sábado, 1 de março de 2008

Amor no Douro


a porta fechada. a solitária mimosa colocada no copo velho ao seu lado para lhe prolongar a memória do dia. a cabeça encostada ao travesseiro e a carteza de estar viva. devia-a ao Douro. apaixonara-se duas vezes em 24 anos nas suas margens e isso bastava-lhe para não se sentir sozinha. Mesmo depois de o ter deixado partir no átrio da velha estação.
- vejo-te em Abril?
queria dizer-lhe que talvez não. sabia que nessa altura os caminhos seriam outros e já não haveria ele, a sua máquina fotográfica e o rio que amava a escassos metros, enquanto o comboio continuava a subir encosta acima.
- até lá, sim!
de luz apagada, janela aberta e reflexos das luzes exteriores no vidro do seu quarto, pensava se não teria sido esse o momento em que o tinha começado a amar. viajavam a uns 50 quilómetros por hora, mas ele abriu a última porta, puxou-a para si e ficaram a olhar o Douro em silêncio, com o vento suave a uni-los. sim, teria sido certamente aí. o cheiro das amendoeiras e das memórias confundia-se com o seu, agora ali tão perto.
- sabes por que se diz que o amor é cego? porque gostamos de alguém pelo seu cheiro.
e pelos olhos. azuis. queria responder-lhe ela. em vez disso olhava-o. como olhava agora a pequena mimosa que ele tinha colhido para si no topo de Penedo Durão, enquanto avistavam os socalcos espanhóis do outro lado do rio.
não, não o voltaria a ver em Abril. não que não conseguisse esperar até lá. guardaria religiosamente a pequena mimosa no copo velho do pequeno quarto e lembrar-se-ia do seu cheiro, das pequenas rugas em torno dos olhos e da sua máquina fotográfica.
- (a captá-la)
bastava fechar os olhos.
não, não seria isso. era a previsibilidade. sabia que em Abril já não haveria amendoeiras, fronteiras do outro lado do rio e a ingenuidade da primeira vez. muito menos o Douro. Abril seria o fim. preferiu ficar apenas com o cheiro do começo.
fechou então os olhos, à espera que a manhã chegasse.
Foto: Ana J. Ribeiro

3 Comments:

Saramar said...

Delicado e tão triste!
Encantador, como são as boas lembranças de amor.

beijos

© Piedade Araújo Sol said...

tão triste e tão bonito...

beij

Andreia Ferreira said...

Obrigada às duas! :) Beijinho