quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Fotografia: Carlos Pereira @ olhares.com

Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite — e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos, e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras, nem das aves negras nos meus braços de mármore, nem de te ter perdido — não ter medo de nada. Pudesse eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo — das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite; de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor, a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi — porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer, mas ouço-te a respirar no meu poema.


Maria do Rosário Pedreira,
In "O canto do vento nos ciprestes"

2 Comments:

PJ: said...

Lindíssimo!

Scoya said...

A fotografia acompanhada de tão belas palavras formam um conjunto magnífico!