terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Monólogos no abismo

«A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.»


"Estilo", Herberto Hélder

(no consultório)

Devo ser o intercessor do caos. Aos dédalos por onde erram os náufragos, regidos por leis que não subverto ou domino, conheço-os a todos. Procuram-me. Eles, homens que nunca sabem que fio largaram, que noite ou estrada os viu perder. Eu sou a vigília, e comporto o mistério do abismo e do medo, porque creio neles de fora, louco para a ciência disto. Não há tumulto que eu não anuncie no breu, porque me prendo, lúcido, aos mastros da psique, enquanto nos sorve a voragem. Somos tanto, tão frágeis. Se pedem que os salve, converto-os na luz arrancada dos espelhos, para reaprendizagem dos reflexos. Pedem que os ame, e falo-lhes do Longe e do Tempo, de casas docemente abandonadas ao entardecer, em terras onde nunca nada restará de ninguém. Digo-lhes que todas as histórias do mundo só lhes sucederão a eles, e sentem-se amados no calor dessa herança.

Todas as noites, dirijo preces ao abismo e aos que o torneiam, insones, na vertigem velada. Penso sempre que ninguém se deveria sentar a esta mesa. Nem você, que chega, meiga e trémula, porém sagaz no exercício da procura interior. Nunca a vi antes. Arrisca encontrar-se em títulos de manuais, na estante ao lado, talvez a psiquiatria saiba de si. Posso perguntar-lhe o seu nome, ou esperar por si para o deslindar dos novelos, mas de súbito reconheço-a como filha que poderia ter tido e estremeço, afinal é já uma mulher, coajo-me a abandonar a ideia. Deixe-me descobri-la.

Eu venho do não retorno, onde a palavra se reinventa até ao infinito

Não lhe peço que seja directa. Ensine-me antes o dialecto da abstrusão. Desde que me entreguei a este ofício, não soube diluir o fascínio inicial. Por isso, agora, quando fala, eu devo entender a alquimia da sua voz. Diz-me que a gerou uma metáfora, e que portanto aprendeu a viver no cruzamento ininterrupto de sentidos, e nunca mais se encontrou. Diz-me também que nunca caiu. Relembra uma avó toda debruçada sobre o coração para a alcançar, enquanto você ergue os joelhos ainda latentes do tombo e diz

Avó!, quase caía

Quase caía , quase que amava. Ao Amor, apresentaram-na os poetas, esses cujos cânticos ainda hoje entoam bocas sem nome, poetas eternos de quem não olvidará o nome. Com eles aprendeu a diferença, a nobre diferença entre o ardor dos amantes e o fogo do Amor. Evoca a "arte de não cair", e não sei de que fala. Faíscam-lhe os olhos devotos, pergunto-me se é deus, diz-me que são os arcanjos da beleza. E acrescenta, empedernida ou frágil, "que só queria ter velado a Beleza". Só agora compreendo que ainda é deles que fala, dos poetas. Dir-lhe-ia, se pudesse, que me fascina. Arriscaria talvez tutear-te, permitirás?, filha minha que poderias ser, mas agora humedece-te o olhar langue, antes de dizeres a maior verdade

Nada conheço que não antecipe o fim

Pressinto que sabes demais, como se falasses de outra. Fluida, narras-me a história de um pai que talvez fosse o teu. Inerte, simbólico, eterno, um pai preso ao retrato antigo que terias sido. Tremem-lhe as mãos ao amanhecer e tu condescendes: sabes que o passado o deixa ébrio, por vezes distancia-se muito e temes que o sequem as areias do tempo, encerrando-o nos remotos covis da memória. Então ele imerge outra vez nos retratos, e já o perdeste, terno e comovido em imagens que afinal nem foste. É quando cessas de pedir que as deixe, por ti.

Nada mais digas antes da ires e se disseres, nada mais se recorde. Não há palavra que me queiras, de trilhos conheces os que te trouxeram e os que te vão levar. Poderia indagar a razão pela qual me procuras, e então dirias que no caminho te seguraram as mãos e exortaram, num murmúrio encriptado

Abre a porta

Escolheste a última, a minha, não para pedir o amor ou a salvação, porque não sou aquele em que crês. Sei que a escolheste "para que sonhar doesse menos". E agora só queria que arcanjos descessem sobre nós sua linguagem de luz e de sombra, que este fosse o lugar de cedermos ao fogo e à queda, que houvesse uma casa e um pai e um regresso de lá longe de onde vieste, um dia. Porque eu não sei dizer-te que a palavra, o amor, os poetas, o pai, o firmamento, o abismo, te esperam. Porque eu não sei dizer-te que talvez estejas só.

"Coração Perdido"



Acrílico sobre tela 60 x 60 x 4 cm 2007
Cátia Rodrigues





Coração Perdido…

A brisa gélida vai passando dentro da alma,
Tocando e ressequindo cada ferida aberta…
Tudo fica envolvido numa exagerada calma,
Num peito, onde a solidão cada vez mais desperta…

Lembranças voam na mente, deixando uma saudade desesperada,
As tentativas de obter o controlo dos sentimentos são em vão…
Apenas se sente ainda o aroma desse amante…
Que conseguiu, ainda que indesejadamente, tomar o coração!

