quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Tio Rias

Um dia, uma tarde ou uma noite (só ele sabe), numa Terra Sonâmbula, Mia Couto escreveu:
- Não gosto de pretos (...)
- Dos brancos?
- Também não (...)
- Eu gosto de homens que não tem raça.

Esta tarde (só eu sei), Carla Veríssimo escreve:
Não me apetece ouvir pretos a falar.
Brancos?
Também não.
Apetece-me estoricar.

Não me apetece estas velhas (todas) parvas. Estas velhas todas. Estas velhas parvas. Estas velhas todas parvas, Onde é que é o 26? Desculpe mas o 3 é o meu lugar! Olhe, no 57 sou eu!
Não quero esta gente louca engalfinhada no corredor estreito do autocarro.
Não me apetece ver ciganos, nem ciganas, nem os seus filhos sempre muito(s) imundos.
Não quero ver choninhas de camisa dentro das calças, óculos fundo garrafa, a mandar beijinhos à namorada, que vai partir, num autocarro de gente louca.
Não m’ápetéce saber que o námuradu de uma que vai atrás de mim desbunda mêmu à grande; e que o da outra que vai ao lado dela e fala à tia de Cascais tá dentro de cana.
Não gosto da raça de homens que não tem preceito na fala, e fala dá-le, auga, taobein, pirula, quaise, treuze, hás-de, prontos, dissestes, cuatorze.
Não quero ver carros a passar com protectores solares colados aos vidros, com desenhos do Shrek, Fiona, Burro, Gato das Botas e Companhia Lda.
Quero estoricar sem esturricar. E sem estes tremeliques por causa de uma estrada que pagamos para ser mantida em mau Estado.
O Estado… esse infame derradeiro, da Nação aborrecida.
Desta nação em estado de queixume constante.
Não quero ver Parques de Merendas abarrotados de gente abarrotada depois de almoços de Domingo.
Não quero ver cães presos por correntes, às correntes de um tractor.
Vou lá passar o fim-de-semana com ele e ainda se mete com merdas a dizer que não gosto o suficiente dele?? Havia de ser outra a fazer por ele, o que eu faço! Ele deve pensar que tenho orgulho em ir passar o fim-de-semana com o meu namorado à prisa?
Não quero saber dos presos! Nem das conversas dos presos! Nem dos namorados presos das que não estão presas!
Não quero ver árvores tombadas de velhice. Falta de ar. Ventanias várias.
Homens (ou Mulheres) sedentos de papel. Papel. Carcanhol. Trocos. Cheta. Tlimtlim. Tusto. Graveto. Tostão. Pasta.
Não me apetece ver couves nos quintais, por entre hibiscos, arbustos, coentros, salsa e palmeiras de jardins com cada verde da sua nação.
E a Vanessa, que não liga nenhuma ao Márcio e só faz merda. E o chavalo é bonito. Tenho olhos na cara é pra ver!
Virar-me pra trás, arregalar os olhos e gritar: CALA-TE!
E depois em tom normal acrescentar: Chavala!
Não quero ver toldos de igrejas com a mensagem: Jesus é Amigo.
Não quero ver namorados a catar namoradas, nas paragens de autocarro.
Não me apetece ver casas pintadas de verde-água.
Não gosto de ouvir dizer encarnado.
Não quero estar à rasca pra mijar, só porque é mais chique estar aflita para ir à casa-de-banho, tá a ver?
Não me apetece ouvir (poucas vezes, mas ouvir) a Venezuelana, Barranquenha, Espanhola ou Lá o Que É, da que vai ao lado da tia de Cascais.
Não quero ver as velhas que se atropelam agora para saírem do 26, do 3 e do 57. Não as quero ver engalfinhadas, a engalfinhar a bagageira do taxista com os seus sacos dos ciganos (carregados de roupa). Não quero ver a tia de Cascais e a Venezuelana, Barranquenha, Espanhola ou Lá o Que É, a meter dentro também as suas malas e malinhas, o taxista já todo carregado, a carregar a embraiagem aldeia fora.
Não quero ver-lhe a cara de matarroana, aldeã, campesina… nada a ver com a voz de tia, mas tá a ver, com a unha pintada de encarnado!
Não quero cartazes “Aceita-se terras”, com o verbo no singular e o substantivo no plural, como se fossem um Mia Couto, sonâmbulo, a aceitar uma terra.
Eu gosto de comboios que não tem raça de homens… descarrilados.

2 Comments:

Vergilio Torres said...

Hoije, bi esta tua piquenina história, que está munto... prontos, munto... altamáinte! eheh :)!

Aliás, estou em movimainto a ler mais um pequenino conto, se é que posso chamar assim... Digo apenas e só mais isto, como crítica e sem avaliações de opinião. Teatral!

Imagina este, ou alguns dos teus outros contos, na voz de outra pessoa que não o criador... vais ter agradáveis surpresas :)!!!

PS- Porque é que eu gosto tanto de Teatro?... Não sei.

Beijos ;)

Carla Veríssimo said...

Ai! É para ter medo?
....
Posso pelo menos ficar a saber quando essa Voz falar?
...