quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Mulheres

Não conseguia deixar de pensar nos dias em que era jovem, bela, elegante, atraente, e que tinha os homens que queria a comerem-lhe na mão. Há quanto tempo já não sentia desejo? Há quanto tempo já não se sentia desejada? Apesar de ter uma mini-saia vestida e as pinturas mais garridas do mercado espalhadas pela cara, não se sentia particularmente desejável.

Se tivesse bigode, uma grande barriga, pêlos no peito e calos nos dedos, não pensaria nestas coisas. Seria demasiado evidente que não poderia sonhar com paixões. Mas não tinha nada disso. Só as rugas, as malditas e contagiosas rugas. Sem elas, voltaria a ser bela e solicitada. No entanto, para que isso acontecesse, o mundo teria que andar para trás, muito para trás. Nem mil operações chegariam para lhe alisar a pele.

Era casada, tinha cinco filhos. No passado, havia sido professora e ninfomaníaca. No presente, era meio suicida e revoltada com o mundo. Sempre que se enfurecia, dizia que os velhos também poderiam ser velhos para outros velhos.

Também aqui.

2 Comments:

Andreia Ferreira said...

"(esses calendários de argolas em que cada folhinha um dia, acaba o dia, e passa-se a folha nos anéis cromados
- Não hás-de regressar)
e vinte e quatro horas a menos que gaita, quantos milhares de folhas voltei nestes anos, numa delas, longínqua, acho que um saquito de crochet também, irrecuperável, a doer-me, mudo o calendário e distancio-me de mim"

António Lobo Antunes

:)***

© Piedade Araújo Sol said...

Para reflectir....