sexta-feira, 20 de junho de 2008

Eu também sou um grande mentiroso!

Os leitores estão sempre dispostos a acreditar que as narrativas mais intimistas são, sobretudo, peripécias autobiográficas dos autores. O que não passa, geralmente, de um engano de leitores que não escrevem. É certo que, às vezes, o escritor também faz a catarse da sua vida, nas páginas que escreve. Mas sempre muito misturada com episódios que nunca viveu. Mente. Para tornar a história mais interessante. O escritor goza desse privilégio de viver outras vidas, outras peripécias de vida. Senta-se, não só para escrever, mas também para viver as vidas inventadas.

«Um dos princípios da criação literária é a invenção, a imaginação. Somos mentirosos; todo o escritor que cria é um mentiroso, a literatura é mentira; dessa mentira, porém, sai uma recriação da realidade: recriar a realidade é, assim, um dos princípios fundamentais da criação» – Juan Rulfo (1918-1986).

Escrever, sei-o agora, é essa liberdade de mentir que o cidadão comum não tem. O cidadão é alvo de uma enorme censura social sobre a veracidade das suas afirmações. O mentiroso é votado ao desprezo.
Um escritor, pelo contrário, não só «está autorizado a mentir», como as suas mentiras são alvo de elogios, por parte de críticos e leitores, tanto maiores quanto maior for o tamanho da mentira, a que também chamam criatividade.

É curioso! É libertador! É muito motivante!

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

terça-feira, 4 de março de 2008

Veículo de ideias

A propósito de uma canção
(talvez não tão equilibrada entre a melodia ritmo harmonia e as palavras cantadas que veiculava quanto eu gostaria que fosse)
pensava sobre o acto de produção criativa. Detive-me na música, origem das minhas reflexões.
Creio haver uma demissão intelectual da maioria dos actos de criar. O acto artístico não existe apenas como um exercício de estilo, do mesmo modo que não existe apenas como uma reflexão filosófica e artística canalizadora das características do zeitgeist
(wagner fê-lo e isso custou-lhe a amizade de nietzsche colocava na mesma equação música melodia e palavra cantada veiculando as suas ideias as suas crenças e nisso todo o sistema em que cresceu e vivia)
. A música hoje em dia é avaliada como um sistemas de duas equações, um para a palavra cantada e outro para a música
(como se um excesso numa parte compensasse um defeito noutra num espaço em que devia haver um equilíbrio de perfeição)
, segmentando-se algo que não devia nunca estar separado. Utilizei a música como exemplo, porque foi nela que nasceu a minha reflexão. Porque o mesmo se aplica à arte em geral, um sistemas de duas e mesmo mais equações, em que nas variáveis se encontra o estilo e a ideia
(ideia deve ser entendida como algo profundamente pessoal que ao mesmo tempo é nascente de um sistema conceptual filosófico uma reflexão mais profunda e abstracta)
. Sem um sentido que nos faça pensar a arte perde a sua função pedagógica que é, na sua expressão mais simples, fazer-nos pensar.
Do mesmo modo de Harold Bloom desenvolve a escola do ressentimento, eu crio a poesia do desespero. Deixa de ser contingente e é apenas subjectiva: descritiva de estados de espírito
(recorrendo geralmente à primeira segunda e terceira pessoas do singular sem nunca mencionar o infinitivo sem nunca personificar limitando as metáforas às comparações)
, especialmente de estados de desespero ou de recuperação. Utilizam equilíbrios luminosos e cromáticos, oxímoros. Creio que este blogue se tem que emancipar desta poesia e de tentativas inter-artes com fotografias inexistentes.
A criação artística é dos trabalhos mais dolorosos que existem, porque nos confronta com as limitações do nosso intelecto. Porque ter ideias não é um desejo de diferença
(qualquer sujeito é capaz de ter uma ideia o processo de a transformar em algo materialmente negro é tão doloroso que muitas vezes as ideias são nados mortos)
, essa ideia em si é das mais falaciosas. Além de que a representação dessa mesma ideia é um chavão.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O blogue dos flâneurs

Este é, sem margem para qualquer dúvida, mesmo oriunda das bocarras mais cruéis e escancaradas com todos os dentes podres, um blogue de artistas
(não porque alguém os denominou artistas como costumeiramente acontece mas sim porque tiveram a coragem de se chamar artistas com a coragem moderna do defunto século vinte)
. Uma das diversas características que os artistas têm
(e ai de quem ousar dizer o contrário)
é a proficuidade do seu mundo interior contrastando com triste serenidade do seu exterior. E as suas produções, tão cheias de simbolismos não são para os demais comuns mortais compreender
(quanto mais para uma crítica assaz feroz cuja função fundamental é vilipendiar e insignificar a tortura interior)
. Forçosamente, este blogue é um blogue de artistas de flâneurs. Baudelaire sentir-se-ia orgulhoso com tanta poesia da solidão, com tanta alma torturada, com tanta poesia simbólica
(que as bonitas fotografias ajudam a compreender)
.
Diria Baudelaire: “O tonto do Dostoievski que tentou explorar o flâneur nas Noites Brancas e nem nome lhe deu. Vocês sim, são os meus verdadeiros herdeiros.” Isto diria Baudelaire e mais ainda.

