domingo, 31 de agosto de 2008

O Iluminado


photo: Betina Moraes

A mãe não atinava, por mais que pensasse, a razão para Deus lhe oferecer tamanho castigo! Era menino de ficar quieto e acertar perguntas difíceis, porém era um grande problema. Apesar dos seis anos desnutridos e da barriga abrigando parasitas, o menino se aprumava quando o assunto era adivinhar. Das moedinhas postas na mão do irmão mais velho ele acertava o número exato e a quantia em dinheiro! Era um espanto para os bêbados da vendinha que apostavam em cada resposta correta. Houve vez de o menino ser raptado de casa para servir de atração esdrúxula na noite do morro.

As pipas eram a coisa que o menino mais gostava, quando as via voar corria gritando: "Viva!!!" Qualquer um que prometesse um bom papagaio colorido levava o menininho pela mão. Não estudava, o nariz escorria, a comida era pouca, os irmãos eram muitos, a mãe era doente, mas de tudo, parecia que nada desagradava o pequeno.

Uma mãe de santo profetizou a santidade do menino, uma vizinha sugeriu exibir o milagre em um programa de televisão, o pastor ofereceu-lhe a Igreja, mas a mãe calava maldizendo o dia em que pariu a aberração. Para todos os efeitos, ter um filho diferente é aborrecimento. Apontavam para ela na rua como se fosse de outro planeta. Até um possível pretendente desistiu quando soube da popularidade exagerada em torno da cria daquela mulher. Ela mesma tinha certo receio quando o guri fitava seus olhos lá no fundo, como se fosse catar os pensamentos mais escondidos, as idéias mais inconfessáveis.

O começo do tormento maior veio com a profecia do menino para a morte do sapateiro. Disse em alto e bom som na porta da vendinha: “seu Severiano sapateiro vai ver papai do céu semana que vem”. Foi uma confusão! A mulher do sapateiro veio correndo e quis dar uma surra no profeta, a mãe quase deixou para ver se o menino sossegava daquilo, mas o povo em volta ameaçou linchar as duas. Um camarada mais temido puxou a arma e ordenou: ninguém toca no santo! Vamos ver no que dá! Mandou cada um para as suas casas.

Semana seguinte falhou o coração do sapateiro! Foi ao meio-dia, num domingo, muito sol, todo o mundo esperando. A mãe perdeu a força nas pernas, passou mal, chorou, estendeu as mãos para o céu em desespero. O pequeno brincava inocente no beco imundo e foi cercado por um monte de gente querendo saber o futuro, o irmão mais velho acudiu, pegou o moleque e sumiu no morro. Quando já era madrugada, voltou para a casa com ele dormindo nos braços. A mãe precisava dar cabo daquilo. Pegou o dinheirinho que havia guardado para o natal, enrolou o filho em uma coberta e saiu pela madrugada como fugitiva. Ao raiar o dia já estava em um ônibus para o interior do estado. O menino sorria doce ao aconchegar no colo da mãe. Não reclamava de nada, nem fome tinha.

Desceram do ônibus em uma cidadezinha qualquer. Ela largou o menino em um banheiro público, tomou condução de volta ao Rio. Sozinho no banheiro ele sentiu apertar o pequeno coração, viu despencar um ônibus no abismo. Foi a única vez em que a criança chorou.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Algumas coisas...

Foto: Michael David Adams

INSTABILIDADE EMOCIONAL
VEZES ASSIM
VEZES ASSADA
VEZES EM MIM
VEZES IRADA
VEZES SEM FIM
VEZES COVA RASA
VEZES QUERUBIM
VEZES ESFARRAPADA
VEZES COLORIDA
VEZES FERIDA
ESFACELADA.