Mas os dias vão correndo lentamente,
Tudo voltará à sua normalidade…
Nem que este coração tenha sofrido…

A vida é sentida com a alma e não com a mente,
De forma a alcançar momentos de felicidade,
Mesmo que seja para depois sentirmos o nosso “coração perdido”…

Cátia Rodrigues

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Vinicius de Moraes

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A sombra dos corpos


Foi há pouco tempo que a fotografia se apoderou de mim... (a fotografia está tremida, mas é algo que a longo prazo pretendo melhorar)
A imagem sempre me fascinou, desde como é que se forma uma imagem no nosso cérebro até às emoções que ela nos pode suscitar. Recordo-me que os meus primeiros versos na poesia, surgiram pela vontade de um lápis traduzir a expressão das sensações de uma imagem muito concreta no meu íntimo...
Imagens-poesia-fotografia...
É difícil atribuir um nome a esta fotografia, mas a sombra que um corpo pode ter, parece adquirir formas no vazio, preencher o mundo de palavras.

O raio que o parta


O sangue corre-me nas veias, imagino um qualquer IC19 em hora de ponta seguido de uma embolia... um AVC (terá isto direitos de autor ou pode-se usar AVC assim sem pedir autorização?). Pronto o melhor é deixar-me de frangos assados carregados de picante, emagrecer uns vinte quilos e parar apenas quando vir os ossos salientes nos ombros.... reviver o passado num campo de concentração...

Desculpem lá a linguagem, mas hoje está um dia de merda, não me apeteceu ir trabalhar, mal posso estar sentado e apetece-me provocar alguém, talvez os meus neurónios de tão quietinhos, absortos numa felicidade que nunca chegará precisem de um qualquer abanão.

E até me levantei cedo, tomei o pequeno-almoço e fui-me deitar outra vez, ressonando sem ninguém a queixar-se, de porta fechada para não incomodar as paredes do resto do apartamento.

Tenho 35 anos e ainda tenho planos de me ir embora, de viver o raio da vida e de conseguir ver o raio no exacto momento em que ele toca no chão, no instante em que ele ribombeia e volta para cima. E depois bang! Até podia morrer sem ser com um orgasmo, sem aquelas utopias da treta com que vivemos sempre, mais os Ferraris eos resorts turísticos. Acredito mesmo que o ser humano por natureza devia andar com um 'babete' de tão vaidoso é do que não tem e adoraria ter, mas nunca vai ter... mas não, não tenho pretensões a ser o Travis Bickle e cortar o cabelo à galo, andar pela Amadora como se fosse Nova Iorque e matar chulos ao tiro. Não sou dos que fazem manobras arriscadas armado em cavaleiro protector de males e nojos circundantes. Não sou nem quero ser.

Pensando melhor, não me quero desculpar, não me sinto mal como estou, até há uma certa aura de felicidade quando tento ser vulgar, não passo de um mero humano, que adoro vestir-me mal (porque raramente tenho oportunidade de o fazer) só para não me reconhecerem, de ter barba de quinze dias, que até a mim me pica(mas enjoa quem me vê)...

Porra gosto de VIVER e mais perfeita que aquela cerveja do gajo que se pendura há meses a fio num poste de electricidade, só o facto de publicar esta cena, alguém não gostar e queixar-se... mas todos sabemos que o ego é grande! Oh ego és uma besta de tão grande que és!!! E não paras de crescer, vamos criar um imposto para aproveitar esse crescimento desmesurado, há que facturar!!!


isto não tem direitos de autor, é o autor em si... com muita dose de exagero... por isso usurpem, mudem o nome, mas no fundo... sejam vocês mesmos! e trucidem os que usurpam daquilo que sai da vossa alma privando-vos do reconhecimento imortal e das coroas que raramente vêm parar ao bolso na proporção devida!

Amizades Profundas - parte 2

I

Onde eu queria perder-me, numa Lua distante do corpo, dentro do coração. Não é preciso que estejas aqui, ao meu lado para te sentir dentro de mim.

Desculpa-me se não te falo da morte, das desgraças alheias, das vergonhas que proliferam por esse mundo fora, hoje apetece-me divagar num mundo diferente, aquele que o Willie Wonka me apresentou, um dia sentado numa sala de cinema, escura, para que pudesse estudar melhor a lição que ele me queria transmitir. Podes dizer que estou louco, que o Willie Wonka não existe, mas deixa-me que te diga, nunca estive tão lúcido na minha vida de nervos e inquietas frustrações e sim, o Willie Wonka existe, e os buracos negros também, e só temos que ouvir o nosso próprio respirar, sentir a nossa pulsação para optar pela melhor solução. Acreditas?

