segunda-feira, 9 de abril de 2012

"Le project de ma vie"


Titulo: O meu projecto de vida
Dimensoes: 140x160cm
Data: 2012
Tecnica utilizada: empastes e acrilico sobre tela

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Não acordes antes do café da manhã ou destapas-me a vergonha



são quatro e meia da manhã e eu ainda acordada a ver-te dormir. a tua mão uma concha na minha perna. a minha perna apenas a minha perna. jantamos qualquer coisa que puseste no forno, delicioso como sempre. depois fomos ao cinema ver um filme da última sessão que tinha estreado. não me lembro já do nome. só de olhar para ti ao meu lado, tu a sorrires à pressa para voltares ao enredo, e eu a trincar com força o meu lábio inferior para ter a certeza que tu és verdade. depois o caminho para casa, uma música antiga no rádio, eu com vontade de dizer que também sofro de um problema de expressão, vários até, que a música é para ti ou como se fosse. sobre mim. que te amo e que não sei porquê a minha língua não consegue articular as palavras. tu sereno ao lado, os teus olhos azuis a iluminar a escuridão. (aposto que não sabes por que te chamo pirilampo) a casa que começa a aparecer ao fundo. mais tarde o quarto, tu a despires-te, eu a fingir que faço o mesmo, mas antes a tentar decorar todos os sinais das tuas costas. a cor exacta de cada centímetro da tua pele. depois o pijama aos quadrados brancos e azuis a cobrir-te o corpo. um rasgão na manga. e tu na minha cama. tu na minha cama. e eu sem saber o que fazer da música que me enche a cabeça e das flores que me querem nascer da boca mas não conseguem. muito menos da vontade de te decorar. de modo que continuo acordada às quatro e meia da manhã, com as minhas mãos no teu rosto na breve esperança de que estejas a sonhar comigo a contar-te do muito amor que te tenho.
[Também aqui]

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

poème a trois

um conto de Tiago Nené na Letrário Editora.

para ler [Aqui]

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sobre a chegada do Verão


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O amor é a borracha que apaga o mundo quando os teus olhos me tocam.
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[Também aqui]

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A face escura da noite


quando o medo se nos apega à pele não há fogo ou sol ou canto de pássaros ao entardecer que o destrua. porque estamos presos às raízes da infância. no caso dela, ao medo das palavras gritadas do outro lado do telefone. e nem mesmo o barulho das ondas ao fundo a salvou do sangramento diário do coração.
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[Foto: Andreaa Anghel]
Também aqui
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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Com as luzes apagadas

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tinha decidido fechar o coração à chave. em vez disso abria o corpo a quem parasse à sua janela e a olhasse.
até que o corpo se cansou e começou a tremer. nunca tinha sentido nada de semelhante. as mãos primeiro num desassossego, as pernas depois, todo o corpo de seguida.
desejou então que lhe contassem uma estória de princesas, fadas e jardins secretos, como quando vivia de olhos fechados, no sonho. mas os monstros que tinha deixado ficar na sua casa sabiam apenas de entradas forçadas e violentas. nunca tinham ouvido falar de um rosto encostado a um peito, de abraços apertados ou de palavras sussurradas durante o sono. quis livrar-se deles mas a fechadura do seu coração há muito que estava enferrujada, não havendo, portanto, chave que a libertasse.
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domingo, 1 de junho de 2008

o princípio do amor




também publicado no Texto-Al

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Carta sem sentido preciso

Não sei falar contigo. Ponto. Aliás, não sei falar com ninguém. (agora sim) Ponto final.
Mas contigo é pior. Basta saber que és tu do outro lado da linha para as palavras fugirem da garganta para um buraco fundo dentro de mim. Sobram-me os monossílabos, essencialmente o refúgio do riso. Deves achar que sou maluca. Não sei porque continuas a ligar-me se nunca te digo mais do que banalidades.
A verdade é que tenho tanto a contar-te. Hoje queria ter-te dito que a ilusão é um salto sem paraquedas para o chão da realidade. Que não devíamos ter querido o Verão. E queria ter-te dado a lista das palavras proibidas para não cortares o fio ténue que ainda nos une. Secreto é a primeira delas.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Confissão

Verdade primeira:
A tua voz faz-me perder o fio recto dos dias.


