sábado, 3 de novembro de 2007

Os homens das esquinas


Lá longe, na pátria, conheço todas as frinchas e concavidades do chão que se estende desde casa ao café. Lá, na pátria, conheço todas as faces penduradas nos ossos de quem dorme, come, trabalha sobrevive, agoniza e morre nas esquinas. Lá, na pátria, conheço toda a gente, porque todos são iguais aos que vi ontem e verei amanhã. Lá, na Pátria, todos vivemos na ilusão de que vivemos dias diferentes.

Eu admiro os homens das esquinas. Eles impedem a entropia do mundo e preservam a sanidade de todos. São os guardiães do pequeno Mundo. Dispersam-se pelos seus postos, e tudo é perfeito como um decalque. Quem desce a rua, diz “bom dia” ao macilento que, em tempos, ajudou a levar as compras para casa. 20 passos mais abaixo – ou 26 quando a água inunda a rua -, um olhar de soslaio para um tipo soturno, mas inofensivo, cujos olhares vogam sobre o fumo do cigarro. Uns metros de dolência depois, tirita o “Seco”, cada vez mais seco no degrau do Talho: “Isto pela manhã tá um briol”,e devolve a cabeça ao causulo do corpo curvado. A próxima pessoa adescer a rua só o ouvirá roncar, numa visita fugaz ao sono, logo interrompida pelo dono do Talho, às 8h, hora da abertura. Ao lado, na tasca transformada em casa de abrigo, está hirto o homem que amolece com um copo de aguardente pura, em jejum. Poucos deverão conhecer o seu nome, mas muitos reconhecem aquele “haaa” ancestral, enquanto o líquido ateia o rastilho da garganta e incendeia o estômago. Um sismo percorre-lhe o corpo, enquanto ele fricciona com ímpeto másculo as mãos, desenha na face o trejeito do amargo, e vai trabalhar. “’Tá pago o teu remédio”, atira para o homem que se arrasta, trôpego, desde o talho.

Perto, ao lado da tasca, rastos de imundície e restos de homens coabitam com memórias retalhadas nos estilhaços das garrafas. Cada palavra, cada ruído gutural, cada queda, cada trago é um epitáfio. Todos os dias me despeço deles, e de ano para ano tenho razão. Quando um morre, ninguém chora. Bebem, e aumentam a dose pelos que partiram. Há mais garrafas do que homens. Quando me ausento por um longo período, visto-me de negro na primeira descida até à cidade. Falta sempre um. Uma vez, entrei no supermercado contíguo e comprei uma garrafa de vinho reles. Guardei-a no caminho, num esconderijo que utilizava em criança, entre arbustos. Tornou-se ritual. Já se aglomeram algumas, intactas. Chegará o dia em que hei-de expô-las no local onde se suicidaram todos os dias.

Vigora um acordo tácito entre os homens das esquinas. Pouco falam entre si, e nunca se lamentam. Quando terminam uma garrafa, arremessam-na. Contabilizam o tempo nos crivos das paredes e na cor do sangue que sitia as feridas que intumescem a face. Poucas vezes se ausentam, e quando se afastam das suas esquinas, estão sóbrios. Acordam antes de todos, ou dormem antes de todos. De madrugada, os passos de alguns rompem o silêncio da noite, distribuindo jornais. Nunca verão a sua foto no jornal, mas ela há-de aparecer. Nem o folheiam, porque as notícias não existem para quem vive dentro da tragédia. Cingem-se à página necrológica e, por vezes, compram uma garrafa a mais por um companheiro que foi beber e morrer para outra esquina. Quando se lembram, vão ao cemitério e sacrificam a sobriedade sobre as campas dos amigos. São sempre expulsos quando regam as flores com vinho rasca, ou quando as substituem por garrafas cheias, enterradas, pelo gargalo, na terra.

No estrangeiro, também há esquinas com homens. Mas no estrangeiro não existem os homens das esquinas. Só lá longe, na Pátria, eles persistem dentro das horas redondas, e neles reconheço-me na escuridão do extravio. Para me saber vivo e que a minha Pátria é real, preciso de saber que nada mudou. Longe de mim, nada mudou. Os homens que já morreram retornam às esquinas. Uns, dilaceram a bola de futebol que os atingiu, depois de um remate meu. Outros, sequestram a minha bicicleta, e todas as pedras do caminho parecem persegui-los, até à queda. Depois, eu choro e o meu Pai socorre-me. Em casa, ouço a litania de sempre da minha Mãe: "já te disse para não ficares na rua até tão tarde. Eles estão bêbados." E um frémito conquista a casa, quando o meu Avô esmaga o punho contra a porta da cozinha, amaldiçoando, bêbado, a minha Avó e a comida.

Estão quase sempre bêbados, Mãe, e eu não posso passar a vida em casa. Fecho os olhos, e lá longe, na Pátria, nada mudou.Nada mudou.

*Foto retirada daqui, com a devida vénia.

Vítor Sousa
(Estranho Estrangeiro, por Terras de Vera Cruz)

2 Comments:

Anónimo said...

excelente!

Duarte Temtem said...

A minha escolha teria sido essa caro amigo.