terça-feira, 16 de setembro de 2008

Dentro das fotografias existimos sempre; hoje cais no meu painel de fotos;significará que passas a existir para sempre?que vida é a de alguém, a olhar para mim, do outro lado de uma fotografia? com o seu sorriso, a sua pose, a sua distracção, o seu olhar no infinito, a sua língua de fora, a sua vergonha, o seu choro, a sua dor, a sua inocência, a sua naturalidade, a sua cabecita de lado, o seu ar provocador...?Como é que tudo isto chegou até ali? àquele flash? Se é que o houve...àquela fotografia onde era presente e agora é passado, que fica para o futuro?Ainda vivos, estamos ''mortos'' nesses pedaços de papel... nenhum de nós volta a viver o segundo ínfimo em que alguém atrás da máquina dispara.é uma das muitas formas que arranjámos de nos imortalizar, de perpetuar no tempo, nas gerações, nas culturas, nos povos, nos lugares, nas gentes,... nos outros, em nós próprios.Esse segundo ínfimo em que alguém atrás da máquina dispara.hoje cais no meu painel de fotos.Esse alguém que decide como e quando e porquê congelar um momento no tempo. Nas gerações, nas culturas, nos povos, nos lugares, nas gentes,... nos outros, em nós próprios.esse sempre que há nas fotografias. Esse nunca mais.Este não conseguir parar de escrever sobre elas. e achar que ainda não me expliquei o suficiente...Elas que são quem as tira e pode tremer. E lá fica aquele segundo ínfimo pouco nítido aos olhos de quem vê.elas que são quem as tira e não tremendo, pode ficar horrorizado com o que capta.Um alguém que pode sentir que tem de disparar o botão perante algo singelo, alguma simplicidade, algum menino a dormir...com respeito.Esta forma de arte com dois lados: atrás e à frente do botão.ambos têm de existir para que tenhamos um resultado final, porém ninguém vê o que esteve atrás do botão no segundo ínfimo de disparar...E também ninguém vê o que esteve antes e depois desse segundo, à frente do botão, a não ser quem estava atrás dele.se não compreendermos como tudo isto chegou até ali, podemos subestimar esta forma de arte...embora hajam fotografias que falam por si, que não precisam de palavras, que qualquer sílaba as desvirtua.Sou eu nas fotografias dos outros, nos painéis em casa deles, nas molduras, nas paredes...são os outros no meu painel de fotos.

01-03.09.08

Preciso de te escrever.
Escrever de ti. De mim. De ti em mim. Do nós que fomos. Do porquê. Do como. Do onde.
Preciso do quando.
Do quê.
Do para.
Do por.
Escrever-te as linhas do teu corpo no meu.
Escrever os teus beijos. O teu carinho. As tuas carícias.
Faz uns dias que tu em mim. Não sei precisar a hora. Nem da conversa, nem de nós de pé.
Não sei precisar o segundo em que te disse Senta-te aqui. Não sei precisar o instante em que te deitaste para trás e entraste assim na minha casa. Não sei do tic-tac do relógio, quando o tic-tac do músculo do teu braço direito, debaixo da minha cabeça.
Não sei de quando as tuas massagens nas minhas costas, e as tuas mãos atrevidas nas laterais dos meus seios; não sei quando terminaste, nem te baixaste e nos beijámos, de lado, eu de barriga para baixo, tu de barriga para baixo. Tu, em cima de mim.
Não sei precisar a hora disto tudo, mas sei precisar de ti.
Precisar que entres assim na minha vida, como entraste assim na minha casa, e como entraste, assim, em mim……….
Sei precisar de te escrever.
Não páro de pensar em ti, de escrever em ti.
Retenho aquele beijo de despedida, no canto da boca, em que os teus lábios procuraram os meus, num prazer fugidio; retenho os teus sorrisos, os gestos, as expressões faciais, o piscar de olhos, os beijos que me davas, e os que não davas, mas simulavas, naquele gesto sem ninguém mais ver.
Custaram-me a existência dela, a fotografia dela. Custou-me o som de ave nocturna, a cada mensagem; custou-me o porta-chaves do carro com o nome dela; custou-me o anel no teu dedo; custou-me tu e ela, os projectos, as perspectivas, a casa, as férias, …
Retenho as tuas mãos nas minhas coxas, nas minhas costas, os teus lábios e a tua língua no mais íntimo de mim… Esse beijo muito leve, quase só um sopro, na minha virilha...
Retenho os teus cabelos, o teu corpo. Tu nú, embrulhado na toalha, depois do banho. Os teus lábios desenhados, o teu rabo,…
Se pudesse largar tudo. Se pudesses largar tudo.
Sem medos, sem hesitares.
Sem dúvidas.
Retenho o nosso baloiçar na rede.
Reaprendi que a vida são passos dados num caminho de pó, e um dia há pegadas que se cruzam.
Foste um sorriso na minha cara, como não me desenhavam há muito, muito tempo.
Retenho a tua voz. O teu sotaque.
O teu olhar doce, meu doce.
Retenho a loucura das noites, dos impulsos, das cumplicidades, da intimidade.
Pergunto-me Porquê?
Como? Onde? Quando? Quê? Para? Por?
Vou fechar-te um pouco.
Preciso de escrever as linhas do teu corpo no meu.

