terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Samizdat - divulgação

Eis uma revista on-line de literatura, com bastante qualidade.

O seu nome é Samizdat e vai no 13º número. Clicando AQUI, pode-se baixá-los todos.






Em associação, desenvolve uma Oficina de escrita de contos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Os mortos

Não há mortos que morram tanto como os nossos.
Se um daqueles que nos pertence morre sete
ou setenta vezes no coração,
de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,
e os que sempre viveram longe
morrem-nos metade ou um oitavo. E metadede
uma morte é quase nada, são casas
decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)


(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

poème a trois

um conto de Tiago Nené na Letrário Editora.

para ler [Aqui]

domingo, 1 de junho de 2008

o princípio do amor




também publicado no Texto-Al

quinta-feira, 27 de março de 2008

Genoma Poético

Apreendido no aeroporto quando me revistaram.
o meu poema. o meu poema.
nada mais levaram.
ao menos levassem também os meus sessenta e cinco, quase sessenta e seis, anos de idade.
ao menos varressem, com todo aquele material técnico, a minha infância
e a sombra das minhas casotas.
Podiam até furtar-me o nascimento.
Que se fodesse.

Eles sabiam muito bem ao que vinham.
Quiçá tal acto tenha sido precedido de denúncia anónima
depois difundida, tímida ou amplamente - desconheço - , nos órgãos de comunicação social.
o meu poema. o meu poema continha o genoma poético,
era o poema dos poemas o meu poema!
continha os códigos e os caminhos secretos das palavras cruas,
e representava anos e anos
da mais completa solidão, do mais completo estudo
sobre o tempo que espera demais.

Pouco sabia o que fazer, cancelei o meu voo.
nos dias seguintes tentei sem sucesso
reproduzir aquela artilharia poética,
tentei refazer mentalmente os testes que conduziram àquelas palavras.
nada fazia sentido.
nada mais fazia sentido.
depois voltei a ligar o meu telefone
e a responder a algumas mensagens
e fiz até alguns telefonemas a familiares que viviam longe
e fiz dois amigos num minimercado perto de minha casa
e que hoje passarão cá um belo serão.

deixei de querer acumular todo o conhecimento
para viver em segurança
até porque, vistas bem as coisas, não disponho de outra vida.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A progressão aquática da vírgula

A progressão aquática da vírgula
descalça o náufrago - olhos de dezembro
na miopia das areias rastejantes,
é assim o recomeço de todas as linguagens.

A árvore o barco a quilha da vicissitude aquática
o mimetismo da espuma no núcleo da sombra
quem espreita pela fechadura de deus?
eis um resultado nómada.

40 braços do que pensas enquanto o sonho levanta uma heresia?
A progressão aquática da vírgula

descalça o náufrago.



poema de rui dias simão - poeta algarvio - in hipantropias

domingo, 9 de dezembro de 2007

Mergulho








Escreve um poema
Mergulha no branco
Entra no improvável
Sê humilde
Não penses no que sabes
Esquece o que sentes
Sente
Se não sentes tira a roupa
Bebe água
Pinta um quadro
Esquece as cores que conheces
Imagina cores
Troca-lhes a lógica
Segue
Persegue
Respira debaixo da água do quadro
Transpira
Bebe água
Bebe mais água
Grita
Chora
Chora pela tua mãe
No teu sonho
Ela vem buscar-te
Inspira
Expira
Continua a pintar
Pinta até que o dia nasça no quadro
É difícil
Então mergulha mais fundo
Até veres os peixes
Ouve os seus lamentos
Eles também nadam neles
Não há só água no seu oceano...
No teu também não há só sorte ou amor ou lógica
Há contradições
Por isso não nades só...
Também mergulha
Mergulhar é fugir
Sem que a fuga seja cobarde.





