sábado, 1 de dezembro de 2007

Prismas

I
Quando ontem te vi estavas linda. Linda, mesmo. De azul (seria castanho?), de seda e, simultaneamente, de mármore. Também de mãos e palpitações avulsas, gesticulando com o tempo que sobrava - que sobra sempre, enquanto nos vai faltando. Sempre também.
Eu olhava para ti enquanto falavas. Pouco importava o que dizias. (Confesso que nem ouvia). Aliás, sempre que se fala, o que se diz é mesmo o que menos importa. Interessam os olhos, os gestos, o toque, o tom - e os olhos de novo.
Adiante. Não consigo lembrar o que dizias, apenas me lembro de ti. De azul (seria castanho?)
Depois, enquanto falavas, pensei
- quanto dos rios são parte de nós, quanto das saudades e da música e dos sons e do uivo dos cacilheiros somos nós também? E das nuvens? E das fontes e dos cheiros que ficam para além, muito para além da tua partida?
Não sei. Sei apenas que me faltas. Agora que escrevo. Agora que estou só. Agora que estás longe. Agora que morro.

II
Quando ontem te vi estavas na mesma. No teu modo parvo de ser, dizias as parvoíces do costume, com a dor à flor do riso – conheço-te melhor do que julgas, sabes? Também sei que estás dorido. Sei também que foges assim, no teu jeito meio a brincar, meio a fugir. Eu? Eu acho que ainda gosto do meu marido ou, pelo menos, tento fugir de gostar de ti - somos amigos, lembras-te? Espero que penses que apenas desabafo contigo ao fim da tarde, mesmo no princípio da mágoa, rés-vés ao voltar para casa. Sim, sei que também ficas só. Mas, neste parvo concurso de angústias, para mim fica pior – estar só dói mais se acompanhada, sabes? E estar só é, apenas, a pior forma de estar triste.
Adiante. Confesso que não sei o que sentir. Se o meu marido voltasse ao que era, se o tempo desse uma pirueta e voasse, se... mas, se calhar, ele é assim, sempre foi e eu sempre olhei para o lado. Como agora. Talvez... olha, nem sei. O pior é que, agora, quando olho para o lado, vejo-te – mesmo que lá não estejas. E depois dá-me um estranho e secreto gozo recordar quando nos tocamos em acasos calculados. E depois ainda – e muito pior - tu trazes-me essa porra desses olhos de azeitona morta - mas cheios de vida! E depois fazes-me rir. E depois fazes-me sentir importante, sentir que existo. Chiça, eu não consigo viver assim! Ama-me! (ou deixa-me...)
Mas agora volto para casa. Para os meus filhos. Para longe de ti. E tu longe, também. E quanto de nós ficou nos rios? Quanto de nós é saudade e música e nuvens e fontes e cheiros?

III
Hoje voltaste para casa com um sorriso estranho. Desconfiei. Aliás, ultimamente, tudo em ti é estranho. Até no modo de voltar para casa, o que dantes até era natural. Por normal que era.
Bebo mais um gin enquanto corto as cenouras para o arroz. Porra, cortei-me! E tu estás aí a sorrir. Será de me olhares? Deito para a panela tudo o que me angustia - o medo que sinto... - e também as cebolas. Porra, queimei-me! Pára de sorrir! - será que ainda me amas? Há que fugir, não me interessa, há que fingir, há que prosseguir - mais um copo - será que alguém te faz sorrir? - mais um copo - e o mundo rodopia e quem dança já não és tu, tu que tanto dançaste para mim e pára tudo – mais um copo – e tu rodopias à volta e nas voltas do meu desespero – mais um copo - e que farei comigo, chiça?!
Estou mais calmo. Penso: quanto de mim ficou na garrafa enquanto os rios corriam e te lavavam de nós?

1 Comment:

Scoya said...

Bem, mas que texto intenso e profundo.
Esses sentimentos que tantas vezes prendemos para não nos abafarem a vida que tornamos rotineira são a chama que nos faz seguir em frente, espicaçando o dia-a-dia.
Gostei muito do que li.