PAPILAS




Laço, no fio de açúcar, um nó na boca,
Algodão doce como roupa de dormir
É veste que derrete se sonhar quentura...

Um bombom no lugar do seio direito
Farta desejos que não se controlam,
Cereja no leito é deleite para insone...

Durmo e acordo pensando chantilly,
Se o mundo é perfeito ou com defeito
Uma calda de delírio salva a receita...

sábado, 13 de setembro de 2008

Nudez...


Nudez



O meu corpo é um castelo.
Cada cicatriz tem tantas janelas,
Que o vento abre e encontra uma casa fria.



Uma tensão frágil e romântica num silêncio,
O perfil é uma incógnita…
O ventre é um mar em revolta,
A prata brilha nos olhos,
E a pele é seda embalsamada no passar dos anos.



O toque encontra memórias,
Mas despir um corpo não é somente
Livrá-lo das vestes.
É descobrir a essência;
Libertar um pássaro aprisionado.






poema e fotografia, Liliana Jasmim

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Quando há amanhã

Contemplando... entre a luz e a sombra,
num espasmo incolor.
Sentei-me ao longo deste patamar e deixei para ontem os bancos de jardim.
Ao longe, não vi nada...
Ninguém me viu contemplar.

VT

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Convite para Exposição de Pintura


Problemas



Morrer é um problema. Perder a respiração ou ficar debaixo de um camião. Morrer é um problema. A pessoa sabe que vai desaparecer e tem medo de que não haja mais nada do que isto. Isto. Este bocadinho de nada. A Terra. Tão bonita e tão cheia de lixo. A pessoa vai morrer e não quer admitir que está velha, cansada, e que precisa da ajuda de todos. É um problema grave, o da morte. O de se ir chegando a um final, a uma meta sem prémio. Não há nada pior do que se saber que os doutoramentos, as roupas e as festas de agora, pouco sentido fazem perante a evidência de que o corpo animal se vai deteriorando progressivamente, até se tornar num pequeno pedaço de excremento e depois de cinza. Mas há a vida, dizem. Há a festa. Há a luz, o sorriso, o Sol, o amarelo, um vestido de mulher na Primavera, o cigarro, a cerveja, os filhos, os pais, o Carnaval, a felicidade. Na verdade, há tão pouco, mas tão pouco, que, se tivéssemos real percepção da quantidade de momentos bons que vamos tendo ao longo dos dias, acabávamos com a reserva nacional de veneno para os ratos. É tudo muito triste. O neto rezar todas as noites para que a sua avó não morra. A avó desaparecer. O neto crescer, tornar-se avô e também ele morrer para os seus netos. Os ciclos, pois. Uma mãe dar à luz uma pequena criança morta. Um cidadão vulgar assistir ao atropelamento de um desconhecido. Um grupo de adolescentes pegar em armas para matar. O expirar. Como o passaporte. Expiras no ano x. Acabas aí. Como é que alguém se convence que vai desaparecer, deixando o mundo continuar a sua trajectória habitual? Querer que o Elvis não tenha morrido. E o Morrison. E o Dean. E a juventude cada vez mais velha. Os cabelos a ficarem brancos, os pêlos no nariz, os dentes amarelecidos, acastanhados. Pretos, podres. Estúpidos, os dentes. O amor eterno. O casamento. Declaro-vos marido e mulher. É para sempre, meu amor? É, minha queridinha, meu mais que tudo, meu sei-lá-que-mais. Pode beijar a noiva. Beije a noiva. Beije-a. Um beijinho. Atirem arroz aos noivos. Deixem-nos correr para as varizes. O rapaz e a rapariga debaixo de uma árvore num dia de Agosto. Com um canivete, desenham um coração na madeira. Ele ama-a. Que bonitos. Vais ficar comigo? Sim, claro, que pergunta. Para sempre? É para sempre que aqui ficas nos meus braços? Sim, é para sempre. Vamos sobrevoar o espaço e as estrelas e os planetas. Vamos abrir uma cova e enfiar os nossos ossos lá dentro, para que nos ponham flores cheirosas. Para que nos chova em cima e para que os vermes nos comam. Os bichos. Adoro animais, não adoras também? Muito, meu doce. Especialmente quando nos comem os pêlos, a pele, a carne e o osso. Quando nos desfazem, quando nos transformam em fertilizante natural para o pasto das vacas, dos bois. O progresso, o contínuo caminhar até ao desaparecimento. Nascer com ideias, com sonhos, com projectos. Querer ser arquitecto, estudar vinte anos, exercer vinte anos, acabar com um cancro espalhado pelo corpo. Dor infinita. Morfina. Quimioterapia. Qual a sensação de começar uma carreira de escritor? A mesma de apanhar uma pneumonia, ficar de cama. A mesma de pregar um prego no pé e ir a correr para o colo da velhinha que já não cá mora. O ter um livro, um quintal, uma beterraba a nascer. Problemas.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

o blogue das artes em destaque



http://meninamarota.blogspot.com/


"...semanalmente,é divulgado no item “Blogues em Destaque” (à direita da página), do blogue acima aqueles que pelo seu conteúdo ou carisma, chamaram a atenção da autora daquela página.
"É esta a mensagem que refere os motivos porque estão, semanalmente, 3 blogues em destaque... Hoje, uma das escolhas da autora recaíu no Blogue das Artes pela selecção de pessoas e palavras que nos oferece a ler.