(Tiago Nené)



in Versos Nus, Magna, 2007

Entrevista a Gonçalo M. Tavares









Gonçalo M. Tavares ao Círculo de Leitores








«Jerusalém» Canto Interrompido - O Incomodar -


Quase não se nota, quase nos podemos enganar. Mas há um fio, um transparente e inquebrável fiozinho que liga todas as palavras dos seus livros. Falará de loucos, de jogos, de inversões, de mundos ao contrário, de contrariadas solidões, de insólitos rostos, de estranhos lugares com pessoas tão estranhas como cada um de nós. O mago é Gonçalo M. Tavares. Talvez não goste do nome. A sua arte talha-se afinal numa constante leitura dos outros, só depois numa descoberta da sua própria escrita. Nasceu em Angola, tem 34 anos de idade e começou por editar um livro de poesia seguindo-se o ensaio, a ficção, o teatro. Com «O Senhor Valéry» obteve o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal «Expresso», e o Prémio Revelação de Poesia da APE com «Investigações. Novalis». Em 2004 é distinguido com o Prémio LER/millennium bcp, em 2005 com o Prémio Literário José Saramago. «Jerusalém» inclui-se no que designa de Livros pretos, a tocarem o desencanto.



Círculo de Leitores online - Prefere um leitor (dos seus livros) satisfeito ou perplexo?


Gonçalo M. Tavares - Talvez o prefira, no final, satisfeito por estar perplexo. Alguém ficar intrigado é, julgo eu, um ganho. Há uma satisfação diferente quando se entende tudo por completo ou quando se entende em parte, e a parte que falta provoca mudanças, curiosidade, etc. Eu, pessoalmente, como leitor não gosto de ler aquilo que já sei ou estou à espera.


CLonline - A pergunta anterior não é obviamente inocente. Sente-se em jogo com o leitor ou consigo mesmo? Há uma notória inversão de lógicas neste livro, e nos editados anteriormente. Essa construção é algo com que se diverte e a que acedemos de fora, ou em que nos quer incluir?


GMT - Considero que estes três romances, «Um Homem: Klaus Klump», «A Máquina de Joseph Walser», e agora o «Jerusalém» são livros emocionais e portanto que incluem o leitor no seu mundo. Não há nada de abstracto em «Jerusalém», a violência entre pessoas e os laços amorosos e familiares existem em todo o lado. Estamos todos no mesmo barco: temos medo e se necessário somos agressivos.

CLonline - Permita-me a insistência no termo “jogo”. O lugar que conta, as personagens que cria têm vida própria ou são peças que move a seu bel-prazer? E, a movê-las, pretende afirmar o quê com este livro?


GMT - Quando escrevo um livro nunca sei o que vou fazer, o que vai sair. Começo a escrever sem saber nada: sem saber se há personagens, quantas são, sem saber o que vai acontecer, desconhecendo factos, episódios. Escrevo, apenas. Nunca escrevo com um plano. Pode parecer estranho para quem lê, mas é mesmo assim: a cada linha do «Jerusalém» não sabia o que iria acontecer a seguir. Portanto, as personagens não as movo ao meu bel-prazer. É como se nem sequer visse as personagens, elas aparecem sem eu as convidar.


CLonline - Que lugar habitam as personagens? Um lugar paralelo ao nosso? Subterrâneo? Estrangeiro?


GMT - Aparecem num lugar paralelo ao nosso. Não é num lugar estrangeiro, porque não há nenhum lugar estrangeiro ao medo, à agressividade, à loucura, à ligação entre pais e filhos. Pertencemos todos ao mesmo país.

CLonline - Theodor afirma a procura de Deus como um imperativo de sanidade: «...um homem que não procure Deus é louco. E um louco deve ser tratado». Porquê o ancorar da razão em Deus?


GMT - A ideia mais antiga, que o ser racional por excelência, que é o Homem, vai espalhando pelo mundo é a ideia de Deus. A ideia de Deus é uma consequência de um pensamento racional absoluto. Podem existir, mas não se conhecem deuses dos cães ou dos mosquitos. A razão e Deus estão muito ligados. Theodor, o médico, também sente isso.


CLonline - Theodor é um cientista ou um crente?


