terça-feira, 13 de novembro de 2007

Olhos do futuro

Sabias, quando nasci, o que era ter um irmão? Pedias a Deus para pôr um bebé na barriga da mãe, não era? Sim, eu sei. Ouvia-te, e ninguém sabia que já vos escutava, porque vivia nos vossos anseios mudos. Na tua denguice de menina no centro do mundo, pedias algo que te possibilitasse mais diversão do que a vida curta das bonecas. Eu cheguei e o mundo deslocou-se um pouco. Eu sei, eu sei. Também sei que abalou o teu débil lastro de criança, quando a minha aparição gerou uma dispersão inédita de atenção. Mas continuaste a ser a menina do papá. Sabes, desde criança, mantenho um pacto com o pai. Pergunta ao pai, pergunta. Talvez nem ele, com os primeiros cabelos brancos de avô, se recorda, mas hoje percebo que esse pacto confirma o teu ascendente impoluto. Deixa lá, não o questiones. Se ele se lembrar, não há-de querer perjurar.

Quando nasci, Janeiro choveu nos meus olhos e Janus emoldurou-me num paradoxo. Deu-me olhos claros para ver tudo escuro. Mas eu gosto de ter no olhar a cor do mar. Porque há tantos mares, mana, e dizem que “o mar de Creta por dentro é todo azul”. Se quiseres, mana, levo-te a Creta e banhamos os olhos do futuro no mar azul. Sei que vou chorar quando o futuro nascer. Mas não serão necessárias as minhas lágrimas para pintar de limpidez os olhos que vais oferecer ao mundo. Eles verão tudo com a claridade pura do teu amor. Eles vão chorar a cor da terra prometida que nasceu no teu olhar. Eles vão formar arco-íris na tua dor molhada. Eles serão o prolongamento da tua eternidade.

Muitas vezes, a semente do que somos radica, algures, naquele tempo sem tempo, quando a baça consciência de nós tornava o outro uma coisa indefinida, mas indissociável. Acho que sempre estive no teu colo, mana, e sinto o abismo como a fraqueza súbita dos teus braços de criança. “Não tires o bebé do berço”, alertava a mãe. Ignoraste a ordem e ensinaste-me a cair. Quando bates à porta do meu exílio, mana, sou um bebé que não sabe pedir ajuda para se erguer. Só quando o futuro nascer serei homem, porque já não poderei esperar, no chão, pelos teus braços ocupados.

1 Comment:

ana maria costa said...

Vitor Sousa gostaria de o convidar para membro da minha lista internacional de literatura Amantedasleituras, além do desafio de prosa e poesia que têm as suas edições garantidas há espaço para entrevista pela nossa querida Vera Carvalho e poesia e prosa e amigos.

Ana Maria Costa
http://ana-maria-costa.blogspot.com