Foto:GEDAH

Solicitam-se SONHOS


A quem estiver interessado em participar criativamente na minha nova encenação a estrear ainda no final deste ano, solicito que me enviem descrições de sonhos que tenham tido ultimamente ou que vos tenham sido recorrentes numa fase específica das vossas vidas. O tema do sonho será um dos pontos dramatúrgicos principais a desenvolver neste meu novo trabalho que terá um desenvolvimento em três partes, sendo a primeira um espectáculo de teatro. As descrições não têm forçosamente de ter lógica narrativa podendo corresponder apenas a partes de sonhos, uma vez que muitos dos sonhos que se sonham são incompletos e parecem não ter qualquer significado.Todos os participantes facultativos serão anunciados como colaboradores no programa do espectáculo caso se identifiquem. Podem enviar para a caixa de comentários deste post ou para o meu email: martim.pedroso@gmail.com
Conto com a vossa participação,
Até breve
MP

Suposições nocturnas...



Foto por Daniela Pereira in www.olhares.com/blueiela
Direitos reservados

Poema em "psyco-fire mode"



Cala-me os sons da noite
porque só a tua respiração me importa ouvir...
Prende-me as luzes do quarto
que trago soltas no meu cabelo
e afaga-me delicadamente a pele
até me sentires apagada nos teus braços...
Existe um perfume no ar
e o meu corpo é uma maçã verde
que suculenta vai-se desfazendo na tua boca
e nos teus dedos
já se faz em pedaços...
Quero Vinho do Porto a regar-me o umbigo
e ser um cálice pronto a partir
ao primeiro toque
Quero lamber-te a pele
com a boca molhada
e a língua enrolada em puras brasas
mas sem te queimar o sangue
e só chamuscar-te de mansinho...
Quero beijos no pescoço
dados sem pressa
e sem destino nenhum
quero ver-te a percorrer-me as pernas
com as mãos pingando desejo
e os olhos aprisionados junto aos meus seios...
Podes fugir com a boca inquieta
e escalar-me o corpo com carinho
porque tens montanhas em êxtase
à espera de sentir a terra tremer...
Não me apetecem sombras nas paredes...
todos os objectos neste quarto
estão deformados no meu olhar
e eu só quero a tua sombra sobre mim
a esconder-me as curvas
entre vagas com uma ondulação vigorosa...


Murmuras baixinho
quando te desenterro a alma
com as pernas arqueadas
e voamos juntos
de asas abraçadas
deixando no chão do quarto
segredos curtos sussurrados e longas marcas de prazer...

Daniela Pereira
Direitos Reservados

Apresentação de Palcos Cruzados - Assoc. Cultural



No próximo sábado, dia 6 de Setembro, vamos apresentar formalmente a nossa Associação D´Artes PALCOS CRUZADOS, na Biblioteca Municipal de Vale de Cambra – às 21:00 horas.

Com este evento, vamos apresentar simultaneamente uma exposição de pintura, assim como escultura, fotografia, música, teatro e poesia.

Somos uma Associação Cultural, sediada em Vale de Cambra, criada para promover, divulgar e inspirar todos os tipos de arte e seus autores ou simples admiradores. Queremos roçar a tradição e a ousar a inovação, com declamação de poesia, teatro, exposições de pintura etc...



quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O Vómito

Ele conhecia os homens. Mal viam uma mulher sozinha, tratavam de a tentar engatar. Sim, engatar, palavra feia, pegajosa, peçonhenta, nojenta. Só conhecia homens maus. Não conseguia confiar em nenhum. Como poderia tal situação ocorrer se, da única vez em que decidira depositar alguma confiança num amigo, fora traído, espicaçado? Não poderia voltar a dizer palavras como estas a um sujeito de barba: «Guarda a minha mulher que não me demoro muito. Vou só ao outro lado do mundo ganhar a vida mas volto já. Um ano, dois. Confio em ti como se fosses meu irmão.» Nem pensar. Voltaria a sofrer, a estar deprimido, a tomar comprimidos para doenças cujos nomes não lhe eram de fácil memorização. Era um facto: ele conhecia os homens. Todavia, essa sabedoria não lhe chegava para conhecer o lado feminino da espécie. Conhecera uma grande mulher: a avó. Uma santa, um ser humano tão perfeito, mas tão perfeito, que não tinha lugar entre o mundo dos vivos. Infelizmente. Se a avó fosse viva, costumava pensar, o ecossistema estaria em melhor estado. Menos pessimista.

