segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Hotel

Ele olhava-a com cara de quem a queria levar para a cama. Encontrava-se encostado ao balcão de um bar de hotel. Tinha dinheiro no bolso, bebidas caras nas mãos e muito álcool no sangue. Com quarenta e três anos, com três filhos e uma mulher linda de morrer, sentia-se profundamente atraído por aquela mulher que os seus olhos procuravam. Não sabia como meter conversa com ela. Não sabia se ela se interessava por homens como ele – ou por homens em geral. Apenas estava certo de que aquela era mais bonita fêmea que alguma vez vira na sua vida inteira. E estava a poucos metros dela.

Ela não queria saber de homens. Estava farta deles. Todos uns porcos, mentirosos, sujos, idiotas. Só pensavam em sexo. Quando conversavam com ela, não lhe olhavam nos olhos: procuravam-lhe os seios por debaixo do decote, procuravam-lhe os joelhos, que saias minúsculas não conseguiam esconder. Ela sabia que nunca poderia ser levada a sério por homens. Era demasiado bonita e sensual. Já havia pintado o cabelo de preto numa tentativa de perceber se eram os seus cabelos loiros que chamavam a atenção dos tarados, já havia tentado deixar de se maquilhar, de se vestir e de se comportar de forma provocante, mas nada. Por mais mudanças que fizesse ao seu corpo, continuaria a ser desejada por todos. No fundo, até gostava disso. Quando fosse velha, não teria oportunidades para se queixar de abundância. Gostava de ser desejada. O que a enojava era, por exemplo, a atitude de certos homens como aquele fanfarrão que, por ser mais velho, mais rico e mais convencido do que os outros que o rodeavam, olhava para ela como se estivesse escrito nas estrelas que fariam sexo. Era isso que lhe metia nojo: a mania de certos homens.

Bêbedo e excitado, ele sentia-se com confiança para defrontar a beleza da mulher mais bonita dos seus dias. Não poderia deixar que aquela oportunidade lhe passasse ao lado. Costumava ser um homem pragmático. Além disso, odiava Platão e não conhecia Petrarca. Se alguma coisa tivesse que acontecer, seria ali, naquele local, naquele momento. Dava-lhe a ideia de que ela lhe fazia um sorriso convidativo, que desejava que ele fosse na sua direcção e que lhe pregasse um valente beijo, daqueles que fazem uma mulher desmaiar. Ao mesmo tempo, sentia medo, vergonha. Ela era tão bonita, tão perfeita, e estava tão despida. Desconfiava que, pela primeira vez, não ganharia coragem para abordar uma mulher e arrancar-lhe o coração. Seria amor? Sentia vontade de ir ter com ela, no entanto, parecia que os pés se lhe prendiam ao chão. Tinha aquela sensação de «é ela, está ali, vai lá, não vás, tens vergonha».

Ele não se poderia apaixonar. Era casado.

Ela viu um homem a aproximar-se dela. Dava-lhe uma certa raiva porque tinha cara de cavalo garanhão e isso não fazia o seu estilo. Já tinha apresentado o seu sexo ao sexo de demasiados homens. Não precisava de mais fitas juvenis, não ansiava por mais conversas mentirosas, por mais palavras falsas. Olhou para a braguilha do homem que se aproximava e reparou que ele tinha o pénis erecto. «É grande», pensou.

«Olá, como vais?», perguntou ele.

«Mal, e tu?», respondeu ela.

«Estou a ficar apaixonado por ti. Mas tenho um problema. Tenho filhos para sustentar.»

«Essa é boa. Gosto de sentido de humor.»

«E de bom sexo», acrescentou ele.

«Como?»

Ele beijou-a na boca. Ela deu-lhe um estalo mas, lembrando-se do pénis erecto e sentindo-se atraída por aquele idiota que a enjoava com tamanha arrogância, puxou-lhe a gravata e beijou-o.

Eles dormiram juntos naquela noite, naquele quarto de hotel. Permaneceram juntos nas semanas seguintes, nos meses seguintes. Quando a mulher dele ligava a pedir satisfações, ele dizia que já não queria saber dela, que estava a sentir amor pela primeira vez. Quando os filhos ligavam, ele nem sequer falava. Não tinha paciência.

«Sabes», disse-lhe ela uma vez, «também sou casada».

Ele não se importou e continuou a amá-la. Mas ela disse que gostava mesmo do marido. E ele chorou e perdeu a mulher e a simpatia dos putos. Ficou com a bebida e com as mulheres de rua.

4 Comments:

José Rodrigues (JR.) said...

olá, pesquisando na net acabei por achar, sem querer, o blog de artes de voces e fiquei contente por te-lo encontrado. Há textos muito interessantes aqui, linhas bem traçadas e pontos de vistas inteligentes.
voltarei mais vezes, para poder ler mais...
quero convidar-lhes a visitarem, se possivel, o meu blog de poesias o Experimentando Versos, no qual estou divulgando as minhas obras.

http://experimentandoversos.blogspot.com

um abraço, JR

© Piedade Araújo Sol said...

Olá Paulo

Tenho lido todos os teus textos.Leio-os, mas nunca fiz nenhum comentário.

Quanto a mim e esta é uma opinião meramente pessoal, este é o melhor de todos.

Tem todos os ingredientes, e está muito bem escrito.

O fim... imprevisivel!

Parabéns..

Paulo Rodrigues Ferreira said...

Obrigado, Piedade.

日月神教-任我行 said...

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