sexta-feira, 27 de junho de 2014

DEVANEIO DO SENTIMENTO



O que dizemos das coisas? Dizemos! Perfeição requerida? Silêncio sem nome? Homeostasia do olhar? E para quê olhar? O emocional traça linhas de consideração, no jogo do ser e do estar. Não sei porque estou nesta consideração, na oscilação dos sentimentos, numa expressão sem relação, desvinculada. Todas as palavras são poucas e não quero outras, contudo, querer não significa que obtenha aquilo que desejo e o meu desejo oscila muitas vezes. Algo perturba o sistema do meu desejo, onde estou e não estou. As minhas emoções apelam a uma transferência fluídica, a um amor cuja ânsia é a minha “morte”!
Os meus sentimentos são forças que parcialmente mostram algo de mim, o mim é uma aproximação do “eu”, essa força estranha, num estado de actualização permanente; contrários executam o jogo do equilíbrio, em ângulos de compensação muito intensos.
Momentos insolúveis, alguns a que estou sujeito.
Paragem obrigatória, facticidade e fantasia de conceitos cujo critério é a tentativa de anulação do exterior. Estou, tento estar mas nunca estou e tudo é temporário, passa demasiadamente depressa.
Aproximo-me dos que me rodeiam, passado algum tempo afasto-me e tudo fica como se nunca os tivesse conhecido. Está em potência, dentro de mim uma luta entre o querer e não querer, isto é constante neste jogo.
Estou aqui junto do castelo de Silves, na esplanada do café inglês, tenho muito calor, procuro conforto, acabei de tomar um café, o preço aqui foi exagerado (1.25€), preço turístico. Enfim… os meus sentimentos são pequenos vulcões, cada vez me deixam mais confuso e o social lança-me a inibição da relação, uma vez que neste momento tenho consciência do inalcançável, o contexto de presença parece-me estranho.
Regresso a mim, pelas diferentes formas de sentir a realidade, no relevo do meu corpo, votado ao tempo, à ancoragem das situações numa métrica sem remetente de memória, enquanto o sonho embala a frescura da brisa que me acolhe.
O jardim dos pensamentos continuam a florescer… a orla singular toma-me num beijo lírico, com o verbo que vai solidificando a minha presença, ainda que só! Em meu torno falam inglês, não faço o mínimo esforço para entender… não. A música da tarde desfolha-se num compromisso declarado, na arte da tinta e nas rimas que me assaltam o espírito. Nomes, muitos nomes, demasiados neste movimento que me rodeia e a luz começa a escassear! Esplanada cheia… quase. Modos diversos, o pendor da sensibilidade, sentido convocado ao diverso, o espasmo do tempo das panaceias de ancestralidade, a presença do meu sangue colateral na flor do olhar.
As minhas vias são cordas que me seguram o corpo, neste silêncio implacável onde se relevam os mistérios da carne que possibilita a cor do espírito.
Ao longe o horizonte parece encerrar o seu espectáculo, a noite começa a chegar ante a desigualdade dos iguais! Tarde deverão, classificação de cenários, passagens, herdeiros da crueza das imagens, algumas escondidas, entre os traços mais vincados ante o arremesso da morada plena. Tonalidades diferentes, perspectivas da contingência do enlace das pausas. Expressão inolvidável, fruição deste delírio ancestral, o sublime trágico de um biografismo, este lugar, a minha morada, puramente factual, a iniciação de uma viagem em aberto. Impar momento, este, entre as coisas que ficaram por dizer. Tudo é muito breve e o devaneio do sentimento perde-se lentamente.

Silves, 26 de Junho de 2014 – 20:10h
Jorge Ferro Rosa
Escrito na esplanada do “Café Inglês”, em Silves.

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