domingo, 13 de janeiro de 2008

Já ninguém diz bom dia com desejo...
Já ninguém sente saudade.

Tudo corre...
Todos correm.

Abraçar e beijar com vontade,
Sorrir com o teu beijo...

Tudo corre...
... morrem.

Liliana

domingo, 6 de janeiro de 2008

eu choro porque dói não estar contigo.
eu chamo por ti mas não me ouves.
eu morro porque não te vejo.
eu perco o tino.

eu amo-te!

merda, eu amo-te!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Dor de Mãe - Poema de Natal

Era a manhã de Natal
E fui acordar meu filho adorado
Para abrirmos as prendinhas
E ver o presépio encantado

Mas quando cheguei ao pé dele
Para grande surpresa minha
Ia tendo um colapso
Quando lhe abri a caminha

Mal fui para o abraçar
Senti uma ranhoca mole
Tinha havido um feitiço
Meu filho era um caracol!

Olhei para ele e perguntei:
- Mas que te aconteceu, afinal?
E ele respondeu, muito choroso:
- Estava grosso, o Pai Natal!

- Fez-me isto sempre a rir
Com um bafo a whisky rasca
Deu-me, de presente, um arroto
E voltou com as renas p’rá tasca!

Então corri logo para o telefone
E chamei um médico que o tratasse
Que ao vir tão rapidamente
Até deu mau nome à classe

Mas quando chegámos ao quarto
Disse meu marido, no fim da imperial:
- Vê se temperas melhor os caracóis
Que este não estava nada de especial!

A moral desta história é
Que um pai não deve comer o filho
Pelo menos até ser bem temperado
Com sal, pimenta e tomilho

sábado, 8 de dezembro de 2007

Os meus diálogos com Deus - 1º episódio

A minha primeira experiência com um gravador. Não sexual, claro. Essa já a tive há uns anos atrás. Sobre o som: está baixo, é baixo e tem borbulhas. Ah, é verdade, tenham paciência e não desliguem antes da primeira "muda de voz" (já irão perceber). Caso eventualmente façam esse esforço, assim por assim vão até ao fim (bela rima!). Ou não. Em todo o caso, ouvidos mais sensíveis não deverão ser lavados antes da audição. Boa sorte.

Moi Os meus diálogos com Deus - 1º episódio - Song - MP3 Stream on IMEEM Music

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Enquanto fazia cocó. (E assim)

Lembrei-me de ti, amor, enquanto fazia cocó. É que tu, amor, provocas esse efeito em mim – lembro-te mesmo nos sítios e ocasiões mais improváveis. E assim.

E não foi, amor, da inevitável comparação entre os asseados e geometricamente bem dispostos urinóis e tua perfeita dentição, quando sorris. Também não foi, amor, do som estridente dos canos velhos evocando a melodia do nosso iminente orgasmo, simultâneo e sublime. Muito menos, amor, da associação entre a água que escorria lentamente na sanita e teu corpo de mar, sempre sedento de mais mergulhos e mais lábios. E assim.

Não, nada disso, amor. Apenas do cheiro a merda.

E assim.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

O traficante (1ª parte)

Ano: 2069. Local: aqui.

Pois aqui estou. Dentro. Sim, na prisa, na choça, dentro. E porquê? Porque fui condenado por tráfico. Eu explico. Comecei a consumir apenas por curiosidade, a curiosidade deu lugar à necessidade, depois, quando as necessidades aumentaram, tive que começar a vender para satisfazer as minha próprias carências e... acabei apanhado.

Mas deixem-me fazer uma breve cronologia para que percebam todo o contexto e não comecem, desde já, a fazer julgamentos sumários, como fariam três beterrabas a um bife lilás (não perceberam a piada? ... são coisas modernas, é natural que não entendam, ainda estão umas dezenas de anos atrasados). Ah, já me esquecia – o tráfico que eu fazia era de hidratos de carbono, não de esteróides nem de expressões idiomáticas; nada disso, eu não sou desses, atenção! Bom, mas vamos lá do princípio, apenas com os acontecimentos mais relevantes para vos enquadrar.