A terra se calhar já gira ao contrário e os relógios nunca mostraram a hora certa, mas quando passeava pelas ruas desertas, apesar das multidões escondidas na sua solidã, olhava para a frente e via um arco-íris, algumas crianças a brincarem, sem medo das proíbições, de serem internadas pela sua natural infantilidade. Sabes, não havia guerras, nem canhões, o He-Man e a playstation eram meras miragens, e na hora do recreio todos tinham a merenda que traziam de casa, onde não havia miséria, nem a falta de um qualquer afago. Apenas utopia. E achas que é mau ser utópico? Para que serve a vida então?

Vivemos na desgraça das segundas-feiras



- Ena que chatice, amanhã é dia de trabalho!



quando há quem não tenha Domingo, sangue suficiente nas mãos para aquecer o seu próprio coração, apenas os restos da embalagem onde estava um frigorífico, na porta da sede de uma multinacional, tapados até à cabeça e nem nos desviamos para ver se a imobilidade se deve ao frio, ou à morte ter sido a ultima visita, antes de passarmos por lá...



- Que vergonha, isto! Capitalistas é o que provocam à sociedade!

- Engano o seu, o anterior presidente da Câmara era comunista, esses bandalhos que comem criancinhas ao pequeno-almoço...

- Cale essa boca imunda, sua porca!

- Ai que horror! Ai que horror! Já não há respeito pelos mais velhos!

- Querias o Salazar não é minha mula?

- Havias de falar assim...

- Xô... põe-te na sarjeta que é lá o teu lugar...

-Ó da guarda, ó da guarda!!! Estou a ser violada!!! Aiiiiiiii!

- Mula! - entre-dentes e a destapar o sem-abrigo que afinal estava vivo!



II

Seguia caminho naquelas avenidas cheias de pessoas que caminhavam rumo à malfadada rotina de que tanto se queixavam, mas nada faziam para mudar.

Estava na Avenida de Roma, vislumbrava ao longe o Teatro Maria Matos, era dia de concerto, A Naifa ia lá tocar e na fronteira do perigo de um meliante a correr com a mala de uma senhora já com pouca mobilidade, parei, deixei-o passar e segui para o Teatro. Afinal também tinha a minha indiferença pelos males do mundo. Reconhecera a velha como sendo aquela que clamava pelo Salazar, sal e azar como já ouvira noutras ocasiões.

- Minha querida, não estás mesmo farta de ver A Naifa?

- Não, nunca, jamais em tempo algum, vamos lá ver se desta vez eles tocam a Fé... e Deus queira que ela continue sem se conseguir masturbar....

- Eh, Eh, Eh, havia de ser bonito...



Do show apenas me lembro da companhia da minha amiga e do começo a sós da Mitó 'porque me traíste tanto', lindo, como linda é a sua mão dócil, macia e que um dia ia perdendo para sempre! Depois a música perfeita para o Festival da Eurovisão: A Desfolhada, ainda melhor na voz celestial da Mitó



III

Ah e tu que estás aí a ler isto, procura nos traços de uma memória intensa quantas vezes te lembras de uma mão, seja ela macia ou curtida pelo tempo. Apenas te digo que só me dá a mão quem não se proíbe de viver e eu gosto mesmo dessa luta: VIVER... acredita é contagiante para quem te rodeia!

MM

em: Silêncios Ensurdecedores

Natal à Beira-Rio


É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

David Mourão-Ferreira


no cabelo pintou madeixas de outono
e na boca o sangue das cerejas
trazia na pele o aroma das rosas
e uma lágrima verde a apodrecer
na lapela




para o duarte



(obrigada pelo convite para participar neste blog)




domingo, 16 de dezembro de 2007

Abismos 7


Técnica mista
acrílico s/tela
2007

Silhueta

Sentado, corcovado, calvo, a sua silhueta quebrava a claridade da janela e escoava-a para dentro da caneta, diluia-a na tinta e escondia-a no papel. Quando passei, eu de lado, ele de lado, não percebi logo o que fazia. Não reconheci as noites em branco que me abraçavam de dia, os dedos subornados que me aqueciam sempre no mesmo lugar de Inverno ou até mesmo os meus dias inteiros a sublinhar o seu destino.
Nas páginas e páginas que saltitavam naquela secretária havia um homem sentado, corcovado, calvo, cuja silhueta de tanto gritar por mim, acabou no meu peito aconchegada pela origem do meu fôlego.

Também aqui
www.mentequebrilhas.blogspot.com/

how much do you know?



só vagamente conhecemos a memória. o que conhecemos é o medo. de a enfrentarmos e descobrirmos o vazio.


também aqui
foto de mariana castro

Diz-me baixinho, muito baixinho...
Diz-me com essas palavras lindas
que querem fugir do teu para o meu coração...

Vem, amor! Dá-me a mão e o teu coração!

Letras juntas, palavras soltas
Notas musicais, sons compostos com os ais
Do meu coração...Expressões musicais!
Ah! Estou a ouvi-las!
Tu compões a música do meu momento.

(Ai, infelizes os surdos que não a ouvem!)