GMT - Julgo que é as duas coisas. Theodor é médico e os médicos contactam com um dos limites essenciais do humano: o limite da saúde. Este contacto com os limites do corpo humano é sempre muito forte, não será por acaso que muitos dos que têm profissões que trabalham com os limites humanos se aproximam de crenças mais ou menos explícitas.
Acaso . Destino


CLonline - Há uma sensação de ameaça ao longo do livro. Como se tudo pudesse acontecer - e como se tudo o que acontece não tivesse necessariamente um sentido. Concorda, ou é aparente o acaso?


GMT - Todos os acontecimentos do livro são, ao mesmo tempo, um acaso, e como que um destino. O livro talvez não pudesse terminar de outra forma.CLonline - A cura, dirá Gomperz, passaria pelo esquecer de um trajecto. A loucura abre ou fecha portas? GMT - A interpretação romântica da loucura, associando-a aos actos amorosos ou criativos, não me é muito agradável. Estar apaixonado ou ser criativo nada tem a ver com a loucura pesada, dura, que é algo que se deve respeitar pois relaciona-se acima de tudo com o sofrimento humano e individual. A loucura é uma coisa má e negra. Os textos de Artaud, por exemplo, são excelentes. A loucura de Artaud foi certamente terrível e negra.CLonline - Quem não é louco neste livro?GMT - A prostituta, o médico, quase todas as personagens são como nós. A mesma extraordinária porcaria saudável.




Escrever . Pressentir



CLonline - Fez algum tipo de pesquisa para este livro?


GMT - O instinto de pesquisa é este: quero tentar perceber. Começamos a pesquisar quando não sabemos e nunca se pára de pesquisar, porque nunca se sabe, sobre um determinado assunto, tudo. Para mim a escrita é um estado de investigação, e o que me interessa essencialmente é investigar os comportamentos humanos.CLonline - Permita-me voltar um pouco atrás. Como surgiu a escrita de «Jerusalém»? Enviou o original a concurso mas inclui este inédito no subtítulo«Livros pretos». Porquê esta designação? GMT - O romance «Jerusalém» pertence aos livros pretos, e tem uma ligação clara com os romances «Um Homem: Klaus Klump» «A Máquina de Joseph Walser», ambos editados na Caminho. São livros pretos, no sentido de uma certa dureza, e de um certo desencanto. Desencanto é a interrupção do canto, é uma coisa que incomoda.


CLonline - Para além da ordem interna de cada um dos livros, designa-os“Cadernos”, mais especificamente, «Cadernos de Gonçalo M. Tavares». O que liga estes cadernos?


GMT - É evidente que os Cadernos têm ligação entre si. São escritos pela mesma pessoa. Claro que, por vezes, há uma ideia de que uma pessoa é só uma pessoa. Mas não, todos somos uma quantidade de coisas diferentes, como toda a gente sabe e sente. Por vezes no mesmo dia, em menos de dez ou doze horas sinto-me completamente angustiado e farto de uma certa existência estúpida que toda a gente tem, e passado algumas horas posso estar genuinamente divertido com algo dentro da minha cabeça. O mundo tem vários tons e devemos respeitar isso. Em relação aos cadernos, e tentando organizar mentalmente os diferentes livros, vejo que há livros que têm objectivos diferentes. Com certos livros tento interferir na linguagem, com outros tento interferir na literatura e com outros ainda (onde julgo se inclui o «Jerusalém») tento interferir na existência das pessoas ou pelo menos na forma de se pensar sobre certos acontecimentos. Há livros que os vejo como investigações, livros que muitas vezes são fundamentais para outro tipo de livros mais concretos como os romances. No entanto, apesar de colocar no meu trajecto principal alguns livros, como os romances, livros de estrutura mais clássica, não quero deixar nunca de escrever livros que procuram caminhos diferentes na literatura, fora de qualquer género literário assente. A classificação de géneros literários é uma prisão e uma predeterminação do exterior que quem escreve não deve aceitar. Se do escritor saiu um romance, tudo bem. Se saírem naturalmente contos, tudo bem. Mas se sair qualquer outra coisa, que não é colocável em nenhum género literário, tudo bem à mesma, e muito bem mesmo, desde que seja algo que ajude a investigação sobre a linguagem e sobre as ideias.


CLonline - Gostaria de saber um pouco mais sobre o seu método de escrita.