BY CASTI

(www.teiadepalavras.blogspot.com)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Castelo de areia

Acordou de manhã com o telefone a dizer-lhe que homem X havia morrido. Lembrou-se imediatamente da personagem de Camus que não conseguira chorar no funeral da mãe. Acabara de ser informado da morte do homem que o costumava levar ao futebol em criança, no entanto, não se conseguia emocionar. Sofria, sentia uma facada no peito, queria desaparecer, estar longe de tudo, no Pacífico, no Alaska, na neve. Precisava de estar sozinho e de desabar em lágrimas, como a criança que ainda não bebeu o seu leite. Acontece que este sofrimento, que lhe aparecera tão repentinamente, era seco, mudo, e não necessitava de gestos ou de palavras para se propagar. Vinha-lhe à lembrança a imagem de uma criança e de um avô dentro de um carro a tentarem chegar à conclusão se o jogador dos vermelhos se superiorizava ao dos verdes. Apertava-se-lhe o estômago por saber que, a partir daquele momento, da morte, já não havia pai, nem avô, nem avô em substituição. Haviam fotografias, mas nem essas eram certas. Umas estavam adormecidas dentro de gavetas trocadas, outras haviam desaparecido com o vento, com a poeira e com as cinzas. Crescera a pensar que poderia escapar à morte. Não à sua, mas à dos outros. Nunca imaginava a morte da mãe, dos irmãos ou da avó. Sofria a ver programas na televisão que abordassem a problemática em torno de certos seres humanos perderem a respiração e de serem enterrados debaixo da terra. De repente, aparecia-lhe uma notícia de tão explosiva natureza: morrera o símbolo da beleza da infância e da adolescência. Com aquele desaparecimento, iniciar-se-ia uma contagem decrescente até ao momento do seu próprio desaparecimento. Talvez fosse essa falta de tempo que o impedia de exteriorizar a dor.

00:04

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

NO ÁLBUM QUE GUARDO

Recorto a imensidão das horas,
O espaço ressequído pelo calor...
A dádiva da canção dançante,
Este infindável desejo, acutilante
Fogo de todos os domínios
Ao espelho perdido e antigo.

No espasmo dos nomes escuto-te...
Envolvo-me no sorriso encerrado,
Na inarrável criação da lonjura,
A fonte acesa do dia esculpido,
Tavira azulada na vazante...
Entre o café da sugestão
A um telegrama sem corpo.

Longe de ti... não és ninguém!
Ateados os perjúrios do sangue
Bonanças da sugestão esfumada
A memória ardente da minha cidade,
O interstício da tripulação azul...
Palavras sinuosas na iminente despedida,
Alegrando a rua sem nome!
Rua ao fundo do tempo do Gilão.

Cidade do acaso entre cenários...
Amor que se dança mais além!
Ancestral sorriso a encetar olhares
Múltiplas páginas, posturas, imaginários
Ritual que o turismo acende
No pálco cenários acentuados...
Café e vinho que se aconchega
Neste apontamento, aquela demora
O navio, a ilha, a minha Tavira
O sono do meu jardim, gente gira
O povo de longas euforias...
Aventura contida naquele poema
Amor lilás, teu envolto tema.

Igreja... igrejas, recantos da fé!
Sentido cúmplice, inscrito até
Nos anos lavrados da tradição...
Rasgando a frescura e o Sol algarvio,
O arco e o castelo, sombra e luz
No álbum que guardo além Jesus.

Tavira, 25 de Agosto de 2008 - 12:27h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

Livro "Nas Águas do Verso"


No cantinho do Blogue das Artes aqui vos deixo uma boa nova...a minha participação numa colectânea de poesia que já se encontra disponível. O livro "Nas águas do Verso"... escrito a 100 mãos com muita alma..sorrisos e sal...
Aqui deixo o meu agradecimento ao João Ferreira e ao Pedro Lopes por fazer parte deste projecto de partilha das palavras de um mundo onde a poesia é um rio de sentimentos puros e transparentes...


Nas Águas do Verso é uma colectânea poética idealizada e coordenada por João Filipe Ferreira e Pedro Lopes.
Nesta obra é possível encontrar textos poéticos de 100 autores tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo.
Uma obra onde cada poeta expressa livremente as suas palavras, as suas emoções, visões e estados de espírito.
Em Nas Águas do Verso o leitor poderá navegar calmamente na beleza da poesia e da prosa poética, sem nunca perder o rumo, sem nunca se afogar nas palavras.
Com muito prazer, os autores oferecem-lhe esta obra que consideram ser tremendamente rica em poesia.
Sejam bem-vindos ao barco poético e uma vez nele, desfrutem da beleza das Águas do Verso.