Os homens. Que fizera ele para conhecer tantas caras de rato, tanta maldade, tanta sujidade? Olhava para o lado e via tipos a lamberem o ânus de outros a troco de ninharias. Uma promoção, uma pequena ascenção social. Preferia saber que toda a espécie morrera num grande incêndio ou numa guerra devastadora, do que continuar a ter que apertar a mão a pessoas que apenas o procuravam por interesse, que mentiam, que suavam. Ele detestava mais o suor das mãos das pessoas do que a bomba atómica. Davam-lhe nojo, não conseguia evitar. O único elemento que o impedia de se suicidar sempre que se lembrava da Humanidade era ele próprio, um ser humano cheio de pêlos no nariz. Às vezes, quando se sentia um pouco mais irreal, punha-se dentro de uma banheira cheia de água a escaldar e gritava, gritava, gritava. «Desapareçam.» O que o enojava mais era a sua figura. Odiava-se. Pedia a Deus que o fizesse morrer de morte súbita todos os dias. Em adolescente, chegara a cortar as veias dos pulsos. Sentira um pouco do significado da palavra desaparecer invadir-lhe o pensamento. Mas logo apareceram os pais, os médicos e a comunidade a garantirem que o suicídio era feio, que, dessa maneira, São Pedro não o deixaria entrar no Paraíso. Desde essa vez, nunca mais se tentara matar.Mesmo sofrendo cada dia mais, preferia esperar que alguém o viesse buscar ao planeta dos demónios.

Ele tinha trinta e seis anos, pouca inteligência dentro do crânio e muito sofrimento entalado no peito. Gostava do Sol porque era amarelo e, apesar de nunca ter sido feliz, lhe lembrava dias de felicidade. Gostava de girassóis porque eram amarelos e o amarelo era a cor de quem nunca chorava. E ele chorava tanto, tanto. Até dava nojo. Vontade de vomitar. «Como pode um só elemento da espécie sofrer de modo tão absurdo?», pensava ele. «Será que ficou tudo reservado para mim?» Ele gostava de imaginar que, um dia, conseguiria obter resposta para todas as suas perguntas. «O que é o amor?» O problema de muitos sonhos é serem perfeitos. Isto porque, sendo perfeitos, não existem. E, se não existem, desaparecem mais depressa do que o tempo de um segundo se esgotar. Para ele, um sonho perfeito era ter uma namorada e dar-lhe um beijo e pedi-la em casamento. Mas acordava sempre sozinho, sempre cada vez mais sozinho e cada vez mais em pânico com a dura certeza de que a vida não valia mais do que dois tostões furados. E dava pulos em cima da cama, partia os móveis com pontapés, feria as mãos com murros nas duras paredes de cimento.

www.zeromaisquatro.blogspot.com

terça-feira, 2 de setembro de 2008

perto do ceu

a tristeza voa no meu peito, transforma-me em pássaro errante.faz-me sentir leve do vazio que nas veias se entranha. abro as minhas asas na tentativa de partir. elevo o meu desolado corpo pelos céus que me não entendem.perco-me nos caminhos desenhados entre as nuvens cinzentas.não encontro o porto certo para a chegada e distancio-me do jardim da partida.voo em sinuosos círculos, entristecida e perdida.este não é o caminho dos bandos de pássaros felizes.por aqui nada migra ou se passeia.fiquei retida nos tons amargos do cinza chuvoso.onde os ventos sopram uns contra os outros a todo o fôlego. perdi-me! preciso de ajuda para me conseguir salvar.

Autor:pin-gente

Foto:Agnieska Motyka

O Homem ou é Tonto ou É Mulher

"O Homem ou É Tonto ou É Mulher" de Gonçalo M. Tavares

A peça é uma sequência de textos em que um homem "salta de assunto para assunto, em reflexão sobre si próprio e os outros e as suas relações com os outros". A ironia e o humor são uma constante no discurso.

"Mas não julguem que não penso.
Eu sou é um pensador doméstico.
Fecho-me em casa e penso muito.
Quando venho cá para fora é que começo a disfarça(...)
É muito difícil ser inteligente com tanta rapariga bonita a passar."

(by Gonçalo M. Tavares, 2002)


para os mais interessados em saber mais sobre o autor fica o endereço electrónico da sua página pessoal http://goncalomtavares.blogspot.com/

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Traditore


Porque se sentia tomado de uma saudade pungente dos seus passeios à beira-mar em Trieste, foi dada a Rilke, a oportunidade de sair do Além e voltar ao nosso mundo por uns tempos.Rilke veio, munido de um resquício de sabedoria celeste, que lhe conferia o conhecimento de todas as línguas e dialectos do mundo. Com essa vantagem sobre os demais, entregou-se apaixonadamente à leitura, enquanto retomava os seus passeios sonhadores.

Entre os muitos autores que leu, havia um com o mesmo nome que ele, Rainer Maria Rilke.

Rilke gostou muito de o ler, em diferentes línguas.

"Este autor ainda é vivo? - perguntou a uma bibliotecária.

"Não, não fisicamente, morreu em 1928!".

"Que estranho! - admirou-se Rilke, falando para si mesmo - tinha o mesmo nome que eu e morreu no mesmo ano, mas escrevia de uma maneira tão diferente da minha!".


