quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

LUGAR NENHUM


Chamaste-me
e eu chamei-te.
Encontrámo-nos os dois,
na meia-luz
e à meia-distância,
no ponto onde a luz não era luz
e as trevas não eram trevas,
mas tudo era luztrevas,
no ponto onde nada
era tudo
e tudo era nada,
e não havia tudo nem nada.
No ponto enfim,
onde eu não era eu
e tu não eras tu,
mas eu era tu
e tu eras eu...
Ali ficámos, suspensos no tempo,
em sublime e mútua adoração.
Chegado a este ponto,
contar-vos- ia, talvez, a minha história,
acaso houvesse história
para contar.
Mas é difícil existir história
quando não há princípio nem fim,
e quando o fim é o princípio
e o princípio é o fim
e entre ambos, princípio e fim,
nada mais existe senão o
fim e o princípio deles próprios...
Na verdade, nunca existimos,
ali naquele lugar sem nome,
até ao momento em que, cruelmente,
fomos arrastados de volta a nós mesmos.
Saímos. Saí.
E de fora, não vislumbrava mais
a porta de entrada,
nem conseguia situar o local,
recuperados que estavam os meus conceitos geográficos.
Conclui, pois, que o local não cabia
na Geografia...
Tentei depois, uma vez mais, regressar,
até acabar por entender
que não era a mim que cabia
a escolha do tempo ou do lugar,
mas eram eles que me escolhiam.
Vinham, sem anúncio prévio
ou aviso preparatório,
envolver-me nos seus braços.
Geralmente quando,
incauto e descuidado,
me tivesse esquecido
da imensidade das coisas
que não controlo...


Luis Beirão

Nota: Estava a dever a minha estreia a postar, pessoal ;-). Um abraço!

2 Comments:

© Piedade Araújo Sol said...

Muitos parabéns.

Ao ler este poema notei umas semelhanças com a minha maneira de fazer poesia, a maneira de brincar com as palavras e dar-lhe sentidos e formas diferentes de se fazer poesia.

Sem margens para duvidas uma boa estreia do Luis Beirão.

Beijo de amizade...

Scoya said...

FABULOSO!
Digna estreia, parabéns :)
Um beijinho