2010: Proibição dos enchidos.
2015: Defenestração do último fumador.
2020: Electrocussão do penúltimo alcoólico (o último foi para o Museu de Cera de Madame Tussaud, em Londres). Início dos trabalhos preparatórios do novo aeroporto.
2025: Sodomização do Pai Natal por uns putos da escola C+S de Fitares. (Este acontecimento não foi muito importante para nós, humanos, mas há que ter também respeito pelas renas, já que, pelo menos uma delas - Rudolfo, o Penca Azul – é minha leitora assídua).
2030: Obrigatoriedade do jogging a partir dos 11 meses de idade ou de um metro de altura.
2035: Reprodução obrigatória por fertilização “in-vitro”.
2040: Proibição da pesca de peixes gordos e da caça de animais terrestres gordos e vice-versa.
2045: Ilegalização de todas as gorduras animais e vegetais e dos desodorizantes em forma de pénis. Fim dos trabalhos preparatórios do novo aeroporto e opção governativa pelo uso de parapente em vez de avião.
2050: Supressão do sexo selvagem ou de qualquer outro tipo, excepto se efectuado pela Internet e com animais domésticos do outro lado do ecrã.
2055: Ilegalização dos hidratos de carbono.
2060: Proibição da asneira, calão ou de qualquer tipo de praguejamento, incluindo as expressões “Paulo Portas” e “Abdulah para ti também”, para além da palavra “frigorífico”, esta apenas por um capricho palerma do legislador.
2065: Primeiras grandes manifestações e jornadas de luta de obesos, seguidas das primeiras grandes manifestações também (mas curtinhas, já que as forças não eram muitas) de apenas não esqueléticos.

Agora que estão situados, facilmente perceberão - um homem não é de ferro! – que, às tantas, uma pessoa cede à tentação. Comecei, apenas, por sonhar com uma batatinha, só uma, uminha, para acompanhar o meu “Vita-Prota Perfect”, o obrigatório comprimido da hora de almoço (e que, hélas!, o substitui...). Depois, e sabendo desses meus desejos, um amigo indicou-me um vendedor de batatas que, todos os dias às 4 da manhã, estava numa determinada esquina pouco iluminada (mas muito cheirosa) no Bairro Alto. Lá fui. Comprei só uma, para experimentar, tanto mais que eram caríssimas. Chegado a casa, cozi-a e, devagarinho, saboreei-a. Que delícia, há quanto tempo! (na verdade, a última tinha-a comido salteada, no Verão de 2054, acompanhada com dois ovos ilegalmente estrelados em manteiga e por um pêssego de sabor a cerveja com álcool).

Na manhã seguinte, a minha namorada desconfiou que qualquer coisa de estranho se passava, não só pelo meu ar de satisfeito - mesmo após uma crise de impotência com o gato dela pela Internet - como, também, por um altamente denunciador arroto matinal.

- Andas metido nos hidratos de carbono, eu sei; vi muito bem a que horas chegaste ontem e o estado em que estavas, com aquela cara de parvo sorridente com que se deitam todos os agarrados à batata!

disse-me com ar reprovador. Nem perguntei como é que ela sabia disso só para não piorar, ainda mais, a situação. Vai daí, disfarcei-me de lagarta parda e resolvi pirar-me sorrateiramente, enquanto ela me insultava sem perceber que o horroroso verme que estava a varrer para fora de casa, afinal, era eu. (E depois eu é que sou o totó do drogado!...)

- Hidratado! Não passas de um carbonatado! Por isso é que nunca terei filhos contigo! E também porque és um cocó de peru azul!

gritava ela já bem longe - que eu rastejo depressa. (Bem sei que também não perceberam o último insulto dela mas vão-se habituando que, para a frente, há mais – conforme já vos expliquei, são coisas modernas... e parvas também).

Bom, adiante. Enquanto ela continuava naquilo (“desgraçado!”, “hérnia de peixe surdo!”, ...) eu punha-me a caminho do Bairro Alto, ansioso por mais uma compra.

- E se hoje experimentasse umas massinhas italianas, será que aquele dealer também as vende?

- Massinhas, hummm...