GMT - Não há nenhuma elaboração mental prévia. As personagens e os acontecimentos vão surgindo à medida que escrevo. Por vezes, a meio, há pressentimentos sobre o que poderá vir a acontecer, mas nunca sei exactamente o que vai suceder. A folha está em branco, começo a escrever. No livro «Biblioteca», publicado recentemente relembrei uma brincadeira de Lewis Carroll que de certa maneira se ajusta à descrição do meu método de escrita: começo a escrever no início, continuo a escrever, e quando chega ao fim, paro. É este o meu método.


CLonline - Este tipo de pergunta - que tenta desmontar a sua escrita -alicia-o a mentir?


GMT - Não. Mas eu próprio não consigo desmontar a minha escrita, precisamente pelo que disse antes: quando escrevo pela primeira vez algo não sei como o faço. Não domino esta primeira parte. Começo a escrever, simplesmente. A segunda parte, sim, a de revisão, a de vigilância sobre o que foi escrito, aí domino, sei como faço. Mas o essencial já está antes feito, e isso não sei desmontar. Apenas rezo para continuar a fazer, mesmo que nunca venha a saber como faço.


CLonline - Como e quando começou a escrever?


GMT - Escrevi muito à mão, em cadernos, durante muitos anos. Comecei cedo a ler e a escrever, não consigo separar a leitura da escrita. A certa altura percebi que escrevia quase instintivamente e que precisava disso para me sentir bem. Quando não escrevia ou não escrevo, fico irritadíssimo. Depois estive muitos anos a ler e a escrever obsessivamente. E no meu cantinho. Só comecei a publicar aos 31 anos. Como às vezes brinco: foi para desocupar metros quadrados da minha casa.


CLonline - É isso que se considera: um escritor?


GMT - Escrever é um acto natural, quase instintivo. Escrevo mais naturalmente do que falo. Não tenho necessidade de falar, tenho necessidade de escrever. Necessidade e instinto são palavras que não têm a ver com ofícios, relacionam-se sim com o organismo. Escrever não é um ofício, apesar de requerer uma certa disciplina.


CLonline - Novos projectos?


GMT - Há muita coisa já feita ainda para sair. E estou a fazer outras coisas. Sairão provavelmente alguns livros ainda este ano. Estão também a começar a acontecer várias traduções de livros meus para França, Espanha, Brasil, Índia, talvez Itália. O que é óptimo.


CLonline - Uma última pergunta. É Mylia quem se refere a Jerusalém. Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita. Que Jerusalém é esta?


GMT - Eu só escrevi o livro. Não sei mais nada.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Cocktail Bukowski

Cocktail Bukowski

Naquele dia
Vestira o meu corpo
Sem a alma,
Vestira o meu corpo
Sem a alegria,
Lavei os dentes
E esqueci-me do sorriso no lavatório,
Lavei as mãos
E deixei o tacto na toalha;
Nesse dia
Após o trabalho fui dormir,
Deitei o corpo
E reecontrei a alma.
No dia seguinte
Vesti a alma
E deixei metade do corpo esquecido
E a memória no secador de cabelo...
E algo inesquecível de que não me lembro aconteceu:
Porque hoje tenho a alma mutilada
E nem o corpo tenho.


Tiago Nené (direitos reservados)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Tic-Tac

Os ponteiros, de súbito esconderam-se atrás do tempo,
A multidão desvanece-se no silêncio das ruas.
Sem rosto, os corpos movem-se como loucos que procuram no caos
um sentido, um quadrante, uma fórmula que elimine a indeterminação das horas.

O tempo assiste, sereno.
O tempo sorri.
O tempo sem horas...
O tempo sem tempo.

Os ponteiros voltam
e num ápice, devolvem o tempo...ao tempo.
...
O tic-tac recomeça
A multidão respira, aliviada.
O tempo é tudo
O tempo é ... nada.



(Sara Rocha)

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Metamorfose. Quase.


Transformava-se o Porto na capital, a admiradora no génio e o texto em baixo quase poderia ser escrito aqui e agora. Os locais e as épocas e as pessoas são diferentes. O sentimento é o mesmo, atrevo-me a dizer.