Verdade segunda:
Trago a memória do teu cheiro em forma de galho de árvore seco
no bolso de um vestido,
e por isso o mundo não é mais do que o interior de uma peça de roupa.


Verdade terceira:
Morro à sede de um beijo teu.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Duas cidades, a distância


É um fim de tarde e há pressa pelas ruas.
As pessoas passam e não sabem
que trago a morte dentro de mim.
Não sabem que os teus olhos eram
como duas chamas e que, por olhar-te,
sou apenas cinza que se arrasta pelos caminhos.


É um início de noite e há pressa pelas ruas.
As pessoas passam e não sabem
que estou numa cidade e que tu estás
noutra cidade e que essa evidência
é tudo o que me resta.


É já noite longa e há silêncio pelas ruas.
As luzes da cidade apagaram-se
e as pessoas já dormem em suas casas.
Não sabem que tu estás num quarto
e que eu estou noutro quarto e que, por isso,
a minha cama é um caixão que acolhe o meu corpo gelado
e que a tua cama, em outra cidade,
é a palha onde se incendeiam dois corpos.
Foto: Katia Chausheva
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segunda-feira, 14 de abril de 2008

O teu nome a velar-me os sonhos


As palavras não ditas, Não gosto do teu sotaque lisboeta, mas amo-te, pesam-me como 100 anos no meu corpo. Não acredito em contos de fadas, mas sei que és uma estrela cadente que caiu na minha varanda numa noite de lua cheia. Mas hoje lá fora está escuro, amor, e a chuva cai sem piedade na janela do quarto. Não sei o que fazes em noites como esta. Sei apenas que foi naquele beijo em frente ao Tejo que fiquei com o teu nome na boca. Voltarei a dizê-lo agora durante o meu sono. Tivesse eu a capacidade de viver a dormir e era lá que te teria.





Nem o tempo vai chegar
P'ra dizer o quanto eu sinto
Você longe de mim
É uma especie de dor
[Rodrigo Leão]


Foto: Graça Loureiro
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quinta-feira, 3 de abril de 2008

Morada de silêncio


as certezas trazem-me pendurada no fio das realidades quotidianas. caminho pelos dias como quem nada espera. sentada nesta mesa pintei um mundo que fica para lá do horizonte. mas a noite devolve-me a monotonia, os medos e uma casa que guarda demasiados rancores. fujo. conheço as palavras que fazem uma existência feliz. escrevo-as. penso como gostaria de dizê-las. mas é no silêncio que moro. é para lá que volto sempre.
[Foto: Robert Gojevic]
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quinta-feira, 27 de março de 2008

Genoma Poético

Apreendido no aeroporto quando me revistaram.
o meu poema. o meu poema.
nada mais levaram.
ao menos levassem também os meus sessenta e cinco, quase sessenta e seis, anos de idade.
ao menos varressem, com todo aquele material técnico, a minha infância
e a sombra das minhas casotas.
Podiam até furtar-me o nascimento.
Que se fodesse.

Eles sabiam muito bem ao que vinham.
Quiçá tal acto tenha sido precedido de denúncia anónima
depois difundida, tímida ou amplamente - desconheço - , nos órgãos de comunicação social.
o meu poema. o meu poema continha o genoma poético,
era o poema dos poemas o meu poema!
continha os códigos e os caminhos secretos das palavras cruas,
e representava anos e anos
da mais completa solidão, do mais completo estudo
sobre o tempo que espera demais.

Pouco sabia o que fazer, cancelei o meu voo.
nos dias seguintes tentei sem sucesso
reproduzir aquela artilharia poética,
tentei refazer mentalmente os testes que conduziram àquelas palavras.
nada fazia sentido.
nada mais fazia sentido.
depois voltei a ligar o meu telefone
e a responder a algumas mensagens
e fiz até alguns telefonemas a familiares que viviam longe
e fiz dois amigos num minimercado perto de minha casa
e que hoje passarão cá um belo serão.

