domingo, 13 de janeiro de 2008

... tu a inalares-me novamente...
eu entre os teus dedos, eu entre os teus lábios. eu confusamente um cigarro …
eu já sem fogo.... eu de volta ao cinzeiro.
eu que recuo e avanço. eu que me permito arder por algum tempo. eu que me permito arder por algum tempo. eu que me permito arder por algum tempo.
eu que já estava quase boa, quando tu chegas novamente e me pegas outra vez.

E já foi há uns anos que tu… lhe percorrias o corpo com as mãos, que tu… excitadíssimo… que tu… suado de prazer… que o teu corpo nu junto ao dela.

Eu que quero o teu corpo nu no meu. Eu as tuas mãos excitadas, eu prazer suado entre os teus gemidos quentes.

Não me desarrumes, não me confundas, não me baralhes

Apetece-me cuspir e mandar-te fora da minha vida… apagar-te, Mas vens-me à cabeça com toda a força.…
tenho 2 pés gelados na cama, e um turbilhão de coisas, pensamentos, imagens, memórias, cheiros, sons, formas, telas, tintas, recantos, livros, fotos, canções, doces, palavras, areias, estantes, …

VOLTASTE.
À minha tela.
Mesmo sem eu te pingar de tinta.
Mesmo sem eu abrir a caixa dos pincéis.
Eu que além de já ter fechado a gaveta à chave, tinha ainda perdido a chave.
Perdido! Num desses dias em que um sapato mais distraído e zás! Lá se vai a chave para debaixo do móvel.
Eu a pensar: Deixa estar. Não te dobres. É da maneira que não tens a tentação de abrir a gaveta.
E deixei estar. Não me baixei.
E agora vens tu, desarrumar-me a casa, mudas os móveis de sítio, encontras a chave, todo um sorriso só, confiante, ar glorioso, a espetar com ela na palma da minha mão.
Engulo em seco.
Tu não percebes. Ou finges.
E agora… e agora só tenho o trabalho de rodar.
E qual tentação qual quê. Já estou de gaveta aberta, e zás, tu novamente do lado de fora.
A pingar-me memórias, a borrar a minha pintura, a sujar os meus pincéis, pendurado outra vez na minha parede…
E os meus sentimentos que não apodreceram. Nem sombras. Nem rés. NADA. nadinha.
O raio dos sentimentos estão exactamente na mesma, nem um cheirito a mofo, nem uma ponta de bolor...
NADA.
NEM UM BOCADINHO ESTRAGADOS, amolecidos, desintegrados, desarranjados.
NADA.
Ali. Todos por inteiro, e a puta da natureza no seu melhor.
A puta da natureza a não me deixar chorar, para que eles fossem com os freáticos, os lençóis, os lixiviados, e o raio!
NADA.
Eu com tudo cá dentro.
A NÃO APODRECER.
Nesta merda de eternidade eterna, que nunca acaba.
E vem-me ao lápis:

Os teus lábios, os teus dentes, a tua língua, a tua boca toda; os teus gestos, os teus olhos, o teu cabelo, o teu corpo; tu todo.

IGUAL.
Não mudou NADA.
Tu todo o mesmo. Igual. Nem uma ruga, nem uma imperfeição. NADA.
Tu, sem apodreceres… Nem sombras. Nem rés.
Nem um pêlo a mais.
Tu, NEM UM BOCADINHO ESTRAGADO, amolecido, desintegrado, desarranjado.
NADA.
Ali. Todo por inteiro, e a puta da natureza no seu melhor.
A puta da natureza a não me deixar chorar, para que TU FOSSES com os freáticos, os lençóis, os lixiviados, e o raio!
NADA.
Eu com tudo DE TI cá dentro.
A NÃO APODRECERES.
Nesta merda de eternidade eterna, que nunca acaba.
ISTO TUDO e eu inteira. A não chorar. A não expelir.
Eu que fazia tudo IGUAL. Contigo. Outra e outra e outra e outra vez outra vez, vês, vês?, sim, ainda.

porque isto tudo ainda não apodreceu cá dentro.

1 Comment:

Andreia Ferreira said...

A intensidade. A catadupa de palavras e sentimentos. Fizeste-me lembrar o grande Lobo Antunes.

Rendida por isso :)

***