(Estrada de Santiago)

domingo, 31 de agosto de 2008

O Iluminado


photo: Betina Moraes

A mãe não atinava, por mais que pensasse, a razão para Deus lhe oferecer tamanho castigo! Era menino de ficar quieto e acertar perguntas difíceis, porém era um grande problema. Apesar dos seis anos desnutridos e da barriga abrigando parasitas, o menino se aprumava quando o assunto era adivinhar. Das moedinhas postas na mão do irmão mais velho ele acertava o número exato e a quantia em dinheiro! Era um espanto para os bêbados da vendinha que apostavam em cada resposta correta. Houve vez de o menino ser raptado de casa para servir de atração esdrúxula na noite do morro.

As pipas eram a coisa que o menino mais gostava, quando as via voar corria gritando: "Viva!!!" Qualquer um que prometesse um bom papagaio colorido levava o menininho pela mão. Não estudava, o nariz escorria, a comida era pouca, os irmãos eram muitos, a mãe era doente, mas de tudo, parecia que nada desagradava o pequeno.

Uma mãe de santo profetizou a santidade do menino, uma vizinha sugeriu exibir o milagre em um programa de televisão, o pastor ofereceu-lhe a Igreja, mas a mãe calava maldizendo o dia em que pariu a aberração. Para todos os efeitos, ter um filho diferente é aborrecimento. Apontavam para ela na rua como se fosse de outro planeta. Até um possível pretendente desistiu quando soube da popularidade exagerada em torno da cria daquela mulher. Ela mesma tinha certo receio quando o guri fitava seus olhos lá no fundo, como se fosse catar os pensamentos mais escondidos, as idéias mais inconfessáveis.

O começo do tormento maior veio com a profecia do menino para a morte do sapateiro. Disse em alto e bom som na porta da vendinha: “seu Severiano sapateiro vai ver papai do céu semana que vem”. Foi uma confusão! A mulher do sapateiro veio correndo e quis dar uma surra no profeta, a mãe quase deixou para ver se o menino sossegava daquilo, mas o povo em volta ameaçou linchar as duas. Um camarada mais temido puxou a arma e ordenou: ninguém toca no santo! Vamos ver no que dá! Mandou cada um para as suas casas.

Semana seguinte falhou o coração do sapateiro! Foi ao meio-dia, num domingo, muito sol, todo o mundo esperando. A mãe perdeu a força nas pernas, passou mal, chorou, estendeu as mãos para o céu em desespero. O pequeno brincava inocente no beco imundo e foi cercado por um monte de gente querendo saber o futuro, o irmão mais velho acudiu, pegou o moleque e sumiu no morro. Quando já era madrugada, voltou para a casa com ele dormindo nos braços. A mãe precisava dar cabo daquilo. Pegou o dinheirinho que havia guardado para o natal, enrolou o filho em uma coberta e saiu pela madrugada como fugitiva. Ao raiar o dia já estava em um ônibus para o interior do estado. O menino sorria doce ao aconchegar no colo da mãe. Não reclamava de nada, nem fome tinha.

Desceram do ônibus em uma cidadezinha qualquer. Ela largou o menino em um banheiro público, tomou condução de volta ao Rio. Sozinho no banheiro ele sentiu apertar o pequeno coração, viu despencar um ônibus no abismo. Foi a única vez em que a criança chorou.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Algumas coisas...

Foto: Michael David Adams

INSTABILIDADE EMOCIONAL
VEZES ASSIM
VEZES ASSADA
VEZES EM MIM
VEZES IRADA
VEZES SEM FIM
VEZES COVA RASA
VEZES QUERUBIM
VEZES ESFARRAPADA
VEZES COLORIDA
VEZES FERIDA
ESFACELADA.

BY CASTI

(www.teiadepalavras.blogspot.com)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Castelo de areia

Acordou de manhã com o telefone a dizer-lhe que homem X havia morrido. Lembrou-se imediatamente da personagem de Camus que não conseguira chorar no funeral da mãe. Acabara de ser informado da morte do homem que o costumava levar ao futebol em criança, no entanto, não se conseguia emocionar. Sofria, sentia uma facada no peito, queria desaparecer, estar longe de tudo, no Pacífico, no Alaska, na neve. Precisava de estar sozinho e de desabar em lágrimas, como a criança que ainda não bebeu o seu leite. Acontece que este sofrimento, que lhe aparecera tão repentinamente, era seco, mudo, e não necessitava de gestos ou de palavras para se propagar. Vinha-lhe à lembrança a imagem de uma criança e de um avô dentro de um carro a tentarem chegar à conclusão se o jogador dos vermelhos se superiorizava ao dos verdes. Apertava-se-lhe o estômago por saber que, a partir daquele momento, da morte, já não havia pai, nem avô, nem avô em substituição. Haviam fotografias, mas nem essas eram certas. Umas estavam adormecidas dentro de gavetas trocadas, outras haviam desaparecido com o vento, com a poeira e com as cinzas. Crescera a pensar que poderia escapar à morte. Não à sua, mas à dos outros. Nunca imaginava a morte da mãe, dos irmãos ou da avó. Sofria a ver programas na televisão que abordassem a problemática em torno de certos seres humanos perderem a respiração e de serem enterrados debaixo da terra. De repente, aparecia-lhe uma notícia de tão explosiva natureza: morrera o símbolo da beleza da infância e da adolescência. Com aquele desaparecimento, iniciar-se-ia uma contagem decrescente até ao momento do seu próprio desaparecimento. Talvez fosse essa falta de tempo que o impedia de exteriorizar a dor.