Lisbon Revisited (1926)


Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-se todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia
ver na rua.
Não há nada na travessa achada número de porta que me
deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem
sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha
angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me
náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar,
E aqui de novo tornei a voltar?

Ou somos todos os Eu que aqui estive ou estiveram,
Um série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Causal na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através de sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco que se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de
mim - Um bocado de ti e de mim!...


[Álvaro de Campos]
[Foto: Fernando Figueiredo]

(Também aqui)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Grande Evento na Ler Devagar (Lisboa)

Sulscrito/Palavra Ibérica na livraria Lerdevagar,

dia 8 de Dezembro às 21:30.

Rua da Fábrica do Material de Guerra, nº1 (em frente aos Correios do Poço do Bispo).

Projecto Cultural – Círculo Literário do Algarve


Programa:

- Apresentação da revista de literatura Sulscrito, com a presença de alguns autores/colaboradores.

- Apresentação da colecção de poesia Palavra Ibérica.

- Apresentação da 3ª edição do encontro de autores Hispano-Lusos Palavra ibérica (Punta Umbría-Huelva, 2008).

- Apresentação do projecto cultural ALIANÇA CULTURAL – Faro. (Literatura, Artes Plásticas, Património, Música).

- Apresentação de um jovem poeta de Faro, recentemente publicado.


Sulscrito:

Fernando Esteves Pinto
Pedro Afonso
João Bentes
Tiago Nené


Editor:

Luís Filipe Cristóvão (Livrododia Editora)


Aliança Cultural:

José Bivar
Adão Contreiras
Rui Dias Simão

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

A forma de...

Conhecer a forma de conhecer
estudar a forma de estudar
matar a forma de matar
beber a forma de beber
respirar a forma de respirar
sentir a forma de sentir
ler a forma de saber
tirar uma cópia de mim
e mandá-la viver a minha vida.


(Tiago Nené - direitos reservados)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Psicopatia

Oh sim, talvez aceite
a informatização dos meus sentimentos
talvez aceite a evidência
uma vez que estou quase morto.

Há uma jovem miúda que documenta
os vestígios da sede do meu espelho
o que senti um dia e fossilizou
com uma pinça recolhe a bela moça...

Cientistas vieram dos Estados Unidos
com aparelhos iniventados
para estudar o caso da minha psicopatia
e enfim me tornar real.



Autor: um amigo meu chamado Pedro.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Grande Entrevista

Para ler Aqui

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Não resolve!

"Não resolve!"

Cortar a língua não resolve
quando muito impossibilita em termos práticos
mas não resolve

Porque:
enquanto houver vento, e porquanto sensações

enquanto houver nuvens, e porquanto lágrimas
enquanto houver sol, e porquanto alegrias
enquanto houver sorrisos, e porquanto felicidade em potência...

haverá naturalmente coisas por dizer
quer em vida, quer em morte
quer de língua, quer directamente da alma.


Tiago Nené (direitos reservados)



PS: não esquecer: este sábado apresentação do meu livro Versos Nus, na Fnac do Algarve Shopping (Guia), às 16 Horas. Quem faltar leva processo disciplinar:P

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

A memória de um tempo satisfeito (O Lago)

cuspi para cima de um papel
porque queria escrever a imagem de um lago
e me faltavam as palavras.

Com a caneta contornei
aquele lago momentâneo, que escorria vivo
e que me animava de alívio.

Passado pouco tempo secou.
ficaram os contornos
e a memória de um tempo satisfeito.

domingo, 11 de novembro de 2007

Restos de fins


A cada passo, empresto-me às areias dos passeios. Nas praias, cubro-me com elas, e atapeto o rosto com a aspereza da morte que choro. Cedo-me à asfixia na imensa agonia das tuas reminisências, quando a areia me respira com o beijo que nela guardaste. Vejo-te nítida no adeus, pairando sobre as águas claras, impossivelmente claras, como o espírito fecundo que inaugura e despede. És minha como nunca foste, demais para a entropia dos meus dedos que preservam as tuas memórias calejadas, escassa para as ânsias sangrentas, em romaria pelas minhas veias de cicuta. Encarno no remanso da tua mão, onde me extraviei do fim para reviver um início. Mas temo que o fim chegue antes do resto.