Mas, porque dizes tudo isso
Dizendo nada ao mesmo tempo?
Adormeces no meu coração,
Que chora, chora, chora...

(Dói tanto, tanto, tanto...)

Olho para ti, não estás.
Olhas para mim, não estou.
Olhamos para nós e tudo se desfaz.

O vento canta: alguém amou!

Iniciativas

Antes de mais, quero desde já deixar um enorme pedido de desculpas pela minha demorada e indefinida ausência neste precioso espaço, mas o tempo tem apertado a vontade que tenho de aqui participar.
Quero, no entanto, divulgar um espaço criado por estudantes de Direito que, apesar de não ser uma forma de arte, verificou-se um local de discussão política e cultural, ou seja, de um certo modo contribuidor da arte nacional.

Antes de vos desejar um bom fim-de-semana, gostaria de sugerir que O visitassem.

Um beijinho e bom fim-de-semana ;)

sábado, 15 de dezembro de 2007

Zapping



nem sempre se pode fazer o que se gosta... mas à falta de o poder fazer ao vivo... faço uns pequenos vídeos que ilustram aquilo que escrevo...

O texto: aqui

o áudio: também aqui

É Dezembro não é? Lembrem-me antes de dia 25 de desejar bom Natal...

Sem corda

Pepe, trinta e seis anos, brasileiro. Quando se quis suicidar, inventou um plano muito simples, que consistia em comprar dois metros de corda, procurar uma figueira, colocar um laço à volta do pescoço e enforcar-se. Infelizmente, Pepe não conseguiu levar o seu projecto para a frente, uma vez que, conhecendo as tendências negras do homem, nenhum comerciante lhe vendeu corda. Pepe ainda tentou encontrar a morte dando cabeçadas numa parede de betão ou atirando-se do cimo de uma nogueira. No entanto, o seu corpo revelava-se bem mais resistente do que o cérebro. Não conseguia morrer.

À noite, o cansado Pepe punha-se a murmurar palavras tontas para as almofadas. Mas, como se sabe, as almofadas não fornecem respostas aos apelos da humanidade. E, por esse motivo, não se via o nervosismo a desaparecer do corpo do pequeno imbecil.

Não conseguindo suicidar-se como queria, não tendo coragem sequer para tentar morrer, de vez em quando, Pepe punha-se aos gritos no meio da multidão, dizendo que odiava a vida.

00:04

Pede-se um minuto de silencio...




Perdem-se as palavras nas margens de um rio calado...

E pedem-se razões às pedras que as vêem passar tão silenciosas.

Atropelam-se os peixes de boca aberta

E com o peso de um ponto final

Deixam-se ir ao fundo...

Inebriados por um anzol de ideias brilhantes.

Batem-me à porta ...

E eu tenho a garganta cansada!

Diz um grito sufocado

Aos ouvidos empedrados na parede da sala.

Tocam as horas num relógio sem ponteiros

Porque o tempo não se pode marcar

Com dedos de metal

E as palavras já sorriem destemidas

Sem o tempo a vigiar-lhes as costas...

Pede-se um minuto de silêncio...

Que as palavras hoje querem divagar.

Daniela pereira

Direitos Reservados



Foto por Nuno Reis in http://www.noir-sur-blanc.blogspot.com/

Noites Brancas

Os covis da volúpia querem-se escuros, no advento, para tactear as ânsias cegas do momento. Os covis da volúpia são sempre escuros, e neles não há futuros. Só desejos que gritam na redencão abismal.

Todas as noites são brancas, no Sul. E todos os corpos são Ilhas de Circe onde naufragam quimeras. Na partida, ecoam estilhaços de beijos rolando em praias de pedra.

Confirmado o elenco de «Um Espectáculo de Merda»



Já estão confirmadas as presenças de todos os artistas que vão dar corpo e voz ao evento «Um Espectáculo de Merda» a acontecer no próximo dia 20 de Dezembro pelas 23h na Galeria ZDB. Para além do organizador, Martim Pedroso, estarão presentes os seguintes nomes: Alexandre Costa, Ana Freitas, Ana Ribeiro, André Silva, António Duarte, Carla Bolito, Filipe Viegas, Flávia Gusmão, Gonçalo F. de Almeida, Gustavo Vargas, Inês Nogueira, Inês Sales, João de Brito, Luís Castanheira, Márcia Cardoso, Maria Duarte, Marisa Nunes, Marta Rosa, Miguel Loureiro, Miguel Mendes, Miguel Pereira, Paulo Ribeiro, Pedro Cardoso, Rita Calçada Bastos, Rogério Nuno Costa, Samantha Rox, Sttiga, Tânia Leonardo, Tiago Barbosa, Tiago Guedes, Tobias Monteiro, Vera Mantero, Victor Gonçalves, Vítor d`Andrade e Dj Dedy. Todos se unem por uma razão política mas prometem, ainda assim, divertir e surpreender. Não percam este one-night-show natalício!!

prod.materiaisdiversos@gmail.com

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

«Todo o amor do mundo não foi suficiente»


foto do concerto na Sala Galileu Galilei retirada do blogue d'A Naifa


A primeira música que me fez chorar ao vivo, arrepiar-me e tremer ... A Naifa e a voz para lá de sublime de Maria Antónia Mendes, a melhor voz portuguesa, linda, maravilhosa, indescritívelmente bela... que vi apenas 5 vezes ao vivo... emoções ao rubro com um poema surpreendente de José Luís Peixoto... outro génio... mas é claro que ela não canta o poema à letra...