Titulo: Nas Águas do Verso
Subtítulo: 100 Autores - 100 Poemas
Editor: Edições Ecopy
Colecção: Poetas Contemporâneos
Ano de Edição: 2008
N.º de páginas: 128
ISBN: 9789898080684
EAN: 9789898080684
Dimensões: 20,5 x 14,0 cm

Um livro fantástico, com textos de 100 pessoas tão diferentes que se unem para criar uma obra de imenso valor... Recomendado a quem aprecia a arte de ler e a magia das palavras...

Onde comprar:

Editora Ecopy
ecopy@macalfa.pt

Livraria Leitura (Porto)
http://www.livrarialeitura.pt
Rua de Ceuta, Nº 88
Telefone 222 076 200

Livraria Byblos (Lisboa)
http://www.byblos.pt/
Rua Carlos Alberto Mota 17 Edíficio Amoreiras Square
1070-313 LISBOA

Bulhosa Books & Living
Galeria Comercial das Amoreiras ( e restantes Livrarias Bulhosa)
Av. Engenheiro Duarte Pacheco, s/n Loja 1129
1170-103 Lisboa
http://www.bulhosa.pt/

NAS ARESTAS DA PÁGINA DESAVISADA

No silêncio da água branca navego, pelas arestas
Tomo-me na amplitude dos horizontes lácteos
Nos sulcos que me vergam o braço…
O lugar definido das cidades e da ausência
Esta minha entrega nas arestas da morte total.

No indesejável eco escondo os meus silêncios…
Os passos de uma metáfora que se perde,
Os encantos que desautorizam e desfazem!
Chamo-te à interrogação no espelho delimitado,
Fico com um olhar de aço quase impossível…
Quase acorrentado pelas novas posturas,
Fico e nunca mais estou nessa faixa, nesse lado.

Pensei saber-te novamente… pensei sim, ausente
Desesperam os nomes no telegrama final…
Este momento colorido pela noite dos açoites,
Os esconsos dos símbolos no desastre da manhã adiada!
Assim, todas as cores, vermelho, carmim, lilás…ou nada
As outras na inarrável aproximação do sentido ideal.

Adias o nome tanto desejável… a aurora frágil
No fálico tempo de estátua revelada no universo
Por herméticos sons de harpa e acordeão fugaz,
A um desconhecimento impróprio de todos os olhares
Neste hiato de permanência, sem gesto possível.

A página cobre-me o corpo com um sorriso…
Dentro de mim o choro dos fantasmas da imaginação,
A vibração do corpo e da alma… assim, em vulcão
Entre as estrelas e a neblina da esperança dançante
O uníssono da carne perfilada às órbitas da nudez,
No ébrio sentir do remanso minucioso desavisado.

Tavira, 24 de Agosto de 2008 – 19:05h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

sábado, 23 de agosto de 2008

ANTES DA PALAVRA




Eu te chamo com todo o silêncio,
Nos pequenos gestos discretos,
Nas páginas do livro que leio.

A chama me conduz ao teu nome,
Inflama a existência das coisas,
Reduz a rua a um passo apressado.

Olho-te sem que me vejas olhar,
Queimo o verbo em única pessoa,
Colho aves que transpassam o céu...

As folhas da amendoeira estão em pó
Mas eu fico quieta e espero
Se teu nome ecoa, eu escuto e calo...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Anjo da Guarda

Paira no ar o teu aroma,
o teu trejeito que ficou,
em tudo existe um pouco de ti
e
do teu semblante
simulacro de querubim
permanece
mas tu foste para o céu
embora ficasses
arreigado
nas células
nos sinais vitais
que me fazem viver
no sangue que me corre nas veias
nos versos que garatujo,
não quero relembrar,
mas tudo me impele,
e repele para ti
tudo tem algo teu,
que me acorrenta,
me transmuta,
me mistifica.

Esvoaça como num sopro

uma doce fragrância
da paz
que tu deixaste
expressa nas coisas
em que toco
sinto
e cheiro
Vem buscar a saudade

meu anjo da guarda.
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Autor:© Piedade Araújo Sol
05/08/2005
Foto:Martikson

domingo, 17 de agosto de 2008

Quando, às 6.30 da manhã, o galo da vizinha resolveu acordar a rua inteira, Artur deu por si a resmungar que, na cidade, já não acordava com os alarmes dos carros. Concluiu que a calma do campo desestabilizava-lhe mais o sono que os barulhos da cidade.