E muitos fins houve no resto.

Nas noites, dispersas-te pelo cosmos em poeiras de oiro estrelar que fumo. Semeio-te na alucinação para que vivas no meu vazio, para que grites o silêncio, para que sopres o vento e ouças o teu nome no descompasso cardíaco do meu colapso. A lua cega goteja os teus mistérios ocultos, e eu farejo rastos dos teus restos nas areias do fim. Durmo, sonho e acordo nas praias perdidas, onde me viste partir para trás do teu tempo. Nunca te disse que decidi viver no passado das tuas horas para te amar em atraso. Porque há sempre futuro para te encontrar.

Esta noite, morreste-me em mentira e eu ressuscitei-te com as sinapses de medo. Pouco mais me preocupa na vida do que o cansaço deste pulsar timbrado que nos sintoniza. Morrer é o que resta de mim, e não me preocupo. Seco a mágoa do adeus com a resignação da fatalidade. Limpo as penas molhadas com a pena de gaivota que conspira à noite, sobre a seita atlântica, até à rocha emersa, onde me atiras pelo abismo do teu grito. A diferença, na morte, é que te ouvirei noutra onda.

Morrer não me preocupa. Preocupa-me, muito mais, a velhice, porque quero evitá-la e vivê-la. Quero ser velho e amnésico, para me poder apaixonar, todos os dias, à primeira vista, quando estenderes a mão à minha identidade caída. Vou cair às vezes e esquecer todas as quedas para cair mais vezes. Vais erguer-me todas as vezes, e lembrar, sempre, que sufoco a memória para que ressuscites o nome que fui. Irás reconstrui-me com a minúcia do teu amor, até que o fio com que coses me vista de morte. Diremos nossos nomes e partiremos, juntos, como pedimos à sorte.

Aceita, amor. Vamos ser velhos e mentirosos, vamos esquecer que já vivemos, vamos ser jovens e acreditar nisso. Mintamos à vida e sejamos eternos.

Há sempre futuro para te encontrar.

Vítor Sousa
(Estranho Estrangeiro, por Terras de Vera Cruz)

sábado, 10 de novembro de 2007

O mundo é um bom lugar para viver















quero viver no mundo
sim, o mundo é um bom lugar para viver
um dia experimentei viver numa estrela
mas fazia muita luz
antes ainda vivera próximo do sol
e estava quente e perdi as ideias
no dia que me apaixonei
pagaram-me uma noite na lua
mas senti-me incomodado
pois apercebi-me que já lá vivia muita gente

quero viver no mundo
definitivamente o mundo é um bom lugar para viver
viver no mundo é ter um sítio para me perder
ninguém se perde numa estrela!
ninguém se perde no sol!
ninguém se perde na lua!
quem não se perde não se encontra
quem não se perde não se esquece
quem não se esquece não se reiventa

quero viver no mundo
ser cronicamente emotivo
qualquer que seja a origem e a direcção da emoção
qualquer que seja o local onde ela durma
ou o lugar do meu corpo onde se esconda
ou a pessoa em que ela encarne
ou a veia por que corre
ou a ferida onde se revele...

e agora com licença que vou fazer as malas
e vou apanhar o primeiro foguetão
para esse lugar onde vou passar a viver:
o mundo.



Tiago Nené (todos os direitos reservados)

Foto de John Sadowski

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O iogurte

Bebi um iogurte. Fi-lo como quem bebe um pouco da vida que lhe falta. Bebi fragmentadamente, sorvendo cada ingrediente a uma só vez, cada sonho de cada pessoa que o terá pensado.
Era um iogurte adagio, daqueles com pimenta e chocolate preto, daqueles que só quem tem poesia na vida consegue criar.
E bebi o seu corpo em vinte segundos que desafiaram a não infinidade da vida, sorvi vinte segundos de quem cria, faz, transporta e trafica aquele produto, vinte segundos de quem publicita na TV com uma cara bonita de quem bebe mais do que um por dia.


Tiago Nené