segunda-feira, 3 de março de 2008

Agulha no palheiro

Ele prometeu que nunca a apagaria da memória. Como era um cidadão honesto, válido para a sociedade, cumpriu. Mesmo após ela ter desaparecido, lembrou-a todos os dias como se ainda estivesse no passado. Quando andava nas ruas, perdido na multidão, lembrava-se dela. As caras de certas mulheres lembravam-lhe a dela. Mas a todas elas faltava o tal cheiro, o tal sorriso, a tal forma de andar, de falar, de vestir, de gesticular, de ser. Por vezes, ele queria limpar a fotografia dela dos olhos, no entanto, sempre que isso acontecia, vinham-lhe lágrimas aos olhos. Acabava por pensar que era melhor recordar algo que desapareceu do que ter o peito vazio de recordações. Apesar de já não existir, ela era tudo o que lhe restava. O sonho de um perfume, a marca de um beijo, uma bomba a rebentar no coração. Um dia, deitado numa cama de hotel, ele havia prometido a uma mulher que nunca a esqueceria. Passados cinco anos, ainda cumpria a promessa. Lembrava-a como nunca a havia lembrado nos tempos em que estivera com ela. Queria vê-la uma vez mais. Queria dizer-lhe: vem, fica comigo. Só que nunca a encontrava, nunca a via, nunca lhe sentia a presença.

1 Comment:

Andreia Ferreira said...

Os cheiros são lixados... Entranham-se na memória e depois para tirá-los... (Desabafo perfeitamente dispensável :D )

Isto para dizer que o texto está muito bonito!

Beijinho