se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração da tua cabeça da tua bocadas tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de tia gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto--devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até adormecercom os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.
Charles Bukowski
Tradução de manuel a. domingos
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quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Ivan Nikolaevich Ponyrev
Margarida e o Mestre (The Master And Margarita na minha versão), de Mikhail Bulgakov, para além de ser uma obra-prima, inclui no seu interior uma das mais viciantes personagens da literatura contemporânea. Ivan Nikolaevich Ponyrev, Sem-abrigo de pseudónimo. Ivan, não se limitando a escrever poemas, é amigo do editor de uma revista para a qual contribui. Berlioz é o nome do editor. Um dia, poeta e editor encontram-se com o Diabo. Berlioz morre debaixo de um eléctrico, com a cabeça a rolar pela estrada. Ivan fica louco. É internado numa clínica. Entre cogitações e febres altas, sente o poeta que a sua escrita não é aquela que idealizara.
Glory will never come to someone who writes bad poems. What makes them bad?
O poeta sabe que a sua poesia não terá uma vida longa. Como se isso não bastasse, o pobre homem não acredita em nada do que escreve. Melhor seria se deixasse de escrever.
It was no longer possible to set anything right in his life, that it was only possible to forget.
Ivan Nikolaevich Ponyrev, apesar de ser considerado louco por jurar a pés juntos que manteve uma conversa com o Diabo, tem perfeita consciência de que o melhor para o seu futuro passa pelo esquecimento. Tendo em conta que não dá para alterar actos praticados no passado, a solução para ele é esquecer.
I won't write anymore poetry
Mais:
The poems I used to write were bad poems, and now I understand it.
O poeta desabrigado assemelha-se a uma pequena criança, a um pequeno guardador de verdades que se sente incompreendido por todos aqueles com quem se relaciona. A verdade sai-lhe da boca mas ninguém acredita. Perante a possibilidade de existir um demónio funesto, os médicos são unânimes em despachar o senhor dos versos para uma maca de hospital, com a medicação ordenada de antemão. Não há lugar para loucos nas ruas de Moscovo. Ivan fica para sempre com as histórias sobre o Diabo no hospício. Mais importante: não volta a escrever.
Daqui.
Colocado aqui mui gentilmente por Paulo Rodrigues Ferreira à(s) 20:50 0 opiniões
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terça-feira, 6 de novembro de 2007
Mar Adentro
mar adentro.
Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.
Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.
El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.
Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
'más adentro', 'más adentro'
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.
Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.
Colocado aqui mui gentilmente por Coccinella à(s) 07:23 1 opiniões
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Isto não é Paris
e tampouco nesta esquina
desta cidade que não é Paris
há um realejo surpreendido
e um pintor boémio
e uma garrafa de vinho
porque às cinco da tarde
esta cidade não é Paris
e não existe um amor curioso
escondido atrás das cortinas
enquanto Edith Piaf canta
Les amants de Paris
Nem a recordação do Sena
me leva as minhas memórias tristes
desta cidade sem noite
nem espelhos de mel
e não minto se disser
que Paul Eluard saiu do meu quarto
com asas de melro branco
pela janela desta cidade
porque às cinco da tarde
esta cidade não é Paris.
Uberto Stabile
Tradução: Tiago Nené
Colocado aqui mui gentilmente por Tiago Nené à(s) 02:46 5 opiniões
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