quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Um som terrível no escuro

Nesse Setembro de 75, dois jovens portugueses, colegas de profissão, aproveitavam as férias e um Dyane comprado há pouco para espraiarem a liberdade por paragens além-fronteiras. Levavam uma tenda canadiana e acampavam onde calhava. Viajavam ao sabor dos acontecimentos, confiados nas benevolências do acaso.

Em Vitória, já país basco, a notícia do dia era a morte de mais um «carabinero». Pressentindo a morte iminente de Franco, os separatistas da ETA intensificavam o número de atentados.

Petiscaram num bar e voltaram à estrada procurando um local para acampar. Uns quilómetros à frente, encontraram um terreno plano ao lado da estrada e entraram. Ainda de faróis acesos e motor a trabalhar, foram rapidamente cercados por vários guardas que iam a passar em dois jipes. Tentaram explicar-se em espanhol, mas, porque falassem suficientemente bem, porque a matrícula começava pelas mesmas letras que as de Burgos, ou pela ideia apetecível aos militares de que tinham apanhado dois terroristas, não estava a ser fácil convencê-los da origem lisboeta dos intrusos.

Nisto, chegaram mais guardas comandados por um graduado. Estes, nem dúvidas tiveram. Ao verem aquele aparato, saltaram dos jipes em atitude de grande sanha bélica e, sem darem tempo a qualquer explicação, gritaram que os suspeitos saíssem do carro. Tensos. Os jovens saíram, ofuscados pela luz forte dos faróis, para logo ouvirem ordens de «manos en el aire!», quase abafadas pelo matraquear metálico de muitas culatras puxadas atrás.

Quem vos conta isto levantou as mãos lentamente, virou-se e apoiou-as no carro, rodando o rosto para o lado contrário ao dos guardas, para que nem o olhar pudesse fornecer qualquer pretexto ao nervosismo revanchista dos carabineiros. Durante uma eternidade de segundos, esperou ser trespassado, senão por um sem-número de balas à queima-roupa, com certeza por aquela que só obedece ao diabo e que é disparada até pelas espingardas descarregadas.

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

terça-feira, 8 de julho de 2008

micro-ensaio sobre a amizade









Na biblioteca um livro assinado e dedicado, com a sua amizade, a alguém pelo seu autor. Que terá acontecido ao dono do livro para este ter ido parar à biblioteca? Terá morrido? Terá o Estado penhorado o livro entre um montão de coisas da sua bela moradia e depois doado à biblioteca? Se o Estado penhorou o livro, e sublinho o que já disse – um livro assinado e dedicado a alguém – então o Estado já penhora sentimentos e já se imiscui na Poesia enquanto algo mais do que o mero livro penhorável entre uma série de objectos pessoais.

O autor chama-se Abelardo Rodríguez. Resolvo não procurar informação acerca da sua pessoa, não sabendo questões básicas como, por exemplo, se vive, morre ou está morto. Olho para ele através da foto que consta de uma das páginas iniciais, com uma barba escura e séria. “Abelardo Rodríguez”, repito a mim mesmo. Enquanto escrevo isto resulta que se me afigura possível que o Abelardo (ou os seus filhos ou netos, legítimos ou bastardos) , procure no google pelo seu próprio nome e encontre estas considerações de alguém que não conhece, seu equidistante a muita ou pouca distância.


O Abelardo ficará triste. A biblioteca é detentora de parte da sua amizade. E hoje apeteceu-me requisitá-la.



Texto de Tiago Nené
foto de manuel a. domingos

segunda-feira, 30 de junho de 2008

O alfobre da poesia

Atingido por um malogro de amor, esfacelou-se-lhe o peito. Aí brotou o poema.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Retratos

Na sala da casa de família, preparo-me para substituir o casquilho da única lâmpada, calcinado pelo calor e pelo tempo. Os retratos dos ancestrais, a toda a volta da sala, olham-me sisudos, graves, nos seus fatos domingueiros. Sem escadote, encavalito-me num banco sobre uma cadeira. Os retratos atentos, tensos, parecem dizer: «Tem cuidado filho/sobrinho/neto!». Completo o trabalho, arrumo a sala. A lâmpada já acende outra vez. Os retratos fitam-me silenciosos, mas parecem sorrir.

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Nome de família

Era uma vez um japonês, de gestos tão bruscos como se vê nos filmes, que se chamava Yátá! A sua esposa, não tão dócil como as gueixas dos filmes, chamava-se Komo Yátá !

