quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sobre a chegada do Verão


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O amor é a borracha que apaga o mundo quando os teus olhos me tocam.
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sábado, 7 de junho de 2008

hiffen



quando penso: amo-te, os meus lábios emudecem.
o traço de união separar-nos-ia.


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fotografia de katia chausheva

sexta-feira, 30 de maio de 2008

imagine


Pego no lápis e rabisco a folha. Em movimentos distraídos, alisando texturas do pensamento. Até os vincos já não se distinguirem na superfície aquosa, ardente, dos meus olhos. Só nesse momento paro.
A forma acetinada do lápis atrai-me e deixo-me escorregar no tumulto majenta, em espirais de palavras lançadas, sacudidas pela ponta irrequieta.
Em cenário claro-escuro, desenho personagens encontrando-se numa história. Evoluem no espaço recortando-se como sombras chinesas, projectadas pela luz exterior que invade as paredes. Traço diálogos e silêncios emprestando vida às figurinhas, transportando-as a um mundo de sensações onde a fantasia não tem limite.
Desenho a janela, sento-me no parapeito e sinto um arrepio percorrer-me. Não é o frio dos vidros que me faz estremecer mas a possibilidade de um olhar junto ao muro encontrar o meu vulto e me aperceber. Afasto-me.

Sento-me à tua beira e o delírio recomeça. Na folha, em traços suaves, firmes, decididos, encadeados nos sons que ecoam pela sala. Até se reencontrarem nos meus gestos e na cadência do meu corpo. Como sombras projectadas do teu corpo


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quinta-feira, 15 de maio de 2008

e estás tão perto...



dar-te-ia o meu afecto, se a minha ausência não sangrasse na imensidão das noites.



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Fotografia de Bogdan Jarocki

terça-feira, 13 de maio de 2008

Vício interior

Pela maneira com que não olhava as coisas dava a entender que queria sempre chegar cedo. Não ligou aos jornais, aos poucos ignorou a televisão. Houve momentos que nem parecia estar com roupa. E pela maneira com que olhava as pessoas dava a entender que queria sair tarde. Conversou, riu-se e sentou-se perto de alguém, e de outro alguém e de outro alguém e de outros. Durante as palavras triunfantes, tocava no ouvinte. Como uma pedra no charco, questionava se a bebida era do agrado do falante. Tudo se tornou para mim claro, quando nos cruzámos na casa de banho. Vi-o ignorar o espelho e olhar o seu rosto. Olhava fixamente os seus próprios olhos. Que droga tomaria para ser tão viciado no que interessa aos outros, sem que os outros percebessem o interesse que tinha, naquilo que só interessava a ele?

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quarta-feira, 7 de maio de 2008

settings 2


Acertara o batimento. Como um relógio apressado, solto de ritmo e espaço.
Sentia viva a noção de desiquilíbrio, estranha, inadequando-se ao momento de tropeçar nos afectos, deixando-lhe sabor acre, de desacerto constante. Repetindo-se, arrastando consigo a sensação de perda, de tempo irrecuperável, intransponível.

Escutava os silêncios, os que se detinham por trás dos sons. Cuidadosamente, dobrava as palavras, guardando-as em sentidos outros, envoltas em pacífica espera, ao correr das horas e dos dias.
Ajustara a imagem, não fosse desapertar-se o que cuidadosamente embrulhara há tanto tempo. E nessa segurança enfrentava o olhar que se lhe oferecia resguardado por opacidades, onde apenas intervinham imagens a preto e branco. Os coloridos, esses, desenhava-os em pensamento à medida das emoções.

Mas bebia-lhe as palavras. Saboreando os gestos, delineados ao ritmo harmónico de teclados batendo breve nas pontas dos dedos. E sorria a esse reflexo projectado.
Adivinhava-lhe as frases. Completava-as mentalmente como se as esperasse, de tão apercebidas em reacções contabilizadas pelos anos. Olhava-o, ternurenta de palavras não ditas, suspensas, remetidas a um vocabulário cauteloso, na lonjura de vivacidades desejadas.

Observava-se, espreitando cada gesto, olhando-se do exterior, sentada no limiar do sentimento.




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Fotografia de Michele Spinapolice

domingo, 20 de abril de 2008



em algum momento a memória não lembrará que estive aqui. apenas uma ínfima distância me separa do sítio do silêncio. tenho os olhos perdidos no regresso e no entanto, o regresso já não me habita, parte. há uma espera que se resume à minha ausência.