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(*) – Como em 2060 foi proibida a asneira e o praguejamento, não posso dizer “peido” (Olha, afinal disse, lá vou eu ser multado, porra! – Outra, que chatice. Olha outra, ‘tou lixado! – Oh não, outra vez. Bem, vou pagar cá uma multa...)

sábado, 24 de novembro de 2007

Cátia Vanessa Silva Campeã Olímpica!

Segundo o “Publico” de 9 de Outubro passado, “a aleta grega Ekaterini Thanou poderá vir a ser contemplada com a medalha de ouro dos 100m relativa aos Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000”, no que seriam “os ‘danos colaterais’ do processo de doping que levou à queda desse mito do atletismo norte-americano, Marion Jones”. Refere também o mesmo jornal que “ironicamente, Thanou foi suspensa em 2004, por um período de dois anos, por ter faltado a três controlos antidoping”.

E pronto, o “Público” ficou-se por aqui. Como sempre, frouxos jornalistas! Como é evidente, esta história não podia acabar assim, estava em causa o prestígio nacional – como já irão perceber. Adiante. Fomos investigar.

Consultando a lista das concorrentes aos 100m de Sydney, constata-se que, atrás das duas atletas já referidas (uma já desclassificada, Jones e outra em vias de o ser, Thanou), em terceiro ficou Belinda Thomas, das Bahamas. Ora bem. Como é óbvio, ao usar um equipamento amarelo berrante, provocou danos irreversíveis no bom gosto das restantes atletas, o que foi considerada uma grave violação das regras do fair play - pelo que também foi desclassificada. Em quarto, Lindsay Mark, da Grã-Bretanha que, à data, usava um desodorizante em spray, libertando perigosos CFC para a atmosfera que prejudicaram (e de que maneira, a Amazónia que o diga - caso aprenda a falar, claro!) todo o meio ambiente. Desclassificada. Em quinto, a etíope Tutu Beliu, que fazia o bigode com gillete de lâmina dupla. Ora, como toda a gente sabe, se a lâmina não for, no mínimo, tripla, uma mulher não pode estar na alta competição. Fora! Em sexto, a bielorussa Tatiana Smirnov que, obviamente, nunca teria passado num teste de alcoolémia, mesmo se feito por um GNR de Faro. Desclassificação óbvia. Em sétimo, a italiana Adriana Fellatio, que tinha pé-de-atleta. Também como é do conhecimento geral, só atletas completos é que podem participar no Jogos - um pé não basta. Andor! Finalmente, em oitavo, Carlos Castro, que também foi excluído devido às análises terem revelado excesso de estrogénio.

E, assim, tudo isto nos traz a Tavira, à fábrica das genuínas Alheiras de Mirandela, na região demarcada do Gilão, onde interrompemos o trabalho de Cátia Vanessa Silva, inspectora de qualidade e grossura, para lhe transmitir a boa notícia.

- Eu, campeã olímpica ?! A sério ?! Mas eu nem participei!

Então explicámos-lhe que teve de ser feito um sorteio entre todas as atletas que não participaram, já que sempre que se fazia um teste antidoping - ou qualquer outro, nomeadamente da carta de condução de pesados ou de QI - a alguma atleta concorrente, dava sempre chumbo e, por aquele andar, nem 2057 se saberia o nome do vencedor do lançamento de porco com bandollete dos Jogos de 1912.

- Fogo! É mesmo verdade! Com essa é que me convenceram! Maria, Fatinha, Ula, Drª Bivac, Céuzita, venham cá depressa! – gritou Cátia Vanessa, chamando as suas colegas de trabalho mais próximas, tão próximas que quase ensurdeceram com os gritos da nossa campeã. Logo vamos comemorar, meninas?

E foram - não sem antes Cátia Vanessa ter sido homenageada pela Câmara Municipal, em sessão conjunta com outro galardoado, Zé Manel, futebolista anão da zona que havia ficado famoso por conseguir um autógrafo de Cristiano Ronaldo, ao disfarçar-se de seio proeminente. No fim da cerimónia, recebeu o apoio estatal para a alta competição, ou seja, um calção rasgado que já havia pertencido a Rosa Mota e um pionés torto.

Continuando. Foram comemorar. Mas, por azar, enquanto estavam, pela noite fora, bebendo ginjinhas e discutindo o conceito de estética de Platão, apareceu um inspector olímpico e fez-lhe um teste cultural surpresa. Como não sabia o resultado do último jogo de futebol da XIIª Divisão entre o Cinfães de Baixo e o Boticas Azuis foi, evidentemente, desclassificada.