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

quinta-feira, 6 de março de 2008

Os Crimes dos Outros

Numa altura em que praticamente não havia bens materiais, ele era um indivíduo avulso da Classe B. Antes de se poder interpretar cada frase que dizia, era necessário interpretá-lo a ele. Só os indivíduos da Classe A tinham legitimidade para fazer tal tipo de interpretação (assim ditavam umas quaisquer leis orais).
Os da Classe C, entre eles e em segredo, faziam interpretações clandestinas dos indívíduos das Classes A e B. Os da Classe A, incomodados, infiltraram alguns elementos nas tertúlias da Classe C a fim de alterarem este estado de coisas que, segundo eles, era danoso para a saúde das relações entre pessoas que nasceram e cresceram diferentes.
Já os da Classe B era gente que não se reunia porque das duas uma: ou eram pessoas de razão individual, ou viviam numa qualquer surrealidade. De todo o modo, a moral desta história até aqui diz-nos que só as classes que se encontravam nos extremos, A e C portanto, é que se achavam presas a doutrinas e opiniões. Os da Classe A em razão do berço, os da Classe C em razão da proibição social.
Muito tempo depois, os indivíduos da Classe B eram muito poucos, em virtude da sua natureza fechada. Por isso, a mentalidade teve de mudar e a solução foi agregarem-se à Classe C. A influência foi tão grande que os da nova classe, a que chamaremos por conveniência Classe BC, jamais emitiriam opiniões acerca da Classe A. Esta, achando-se sozinha, baixou um nível e já se encontrava próximo do que fora a extinta Classe B. Depois, passando pelo mesmo problema que passara a extinta Classe B, agregou-se, aos poucos, na Classe BC. Poderia chamar-lhe de Classe ABC mas dar-lhei o nome de Classe Única. Aquela sociedade acabara de dar a si mesma a liberdade. Pouco tempo depois, e devido à falta de união da Classe Única, mormente e inclusive devido à falta de discussão e de ideias políticas que levasse, não só mas também, à criação de um exército, ainda que mínimo, este simpático povo desta aldeia asiática fora engolido por uma sociedade maior, mais evoluída e consciente do que era o mundo. Quando isso estava a acontecer, a Classe Única tripartiu-se, e as
Classes A, B e C estavam de novo em vigor. Houve até famílias, entretanto formadas com membros das três classes primitivas, que se separaram, e algumas crianças foram levadas para muito longe e dadas à adopção. Uma delas era eu, um famoso criminoso reformado, escrevendo a sua biografia numa entrada da Wikipédia, utilizando apenas, para o efeito, os crimes dos outros.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Atum

Dizem na tv que o atum está em vias de extinção.

Tenho medo que quem possa fazer algo contra isso, simplesmente não aprecie a espécie ou então que prefira enguias fritas.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O Papa-jornais


Na minha rua existe uma personagem singular – um comedor de jornais. Devora todos os que encontra, quer os que são abandonados nas mesas do café, quer os que o vento empurra rua fora. Uma vez por outra, já o vi debruçado pela abertura do Papelão.
Como seria de esperar, está sempre bem informado, quer das notícias do dia, quer das de véspera que já todos esqueceram. Também por isso é motivo de falatório na rua. Estranham-lhe a bizarria – dizem.

A mulher que salga sempre a comida inveja-lhe a memória. O rapaz que sonha com pescarias no tanque do fontanário diz que ele assusta os peixes com a sua maneira ruidosa de mastigar. As primas que plantam jacintos nos charcos da calçada dizem que ele nem pensa na floresta. O oriental, de cujo livro, que lê constantemente, saem, de vez em quando, pétalas coloridas, olha-o de lado com desconfiança.

Tão grande mal-estar desapareceu, hoje, milagrosamente. Quando, esta manhã, saí à rua para comprar pevides de melão, as conversas giravam à volta dele. Todos asseveravam a bondade do Papa-jornais, que, afinal, não era assim tão esquisito, e que a sua preferência gastronómica até era útil para o asseio do bairro. E lamentavam-no com lágrimas nos olhos. Parece que morreu ontem de uma indigestão de Destak’s.

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Balanço de vida ou o pequeno equívoco


O meu vizinho do 8º, velha raposa dos negócios, confessou-me que está a sentir-se muito só neste Natal. Acabrunhado, disse-me que teme ter-se equivocado nas opções que fez na sua juventude.
Lembra-se de ter optado sem hesitação pelo Ser, quando foi confrontado com a dicotomia Ser/Ter nas aulas de Psicologia. Aluno cábula mas intuitivo, apreendeu rapidamente o que o professor defendia sobre as vantagens do Ser, para um homem atravessar a vida de bem consigo próprio. Ainda se lembra de ter pensado que era, evidentemente, melhor Ser abastado ou poderoso que Ter muita cultura ou solidariedade…

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

História do grego Onanágoras


Por volta do ano 400 a.C., vivia, na antiga Grécia, um pobre homem de nome Onanágoras. Habitava sozinho num monte pedregoso, batido pelo vento. Alimentava-se de nabos e mel, e figos no tempo deles. Apesar da enorme pobreza e solidão, viveu relativamente feliz por muitos anos.

Até que lhe sobreveio uma crise de meia-idade. Começou a andar cabisbaixo, sorumbático e sem vontade de ir aos figos. Ao fim de algum tempo, resolveu fazer uma peregrinação a Delfos para consultar a divindade sobre o seu problema.
Pôs um saco de nabos e um pote de mel numa cesta e pôs-se a caminho. Ao fim de alguns dias chegou a Delfos, purificou-se e fez as suas oferendas ao deus Apolo, na pessoa da Pitonisa. E expôs o que o entristecia:

- Ó brilhante Apolo, há muitos anos que vivo só num monte pedregoso. Tenho apenas por companheira a minha mão direita com a qual tenho mantido uma relação fiel e gratificante. É ela a minha consorte. Com ela tenho vivido feliz nestes últimos 40 anos. Mas, ultimamente, tenho sentido apelos perturbadores. Apetece-me mudar, conhecer mundo, variar. O que é que hei-de fazer?