deixei de querer acumular todo o conhecimento
para viver em segurança
até porque, vistas bem as coisas, não disponho de outra vida.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Resquícios pascais


as noites bem dormidas denunciam o habituamento à solidão de um corpo isolado. toco as minhas mãos e sinto-as geladas. não sei quando deixei arrefecer o meu coração, nem quando deixei de sentir a tua falta. queria acordar amor. mas não acredito na ressurreição dos mortos.
´


[Foto: alicja pietras]
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quinta-feira, 13 de março de 2008

A rotina é a sanguessuga dos sonhos


rodou duas vezes a chave depois de bater a porta. tirou os sapatos gastos de pisar dias e arrumou-os à entrada. abriu o velho frigorífico. fechou-o. aqueceu a comida feita há dias e que lhe vai forrando o estômago nas noites, e acendeu a televisão. sabia de cor o que passaria em cada canal desde a precisa hora em que se sentava no sofá até àquela em que desligava o aparelho. ria, chorava, apaixonava-se e julgava-se igual às personagens que lhe preenchiam as noites. vivia por substituição. de vez em quando o telefone tocava. e aí vestia a sua personagem de mulher independente e dizia
- está tudo óptimo
mas a verdade é que há muito que não sabia o que era afinal estar tudo bem. perguntavam-lhe e a resposta saia maquinalmente
- está tudo óptimo
o emprego certo, o dinheirinho ao final do mês, a casa alugada nos subúrbios da velha cidade, a missa aos sábados, os almoços em família aos fins-de-semana, o passeio de tarde aos domingos
- está tudo óptimo
a voz segura, as certezas nas palavras, a atitude madura, os passos certeiros
- está tudo óptimo
as onze horas e trinta minutos a bater no relógio avisavam-na da hora de dormir. obedeceu. maquinalmente carregou no botão off do comando da televisão, pegou no pequeno tuppeware de etiqueta amarela que reservara no fim-de-semana para o dia seguinte- cozido à segunda, estofado à terça, sopa à quarta, umas sandes à quinta. e sexta logo se vê, talvez vá àquele restaurante perto do trabalho. dizem que fazem lá uns bifes muito bons.
apagou as luzes e fechou os olhos. dormiria oito horas certas, sem sonhos (a rotina é a sanguessuga dos sonhos). amanhã recomeçaria tudo outra vez.
- (está tudo óptimo)
Por isso, disse para mim mesmo que tinha de levar aquele.
Porque o Pai dizia que os relógios matam o tempo.
Dizia que o tempo está morto enquanto se for esgotando
no tic-tac de minúsculas rodas de engrenagens;
só quando os relógios páram é que o tempo ganha vida.
Os ponteiros estavam estendidos, não rigorosamente na horizontal,
mas com uma ligeira inclinação, como uma gaivota planada ao vento.
Prenúncio de tudo o que me costuma entristecer,
como a Lua nova é prenúncio de chuva, como os negros dizem.
Foto: Katia Chausheva
Excerto: William Faulkner
[Também aqui]

quarta-feira, 5 de março de 2008

Saudade


com saudade
te sinto
como um trago
de absinto
e tomo-te
ardor
com o rosto
resignado em lágrimas

Vera Carvalho

Foto de Sara Sá

Também em http://petalasminhas.blogspot.com

segunda-feira, 3 de março de 2008

Nadi (I parte)