O poema:

Todo o amor do mundo não foi suficiente

todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada. ficaram
só
os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e da
morte.
os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e
foram
demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como
lágrimas.
sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, cada hora,
não irei negar isso. não irei negar nunca que te amei. nem mesmo quando estiver
deitado,
nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a
foder.

_josé luís peixoto

visitem também: www.anaifa.com

e o blogue: http://anaifa.blogspot.com/

«um dia tão bonito e eu não fornico» mas isso são andanças de Adília Lopes e a sua «Metereológica»... outra das minhas favoritas...

Desejo

«Pede um desejo», disse um deus a um rapazinho de catorze anos.

«Não tenho desejos,», respondeu o rapazinho. «Melhores acções farias se, neste momento, estivesses a satisfazer as vontades de outras pessoas mais necessitadas do que eu.»

O deus desapareceu do mesmo modo que apareceu. Quinze minutos depois, ainda a pensar que tinha uma falado com uma entidade superior, o rapaz não caía em si de contente. Comunicara com uma entidade divina, com um deus, com um patrono dos homens. De repente, após milénios de procura e de desilusão, uma pequena criança conseguia chegar ao conhecimento de algo da maior importância: a morte era só uma passagem, um degrau.

«Um desejo. Pediu-me um desejo. Que desejo poderia um pequeno homem pedir? Amor? Não tenho idade para amar. Dinheiro? Não tenho idade para ser rico. Felicidade? Ainda nem o significado dessa palavra conheço.»

Com estes pensamentos em mente, a criança sentia-se bem por não ter sido egoísta, por não ter pedido coisas que não poderiam nunca ter utilidade prática no mundo.

«Dás-me rebuçados?»

Não poderia gastar um serviço dos deuses em futilidades que nem aqui nem em Marte levariam a lado algum. Porém, à medida que o seu raciocínio aumentava, uma certa ponta de malícia lhe crescia nos olhos.

«Poderia ter pedido uma tonelada de barras de oiro.»

As unhas do menino iam-se enfiando cada vez mais por entre os dentes. O nervosismo estava a tornar-se no seu principal indício de distorção comportamental. Às tantas, o rapaz já não sabia em que pensar. Partiu um copo com um safanão. Deu um pontapé numa cadeira de alumínio. Feriu a canela da perna direita. Começou a chorar. Por que razão um deus, que apenas se deveria ocupar dos assuntos celestes, aparecia a uma criança e, pior, lhe concedia um desejo? Em certas idades, o ser humano não tem capacidade para entender que o homem não é bom o suficiente, ao ponto de recusar uma oferta grandiosa. Notava-se claramente que o menino estava mais do que arrependido por ter rejeitado a proposta do deus. Mas como voltar atrás e pedir um desejo? Como falar com um deus?

«Olha, santíssimo, volta que me arrependo profundamente por tudo aquilo que fiz.»

Não pode ser. Uma escolha tem sempre graves implicações, mesmo que não pareça. Escolhes renunciar a um desejo dos céus, sujeitas-te a perder o mundo. Se assim não fosse, se pudéssemos escolher, recusar, e depois voltar atrás com a palavra, não haveria esta importante palavra chamada sociedade.

A criança não voltou a ver o deus.

Do outro lado do bairro, uma menina, que há meses sofria pelo rapaz, que, por sua vez, sofria com a ausência do deus, recebia uma simpática visita. Um deus.

«Escolhe um desejo.»

«Desejo que o rapaz que amo sofra para toda a sua vida.»


Também aqui

A insuficiência do amor


não sabia se era esta a viagem da sua vida. não não sabia. nem tampouco se algum dia iria regressar.
- puta! mas quem é que ela pensa que é?
não pensava que era ninguém. e era esse o problema. sim, era isso mesmo. não era ninguém. e sabia-o desde muito nova. quando era pouco maior que a filha da sua irmã. a sua irmã pequena frágil já mãe. a sua irmã das noites escuras, do silêncio, a sua irmã dos medos em forma de aranhas no cimo do guarda-fatos de bonecas em caixas fechadas.
- não as podem abrir. pensam que elas são para estragar?
- mas mamã...
- devem pensar que tenho dinheiro para comprar outras... vão mas é lavar os dentes e cama que daqui a bocado ele está aí.
ele. ele. ele. o medo. de desiludir.

