terça-feira, 6 de novembro de 2007

Antes de Sermos



Um dia, fiz amor contigo no ventre do sonho. Rap
tei-te do teu sono e acolhi-te no meu.

Não sentiste a diferença, porque somos ambos quentes quando dormimos. Eu porque sou febril, tu porque és morena. Mesmo assim, cobri-te com a minha pele, e fiquei em ossos. Senti frio, confesso, e temi acordar-te com a sinfonia oca de ossos em fricção.

Estavas nua, ou sonhava-te nua. Deitei-me ao teu lado, velando, dentro do meu sonho, o teu sono. Absorto, na fria pureza do esqueleto, via a minha pele mover-se sobre ti, adaptando-se ao teu corpo, dilatando-se no teu peito e suspendendo-se nas extremidades, como tecido valioso que sobra de um vestido. As pontas soltas da minha altura uniram-se para almofadar o poiso da tua cabeça. A minha pele fervilhava sobre a tua nudez cândida, enraizando-se nos teus poros, respirando-te, anulando-se em ti.

Deixei que a pele do rosto resvalasse pelo teu pescoço, num tropel libidinoso que cessou nos teus seios, parcialmente descobertos. Suavas, e eu quis acreditar que o meu desejo em combustão descobrira o exílio dos teus sentidos. Acreditei mais, e o desejo corroeu a tua placidez granítica. Tremeste.

Badalavam espasmos e tu suavas cada vez mais, mais e mais. A carne viva dos meus lábios, sequiosa, sorvia as gotas que se precipitavam dos teus seios. Outras, devagar, desfilavam pelo teu abdómen e concentravam-se no teu umbigo, onde a pele dos dedos submergiu e se desfez. Um “ai” morreu no nosso sonho mudo. Sufoquei o gemido e ergui-me, com o rumor de ossos gastos. Quando nos conhecermos, perguntar-me-ás se me cortei no lábio. Não te poderei dizer que o sinal ténue que adorna os teus seios é um naco de lábio que se incendiou.

Saí do quarto, mas antes quis beijar-te a testa. Vesti a boca, recuperando a carne que se espalhara pela diáspora do teu corpo sonho, e verti entre as sobrancelhas outra gota de lábio incandescente. Eternizei-me na tua testa, para que qualquer homem que te cobice sinta que és mais do que tu. Não existirão olhos que eu não ausculte, nem bocas que eu não rejeite. No encanto exótico da tua fronte, eu existo.

Fora do quarto, caminhei por corredores que ia construindo. A cada passo desgastava-me um pouco, jazendo no solo um pó branco que se evolava quando expiravas. Errei por corredores circulares, em constante erosão. Sem pés, sobre os joelhos, rastejando com o tronco. Esboroei-me até à intenção de me mover. Passei a existir, somente, na poeira que ensombrava os corredores e nos sinais que me escrevem no teu corpo.

Não sabes que já nos sonhámos antes de sermos. Cada ponto negro que te polvilha o corpo representa um ano de adiamento. Enquanto dormias, contei-os. Ainda faltam alguns anos para eu nascer, e tu já estás a acordar. Deixei-te regressar ao teu sono. Sobre a cama, a pele queimada que te cobriu. Vesti os ossos, e agora sou moreno.

Espera-me no início da rua, no fim dos tempos. Conto-te tudo isto nos hiatos sussurrantes dos nossos corpos indistintos. Prometo.

Depois, saberás que não sei partir.

Vítor Sousa
(Estranho Estrangeiro, por Terras de Vera Cruz)