00:04

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

NO ÁLBUM QUE GUARDO

Recorto a imensidão das horas,
O espaço ressequído pelo calor...
A dádiva da canção dançante,
Este infindável desejo, acutilante
Fogo de todos os domínios
Ao espelho perdido e antigo.

No espasmo dos nomes escuto-te...
Envolvo-me no sorriso encerrado,
Na inarrável criação da lonjura,
A fonte acesa do dia esculpido,
Tavira azulada na vazante...
Entre o café da sugestão
A um telegrama sem corpo.

Longe de ti... não és ninguém!
Ateados os perjúrios do sangue
Bonanças da sugestão esfumada
A memória ardente da minha cidade,
O interstício da tripulação azul...
Palavras sinuosas na iminente despedida,
Alegrando a rua sem nome!
Rua ao fundo do tempo do Gilão.

Cidade do acaso entre cenários...
Amor que se dança mais além!
Ancestral sorriso a encetar olhares
Múltiplas páginas, posturas, imaginários
Ritual que o turismo acende
No pálco cenários acentuados...
Café e vinho que se aconchega
Neste apontamento, aquela demora
O navio, a ilha, a minha Tavira
O sono do meu jardim, gente gira
O povo de longas euforias...
Aventura contida naquele poema
Amor lilás, teu envolto tema.

Igreja... igrejas, recantos da fé!
Sentido cúmplice, inscrito até
Nos anos lavrados da tradição...
Rasgando a frescura e o Sol algarvio,
O arco e o castelo, sombra e luz
No álbum que guardo além Jesus.

Tavira, 25 de Agosto de 2008 - 12:27h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

Livro "Nas Águas do Verso"


No cantinho do Blogue das Artes aqui vos deixo uma boa nova...a minha participação numa colectânea de poesia que já se encontra disponível. O livro "Nas águas do Verso"... escrito a 100 mãos com muita alma..sorrisos e sal...
Aqui deixo o meu agradecimento ao João Ferreira e ao Pedro Lopes por fazer parte deste projecto de partilha das palavras de um mundo onde a poesia é um rio de sentimentos puros e transparentes...


Nas Águas do Verso é uma colectânea poética idealizada e coordenada por João Filipe Ferreira e Pedro Lopes.
Nesta obra é possível encontrar textos poéticos de 100 autores tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo.
Uma obra onde cada poeta expressa livremente as suas palavras, as suas emoções, visões e estados de espírito.
Em Nas Águas do Verso o leitor poderá navegar calmamente na beleza da poesia e da prosa poética, sem nunca perder o rumo, sem nunca se afogar nas palavras.
Com muito prazer, os autores oferecem-lhe esta obra que consideram ser tremendamente rica em poesia.
Sejam bem-vindos ao barco poético e uma vez nele, desfrutem da beleza das Águas do Verso.




Titulo: Nas Águas do Verso
Subtítulo: 100 Autores - 100 Poemas
Editor: Edições Ecopy
Colecção: Poetas Contemporâneos
Ano de Edição: 2008
N.º de páginas: 128
ISBN: 9789898080684
EAN: 9789898080684
Dimensões: 20,5 x 14,0 cm

Um livro fantástico, com textos de 100 pessoas tão diferentes que se unem para criar uma obra de imenso valor... Recomendado a quem aprecia a arte de ler e a magia das palavras...

Onde comprar:

Editora Ecopy
ecopy@macalfa.pt

Livraria Leitura (Porto)
http://www.livrarialeitura.pt
Rua de Ceuta, Nº 88
Telefone 222 076 200

Livraria Byblos (Lisboa)
http://www.byblos.pt/
Rua Carlos Alberto Mota 17 Edíficio Amoreiras Square
1070-313 LISBOA

Bulhosa Books & Living
Galeria Comercial das Amoreiras ( e restantes Livrarias Bulhosa)
Av. Engenheiro Duarte Pacheco, s/n Loja 1129
1170-103 Lisboa
http://www.bulhosa.pt/

NAS ARESTAS DA PÁGINA DESAVISADA

No silêncio da água branca navego, pelas arestas
Tomo-me na amplitude dos horizontes lácteos
Nos sulcos que me vergam o braço…
O lugar definido das cidades e da ausência
Esta minha entrega nas arestas da morte total.

No indesejável eco escondo os meus silêncios…
Os passos de uma metáfora que se perde,
Os encantos que desautorizam e desfazem!
Chamo-te à interrogação no espelho delimitado,
Fico com um olhar de aço quase impossível…
Quase acorrentado pelas novas posturas,
Fico e nunca mais estou nessa faixa, nesse lado.

