sábado, 15 de março de 2008

O finíssimo equilibrio das manhãs

Quando o corpo se desprende dos sonhos oferecidos pela alma, há contemplações diferentes em relação ao que se vai respirar.

Qual a relação com o ar circundante, consoante se concentra a atenção no trabalho ou nas férias que finalmente chegaram.

Apalpo a invisível vontade de distrair os compromissos movendo-os para outra parte da agenda. É claro que damos por nós a dizer que gostamos do que fazemos quando quem está preso nem sequer tem uma conta para pagar. Basta-lhe prevaricar e a prisão volta a ser a sua casa. Assim torna-se fácil.

Todavia o equilíbrio matinal não é assim tão radical e nos momentos posteriores ao abrir dos olhos, ao desligar do despertador e de sentir a noite a escapar-se pelo horizonte, o corpo perde a noção da alma que lhe dá a vida e tudo passa a ser rotineiro, sobretudo a batida do coração.

Há quem dê graças a Deus, há quem bata com o tornozelo na esquina de um móvel, são formas diferentes de quebrar o silêncio, de nos lembrarmos que estamos vivos e que na falta de alguma rotina não somos ninguém.

É isso, por mais que mude, que queira tornar a vida diferente, o que procuro é arranjar uma forma de começar os dias sem sentir frustração pelo que poderia ter, simplesmente porque o tenho, lutei por tê-lo. Tem outro sabor quão mais difícil é a conquista.

E na frágil demonstração de afecto pelas paredes, lençóis e vampiros que me habitam as vontades, arranjo uma forma de contemplar cada manhã, respirando fundo, mesmo no meio da atroz poluição.

Sinto vontade de seguir rosa acima e que se lixem os espinhos e o sangue que se desprenda de mim quando por lá passo, fazem parte da vida!

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