Aparentemente, um duro revés. Mas nada que desmoralizasse a nossa nova heroína nacional. Pediu a contra-análise, fechou-se em casa a estudar e, três dias depois, na Suiça, deu um murro no Scolari, num gesto de grande beleza fortemente aplaudido por todos os componentes do Júri de Apelo. Foi dispensada da oral (e da anal também) e recuperou a sua medalha, arduamente conquistada enquanto enchia as deliciosas Alheiras de Mirandela de Tavira.

Meus amigos, temos campeã! Viva Cátia Vanessa Silva!

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Malditos ambientalistas

No telejornal.
Notícia de última hora: Deu-se, há cerca de trinta minutos atrás, uma explosão no centro de Lisboa, desta vez em frente à esquadra de polícia junto ao Centro Comercial das Amoreiras. Segundo as autoridades, trata-se de mais um atentado do Exército de Salvação Portuga, que luta contra o alegado domínio estrangeiro do território nacional, ocupado desde 2015 pela coligação burundo-norte-americana na operação “Tempestade no Tejo”. Apesar de insistentes apelos da comunidade internacional para a alteração desta situação e realização de “eleições livres e justas”, nada foi feito nesse sentido já que, segundo as autoridades, "o povo português ainda não tem capacidade de decisão, nomeadamente quanto ao molho a colocar no hambúrguer". De volta ao assunto do dia, e quando entrevistado há pouco sobre este último atentado, o porta-voz do primeiro ministro, John Smith, disse (e citamos) “istamus a rrializar as nossa investigations e soon terremos risultodos” (fim de citação).

Relembramos que ontem, numa outra conferência de imprensa realizada no Palace of the Needs - outrora Palácio das Necessidades -, e quando mais uma vez inquirido sobre se as verdadeiras razões desta ocupação se prendiam com o fim das jazidas de petróleo e o franco desenvolvimento do aproveitamento da energia solar nos países mediterrânicos, Texas Kid, ministro português do Ambiente e Recursos Naturais, respondeu (citando) “In your ass!” (fim de citação).

A tradução da resposta anterior, disponibilizada pelo acessor de imprensa aos meios de comunicação social, foi (e citamos novamente) “a Administração norte-americana apenas procura promover a paz e o bem-estar nas mais diversas nações do Mundo, nomeadamente aquelas com elevados valores de insolação anual, já que, nesses países, as pessoas são mais lentas, trabalham menos, e necessitam de investimento estrangeiro de qualidade por forma a melhorar as suas condições de vida. Para além disso, antes da invasão, perdão, libertação, soubemos através dos nossos elementos da CIA no terreno, que houve uma tal de Dona Chica, de Barcelos, que atirou um pau a um gato o que, sendo para nós uma violação evidente e intolerável dos direitos felinos, nos obrigou a intervir de imediato. Finalmente, aproveitamos a ocasião para reafirmar a nossa grande amizade e respeito pelo povo português, esse grande povo africano” (fim de citação).

Inquirido sobre os casos de sodomia com sardinhas assadas vindos a público e alegadamente ocorridos com os prisioneiros da Boixes Jail (antiga Prisão de Caxias), o mesmo acessor reafirmou que essas eram situações pontuais e que haviam sido prontamente resolvidas com castigos exemplares aos prevaricadores, nomeadamente uma semana de shots forçados em Miami. Quanto ao dealer de sardinhas, esse foi condenado a quinze casamentos ciganos e quatro circuncisões consecutivas.

Em casa da família Moreira.
- Eu bem dizia que estes gajos ambientalistas ou lá o que é, haviam de lixar isto tudo com a mania de andar para aí a gritar a toda a gente sobre as energias alternativas. Que sim senhor, que eram renováveis, que eram o nosso grande recurso, que afinal até éramos ricos – então em energia solar... Claro está que, com este solzinho todo, os americanos, que não são parvos nenhuns, vinham logo para cima de nós!

- Mais um McChicken, querido?