Pensei saber-te novamente… pensei sim, ausente
Desesperam os nomes no telegrama final…
Este momento colorido pela noite dos açoites,
Os esconsos dos símbolos no desastre da manhã adiada!
Assim, todas as cores, vermelho, carmim, lilás…ou nada
As outras na inarrável aproximação do sentido ideal.

Adias o nome tanto desejável… a aurora frágil
No fálico tempo de estátua revelada no universo
Por herméticos sons de harpa e acordeão fugaz,
A um desconhecimento impróprio de todos os olhares
Neste hiato de permanência, sem gesto possível.

A página cobre-me o corpo com um sorriso…
Dentro de mim o choro dos fantasmas da imaginação,
A vibração do corpo e da alma… assim, em vulcão
Entre as estrelas e a neblina da esperança dançante
O uníssono da carne perfilada às órbitas da nudez,
No ébrio sentir do remanso minucioso desavisado.

Tavira, 24 de Agosto de 2008 – 19:05h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

sábado, 23 de agosto de 2008

ANTES DA PALAVRA




Eu te chamo com todo o silêncio,
Nos pequenos gestos discretos,
Nas páginas do livro que leio.

A chama me conduz ao teu nome,
Inflama a existência das coisas,
Reduz a rua a um passo apressado.

Olho-te sem que me vejas olhar,
Queimo o verbo em única pessoa,
Colho aves que transpassam o céu...

As folhas da amendoeira estão em pó
Mas eu fico quieta e espero
Se teu nome ecoa, eu escuto e calo...

domingo, 17 de agosto de 2008

Quando, às 6.30 da manhã, o galo da vizinha resolveu acordar a rua inteira, Artur deu por si a resmungar que, na cidade, já não acordava com os alarmes dos carros. Concluiu que a calma do campo desestabilizava-lhe mais o sono que os barulhos da cidade.

(também na minha morada de todo o ano.)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O velho anexo


photo: Betina Moraes


O calor no quarto, por causa da telha crua e sem nenhuma beleza no amianto, fazia seu olho arder e os ossos serem uma coisa pesada, além. Hugo, que já havia tido várias denominações durante a existência: Filho, menino, rapaz, marido, contador, pai, era agora o velho no andar anexo. E logo hoje, que já acontecia o natal, deu para cismar com desnecessidades imbecis. Havia sempre uma ou outra queixa claro, quem não as tem? Mas ali, diante do par de sapatos, resmungando, dava-se conta do quanto era ridículo. Raciocinou. Onde estava a ofensa? Pelo menos ganhou um presente. Talvez a coisa toda tenha desandado quando o sapato não coube... Ou quem sabe, antes? O fato é que ao calçar e perceber os dedos ali entranhados um sobre os outros, foi lhe dando um desamor, um desconsolo, um desmedido sentido de fim da linha.... Já era o tempo de saberem o quanto lhe cabia no pé, qual o número de sua camisa, se a gola iria enforcar!

Das duas meninas ele tinha “de cabeça” cada um dos numerários que lhes coube durante as idades: Carla, miudinha, vestia um número 38 para sempre, desde a adolescência, independente dos netinhos que lhe deu. Verônica, um pouco mais fornida, tinha obsessão por regimes e variou muito de peso! Ficou magríssima quando da paixão pelo professor de química e gordíssima quando a paixão lhe disse não, mas nunca deu para esquecer o quanto lhe cabia. Mesmo os homens, Henrique e Moisés que tanto se modificaram e cresceram, ele visualizava com perfeição seus corpos.

Talvez fosse isso, não lhe visualizavam mais, nada mais lhe cabia.... Aos 82 anos, um sótão quente e uma viuvez que doía nas entranhas, quem sabe tenha passado já os limites dignos para a ocupação do espaço, assim como mobília que é transferida para a garagem? Tentou conter as lágrimas, mas a musculatura flácida das pálpebras colaborava para a humilhação de chorar. Então chorou. Cuspiu tanta solidão, tanta, que lhe veio uma absurda vontade de vestir-se, na vontade veio junto o entendimento do vestir-se. Era esse o assunto para o sapato, ali estava a tanta coisa para a qual ele estava sendo preparado e o motivo de o calçado não ser o seu número. Entendeu a metáfora. Era uma mensagem de sua família: “seus pés perderão as peles tão logo, por que um sapato mais largo?” Imaginou a filha mais velha dizendo isso diante de todos, do jeito alegre e irresponsável como ela conduzia as festas de natal. Parou e considerou as coisas.