NADI (sânsc.; tib. TSA/ RTSA) - canais de energia pelos quais circula o PRANA.
Escrevi os textos sobre Nadi julgando que a palavra significava felicidade, e depois surpreendeu-me o facto que sintacticamente me tinha induzido em erro, fiquei naquela se haveria de alterar o nome à personagem mas depois pensei... qual é a importância se a palavra está certa ou não? O que importa é o signifante que se dá nos e através dos textos.
Enfim, a minha primeira participação neste blog é então com as narrativas da primeira parte de Nadi. A segunda e última parte estão ainda rascunhados no meu caderno preto. Tentarei publicá-los brevemente. Sem mais nada a acrescentar,
Lara Fanny Reis
***
Ignoro a forma do porquê do teu sorriso, ignoro porque se moldam os teus lábios desse jeito, Nadi, de cada vez que te chamo, por esse nome. Tu, hoje, estás naqueles dias em que não percebes porque me encontro assim. Dizes-me estranha. E, no entanto, sinto-me perfeitamente bem e normal. Perguntas-me se aconteceu algo e abano com a cabeça. Nada Nadi. Não aconteceu nada. Hoje não é um dia diferente de ontem, nem tão igual ao de amanhã. Hoje choviscou em cima da minha cabeça pequenas gotas de orvalho que nem chegaram a tocar-me o tecido do corpo. Mas era bonito sentir carícias anti-fisicas da água miniatura.Alguém perguntou onde ficava o metro. Disse-lhe que não valia a pena explicar, bastava seguir-me. Ele contou-me que era parecida a uma senhora que conhecia. Terrivelmente parecida só que mais nova. Talvez essa senhora fosse mesmo igual a mim quando da minha idade. Agora era casada e já andava um pouco longe dos trinta. Expliquei que também já lá andava perto. Não acreditou e eu não me importei. Continuei a ouvi-lo chamar-me menina. Menina-isto e menina-aquilo. Agradeci porque nesta vida devemos ser sempre gratos pelas coisas bonitas que nos dizem ou nos fazem.Os nossos passos apressaram-se. O orvalho transformou-se em chuva e olhei para cima onde debaixo de um céu bipolar, entre o cinza e o azul, parei para roubar um pouco de um dos dois arco-iris que nasceram, só para interrogar-me, outra vez, porque é que se moldam os teus lábios cada vez que te chamo Nadi.
a) Hoje vesti uma saia e não me senti bonita. Olhei para o espelho e não vi ninguém. Tentei procurar o quer que fosse mas do outro lado se instaurou um grande nada. Ninguém. Estava sozinha e mal vestida. Fui ao quarto e troquei tudo, mas essencialmente, troquei de roupa.
b) Nadi, acho que o mundo está doente. Sofre de males incuráveis de amores crónicos. Até entendo que as gentes de hoje sinta a necessidade gulosa de comprar e jogar fora, como embalagens de plástico, o que se vende e brilha em montras e espaços fluorescentes. Não me tinha apercebido é de que o amor também estava em saldos.Corrige-me se estiver errada, não era pressuposto ser um bem de afeição perpétua? E, no entanto, o mundo diz-se carente, com falta de ternura e afecto. Pelo menos, é aquilo que qualquer gente, como quem me cruze na rua, prega a quem queira ouvir. Onde é que eles falham Nadi? Porquê esse tédio? Essa constante troca. Esse “não-se-dar-ao-trabalho” e tratam o amor como de uma capote gasta. Repara que até é irónico. Já notaste a mecânica do gesto de se usar um preservativo? Não é irónico a verificação do mesmo no movimento das relações?Tu vais dizer-me que digo coisas tontas, porque ando com o coração triste. Dizes-me que deveria ouvir-me mais vezes e deixar o mundo ir à descoberta dos seus psicólogos, consultar psicanalistas, conselheiros matrimoniais, sexólogos ou tarologos. Estás olhar para mim? Ainda por cima com aqueles olhos de quem procura mais do que devia e até encontra. Perguntas-me o que é que (realmente) se passa. A mim, basta-me encolher os ombros. Evito de chorar. Tu percebes e não insistes na pergunta, em vez disso, agarras em mim e esconde o rosto na curva do meu pescoço. «-Cheiras bem.»; dizes. Eu nem me lembro se tomei banho.
c) Ainda falta uma eternidade antes de começar. Entrei porque lá fora está frio e chuva. E hoje, logo hoje, sai de casa sem casaco. Estou com fome mas a tristeza até camufla o ruído hediondo do meu estômago. Queria muito falar contigo, Nadi, porque cada vez que fico neste estado de (pseudo) depressão-compulsiva tu nunca me dizes nada. Não inventas discursos de demagogia floreada de como tudo vai, novamente, correr bem. Limitas-te a ouvir-me num rosto fechado, onde me é impossível entender a linguagem dos teus pensamentos.Não moves os olhos, nem acenas com a cabeça. Simplesmente, fixas-me com o olhar demasiado aberto. Mas sei que me estás mesmo a ouvir. Desconfio até que registas palavra a palavra como se a curva do teu ouvido fosse um gravador que trabalhasse em simultâneo com as pequenas movimentações da minha boca.As vezes, mas só as vezes, gostava que me calasses com a tua boca, e talvez, aí dizeres o que toda a gente diz: «- Vai tudo, novamente, correr bem.» Não posso prometer que iria concordar. Iria pensar que te cansaste de toda a rotatividade do meu discurso que está triste. E que esse beijo seria simplesmente um gesto de desespero de causa. Acho que, afinal, não seria boa ideia. Ficaríamos ambos sem saber como agir. Paralisados pelas convenções sociais que para momentos como estes não têm um guião de instruções e, provavelmente, num ataque de genuína compaixão pela causa sussurraria: «-Nadi.» Aí, eu sei que irias olhar para mim, e perguntar-me afinal que peça é que fui ver. Eu, ainda semi envergonhada, encolheria os ombros e responderia: «- Não sei, Entrei porque estava frio e chuva, lá fora.»