hoping not to desappoint. começava ela a aprender nas aulas de inglês. era das melhores alunas. talvez a melhor. mas sentia-se ninguém. à hora do recreio ficava sentada nas escadas frias e cinzentas da entrada para a escola. sozinha. o medo de falhar. desappoint. não a deixavam jogar ao "arrebenta". ou ela não queria. a memória atraiçoa-a.
- bucha!
vergonha. lágrimas no nó do pescoço. negro. sangue.
ficou sangue. foi sempre o que ficou da sua curta vida negra. sangue.

e agora esta viagem que não pediu. nunca pediu. lembrava-se daquelas outras em família. família. ela que nunca soube verdadeiramente o que isso é. que se sentava à mesa das ceias de natal em silêncio falado. ninguém a ouvia nem ela ouvia ninguém. pois claro que não. pratos telemóveis contas notas dinheiro.
- tenho mais do que tu!
- não não tens!
- (deve pensar que é bom. mora num barraco, a filha não trabalha, só anda enroscada com o namorado no chão da sala e mesmo assim deve pensar que é bom...)
não, ela nunca soube o que era isso de uma família.
- e tu nunca mais arranjas um namorado?
- quando eu era da tua idade... ai lembro-me como se fosse hoje. podia ter os que quisesse.
raiva. vergonha.
e vidas sem sentido.

sentada no assento já velho do comboio olhava a noite a chegar lá fora. conseguia quase cheirar o frio que se entranhava nas ondas do mar, nas dunas ali tão perto. quase as podia tocar.
- sou uma princesa não vês?
- anda mas é ajudar-me a limpar o chagão!
- uma princesa avó...
metamorfose. quase. talvez tenha sido isso que sempre quis. transformar-se. não sabia se na princesa dos seus seis anos. mas outra coisa. estava cansada daquele corpo. cansada. o seu corpo já velho de 20 anos. o seu coração em cinzas. pó. assim ficam as coisas mortas inutilizadas desfeitas. com teias de aranha. escuras. até que desaparecem. apetecia-lhe pegar num auscultador e sentir o seu coração. tinha a certeza que não ouviria nada.
(- leva-se alguém para o hospital para consertar uma coisa morta?)
não, já nem isso ela tinha.

a noite chega finalmente. sente-se aconchegada. encosta a cabeça ao vidro frio e lembra-se do seu quarto. voltaria alguma vez? era no pé de cabeceira que tantas e tantas vezes se ajoelhava à espera de milagres.
- se pedires com muita muita força acontece!
e ela pedia com a força dos seus sonhos de criança.
a resposta chegava umas horas mais tarde.
- puta

manhãs de silêncio. (re) começar. o mundo claro novamente. todos os dias. a noite ficava guardada nos seus ouvidos. acumulava-se dentro dela, escurecia, destruía o seu coração. cinza. pó. negro. morte.
e sorrisos. falsos quase sempre. forçados. a desejar que se abrissem braços. abraços. e saísse a confissão. um dia perfeito. nunca soube o que isso é.

partia agora já morta. para trás deixava apenas um bilhete em cima da mesa velha da cozinha onde tantas e tantas vezes calou com a mãe. para ela. apenas umas palavras em jeito de obrigada:

"O amor nunca é suficiente".


[Foto: Katia Chausheva]
(Também aqui)

Sunshine Lovers II

“…Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela…”
Alberto Caeiro

Olhos que jamais se deveriam encarar, mas era tarde...
Enlaçada adormeci na luz sedutora do teu olhar.
E pela sinuosidade do teu corpo ardente,
nuvens turvas fizeram o sol nascer de forma diferente.
Flutuo à espera do teu despertar…
à espera que os nossos tempos se cruzem

http://www.artmajeur.com/beticris

Até que as palavras morram de tristeza





A ti …que és poema
E fazes do meu grito a tua voz
Confesso-me!
Não esqueço…
Não apago…
Não perdoo…
Que o mar seja sempre azul
Mesmo que nos meus olhos
Ele seja só um ponto cinzento
Difícil de avistar.
Não me lembro
Quem lhe roubou a beleza da cor…
Quem se atreveu
A dizer-me que os meus olhos sabiam a sal grosso
E que o mar
Tinha nas ondas
Uma mordaça para o meu pranto.
Não perdoo
Que o céu tenha nuvens carregadas
E que esconda as estrelas do meu olhar
Quando a noite em mim cai…
Não perdoo…
Que o mel que barrei em mil palavras
Seja saboreado como se fossem fel.
Não apago…
Todos os passos que dei às cegas e com o coração às costas…
Não esqueço…
Que não caminhei em círculos
Porque sei que em todos os momentos
Não tinha os pés no chão.
Estou certa que neles sempre voei
Então porque me iria esquecer
O que é ter asas num segundo ?

