sábado, 1 de dezembro de 2007

Festa de Despedida

Confesso que já perdi tempo suficiente a pensar na morte, na melhor forma de permanecer quieto, para sempre. Aos vinte anos, no meio das bebedeiras, das tentativas de imitação das desgraças que evaporaram alguns prodígios suicidas, apenas me fui enterrando no mais lúgrebe dos silêncios, talvez à espera de acordar vivo e de saúde, dentro de um caixão a três metros de profundidade.

Lembro-me que mesmo à superfície me faltava o ar, a paciência e acima de tudo a humildade dos grandes de espírito. Não é que fosse pequeno em altura, apenas o desmesurado ego e a falta de crença em horizontes para além de uma campa anónima torturavam-me as noites, de negro vestidas, sem esperança num futuro revestido num presente sem sentido. E afinal o futuro até apareceu, apesar do lirismo de pensar que o coração se cansaria aos vinte e cinco anos e que algo proveniente dessa conjugação etária me daria a paz eterna, que nem quero saber hoje em dia. Pensava... mas quase nunca se agi em conformidade.

Há aquela história da Bela montada no seu ainda mais belo cavalo branco, num prado verdejante a perder de vista e o céu carregado de nuvens negras, prestes a explodir num frenesim diluviano que viesse limpar as consciências pesadas dos incautos, que perseguiam, na serenidade possível, as traseiras de um longo carro vestido de negro.

Pois claro, o motivo da festa de despedida era eu, apenas adormecido num caixão, antes de acordar a três metros de profundidade...

www.manuelmarques.com

1 Comment:

Scoya said...

"E afinal o futuro até apareceu"
Ele vem sempre... Pode é terminar assim que aparece.

Beijinho