sábado, 1 de março de 2008

Amor no Douro


a porta fechada. a solitária mimosa colocada no copo velho ao seu lado para lhe prolongar a memória do dia. a cabeça encostada ao travesseiro e a carteza de estar viva. devia-a ao Douro. apaixonara-se duas vezes em 24 anos nas suas margens e isso bastava-lhe para não se sentir sozinha. Mesmo depois de o ter deixado partir no átrio da velha estação.
- vejo-te em Abril?
queria dizer-lhe que talvez não. sabia que nessa altura os caminhos seriam outros e já não haveria ele, a sua máquina fotográfica e o rio que amava a escassos metros, enquanto o comboio continuava a subir encosta acima.
- até lá, sim!
de luz apagada, janela aberta e reflexos das luzes exteriores no vidro do seu quarto, pensava se não teria sido esse o momento em que o tinha começado a amar. viajavam a uns 50 quilómetros por hora, mas ele abriu a última porta, puxou-a para si e ficaram a olhar o Douro em silêncio, com o vento suave a uni-los. sim, teria sido certamente aí. o cheiro das amendoeiras e das memórias confundia-se com o seu, agora ali tão perto.
- sabes por que se diz que o amor é cego? porque gostamos de alguém pelo seu cheiro.
e pelos olhos. azuis. queria responder-lhe ela. em vez disso olhava-o. como olhava agora a pequena mimosa que ele tinha colhido para si no topo de Penedo Durão, enquanto avistavam os socalcos espanhóis do outro lado do rio.
não, não o voltaria a ver em Abril. não que não conseguisse esperar até lá. guardaria religiosamente a pequena mimosa no copo velho do pequeno quarto e lembrar-se-ia do seu cheiro, das pequenas rugas em torno dos olhos e da sua máquina fotográfica.
- (a captá-la)
bastava fechar os olhos.
não, não seria isso. era a previsibilidade. sabia que em Abril já não haveria amendoeiras, fronteiras do outro lado do rio e a ingenuidade da primeira vez. muito menos o Douro. Abril seria o fim. preferiu ficar apenas com o cheiro do começo.
fechou então os olhos, à espera que a manhã chegasse.
Foto: Ana J. Ribeiro

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Double Jeopardy

amei duas vezes a mesma pessoa
primeiro o seu exterior que era tudo
depois o seu interior que era tudo
depois odiei duas vezes
essa mesma pessoa
primeiro o interior que era tudo
e depois o exterior que já não era nada


Tiago Nené
(Direitos Reservados)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Insânia


Talvez eu não possa amar-te

talvez a insanidade dos meus sentidos revogue
a serenidade de um poema ladeado de lírios e organzas
e me acerba esta vontade de te rasgar a pele
e colar-me a ti

talvez a sede de mulher sugue
as palavras doces da tua boca
e me atice esta vontade de te trincar os lábios
e beber-te o sangue

talvez o despropósito do meu ser arranque
as raízes dos teus braços
e me enlouqueça esta vontade de te roubar ao mundo
e fundir-te em mim

talvez eu não possa amar-te
com a lógica da razão

amarra-me então o corpo
mas liberta-me deste coração

para que eu não possa
amar-te

Vera Carvalho

Foto de Sónia Cristina Carvalho
Também em http://petalasminhas.blogspot.com