- Sim, pode ser. Malditos ambientalistas!

domingo, 18 de novembro de 2007

Dia de S. Valentim

Saía de uma, entrava noutra. Saía de outra, entrava noutra ainda. Hesitava. Pensava mais um pouco (“não posso errar na escolha!”). Mas continuava indeciso. Por isso voltava outra vez à carga. Finalmente, já quase exausto, decidiu-se - era à Amanda que iria oferecer o finíssimo “Channel nº5“ há muito comprado para esse dia.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Última hora - Drama em Escola Secundária

Passavam poucos minutos das cinco horas da tarde de hoje quando, na Escola Secundária de Alguém, o caos se instalou. Conta quem assistiu que “eram gritos, livros pelo ar, correrias desenfreadas, enfim, a confusão total”. Quanto à causa, foi possível descobrir que tudo isto foi provocado por um (de todo inesperado) ataque de Amor Universal por parte de um aluno do 10º ano que, alegadamente, atacou cinco outros com beijos, abraços e frases simpáticas, não lhes dando tempo nem hipótese, sequer, para efectuar qualquer movimento de defesa.

Neste momento são quase sete horas e o aluno já se encontra isolado no ginásio, cercado pelo Grupo de Amorosas Intervenções (GAI) da PSP que, soltando gases naturais e urros contranatura, tenta atordoar o suspeito. Assinale-se que foi ali encurralado após uma tentativa frustrada de fazer amor com um espaldar – curiosamente, a causa da rejeição foi o mau hálito.

Entretanto, a equipa de negociadores policiais, em que se inclui um psicólogo, um anão careca, um culturista que arrota esteróides e uma mulher barbuda com um pato de loiça ao ombro, tenta convencê-lo a sair dali sem tentar beijar o agente Silva. O aluno recusou pois, citando as forças de segurança, diz que “seja esse, seja outro qualquer, nem até que – com ‘k’ - me beije a mim mesmo, assim é que - com ‘k’ - eu não fico. É que – com 'k' -, atenção: estou quase a explodir de amor!”, ameaçou, com a voz embargada de tanto e tão perigoso afecto por expressar.

Entrementes, e num inaudito assomo de coragem, Carlos Castro, o verdadeiro Fernão Lopes da actualidade, ofereceu-se como voluntário para substituir o dito agente da autoridade - o que provocou ainda mais o aluno, ao ponto de ele ter, inclusive, ido ao espelho da casa-de-banho piscar o olho a si mesmo. Este facto foi considerado “muito grave, pois está a um passo do auto-engate”, segundo nos confidenciou o psicólogo da equipa da PSP (ou teria sido a mulher barbuda? Bom, também não interessa...).

Contactado por nós em sua casa, o pai do aluno mostrou-se totalmente incrédulo com toda esta situação. “Como é possível? Desde pequeno que leva pancada, só vê filmes do Rambo e do Jackie Chan, na consola só joga ao Tekken e agora... isto?! Digam-me, digam-me lá, onde é que eu errei, digam-me, por favor!”. E ali ficou, ainda sem acreditar no que se passava. (Tão desconsolado estava que mal conseguiu dar umas bofetadas na mulher. Era, de facto, o retrato da angústia e do sofrimento).

Entretanto, são agora quase oito horas da noite e, finalmente, conseguimos chegar à fala com a Presidente do Conselho Executivo, Drª Doutora que, na condição de total anonimato, nos confidenciou também não entender como tudo isto terá sido possível. “Nós até retirámos do programa o Canto IX de ‘Os Lusíadas’, com todo aquele deboche da ‘Ilha dos Amores’; até censurámos, no canto seguinte, o nome da deusa “Tétis”, à qual chamámos “Zé”, evitando aquelas graças tipo “Ó Deusa, mostra-me aí as tuas tétis!” e coisas do género. Abolimos, também, o Eugénio de Andrade por causa daquelas manias de que “é urgente o amor” e parvoíces do mesmo tipo, incluímos as artes marciais no programa obrigatório de Português Z... francamente não percebo, não tenho explicações para nada disto”, concluiu a Presidente, ainda sob o mais rigoroso anonimato.

