terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Metamorfose. Quase.


Transformava-se o Porto na capital, a admiradora no génio e o texto em baixo quase poderia ser escrito aqui e agora. Os locais e as épocas e as pessoas são diferentes. O sentimento é o mesmo, atrevo-me a dizer.




Lisbon Revisited (1926)


Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-se todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia
ver na rua.
Não há nada na travessa achada número de porta que me
deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem
sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha
angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me
náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar,
E aqui de novo tornei a voltar?

Ou somos todos os Eu que aqui estive ou estiveram,
Um série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Causal na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através de sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco que se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de
mim - Um bocado de ti e de mim!...


[Álvaro de Campos]
[Foto: Fernando Figueiredo]

(Também aqui)

1 Comment:

Scoya said...

Este homem, posso dizer, "preenche-me"...
Quem me dera ter bebido as suas palavras à tarde, sentada na mesma esplanada do seu café predilecto, fumando com ele. Ouvindo o silêncio e sorrindo para o seu olhar.