domingo, 8 de fevereiro de 2009

VERSO IMPERATIVO


Briton Riviere

Nenhuma flor nasceu à boca
antes do emaranhar das asas,
singulares brancas borboletas
enroscadas aos lábios: você sorri!

Facho feito foco, luz ímpar,
selvagem intenso peito abrigo,
teus vales sigilosos vieram!

Eu devia tapar os olhos
e silenciar na redoma!

Mas natureza corrompida,
sou pecado somado e escândalo
fluída sensação de outra Era!

Foge minha fúria ao ver-te
pois que olhos são signos...
Imperativo é verter em mim
teu sorriso de domar as feras!

domingo, 4 de janeiro de 2009

BALADA



Vinil rotativo, antigo, canção de fumaça,

Couraça desmonta, embalado coração,

Vitrola roda meu amor em letra e música!

Lembro tanto de você, mesmo sem querer,

“Vento de maio” é orvalho na flor furta-cor,

Teus caminhos sem passos fisgaram meus pés...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

DESEMBARQUE


The Dream, Henri Rousseau, 1910

Ramos de azevinho colhidos para mim

trazem os confins ao quintal dos olhos,


As constantes idas nos tapetes da estrada

dão botões de flores no jardim do mundo,


Viagens longas só dizem noites solitárias

se do leito os espaços migram ao peito,


No retorno de alguém que sempre esteve

o abraço faz tudo pertinho no esperar!

domingo, 2 de novembro de 2008

URGE


Anne-Julie Aubry

O paladar recolhido no heliotrópio,
Quem o sentiu?

Dentro da anêmona há uma alma,
Você a viu?

Pássaros que vão para o sul ou norte,
Alguém os chamou?

Então vamos! Não há tempo para tanto
E ainda sei tão pouco...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

VAGAR


Anne-Julie Aubry


Sobre a mesa, pratos que esvaziam,

jantares que não sustentam a fome,

potente anestésico dentro do vinho.


Nas léguas que percorro abstraindo,

meus passos ligeiros me levam dali

para cada vez mais longe das vozes.


Todos apenas falam, sem parar. Calo,

observo nas dobras da toalha branca

montes de areia no meu deserto alheio...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

EMBARQUE


René Magritte
Acode minha ânsia, teu sexo,

última chamada antes da noite!


Flagrados meus delitos carnais,

transportaremos fragrâncias sutis...


Depois, partirá o navio do porto,

recolhe minha alma a tua alma,


escreve nossos nomes no espelho

e mira teu belo rosto no infinito...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

PAPILAS




Laço, no fio de açúcar, um nó na boca,
Algodão doce como roupa de dormir
É veste que derrete se sonhar quentura...

Um bombom no lugar do seio direito
Farta desejos que não se controlam,
Cereja no leito é deleite para insone...

Durmo e acordo pensando chantilly,
Se o mundo é perfeito ou com defeito
Uma calda de delírio salva a receita...

sábado, 23 de agosto de 2008

ANTES DA PALAVRA




Eu te chamo com todo o silêncio,
Nos pequenos gestos discretos,
Nas páginas do livro que leio.

A chama me conduz ao teu nome,
Inflama a existência das coisas,
Reduz a rua a um passo apressado.

Olho-te sem que me vejas olhar,
Queimo o verbo em única pessoa,
Colho aves que transpassam o céu...

As folhas da amendoeira estão em pó
Mas eu fico quieta e espero
Se teu nome ecoa, eu escuto e calo...