(também na minha morada de todo o ano.)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O velho anexo


photo: Betina Moraes


O calor no quarto, por causa da telha crua e sem nenhuma beleza no amianto, fazia seu olho arder e os ossos serem uma coisa pesada, além. Hugo, que já havia tido várias denominações durante a existência: Filho, menino, rapaz, marido, contador, pai, era agora o velho no andar anexo. E logo hoje, que já acontecia o natal, deu para cismar com desnecessidades imbecis. Havia sempre uma ou outra queixa claro, quem não as tem? Mas ali, diante do par de sapatos, resmungando, dava-se conta do quanto era ridículo. Raciocinou. Onde estava a ofensa? Pelo menos ganhou um presente. Talvez a coisa toda tenha desandado quando o sapato não coube... Ou quem sabe, antes? O fato é que ao calçar e perceber os dedos ali entranhados um sobre os outros, foi lhe dando um desamor, um desconsolo, um desmedido sentido de fim da linha.... Já era o tempo de saberem o quanto lhe cabia no pé, qual o número de sua camisa, se a gola iria enforcar!

Das duas meninas ele tinha “de cabeça” cada um dos numerários que lhes coube durante as idades: Carla, miudinha, vestia um número 38 para sempre, desde a adolescência, independente dos netinhos que lhe deu. Verônica, um pouco mais fornida, tinha obsessão por regimes e variou muito de peso! Ficou magríssima quando da paixão pelo professor de química e gordíssima quando a paixão lhe disse não, mas nunca deu para esquecer o quanto lhe cabia. Mesmo os homens, Henrique e Moisés que tanto se modificaram e cresceram, ele visualizava com perfeição seus corpos.

Talvez fosse isso, não lhe visualizavam mais, nada mais lhe cabia.... Aos 82 anos, um sótão quente e uma viuvez que doía nas entranhas, quem sabe tenha passado já os limites dignos para a ocupação do espaço, assim como mobília que é transferida para a garagem? Tentou conter as lágrimas, mas a musculatura flácida das pálpebras colaborava para a humilhação de chorar. Então chorou. Cuspiu tanta solidão, tanta, que lhe veio uma absurda vontade de vestir-se, na vontade veio junto o entendimento do vestir-se. Era esse o assunto para o sapato, ali estava a tanta coisa para a qual ele estava sendo preparado e o motivo de o calçado não ser o seu número. Entendeu a metáfora. Era uma mensagem de sua família: “seus pés perderão as peles tão logo, por que um sapato mais largo?” Imaginou a filha mais velha dizendo isso diante de todos, do jeito alegre e irresponsável como ela conduzia as festas de natal. Parou e considerou as coisas.

Mesmo já tendo passado muito da meia noite, ainda não vira motivos para ir cear. Antes, mais cedo, ao receber o presente, não quis descer, ficou cismando ali. Agora estava diante da resposta. Um homem deve saber duas coisas na vida, a hora de começar e a de parar, o resto é bobagem. Ajeitou o terno azul marinho, dos bons tempos de contador e a pele reagindo, o fez sentir o tecido. Forçou os dedos dos pés a aceitarem os sapatos. Colocou no bolso a foto de seu grande amor. Única mulher para quem um dia, entregou o coração. Mesmo severo no gostar, quando juntos na mesma cama, havia entre eles uma luz que nem cabia descrever. Incrível como os filhos desconhecem o que se passa entre os pais... Apagou a luz e abriu a janela. Ao ficar de pé, constatou que era realmente muito apertado o sapato. Lá embaixo encontrou a cama de grama que ele mesmo plantou.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sobre a chegada do Verão


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O amor é a borracha que apaga o mundo quando os teus olhos me tocam.
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[Também aqui]

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Lançamento de Antologia em São Paulo





Dia 16 de Agosto vai ser lançada um antologia de poemas, contos e crónicas em São Paulo, na XX Bienal Internacional do livro de São Paulo.

Tenho orgulho em participar nesta antologia com dois poemas e duas crónicas.

Um desses poemas foi publicado pela primeira vez aqui, neste mesmo blogue. Ficam os links:

E no fim...