A ti… que és poema
E sabes que no luar me refugio
Confesso-me!
Não sonho…
Não sinto…
Não vejo…
Que o tempo seja a cura
Mas acredito
que os dias nascem e morrem a toda a hora.
Não sinto…
Que o coração tenha segredos
Que o corpo desconhece mas que a alma confia…
Mas confiei…
E ele parou na areia
E quis ver o mar de perto
E eu confesso
Que o levei lá.
Que não pensei
Que ele fosse sentir frio
Quando o verão o abandonasse
Para aquecer outras paisagens.
Não sonhei
Com jardins de folhas caídas no chão
Mas dentro do meu peito
o Outono parece não ter mais fim.

A ti…que és poema
E em silêncio agora me contemplas
Não olhes para mim
Com os teus olhos piedosos
Suplicando que deixe os meus versos
Pingarem no teu rosto…
Hoje não…
Deixa-me ser eu…
a egoísta desta vez
e que todas as lágrimas dos poetas
nasçam e renasçam vezes sem fim
na ponta desta caneta
até que exaustas na sua confissão
morram de tristeza.

Daniela Pereira in Afectos Obsessivos-Edições Ecopy
Foto by DeviantArt

Gostar...Sem Medos!

Tenho medo
Medo de não ser capaz

De chorar pelos outros
Não por mim
Tenho medo
Medo de não ser capaz
De me dar
Dar aos outros
Não a mim
Tenho medo
Medo de não ser capaz
De gostar
Gostar dos outros
Não de mim
Tenho medo
Medo de não ser capaz
De Matar
Sim
De matar!
Matar em mim
No íntimo
No ilegítimo
A posse
A raiva
O medo
A guerra
A estupidez
O ódio
O pôr-e-o-dispor
O mandar
O poder
O impor
O fazer juízos-e-juízos
De valor
Dos outros
Claro!
Não de mim
(op, cit Nelson Mendes, 1977, in Escola. Escola Quem és Tu?, pp 16)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

poesia da íris



Margem d'Arte

LUGAR NENHUM


Chamaste-me
e eu chamei-te.
Encontrámo-nos os dois,
na meia-luz
e à meia-distância,
no ponto onde a luz não era luz
e as trevas não eram trevas,
mas tudo era luztrevas,
no ponto onde nada
era tudo
e tudo era nada,
e não havia tudo nem nada.
No ponto enfim,
onde eu não era eu
e tu não eras tu,
mas eu era tu
e tu eras eu...
Ali ficámos, suspensos no tempo,
em sublime e mútua adoração.
Chegado a este ponto,
contar-vos- ia, talvez, a minha história,
acaso houvesse história
para contar.
Mas é difícil existir história
quando não há princípio nem fim,
e quando o fim é o princípio
e o princípio é o fim
e entre ambos, princípio e fim,
nada mais existe senão o
fim e o princípio deles próprios...
Na verdade, nunca existimos,
ali naquele lugar sem nome,
até ao momento em que, cruelmente,
fomos arrastados de volta a nós mesmos.
Saímos. Saí.
E de fora, não vislumbrava mais
a porta de entrada,
nem conseguia situar o local,
recuperados que estavam os meus conceitos geográficos.
Conclui, pois, que o local não cabia
na Geografia...
Tentei depois, uma vez mais, regressar,
até acabar por entender
que não era a mim que cabia
a escolha do tempo ou do lugar,
mas eram eles que me escolhiam.
Vinham, sem anúncio prévio
ou aviso preparatório,
envolver-me nos seus braços.
Geralmente quando,
incauto e descuidado,
me tivesse esquecido
da imensidade das coisas
que não controlo...


Luis Beirão

Nota: Estava a dever a minha estreia a postar, pessoal ;-). Um abraço!

Corte

Ela: Quero um tempo.

Ele: Porquê?

Ela: Não te suporto mais.

Ele: Mas sabes que dar um tempo não é um simples intervalo?

Ela: Hoje, não quero estar contigo. Amanhã veremos em que pé as coisas estão.

Ele: Dar um tempo é acabar definitivamente.

Ela: Se preferires, digo-te que estou a terminar as minhas relações contigo.

Ele: Não faças isso. Imploro-te.

Ela: Quanto mais te humilhares, mais nojo me darás.

Ele: Poderia lamber o chão por onde passas, se quisesses.

Ela: Se a relação for aberta, continuarei a ver-te.

Ele: Aberta como?

Ela: Poderia, por exemplo, me encontrar com outros homens, sem que me viesses com reclamações.

Ele: Consegues imaginar-te com o pénis de outro homem na boca?

Ela: São todos iguais. Por que não?

Ele: Adeus.

Ela: Adeus digo eu.

Também aqui.

Não é música

Não é música o que ouvimos.
Não é de água este brilho de prata.

Eu estou aqui sobre as pontes do rio.
Outros são os que espreitam pela bruma das margens.



Talvez me lembre:
tu vinhas devagar pelo lado das acácias.

Cingias cada árvore e as colunas, os braços de um
deus cruel, o saber dos templos.
Não é um salmo o que ouvimos.
Não é de harpas este lamento,
não é o ofício das mãos esculpindo um rosto,

não é a palavra de deus que ecoa nas escarpas.

Algures te ocultas e não deixas sinais.



