sábado, 5 de janeiro de 2008

Um escritor com remorsos

Por mais que dissessem ao imberbe Aníbal que escrever não era ganha-pão para ninguém, o rapaz não deixava de gastar o seu tempo com um papel à frente dos olhos e com uma esferográfica na mão esquerda. Refira-se, aliás, que os seus objectivos em relação à escrita eram deveras modestos. Aníbal queria apenas contar pequenas histórias, nas quais ele próprio se conseguisse encontrar e explicar.

O dinheiro interessava-lhe. Precisava de comer, de beber, de ter sítio onde dormir. Muitas vezes, quando se ia deitar, Aníbal punha-se a pensar que deveria dar ouvidos ao que os outros lhe diziam, isto é, que se deveria pôr na linha e largar a escrita. Os remorsos atacavam-no de maneira poderosa. No entanto, lá no fundo, bem dentro de si, Aníbal sentia que nunca poderia ter uma existência diferente da que tinha, uma vez que as páginas que escrevia faziam parte do seu próprio corpo, eram ele. A sua relação com as palavras era semelhante à do peixe com o mar.


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1 Comment:

Scoya said...

Quem me dera poder viver com uma das coisas que mais adoro...

Um beijinho