A árvore dos namorados

Filhos da noite

Antes do fim abrupto de um corpo

Destaco o profissionalismo com que tem sido feita a divulgação deste evento e a coordenadora Luísa Beatriz Moreira.

E claro que sendo a primeira vez que algo meu é editado fora de Portugal, se torna como uma espécie de reconhecimento dos amigos do outro lado do Atlântico!

Beijos e abraços e que este continue a ser um Blogue de referência para todos quantos neles participam e sobretudo a quem procura por inolvidáveis talentos que os há aqui em grande quantidade!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O que me resta


O que me resta
quando não puder acrescentar
mais uma palavra ao teu livro

O que me resta
quando não conseguir mover o lápis
para rabiscar

quando o Inverno estiver frio,a partir-me
os ossos de solidão.


O que me resta
quando a luz se afundar na alma
silenciada


O que me resta
não sei...
pergunto...
fico à espera da resposta...

e morro todos os dias mais um pouco.

(Fotografia e poema: Liliana Jasmim)

domingo, 10 de agosto de 2008

Uma rapariga entrou um pouco desnorteada no Grande Armazém dos Cucos. Impressionado com a tristeza que transmitia, o Sr. Afonsinho encarregou-se de a atender pessoalmente e, num ápice, percebeu que ela tinha um desgosto de amor para trocar. Depois de pensar uns segundos, o simpático gerente lembrou-se que tinha os livros da Colecção Vampiro e a compilação de O Tal Canal em cassetes beta (por sorte, também tinha um último vídeo adequado), que seriam completamente indicados para esta situação. A rapariga saiu muito mais satisfeita (e leve) do armazém, especialmente porque os novos produtos iam ser levados para sua casa naquele mesmo dia.
Quanto ao desgosto de amor, foi cuidadosamente guardado num frasco e trancado no cofre, na cave do armazém. Com material perigoso todas as cautelas eram poucas, mas nunca se sabia quando havia de dar jeito.

(também na minha casa de todo o ano)

surrealismo - a única real tradição viva

para quem é fã do movimento surrealista o nosso querido amigo ricardo pulido valente oferece-nos um bom espaço.

afinal de contas é a única real tradição viva, não é?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

LANTERNA


Alexandre Zlotnik


É na espera que a estrada se cria,

entre musgos e fungos e pedras,

cratera na terra é fogo que esfria.


O tempo é o tear onde se fia o dia,

meu vestido é linho de horas novas,

a linha na agulha amarra a história.


Se eu esperar e a estrada escurecer,

pego um fio fósoforo na aura do anjo

e dou vestimenta ao passo, na luz.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

quase esgotado

segunda-feira, 4 de agosto de 2008




Um novo número da Minguante com o meu texto.
E, aproveitando para fazer publicidade, com o meu e-book quase em forma de fóssil.


Sirene

Estás a ouvir a sirene lá fora? É da ambulância que te leva para o hospital. No momento da despedida, pouco importa se foste um bom ou mau cidadão, se votaste, se trabalhaste, se tiveste filhos, se foste um bom pai, se foste um bom filho. Quando te restam trinta minutos de vida, de nada te valem os doutoramentos, as amantes, as notas de mil, as viagens ao Japão, o luxo, os livros, os filmes, as músicas.

Para os desesperados, existe um dramatismo muito grande na contagem dos segundos. Queres ver? Trinta minutos. Um, dois, três. Até chegar a mil e oitocentos. A vida passa tão depressa. Lembras-te dos quinze anos? Parecia que tinhas o mundo todo à frente. Mas os anos começaram a passar como se fossem dias e, quando deste por ti, já não tinhas vinte, nem trinta, nem quarenta. Tinhas cabelos brancos, dentes acastanhados e cancro nos pulmões. Lembras-te dos quinze anos? Querias casar com a Margarida ou com a Inês, lembras-te disso? Passou tudo. Porque é tudo vaidade. Consegues ver os médicos a examinarem-te? Vais perder o pio. E desejas que a tua mãe estivesse contigo.

domingo, 3 de agosto de 2008

Artur estava convencido de que ia escrever o novo grande romance português contemporâneo. Tinha uma grande ideia para o enredo, a confiança que seria capaz de o desenvolver devidamente e até elaborou um plano de acção: comprou um computador topo de gama, tirou um ano sabático, arrendou uma casa numa aldeia transmontana e manteve um telefone só para eventuais emergências de saúde da mãe.
Quando voltou à cidade, os amigos nem queriam acreditar que tivesse ganho 20 quilos e que se tivesse transformado num campeão de sueca. Nunca mais lhe ouviram pretensões literárias nem qualquer outra explicação.