Quem és tu

cujo perfil se desvanece, cuja doçura se perde nos
confins da tarde?

Eu estou aqui onde se unem as margens,onde escurecem
as sendas e as sombras,onde correm as nuvens, as pedras, as águas.

Outros são os que te aguardam pelo lado das acácias.





Autor:José Agostinho Baptista

Quem nos lê

O trabalho crítico é sempre visto com muita desconfiança. Regra geral os artistas não gostam dos críticos, a não ser, claro!, quando estes dizem bem do seu trabalho. De outra forma, os críticos servem apenas para dizer mal
(errado errado o trabalho crítico é um trabalho de avaliação mas que não se pode prender com o bom e o mau isso são juízos de valor e o trabalho crítico como disciplina académica tem que os excluir deve analisar a obra de acordo com conceitos artísticos e não de acordo com as contingências pessoais de quem elabora a crítica)
e não acrescentam nada. Da mesma forma que quem produz arte necessita da crítica para a validar como arte
(porque embora seja a comunidade a validar uma produção como artística e não o artista a comunidade assenta parte da sua opinião nas considerações do crítico uma vez que este é que é considerado especialista)
, também a crítica necessita da arte para validar o seu trabalho.
Uma das razões que me leva a escrever é o Blogue das Artes como objecto artístico. Antes de mais, eu não leio o Blogue das Artes. Mas, honestamente, quem é que lê
(e quando digo ler quero dizer degustar cada uma das publicações dos seus produtores com cada nuance e entrelinha cada intertexto ou intratexto ver ler ouvir com atenção aquilo que um contribuidor está a produzir)
?
Na minha opinião a problemática do blogue coloca-se na sua produção cavalgante: é impossível acompanhar a rapidez com que os conteúdos são publicados e quantidade em que são publicados. Mais, não creio que se possa chamar ainda um caso de sucesso
(com cinquenta e três contribuidores e com tendência para aumentar a produção vai ser cada vez maior e os número de visitas não é indicativo pois se os seus produtores vierem duas vezes por dia confirmar se têm comentários nas suas produções isso dá-nos uma média de visitas diárias de cento e seis o que faz com que este blogue sofra de umbiguismo)
. Mais, chegamos a cair no erro de julgar que fazemos arte pelo título do blogue, mas na verdade não o fazemos. Falta-nos a crítica, a comunidade externa à produção que valida o nosso trabalho. Acabamos por ter um blogue de produção sem leitores e nem nós mesmos desfrutamos das produções uns dos outros.
Aquilo que escrevi era irónico e sintomático, não pretendia diminuir o trabalho de quem produzia, fico com pena de poucos terem lido e ainda menos terem compreendido. Mais, valorizo, pessoalmente, o trabalho inter-artes e ekphrástico, nomeadamente o que se faz no blogue PostSecret.
Suponho que poucos tenham chegado até aqui. Continuo sem publicar poesia e fotografia. Por princípio.

Arrepio


Há momentos,
em que me apetece ficar fechada numa caixa.
Escondida por entre os vidros de uma janela,
Protegida por entre paredes de betão.

Há momentos,
em que, viver é um arrepio de frio.
Nem sempre agradável,
nem sempre desconfortável.

Hoje sei que sinto frio....
se é o pressentimento de uma alegria
ou o sentir de uma desilusão,
não o sei.
Somente sei, que é viver,
Sei que é frio... é o arrepio...
de viver!

The Shadow of No Man



http://www.bad-seed.org/crime/

Quando procuro por influências... venho sempre ter aqui... uma pérola... aliás são tantas as pérolas destes músicos que a riqueza se tornou incalculável.

Isto também é arte!!!

THESE IMMORTAL SOULS - "King Of Kalifornia"



...sempre adorei isto... e pensar que comecei a aventura pelo 'Foi na Cruz' do Nick Cave & The Bad Seeds... depois foi sempre a descer... e tive o ultrajante desplante de vender o cd onde está esta pequena maravilha... nunca mais o vi à venda... castigo...

Este rapaz comecei a ouvi-lo nos The Boys Next Door... e nos mais conhecidos The Birthday Party... depois as almas tornaram-se imortais... talvez a dose fosse grande demais para o ego dele...

...mas apesar da Austrália, dos lúgrubes recantos de Manchester e das alucinadas noites de Berlim só compro música portuguesa! O resto...

O carneiro e o lobo


Em 2003, o Bush e o Saddam estavam a beber num regato.
Diz o Bush:
– Estás a sujar-me a água!
– Eu? – riposta o Saddam – Eu, como, se é daí que vem a corrente?
– Se não és tu, é o bin Laden! – E certeiro, espetou-lhe um corno no fígado.


[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

A ARTE É RESISTÊNCIA

É a força em potência do grito de Liberdade na mente e no coração que está sempre presente num acto de criação.

Noite

Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.
Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.
São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.
Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.
Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.
Também a noite é escura.





Autor:Agostinho Neto
(Sagrada esperança
)
Foto:Paulo Madeira www.paulomadeira.net