Mas, esperem... o aluno está a sair agora, escoltado pelos GAI, perante os apupos da multidão que, com o passar das horas, se foi aglomerando junto à Escola. Observamos também que, por certo para não arriscar a integridade moral de ninguém, já lhe foi colocada uma armadura medieval de segurança prevenindo, assim, todo e qualquer contacto físico. E, atenção, lá vai ele a entrar no carro da polícia... estão a tentar outra vez, já que o capacete da armadura bateu contra o tejadilho... nova tentativa... bonk...novamente... bonk...

Bom, fechamos aqui esta transmissão (bonk) em directo – tudo está bem quando acaba bem, não é verdade? - , vamos (bonk) regressar aos estúdios onde, a partir (bonk) das 22h, teremos mais um “Prós e Contras” com (bonk) o tema escaldante da actualidade (bonk) que este caso veio, mais (bonk) uma vez, trazer à ribalta - o excesso de amor (bonk) nas Escolas. Não perca.

Bonk.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

National Parvographic - Adaptações (I)

As bicicletas de montanha foram muito inteligentes na adaptação que fizeram ao meio ambiente – basta ver que, quando descem íngremes encostas a grandes velocidades, levam senpre um humano à tiracolo para as ajudar no equilíbrio, evitando, assim, uma possível destruição parcial ou total.

sábado, 10 de novembro de 2007

Resistindo ao invasor

Estamos há um ano e meio no bunker resistindo ao invasor bem que soldados dele nos batem periodicamente à porta em camisinha branca tentando doutrinar-nos mas nós disfarçamos e dizemos sempre não está ninguém só nós as cadeiras e eles vão-se embora os palermas pelo que conseguimos ver por uma fresta mal tapada do nosso refúgio vêm sempre de prontuário na mão dizendo que ali reside a salvação e que a vírgula marca uma pausa curta e que as reticências assinalam uma suspensão de frase balelas gramaticais e que está para descer à Terra mais coisa menos coisa daqui a um ano vá lá dois o anjo dos três pontos que nos irá salvar mais ainda mas nós não somos desses nunca seremos e nunca nos deixaremos converter e nunca sairemos daqui a chatice é que cheira mal à brava deve ser do Jorge que era um purista e tentou ler o esboço deste texto de um fôlego só como mandam as regras conforme ele dizia e morreu de falta de ar ou disso ou dos pés do Santos da mercearia mas parece-me mais provável ser do Jorge por causa das larvas que já lhe levaram os olhos adiante dizia eu que não usámos não usamos e não usaremos qualquer sinal de pontuação que isso seria pactuar com o inimigo e nós não somos nenhuns vendidos não senhor e não nos deixaremos aculturar até no outro dia o Antunes queria fazer uma concessão e escrever pondo lá pelo meio um ponto em cima de uma vírgula e até fui eu que disse alto lá que isso não é Literatura é deboche um ponto põe-se numa vírgula e depois sabe-se lá o que acontece ainda têm um filho e imagina que sai um ponto de exclamação e depois o ponto diz porra que este não é parecido comigo deve ser filho mas é do leiteiro e a vírgula que chatice és um desconfiado do caraças e o ponto os meus pais e os meus avós também eram baixos e redondos como eu explica-me lá como é que saiu esse fininho ai o caraças que já me estou a chatear e às tantas começavam à porrada e aos tiros e os danos colaterais eram as palavras e depois os textos ficavam em branco e tínhamos que voltar aos sinais de fumo mas os sinais de fumo só lá fora do bunker e assim éramos apanhados e por isso tivemos de matar também o Antunes eh pá se calhar é daí que vem o mau cheiro desculpa lá ó Jorge por te ter invectivado em vão e as larvas não responderam mas vai daí começaram todas a cantar à Hollywood e a fazer sapateado em cima dele deve ser da droga um gajo pensa que estas porcarias só acontecem aos outros mas afinal só dei uma passita, caramba eh pus uma vírgula deve ser de estar drogado que um gajo nestas alturas só pensa em mamas e nem sabe o que faz vai daí o Santos disse-me faz outra dessas faz e também morres e eu respondi tu e mais quantos e espetei-lhe um ponto de interrogação que os invasores tinham deixado por debaixo da porta pelo rabo acima e rodei-o só para chatear e o sacana disse que até nem era mau de todo não é que gostou e que para a próxima quer também um ditongo e eu o caraças ou julgas que eu sou daqueles que põem ditongos onde calha os ditongos são para se usar criteriosamente e ele ‘tá bem e eu cheirei o Antunes para voar mais alto e quando ia a trincar qualquer coisa antes de jantar ou seja mais uma larva do Jorge ela disse-me é melhor não que eu comi dois pontos agora mesmo e estou a sentir-me mal e ainda apanhas uma congestão e eu perguntei onde é que os arranjaste e ela disse foi o Santos que me deu e então tive de acabar também com o Santos que isto da pontuação pode ser como uma epidemia depois espalha-se e sabe-se lá o que pode acontecer ah é verdade como tive de matar o Santos fiquei sozinho aqui com um mau cheiro do caraças mas resistindo despontuação ou morte, vencerei! Porra pus não um mas dois sinais de pontuação deixei-me levar pelo momento pronto não mereço viver bem dizia o Santos vou suicidar-me também nem é preciso fazer muito com este cheiro basta respirar e vou inspirar muito e à brava fui

