terça-feira, 6 de novembro de 2007

Humilde soberba

Há algum tempo, o Tiago Nené confrontou-me com o projecto de um novo espaço que visaria conferir visibilidade aos diversos matizes da arte, o qual mereceu, de imediato, a minha entusiástica adesão. Pareceu-me curial e sagaz moldar os apetrechos que a blogosfera disponibiliza, no fito de dar vazão às ambições pessoais de quem com ela coabita. Ambições egocêntricas? Há egocentrismo em toda a bojuda humildade que se expande pela blogosfera, nos púlpitos mais iluminados, ou nos recantos mais túrbidos. Em 2003, quando comecei a trilhar a blogosfera como militante, ninguém me lia. Hoje, alguns lêem. Eu não mudei. Continuo a duvidar de tudo o que escrevo. A dúvida é indissociável de Brecht? Perdoem-me o sacrilégio da ousadia, oh humildes das esquinas, mas vou mais além, e duvido da própria dúvida. Pessoa, que dedicou quase toda a vida a escrever para uma família que nunca viu, confessava a um amigo que temia deixar de ser inédito. Muitos dos seus textos – até mesmo em forma epistolar – denunciam a crença do próprio na sua transcendência, tornando-se paradigmática a sentença: “O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam”. Existiria soberba em Pessoa, ele que entrincheirou grande parte da sua obra no bafio de um baú?

Não contesto a legitimidade do "Vodka e Valium" para verberar este espaço, ou a sua génese. Na verdade, concordo com ele quando postula que o estatuto de referência deve ser atribuído pela comunidade, e não pelos fundadores, ou colaboradores. Por isso, no texto que dediquei ao Blogue das Artes, apresentava-o como aspirante à condição de “espaço de referência das artes em Portugal”. Todavia, os fundadores e colaboradores também enformam a comunidade, e brando a minha liberdade, envolta em mitomania, para me assumir como o melhor bloguista do Mundo. Isto só porque me apetece ser livre e ridículo, agora. Amanhã, acho que exigirei da minha liberdade a escravidão. Ah, também reivindico o estatuto de miserável. Incompatível? Porra, sou livre, e sinto-me ridiculamente lúcido.

Existirá “bloguista” que não extraia prazer da atenção, mínima ou constante, que obtém? Por aqui, tudo é um manifesto, e este é um contra-manifesto endereçado ao manifesto da dissimulada humildade. Sem ressentimentos, mas também sem piedade.

Quando a mistela de Vodka com Valium supera os meus limites de absorção, fico assim. É melhor voltar à maconha.

1 Comment:

Scoya said...

É na vivência da liberdade e na coragem da ousadia que se trocam ideias, que se discutem pontos de vista e que nos enriquecemos, crescendo de tal modo que nenhum blog, ou nem mesmo a blogosfera, suportará o tamanho do que seremos.