A Pitonisa olhou para o saco de nabos e para o pote de mel que o pobre grego trouxera, entrou em êxtase e depois de revirar os olhos declarou:

- Toma para ti uma concubina!
- Mas, como?, se não tenho senão uma leira de nabos, uma colmeia e uma figueira!


Embora não costumasse pormenorizar muito os seus oráculos, desta vez a Pitonisa condescendeu em especificar:

- Toma como concubina a tua mão esquerda!

Onanágoras agradeceu o conselho e voltou para o seu monte pedregoso. E viveu feliz por mais 25 anos.


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terça-feira, 20 de novembro de 2007

Uma semana para esquecer


Na Segunda-feira, ao sair de casa, deparei com um carro estacionado mesmo em cima da passadeira de peões que dá acesso à minha casa. Incomodado, afixei-lhe a meio do pára-brisas um pequeno autocolante amarelo, que trago sempre comigo, que diz: Estacione bem – Respeite os outros.

Na Terça-feira, lá estava o mesmo carro estacionado na passadeira. Indignado, apliquei-lhe, desta vez, um outro pequeno autocolante vermelho que diz: Mal estacionado – Sujeito a reboque.

Na Quarta-feira, o carro estava outra vez na passadeira. Irritado por a minha acção pedagógica não resultar, levantei-lhe os limpa pára-brisas.

Na Quinta-feira, lá estava o carro na passadeira. Exasperado com tanta falta de respeito pelos outros, coloquei-lhe um pauzinho na válvula do pneu dianteiro direito. O ar ficou a vazar.

Na Sexta-feira, o carro estava, uma vez mais, na passadeira. Furibundo, dobrei e amarfanhei-lhe ambos os limpa pára-brisas.

No Sábado, o carro já não estava na passadeira, finalmente. «Há pessoas que só entendem a linguagem da violência» – pensei. Estava um pouco mais atrás. De dentro, um tipo mal-encarado seguia todos os meus movimentos.

No Domingo, o carro não estava visível mas verifiquei, com horror, que o pára-brisas do meu carro, bem estacionado, estava estilhaçado e do lugar do condutor espreitava uma perna, em cimento, de um tanque de lavar roupa.

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A carta anónima

Esta manhã, ao levantar-me, deparei com a seguinte mensagem, junto à porta, escrita com palavras recortadas de jornais e coladas num pedaço de papel: «/ milhões / anjinhos / visitaram / capataz / Bicicleta / servida / em saquinhos /».

Enigmática como é, não lhe liguei grande importância. Teria sido, com certeza, composta por algum grupo de miúdos desocupados tentando divertir-se à custa dum vizinho. Espreitei pela janela do quarto a ver se descortinava os malandrinhos alapados por detrás de algum arbusto. Ninguém. Atravessei o corredor e espreitei pela janela da sala. A rua estava deserta, ou antes, com os esporádicos passantes habituais. Nem sombra dos catraios.

Sentei-me no sofá e atentei melhor neste conjunto de palavras alinhadas no papel. Seria algo a levar a sério? Ná! Parecia tão desconexo, sobretudo a segunda frase.
De repente, um sobressalto. Pareceu-me detectar uma ameaça, velada mas grave. «Anjinhos» remete abertamente para a outra vida, ou antes, a morte. E uma bicicleta retalhada em pedaços e entregue em saquinhos pareceu-me uma ameaça típica da Máfia.
Senti-me empalidecer.

O tempo do verbo na primeira frase – «visitaram» – fez-me temer por uma intrusão já realizada. Levantei-me de um salto e vistoriei a casa. Tudo em ordem. Aparentemente. Espreitei para o quintal. O cão também estava vivo e de boa saúde. Estava entretido a remexer a terra. Nada parecia indicar que alguém tivesse entrado enquanto eu dormia. Aliás, o cão teria dado sinal.

Parei a admirar o seu dinamismo. Havia alguma coisa de estranho na maneira como se movimentava. Talvez a sua atitude furtiva. Observei-o melhor.
Foi então que percebi que a azáfama em que estava empenhado tinha por objectivo enterrar vários pedaços de jornal, uma tesoura e um tubo de cola!

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O iogurte

Bebi um iogurte. Fi-lo como quem bebe um pouco da vida que lhe falta. Bebi fragmentadamente, sorvendo cada ingrediente a uma só vez, cada sonho de cada pessoa que o terá pensado.
Era um iogurte adagio, daqueles com pimenta e chocolate preto, daqueles que só quem tem poesia na vida consegue criar.
E bebi o seu corpo em vinte segundos que desafiaram a não infinidade da vida, sorvi vinte segundos de quem cria, faz, transporta e trafica aquele produto, vinte segundos de quem publicita na TV com uma cara bonita de quem bebe mais do que um por dia.


Tiago Nené