Manifesto contra a minha participação neste blogue

Ao lhe ser perguntada a razão pela qual nunca havia pertencido a nenhum clube ou colectividade, Groucho Marx respondeu algo como “recusou-me a estar em qualquer instituição que me aceite como sócio”. E, até hoje, marxista de tendência Groucho que sou, sempre tenho usado esta frase como lema, quase mesmo como uma obrigação religiosa – o único problema é que, como também a tenho aplicado na minha relação com mulheres, ainda permaneço na fase dos posters de gajas nuas no quarto. E sou míope.

Adiante. Após me ter sido feito o convite para participar neste blogue, fiquei a pensar se não deveria abrir uma excepção. Será que, mesmo a freira mais devota, uma vez na vida não sonha com Cristo em trajes menores? Será que um tomate não pode, um dia, atravessar uma auto-estrada? Será que o mais extremoso chefe de família não fica, por uma única noite que seja, em frente à televisão vendo programas do “National Geographic” com animais completamente nus? (O que é um nojo, digo eu. “Uma saia plissada verde com lantejoulas”, dirá o leão transsexual do último programa, se questionado sobre as suas expectativas para o Natal).

Seja. Se os outros podem abrir excepções, porque não eu? Decidi, então, participar. Em todo o caso, para que não restem dúvidas - não só sobre o meu não pensamento como da forma e linhas gerais da minha colaboração -, resolvi escrever este manifesto, evitando, assim, futuros equívocos e eventuais doenças venéreas. Assim, tenho a esclarecer que:

1) Protesto veemente e energicamente pela minha inclusão neste blogue, da qual discordo em absoluto;
2) Sou contra toda e qualquer forma de Arte, nem que sejam as mais elevadas, nomeadamente o Marco Paulo a cantar na Venezuela para filhos de raptados;
3) As crianças não deveriam, sequer, aprender a ler e a escrever – tal teria evitado, por exemplo, o livro da Carolina Salgado;
4) Deveríamos ir viver para as árvores, nem que fosse só para fazer cocó para cima dos animais que passassem, atirando as culpas para os rouxinóis;
5) Parafraseando a Dona Miranda, toda a minha escrita poderá e será usada contra si e toda a sua estabilidade mental – que provavelmente será pouca, já que leu isto até aqui -, não tendo direito a advogado se me resolver processar;
6) O chapéu do Papa é fixe.

Bom. Agora que estamos esclarecidos e para que isto não fique muito longo, deixo-vos, como aviso para não voltarem a ler os meus escritos, um pequeno exemplo das parvoíces que irão aparecendo por aqui em meu nome - pelo menos até ser expulso ou provocado a debandada geral dos leitores. Este texto chama-se “o olho experimentado da autoridade” e, como podem constatar, por uma espantosa coincidência tem o mesmo título.


O olho experimentado da autoridade

Um morango passou por mim, pedalando numa bicicleta. Não liguei. Um polícia de giro também reparou mas, com o seu olhar experimentado de autoridade, viu logo que ali havia algo de estranho. Mandou-o parar – era a matrícula que estava torta. Arranjaram-na e o morango seguiu viagem.