terça-feira, 27 de novembro de 2007

Elogio fúnebre a um Nada




Não és nada
e nunca foste nada
para os outros
que são tudo para ti.
Nem mesmo aquele ínfimo pedaço
que de ti deste
julgando ser o teu maior pedaço
chegou para preencher
algum espaço no céu com o teu nome.

És um vazio na terra
que nada tem por dentro
para além de sentimentos ocos
e emoções emprestadas .
Não tens vida própria
e vives à custa dos outros
esperando alimentar os teus sonhos
com as migalhas que os outros te dão
em troca do pouco que lhes dás.

Depois é ver-te a escrever como louca
a pensar que alguém escuta as tuas palavras
e só porque as carregas com toda as tuas forças no papel
julgas estupidamente
que podes assim deixar alguma marca.
Mas não...
Digo-te que não deixas nem um traço
porque és apenas pó
e o vento sopra-te rapidamente da folha sem remorso algum.

Não amas
e nem sequer podes mais amar
com esse coração assim desfeito
por tantos medos aguçados.
É que tu sabes bem
que assustas qualquer sentimento
que passeie alegremente pelo teu peito
com todo esse medo que tens colado a ti
e nem sequer te importas.

Já não enfrentas o mundo...
Se é que alguma vez o enfrentaste de frente
porque sempre te vi fugir
como um cachorro assustado.
Já não sabes como se luta
porque te esqueceste como isso se faz
de tanto estares
enfiada nesse teu buraco seguro
cercada de fantasias.

Esperneias...
Gritas e choras
e enquanto te debates sozinha
por entre dúvidas e certezas
nos teus pensamentos mal amanhados
vais suplicando
como um peixe fora de água

que te deixem ao menos respirar.

Então, hoje sei que olhas sufocada
para aquela caneta
que tantas vezes te fez sorrir
e até ela baixa os olhos
perante toda essa tristeza
que adivinha estar estampada nesse teu rosto.
E tal como tantos outros
ela também já se sente enfadada
das tuas lamurias sem nexo
que esculpes com as tuas mãos
nas curvas da poesia morta.
Agora ela só quer
procurar outros poetas
que saibam celebrar com as palavras
essa vida que tu
já não tens nos teus dedos.

Daniela Pereira in Afectos Obsessivos-A poesia curiosamente sem açúcar,Edições Ecopy
Já disponível para reserva de exemplares com dedicatória da autora,através do email:ielapausas@gmail.com :)

Foto by Nuno Reis - http://www.noir-sur-blanc.blogspot.com/

7 Comments:

Scoya said...

A dor e o seu culto acabam por afastar toda e qualquer hipótese de carinho de outrem.
No entanto, a vida jorra-nos nos dedos...há que saber dar-lhe uso, como o fazes.
Um beijinho

blueiela said...

:)Obrigado Scoya

Eu uso as palavras para libertar o que sinto... o resultado é sempre uma maior leveza cá por dentro.

beijinhos

daniela

PJ: said...

Adorei toda esta revolta interior, esta raiva, este confronto!

Parabéns!

Beijos,

Pedro José :)

blueiela said...

PJ

Obrigado...foi uma má fase da minha vida.
Todos temos um momento em que odiamos um pouco o mundo e quando o dizemos acabamos por lhe encontrar um lado desconhecido e voltamos a ser um mar de tranquilidade.


beijinhos

daniela pereira

Scoya said...

Como eu te compreendo.
Escrever é, para mim, a melhor forma de desabafar e uma espécie de terapia.

Um beijinho e continua com o bom trabalho!

PJ: said...

E escrever é a melhor forma de rasgar tudo à nossa volta sem magoar ninguém.

Uma óptima terapia, diria eu já por experiência própria :D

Beijos,

Pedro José :)

blueiela said...

:)Ahh pois é pj...sem, dúvida..também o sei por experiência própria

beijos

daniela