terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Cântico Negro



neste labirinto de silêncios palpáveis

desenho com o dedo a suspeita de estar só

e um bando de canetas voa espavorido do ninho

solto aos quatro ventos

em jorros de tinta negra

negra como o mais negro dos cânticos

que aqui onde vou não arrasto pés sangrentos

nem desbravo florestas inexploradas

nem terras-de-ninguém devassadas

nem pântanos secos

sem troncos ocos

sem areias movediças

sem água

sem lodo

sem cais

sem sereias de caudas postiças

sem lamas

nem dalai lama

nem pecados originais


não!

mais gente não!

que eu não vivo para infectar amores antagónicos entre deuses e demónios

se vivo é só p’ra proclamar a morte da última ave do paraíso

atacada de taquicardia voluptuosa

p’ra declarar louca toda a bússola que me aponte o norte

p’ra caminhar na berma bamba do abismo sem rede

e engolir em seco todo o som que se solte como quem engole o destino

de chofre

ou em silêncio assina a sua sentença de morte

sempre em silêncio

porque de silêncio
também se morre

Autor:Jorge Casimiro
Livro “murmúrios ventos”
Editora:Passáros de Fogo
(Foto de Emanuel Oliveira de Olhares.com)

2 Comments:

M. Alves said...

que coincidência! ontem retomei este livro que me foi oferecido ha um ano atrás!... adorei!...estou a adorar ;)

PJ: said...

Gosto da revolta das palavras, ritmadas num reboliço de ideias.

Beijos,

Pedro José:)