quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Quando anjos e poetas descem à terra lado a lado...








Se um dia um anjo descer à terra e um poeta o encontrar...

Terá no seu rosto linhas dos teus traços e no olhar essa candura ilimitada que na tua alma não parece conhecer um fim...

Terá braços fortes como os ramos das árvores que enquadras com os teus olhos e com bondade fazes crescer...

E os seus abraços?

Os abraços serão como raízes entrelaçadas à volta de um corpo até sentir a carne presa aos dedos a amadurecer .

Asas deve ter!

Porque todos os anjos têm asas e os poetas já nasceram com uma vontade ilimitada de voar...

Talvez as guarde em segredo às escondidas...

Gentilmente apertadas junto ao peito à espera de uma ave magoada que o queira acommpanhar às cegas num voo nocturno...

Talvez não goste de mar por ser revolto demais..

Talvez as tempestades lhe recordem a força dos seus sentidos e isso o apavore...

Talvez ame a lucidez das ondas...que sabem ser infinitas e morrer sem olhar para trás,lamentando o que ficou ainda por fazer numa vida curta.

Se calhar já viveu muitas viagens no corpo com a escuridão mergulhada em si...

Conheço-lhes os passos,porque já ali também andei..meio perdida e sombria caminhando por entre lágrimas e indiferenças solitárias.

E se o sol o encontrar sentado com a solidão num banco velho de um jardim ?

Esquecerá por momentos a lua e toda a imensidão de noite que habita num poeta que anseia florir sem deixar mais pétalas caídas no chão?

Como se quebram dois corações envidraçados sem sentir nenhum estilhaço restando sobre a pele?

Ainda hei-de encontrar uma solução...afinal sou poeta no corpo e da profundidade tenho sobras a jorrar da alma...

E há livros que não li mas quero escrever de mansinho...

E existem horas brancas onde refugiar todas as nuvens cinzentas de um céu menos azul...

E tantos...mas tantos pensamentos que em mim não dormem...

Mas talvez na cumplicidade de um sonho eu consiga imaginar tudo o que o meu coração quiser.

Eu sei que no meu desespero pedi desejos agarrada às estrelas só porque a chuva doía quando caía cá dentro...Sei que pedi que a dor não fosse tão impossível de acarinhar...que os sorrisos não dependessem mais da minha tolerância ao espelho...

Das sombras de uma boca...

Lembro-me de ter lavado a negritude das noites com a acidez do meu pranto...de ter deixado a escuridão tão mais limpa e pura..de ter esfregado os sofrimentos contra os dedos noites sem fim na esperança de os ver trespassados na ponta da caneta.

Tantas folhas ficaram em branco porque a minha mente desmaiou sem forças para seguir em frente...

Talvez seja a sina de um poeta..ter o choro nas palavras e os sentimentos na ponta da letra,até que um anjo estranho às realidades da terra procure num poeta escavar o abrigo de um sonhador...



Daniela Pereira
Direitos Reservados

6 Comments:

jorge vicente said...

que belo poema, daniela! o poeta e o anjo são luzes imensas em ti

um abraço
jorge vicente

© Piedade Araújo Sol said...

bonita prosa poética...

beijo

blueiela said...

Jorge Vicente e Piedade araújo


:)Muito obrigado pelo apreço tão bom de sentir...
Boas leituras e muita inspiração para os dois


beijos

Daniela Pereira

Canephora said...

Quão triste ficaria esse anjo ao imaginar tal poeta e ver o homem que definha no seu fingimento
que pranteia a dor no peito daquela que o deixou
como se espantaria o anjo, com a alma fraca do poeta, com os sulcos do seu rosto, marcado pelas amargas lágrimas que teve de engolir
Como veria ela as raízes outrora profundas, que agora se escapam por entre as pedras da calçada, pelo asfalto velho, enrolando-se nas colunas dos pórticos das casas abandonadas...

Aquele poeta forte e vigoroso, com fortes asas de anjo, afinal escondesse num farrapo de tecido, deitado sobre as pedras... e chora.

Manuel Marques said...

Será injusto elevar-te a uma categoria superior, porque há muita gente de talento a passear por este blogue... mas fiquei teu fã!!! É cortante, belo, arrepiante, simples e ao mesmo tempo majestosa a forma como te dedicas a juntar palavras e torná-las num texto ou num poema fora da série de textos e poemas que tantos fazem por aí! Ficou-me este bocado gravado na memória e que por acaso é um final arrebatador: «Talvez seja a sina de um poeta..ter o choro nas palavras e os sentimentos na ponta da letra,até que um anjo estranho às realidades da terra procure num poeta escavar o abrigo de um sonhador...» lindo!!! parabéns! beijinho!

blueiela said...

canephora

Que palavras belas e arrepiantes...
Se o poeta chora...talvez um anjo vá um dia beber as suas lágrimas e no seu salgado avivar a sede de ser mortal...
Se o poeta sente...talvez um dia ,um anjo lhe ensine a ser só uma pedra que o rio beija ao acordar:)
Obrigado pela leitura...

Manuel Marques

:)O que responder a tanto apreço que tens demonstrado?Só um sincero obrigado por partilhares o meu sentir...
Espero que o Afectos Obsessivos sejam uma boa companhia...uma fonte de inspiração e um mar enorme de sentimentos encontrados...
Enquanto não me contentar com silêncios prolongados,as palavras nunca me irão faltar na ponta dos dedos...e espero ver-te sempre a espiar por entre as folhas escritas..


beijinhos


daniela pereira