segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Exercício redondamente falhado para Fernando Pessoa e El-rei Sebastião


Hoje é o futuro da profecia
e, do difuso nevoeiro,nasce,
em esplendor, claro, o dia.

Canto hoje os versos do amanhã
e a margem redonda do mundo.
Gentio de solidão, ergo
a voz do império fecundo.

Arremesso-me, mortal, ao infinito,
dispo a cinza futura do que é ser.
Luz imaterial, cântico, grito,
sou rumo de horizontes por fazer

(Ao Vítor Sousa. Entendo-te, entender-me-ás, talvez, mais tarde. Até lá, ou não.)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

certeza

Não é por ti que choro, nem tampouco
pela lembrança de ti, mas pela insuportável
amargura a que sabem as visitas nocturnas que me fazes
nos sonhos do meu sono doentio.
Mas vou matar-te um dia,
atiro-me de um precipício,
dou um tiro nos miolos
e já está.
Matei-te.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

viagem de autocarro à distância da saudade

No plano raso de terra estéril está a árvore.O dia apaga-se, como tempo depois, também o amor viria a apagar-se. Mas o disfarce ainda nem se supõe e é o sol que, em memória, me traz o beija-flor à distância do abraço adiado.A árvore, cercada de nada, num quase vale de delícias, não fosse a aridez da pedra da estátua inexistente, acena-me com braços de vento, num baile de pura sedução.- Não posso! – grito-lhe. E a estrada corre sob o meu corpo que quer a eternidade. E sinto, sinto a fuga e a urgência de parar o tempo na magia daquele instante. Volto-me numa ânsia de dor sôfrega, abafada, olho pelo vidro, embaciado de suspiros alheios e dói-me aquela imagem que foge de mim para nunca mais. E a corrida continua. Apressada, como se o azul que se adivinha não esperasse, ou as casas, já acesas, fossem engolidas pela espuma negra dos rochedos.
*
A árvore já não é, e uma não sei que tristeza profunda vem beijar os meus olhos de água. Quero as palavras. No desespero do impossível, grito à nudez da praia, onde delicados grãos intemporais respondem aos meus gestos desencontrados. E digo ao amor a beleza de um deserto, onde só uma palmeira e um sol que morria, anoitecendo a paisagem apressada, faziam a vida daquele lugar.
*
Há muito que não vejo a árvore. Deixou-se ficar na planura e é, talvez, já pertença de outros olhares ternos e acabados, para o recomeço adiado num qualquer tempo desconhecido. Tal como o abraço da distância, reduzido à imagem quadrada de palavras desenhadas de vazio. Ou talvez não.
*
Fiz a fuga para a ilha e, longe da imensidão de horizontes e lendas, subo a rua que se estende pela encosta, numa subida grande, ansiosa. Lá no cimo, está um cristo ressuscitado e de olhar reprovador. Digo-lhe que a Primavera chegou e que os montes de sol e nuvens têm árvores em flor, que me asseguram que o destino vem na pétala da rosa que arde.
*
Esquecido na concha, o cigarro apagou-se. A música parou.Só o silêncio embala as paredes de ecos e risos sossegados.Só ele conhece que, na vida, há um vaso aberto em cheiros.Só ele se embriaga com a essência do vento a passar nos pinheiros nus.
*
O silêncio é o mundo adormecido num prazer inquieto.O silêncio sou eu.
(2002)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Além Tejo



São amarelas as flores da infância. Não da minha, que me desconheço nestas linhas, mas desse alguém que nasce na palavra; esse alguém que não sou eu, sendo-o, talvez, mas ignorando-o ou recusando sê-lo.


A estrada branca percorre os montes, tapetes amarelos de flores, dessas bravias e minúsculas flores da infância de alguém, alongam-se paisagem fora até aos muros azulados da distância da serra.


Estou só.
(e não sei quem está só: se eu que o escrevo, ou eu que nasço na palavra que escrevi)Olho à volta e é tudo em tudo igual a esse tempo de memória, mas … onde está quem sou?

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

poema

Partida caminho viagem
Busca incessante, coragem
Música canto e vontade.

Terra chuva e paisagem
violenta ternura. Imagem
da certeza: Eternidade.

domingo, 11 de novembro de 2007

Fado do amor inventado

Enobrece o entardecer o amor
por ti, amor, tão meu e antigo.
E amo este versos meus de dor,
sem haver o amor que aqui digo.

como se tivesse havido em tempo,
inesperado, anterior ao existir,
mas foi amor que nem lamento
deixou. Nem lilás foi ao partir.

Acompanho à cítara este canto
triste, sem tristeza que lá more,
não morando senão o pranto
habitando-o sem que se demore.

Entrelaço, assim, na margem do vento
As palavras deste amor inventado
Tão cansado peito de sofrimento
Inexistente amor tão magoado.

sábado, 10 de novembro de 2007

oração

obstinado querer que existas,
nesta difusa imensidão
que, adormecido o dia,vagarosa,
desce sobre os pinhais.

olho o alto, e o teu filho,
na minha infância, por cima
do quadro negro, silencioso,
ouve a ladainha entoada de cor.

escureceu.Pai,
acende, na noite, a Tua casa,
antes de eu adormecer.