sexta-feira, 9 de novembro de 2007

António Damásio...o neurologista Poeta!

Este neurocientista Português mundialmente reconhecido, tem a particularidade de utilizar a palavra com arrepiante simplicidade e criatividade para nos falar de coisas complexas. É na minha opinião, um poeta de sensações na linguagem científica. Fica aqui, um pequeno excerto que é revelador da sua faceta artística.
"Estou a escrever estas palavras em Estocolmo, enquanto observo pela janela um velho frágil que se dirige a um barco que está prestes a partir. O tempo é escasso, mas a marcha é vagarosa e a cada passi os tornozelos claudicam; o cabelo é branco; o casaco está gasto. Chove sem parar e o vento obriga-o a dobrar-se ligeiramente, como um arbusto solitário em campo aberto. Finalmente consegue chegar ao barco. Sobe com dificuldade o degrau alto que dá acesso à prancha de embarque e inicia a descida para o convés, receoso de ganhar demasiada velocidade na rampa, olhando com rapidez para a esquerda e para a direita, enquanto o seu corpo inteiro parece perguntar: «Estou no sítio certo?E agora, para onde vou?»Nessa altura, os dois marinheiros que se encontram no convés ajudam-no a firmar o último passo, conduzem-no para a cabina com gestos amigáveis e ele está, finalmente, em segurança. A minha preocupação acaba. O barco parte.
Deixe agora, leitor, que a sua mente vagueie. Pense o impensável e considere que, sem consciência, o nosso homem não poderia ter conhecido o seu desconforto e humilhação. (...)A consciência é, com efeito, a chave para uma vida examinada para o melhor e para o pior; é a certidão que nos permite tudo conhecer sobre a fome, a sede, o sexo, as lágrimas, o riso, os murros e os pontapés, o fluxo de imagens a que chamamos pensamento, os sentimentos, as palavras, as histórias, as crenças, a música e a poesia, a felicidade e o êxtase. (...) A consciência, no seu plano mais complexo e elaborado, ajuda-nos a desenvolver um interesse por outros si mesmos e a cultivar a arte de viver."
(António Damásio, in O Sentimento de Si, pp 23-24)

1 Comment:

Maria Luís Veloso said...

Estudei-o e idolatrei-o.
Pelas suas ideias, pela sua abordagem e pela sua inteligência.

Boa escolha!