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sábado, 12 de abril de 2008

fear must be taken as it comes



virá o momento em que tudo esquecerás, desatado no peito o insondável mistério do teu corpo. ou, quem sabe, nem sequer o coração desaprenda essa solidão enraízada na vida.



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fotografia de cavalleron

terça-feira, 1 de abril de 2008

ausência


pedes-me outra palavra.
ausência: olhar de hoje debruçado no passado. percorrer os mesmos caminhos e não os reconhecer. esquecimento do que te nomeia. sufocar os lábios nas palavras. suspensão do gesto abraçando o silêncio do teu corpo.
ausência é amar-te meu amor.


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fotografia de Vassy Popova

segunda-feira, 24 de março de 2008

Fé dos homens

Um homem constrói uma catedral
e alimenta a sua esperança
com aquilo que não projectou.
Outro constrói um barco
e navega nas àguas
que não encontra perto de casa.


Miguel Alves
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quinta-feira, 20 de março de 2008

já não se demora o tempo



abracei a vida ao redor dos teus olhos. enganou-me a vida. em ti habitava o vazio. nele fui construindo a ausência.



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foto de katia chausheva

segunda-feira, 10 de março de 2008

those little stains



acontece-me tropeçar estes gestos quase ternos, quase meigos, na tua pele anoitecida. sabe que é o seu sopro que me traz à beira das manhãs, amanhecendo. mas tu me destrocas os dias e as noites tardando sobre a boca, sabendo que é nela que respiro.




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foto de katia chausheva

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

searching



Todos os cafés tinham uma história para contar. Estava certa.
Percorria-os tentando captar gestos, sons, fisionomias. Deambulava na luz difusa, prescrutando vultos, rostos.
E afinal era sempre a sua história que encontrava.





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foto de lempicka

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

senseless



podia falar-te da única verdade suportável. a que habita a palavra pousada na ponta dos dedos. a que o olhar não questiona e a boca não pronuncia.




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foto de mariana castro

sábado, 16 de fevereiro de 2008

À solta

Instrumentos a postos, corpo e alma a envolverem-se como um cocktail. Os olhos procuram as notas musicais perdidas no penteado do dragão de mil cabeças. Luzes, acção. Deixam de haver indivíduos, deixa de haver privacidade, deixa de haver amanhã, deixa de haver vocabulário, deixa de haver hesitação, deixa de haver uma ou outra lei. Um ciclone de som mistura tudo. Acelera, abranda, mantém o ritmo preso a cada coração. A luz assiste e diz que sim a tudo. Acena que sim tantas vezes que deixa de ter personalidade e mal se dá por ela. Três, dois, um. A hora não estava marcada mas o regresso sim. As portas dão lugar a braços. Braços imensos que empurram mas sorriem, cumplices.
Num outro momento tudo será lembrado, ainda que a repetição só seja possivel no sangue que cada um gravou.

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

beneath the stains of time



a lembrança de um rosto.
preenchemos páginas - forma mais dócil de resgatar a beleza não contida nos signos – em tentativa inútil de captar o tempo de uma vida.
no suave segredo da nossa própria ausência declinamos o entendimento, a profanação da luz. mergulhamos em todas as escuridões na noite silente e tudo se resume às batidas de um coração ainda vivo.
o que dele transborda excede a vida




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foto de katia chausheva

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

once upon a little struggle...


é nesse instante que não ouso escutar as mãos. as mãos em linguagem negando o silêncio do meu corpo. no preciso instante em que a espera é uma farpa dilacerando a distância. porque o que sentimos se abriga na recusa.



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foto de katia chausheva

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

pouring raindrops



sobressaltei-me nesse momento de distracção
brincando os teus dedos com fios de púrpura
entre um verso e outro se ao menos visse
reflectidos os teus olhos na liquidez das
palavras não se suspenderia o murmúrio
dos meus passos...




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quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

demora-se o corpo na espera




perturba-me a inocência do nome por dizer. podia sorver a doçura da palavra. tocá-la ao de leve. liquefeita. de encontro à língua. dizê-la. em súbito desejo de chorar todos os rostos. que em inumeráveis gotas o mar vai espalhando no meu corpo.

moriana, Luísa L.



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foto de arthur k.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Crescente

Ri por um
Enquanto te vestes por dois
Manda cartas para três
Fá-las passar por quatro
Surpreende cinco vezes
Imagina seis reacções
Conta sete ondas
Fotografa oito marés
Olha para o relógio às nove
Abraça-te como se não existissem as dez.

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