quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O pó


Acumula-se pó metafísico nas esquinas da alma. As dobradiças emperram, e assola-me uma comichão indefinida no esforço hercúleo de pensar. Coço-me. Primeiro, num afã frenético, abraço-me e aferroo as unhas, que esqueci de cortar, no braço oposto, sentindo os brados mudos dos sentidos em missão de auxílio. Rio do absurdo quando a comichão os finta, talvez por qualquer fobia a sangue. A comichão sobe à cabeça. Como a loucura, diriam uns. Na cómoda, ao lado, a Cruz vela uma caixa de comprimidos. Com os pés pontiagudos do crucificado, expulso a comichão com a sensação de sacrilégio. Sujo-me quando me purgo. Arrebato os comprimidos, e cobiço-os a todos. Mas, para os sãos, os comprimidos não existem no plural. Por isso, Mãe, não esconda os comprimidos, porque não sou louco. Sou fiel – de uma fidelidade quase louca – ao prescrito. Tomo-os sempre um de cada vez, e até faço o pino para que eles ataquem logo a comichão mental. Já viu, Mãe, como os respeito? Um de cada vez, e fazendo o pino, na esperança de torná-los mais eficazes. Os loucos só acreditam na sua loucura. Eu creio nos comprimidos. Tanto tanto que os cobiço a todos, só porque acredito em cada um deles. Mas todos juntos não deviam ser mais eficazes? É de loucos responder que não. Enfim…

1 Comment:

Maria Luís Veloso said...

Quem pondera a hipótese da sua loucura não pode, automaticamente, ser louco.
Podes sempre chamar-lhe divagação :P