sábado, 22 de dezembro de 2007


"Society drives people crazy with lust and calls it advertising."
[John Lahr]

"Todo o homem santo tem a sua tara. Toda a puta tem o seu pudor." [Monstro Mau]

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Quem nos lê

O trabalho crítico é sempre visto com muita desconfiança. Regra geral os artistas não gostam dos críticos, a não ser, claro!, quando estes dizem bem do seu trabalho. De outra forma, os críticos servem apenas para dizer mal
(errado errado o trabalho crítico é um trabalho de avaliação mas que não se pode prender com o bom e o mau isso são juízos de valor e o trabalho crítico como disciplina académica tem que os excluir deve analisar a obra de acordo com conceitos artísticos e não de acordo com as contingências pessoais de quem elabora a crítica)
e não acrescentam nada. Da mesma forma que quem produz arte necessita da crítica para a validar como arte
(porque embora seja a comunidade a validar uma produção como artística e não o artista a comunidade assenta parte da sua opinião nas considerações do crítico uma vez que este é que é considerado especialista)
, também a crítica necessita da arte para validar o seu trabalho.
Uma das razões que me leva a escrever é o Blogue das Artes como objecto artístico. Antes de mais, eu não leio o Blogue das Artes. Mas, honestamente, quem é que lê
(e quando digo ler quero dizer degustar cada uma das publicações dos seus produtores com cada nuance e entrelinha cada intertexto ou intratexto ver ler ouvir com atenção aquilo que um contribuidor está a produzir)
?
Na minha opinião a problemática do blogue coloca-se na sua produção cavalgante: é impossível acompanhar a rapidez com que os conteúdos são publicados e quantidade em que são publicados. Mais, não creio que se possa chamar ainda um caso de sucesso
(com cinquenta e três contribuidores e com tendência para aumentar a produção vai ser cada vez maior e os número de visitas não é indicativo pois se os seus produtores vierem duas vezes por dia confirmar se têm comentários nas suas produções isso dá-nos uma média de visitas diárias de cento e seis o que faz com que este blogue sofra de umbiguismo)
. Mais, chegamos a cair no erro de julgar que fazemos arte pelo título do blogue, mas na verdade não o fazemos. Falta-nos a crítica, a comunidade externa à produção que valida o nosso trabalho. Acabamos por ter um blogue de produção sem leitores e nem nós mesmos desfrutamos das produções uns dos outros.
Aquilo que escrevi era irónico e sintomático, não pretendia diminuir o trabalho de quem produzia, fico com pena de poucos terem lido e ainda menos terem compreendido. Mais, valorizo, pessoalmente, o trabalho inter-artes e ekphrástico, nomeadamente o que se faz no blogue PostSecret.
Suponho que poucos tenham chegado até aqui. Continuo sem publicar poesia e fotografia. Por princípio.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Poesia e Fotografia

Será que se escrevesse poesia e colocasse fotografias, as pessoas prestariam mais atenção aos conteúdos que publico?

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

As tartarugas ninja

(sem falar das circunstâncias que me levaram desde início a questionar a literatura e naturalmente a arte como plataforma sobre a qual assenta a literatura em todas as suas manifestações)
, mas dificilmente alguém se lembraria de considerar Kevin Eastman e Peter Laird como autores de literatura. Poucos saberão até aquilo que eles produziram, mas dado o título que dei a este post é certo que se saiba já que são os autores das famigeradas tartarugas que vivem nos esgotos e gostam de pizzas e apresentadoras de TV
(ainda que na versão original a apresentadora com o nome do quarto mês do ano fosse assistente num laboratório)
.
Escrevo sobre as tartarugas ninja porque li os estatutos
(os nunca tinha lido não tinha dado por eles não me interessava apenas o exercício dos meus direitos sem pensar nos meus deveres e porque todas as nossas decisões e acções são também políticas não posso deixar de me retractar dando razão a quem afirma basta pum basta)
deste blogue e os comentários que ali foram colocados sobre as diversas manifestações artísticas
(poesia prosa artes performativas
performance
música cinema fotografia artes manuais artes plásticas outras)
que já deveria ter lido mas ainda não, só agora. Das várias artes citadas, creio que faltam algumas, mas conferir-lhes o estatuto de mais ou menos importantes seria uma questão de juízos de valor. Outras é a melhor forma de fazer referência a essas artes
(todas as artes são sempre outras porque arte é aquilo que tratamos como arte)
.
Na demanda da literatura, da descoberta daquilo que ela é deparei-me com um autor que afirmava que a literatura era uma criação original de teor ficcional
(desprezando totalmente a origem das espécies o sangue frio o diário a crónica tudo aquilo que funciona como literatura)
, ao mesmo tempo que afirmava que as tartarugas ninja de Kevin Eastman e Peter Laird – que sem dúvida são ficcionais e originais na proposta – não eram literatura mas que John Ruskin e Thomas Carlyle – críticos literários inglês e escocês, respectivamente – eram literatura
(não querendo cair em querelas nem discutir literatura venho louvar todas as artes as distinguidas explicitamente e as implicitamente dedicadas como outras. já não pretendo nenhuma afirmação positivista e operacional para evitar os erros de anteriores manifestos que acabaram em chacota pública)
.
Agora sim, posso produzir.