(também na minha casa de todo o ano)

sábado, 2 de agosto de 2008

O QUE SINTO AGORA…

Latejam em mim as palavras deste poema
Acompanham as batidas do coração…
É verdade. Não é fita de cinema…
É o que sinto por dores de uma ilusão.

Angustia e morre na garganta o fonema
E o medo faz parar a irregular pulsação
Utópicas e estranhas imagens são o lema,
Da vida que não vivo, nem por mera imaginação…

O teu sono sem o meu sono é a ansiedade
Que não partilho, nem por necessidade…
Porque a saudade controla todas as pulsões…

Eis porquê neste poema deixo minha tristeza,
Deixo a fé, deixo aquele sonho de beleza,
Deixo as lágrimas defuntas, sem contemplações…


02.08.08
(comment ao último poema do Caderno da Alma)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Um mais um menos um


Marilyn Minter, Splish-Splash, 2005




Ele amava uma mulher. Por esse motivo, quando a encontrou na rua, pegou-lhe pelo braço e levou-a para casa. No quarto, encostou-a a uma parede, rasgou-lhe a camisa, levantou-lhe a saia e penetrou-a como se tivesse a certeza de que, naquele momento, não haveria outra coisa a fazer. Durou sete minutos e meio, o sexo. Quando acabou, pegou num cigarro, acendeu-o, puxou as cuecas para cima e disse: «Vou casar contigo.» Era este o grande objectivo de vida dele. Levá-la ao altar e enfiar-lhe o anel da santa ligação no dedo. Minutos depois, ao vê-la deitada no chão ainda com o esperma espalhado pela roupa rasgada, ele sentiu que um pequeno monte se começava a manifestar um pouco abaixo da sua cintura. Voltou a enfiar o pénis dentro dela. Ela começou a chorar.

«Não faças isso», murmurou-lhe ele aos ouvidos.

«Não faças tu isso», respondeu ela.

«O quê?», perguntou ele, meio surpreendido.

«Violar-me.»

Paragem. Algumas palavras doem mais do que certas doenças.Violação. Um homem pegar numa mulher à força e possuí-la. Fazê-la sentir-se um lixo. Não ligar à existência dela. Transgressão. Estupro. Profanar um templo. Se ela lhe tivesse dado um murro no estômago, teria mais hipóteses de receber alguma compreensão do que a dizer: «Violar-me».

«Não te violei, querida. Amo-te praticamente desde a primeira vez que te vi. Já lá vão três anos. Hoje, encontrei-te na rua. Como não encontrei palavras que te pudessem convencer do quanto te adoro, peguei em ti e trouxe-te para dentro da minha intimidade.»

«A tua intimidade deixou-me a deitar sangue», respondeu ela muito secamente.

«Não te violei.»

«Deixa-me ir», pediu ela.

«Espera.»

Ele foi buscar uma corda à garagem. Despiu-a completamente e atou-a à cama, não a deixando sequer com liberdade para mexer um braço ou uma perna. Se ele quisesse, ela ficaria naquela espécie de prisão para sempre.

Ela começou a berrar. «Deixa-me ir embora, peço-te.»

Ele foi buscar uma câmara de filmar e começou a filmá-la. Pediu-lhe para sorrir, que deveria ter uma cara bastante fotogénica. Mas ela só sabia chorar. Ele aplicou-lhe o remédio: deu-lhe uma bofetada na cara.

«Agora, ri-te.»

A muito custo, ela esboçou um sorriso.

«Agora, diz que me amas.»

«Amo-te», disse-lhe ela.

«Sou o homem da tua vida, diz.»

«És o homem da minha vida.»

«Muito bem, temos filme.»

Depois, deitou-se em cima dela e penetrou-a. Ela adormeceu. No dia seguinte, acordou sozinha, na cama que a sua mãe lhe comprara no Natal. Não haviam sinais de cordas ou de homens violentos. Só ela e um despertador a garantir que chegara a hora de ir para a escola.