sábado, 10 de novembro de 2007

Já não morremos hoje


Para I.S.,
sentada do lado direito do coração



Ainda me lembro. O ano em que os Lemos deixaram a casa marcou o fim do tempo como até então se conhecera, redondo. Os alísios não cessaram de revolver a mancha arbórea dos laranjais em volta, nenhum Inverno tardou depois das chuvas, ninguém calou os pequenos que folgavam, meigos e loucos, enquanto o sol amolecia os velhos, estirados nos vizinhos pátios dominicais. Tudo reencontrou, lentamente, uma ordem devota pelos novelos dentro, e se pensarmos que os fios são outros eis que afinal são os mesmos, os ciclos. E tudo isto é são. Mas a casa dos Lemos não mais manou o mesmo odor entre portas, não mais de lá saiu a mãe enorme, maior que ela, das mãos pendendo ainda a seiva admirável com que nutria almas. Aos domingos, confeccionava sonhos. Por isso, em tudo punha solenidade, a mãe, sempre na mesma graça de enformar quimeras. Mas deixou de haver a mesa e um lugar digno a abandonar quando partíssemos, loucos, a descobrir o mundo. Ainda me lembro. Pousam os corações, entre goles, no asseio do linho e respiram muito perto para tempero da voz. Alguém pergunta - Que aprendeste hoje - e a mesa é uma ágora, e tão grande o globo que não vimos girar outrora (as coisas que aprendes a esta mesa). Falemos, se falarmos nesta hora for comunhão. Calamos, retratos quebrados não falam ao coração. Porque deixou de haver lugar à mesa. No ano em que os Lemos partiram, ninguém sabe que ano era, como não se sabe onde é que o tempo cinde e nos separa. Isto só nos é concedido saber: que cindiu e apartou.

Se me detenho agora nesta porta - não me deterei - se me detenho agora nesta porta como saberei, não saberei que tamanho tenho, que tamanho têm minhas mãos. Mas depois sei que havia os gatos, cinco argutos felinos sempre em vigília nas cercanias da casa. No quintal uma velha bordava, louca, mantas para o frio da idade, e os gatos perfilavam com elegância em cinco cantos, no pátio ou nos telhados, como gárgulas à espera. Eles, os gatos e a velha, gárgulas mortalmente à espera de iminência maior. Depois, chegava o inverno enorme, e aconchegavam as crianças no interior das casas, fechadas pelo denso nevoeiro das serras atrás. Elas dizem - esta é a cela que eu queria. E os adultos pensam como a cegueira ajuda à pureza desses dias. A uma delas, mais assustadiça, lembro-me que os tios falavam de sombra, do medo e dos lobos - as bocas - que viriam dos pinhais. E logo era ela sombra, medo e presa desse enredo, para gáudio de sorrisos condescendentes, que a ouviam piar de horror. Era quando emergia o pai, o Lemos. Recordo-o sempre entre baforadas, cofiando toda a dignidade do bigode antes de sentenciar - eu já te disse que não há lobos. O que essa voz culta dizia era sempre a verdade, por isso logo o medo se convertia em veneração. E um pai que a olhe nesse instante é o mais infeliz do mundo, ele pensa - esta era a crença que me salvaria.

Recolhido o espírito, volvidos os meses, recua a geada para revelação da vida e do sangue. (ninguém sabe como são tão breves, as searas) Então devolvem as crianças ao mundo, porque nada mais somos que o Poema onde se distanciam loucamente. E há de novo os domingos em que os pequenos correm, gritam, esgarçam a boca de tanto negar a aurora, crescem, partem. Como loucos. Loucos.

Os loucos. São eles que ainda descem pelas traseiras de minha casa, nas noites em que durmo por fingir que os expatriei. São donos do que vêem, à janela do manicómio, quando nos olham muito cedo com os olhos do mundo. Era tão cedo para que descessem dementes a menear a cabeça, na rua da minha casa distante, e eu temesse. O que traziam, nunca soube se o eram. Mesmo aquela mulher, que nunca vira nada pela primeira vez. Ao descer a rua, saudava os passantes como se já os tivesse visto nesse dia e desde sempre. «Já não morremos hoje, vizinha. Já não morremos hoje.» Só nunca se tinha cruzado com a novidade. Uma louca que talvez não o fosse, que talvez não tivesse nome, que talvez se chamasse Inês.

Mas se me detiver agora nesta porta, se me detiver agora à nossa casa como saberei, como poderei medir o coração, se de repente tenho as mãos pequenas e ele é enorme. Neste leito hospitalar, ainda tens medo dos lobos, mas não sei se ainda és a presa e a crente, e se a minha verdade nos pode salvar. Aqui, vejo-me e ainda sou a que chamas ao teu lado da mesa, agora ao teu lado da cama, onde há fios para nutrir a dor. E tudo isto tem o tamanho da incompreensão. Os Lemos ainda não deixaram a casa, e sabes, a casa é este lugar que amo de fora. Procuro uma imagem à cabeceira. Lembra-te: há uma louca a descer a rua da nossa casa, todos os dias, pregando a única oração que um desesperado reconhece no breu. E então dizemos:

Não, Inês; já não morremos hoje.

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