sábado, 24 de novembro de 2007

Confesso

venho ter convosco dum país encantado, sem casas, nem campos,nem flores, e sei dizer meu amor. trago-vos as mãos vazias,embrulhadas em silêncio pelos vossos olhos, pelos vossos ninhose digo-vos: são puras como as madrugadas. não pensei vestir-me,nesta viagem, meus irmãos, com as roupas, com a pele húmida dassagradas montanhas da minha terra. tinhapor manto o calor do vosso verde, do vosso sol, e o brilhodas vossas ruas. sou um estranho, por dentro. vim, nú, agasalhado pelo vento, trazer-vos as minhas mãos vazias, amputadas pelo amor. dou-as a quem me contar como é a casa, como são os campos, como é uma flor. dou-as a quem me ensinar a viver sempre no verde, na aurora da vossa paz, no labor, no branco das vossas casas, como se fora um indígena bom. as minhas mãos vazias aqui vos deixo. sei dizer meu entretanto sofro. venho ter convosco e vos pergunto. adivinho vosso cuidado com vossos filhos, com as hortas mortas, necessárias e belas, cinzentas como um poema por escrever, suaves e puras como o linho dos vossos lençóis, enquanto as manhãs crescem e são tardes e noites, e os homens morrem no país donde venho, com casas, com campos com flores.
José António Gonçalves
Tem o Poder da Água
Editorial Éter
(Foto:Paulo Madeira de olhares.com)

1 Comment:

PJ: said...

Muito bonito!

Beijos,

Pedro José :)