Mesmo já tendo passado muito da meia noite, ainda não vira motivos para ir cear. Antes, mais cedo, ao receber o presente, não quis descer, ficou cismando ali. Agora estava diante da resposta. Um homem deve saber duas coisas na vida, a hora de começar e a de parar, o resto é bobagem. Ajeitou o terno azul marinho, dos bons tempos de contador e a pele reagindo, o fez sentir o tecido. Forçou os dedos dos pés a aceitarem os sapatos. Colocou no bolso a foto de seu grande amor. Única mulher para quem um dia, entregou o coração. Mesmo severo no gostar, quando juntos na mesma cama, havia entre eles uma luz que nem cabia descrever. Incrível como os filhos desconhecem o que se passa entre os pais... Apagou a luz e abriu a janela. Ao ficar de pé, constatou que era realmente muito apertado o sapato. Lá embaixo encontrou a cama de grama que ele mesmo plantou.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sobre a chegada do Verão


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O amor é a borracha que apaga o mundo quando os teus olhos me tocam.
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[Também aqui]

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Lançamento de Antologia em São Paulo





Dia 16 de Agosto vai ser lançada um antologia de poemas, contos e crónicas em São Paulo, na XX Bienal Internacional do livro de São Paulo.

Tenho orgulho em participar nesta antologia com dois poemas e duas crónicas.

Um desses poemas foi publicado pela primeira vez aqui, neste mesmo blogue. Ficam os links:

E no fim...

A árvore dos namorados

Filhos da noite

Antes do fim abrupto de um corpo

Destaco o profissionalismo com que tem sido feita a divulgação deste evento e a coordenadora Luísa Beatriz Moreira.

E claro que sendo a primeira vez que algo meu é editado fora de Portugal, se torna como uma espécie de reconhecimento dos amigos do outro lado do Atlântico!

Beijos e abraços e que este continue a ser um Blogue de referência para todos quantos neles participam e sobretudo a quem procura por inolvidáveis talentos que os há aqui em grande quantidade!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O que me resta


O que me resta
quando não puder acrescentar
mais uma palavra ao teu livro

O que me resta
quando não conseguir mover o lápis
para rabiscar

quando o Inverno estiver frio,a partir-me
os ossos de solidão.


O que me resta
quando a luz se afundar na alma
silenciada


O que me resta
não sei...
pergunto...
fico à espera da resposta...

e morro todos os dias mais um pouco.

(Fotografia e poema: Liliana Jasmim)

domingo, 10 de agosto de 2008

Uma rapariga entrou um pouco desnorteada no Grande Armazém dos Cucos. Impressionado com a tristeza que transmitia, o Sr. Afonsinho encarregou-se de a atender pessoalmente e, num ápice, percebeu que ela tinha um desgosto de amor para trocar. Depois de pensar uns segundos, o simpático gerente lembrou-se que tinha os livros da Colecção Vampiro e a compilação de O Tal Canal em cassetes beta (por sorte, também tinha um último vídeo adequado), que seriam completamente indicados para esta situação. A rapariga saiu muito mais satisfeita (e leve) do armazém, especialmente porque os novos produtos iam ser levados para sua casa naquele mesmo dia.
Quanto ao desgosto de amor, foi cuidadosamente guardado num frasco e trancado no cofre, na cave do armazém. Com material perigoso todas as cautelas eram poucas, mas nunca se sabia quando havia de dar jeito.

(também na minha casa de todo o ano)

surrealismo - a única real tradição viva

para quem é fã do movimento surrealista o nosso querido amigo ricardo pulido valente oferece-nos um bom espaço.

afinal de contas é a única real tradição viva, não é?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

LANTERNA


Alexandre Zlotnik


É na espera que a estrada se cria,

entre musgos e fungos e pedras,

cratera na terra é fogo que esfria.


O tempo é o tear onde se fia o dia,

meu vestido é linho de horas novas,

a linha na agulha amarra a história.


Se eu esperar e a estrada escurecer,

pego um fio fósoforo na aura do anjo

e dou vestimenta ao passo, na luz.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

quase esgotado

segunda-feira, 4 de agosto de 2008




Um novo número da Minguante com o meu texto.
E, aproveitando para fazer publicidade, com o meu e-book quase em forma de fóssil.


Sirene

Estás a ouvir a sirene lá fora? É da ambulância que te leva para o hospital. No momento da despedida, pouco importa se foste um bom ou mau cidadão, se votaste, se trabalhaste, se tiveste filhos, se foste um bom pai, se foste um bom filho. Quando te restam trinta minutos de vida, de nada te valem os doutoramentos, as amantes, as notas de mil, as viagens ao Japão, o luxo, os livros, os filmes, as músicas.

Para os desesperados, existe um dramatismo muito grande na contagem dos segundos. Queres ver? Trinta minutos. Um, dois, três. Até chegar a mil e oitocentos. A vida passa tão depressa. Lembras-te dos quinze anos? Parecia que tinhas o mundo todo à frente. Mas os anos começaram a passar como se fossem dias e, quando deste por ti, já não tinhas vinte, nem trinta, nem quarenta. Tinhas cabelos brancos, dentes acastanhados e cancro nos pulmões. Lembras-te dos quinze anos? Querias casar com a Margarida ou com a Inês, lembras-te disso? Passou tudo. Porque é tudo vaidade. Consegues ver os médicos a examinarem-te? Vais perder o pio. E desejas que a tua mãe estivesse contigo.

domingo, 3 de agosto de 2008

Artur estava convencido de que ia escrever o novo grande romance português contemporâneo. Tinha uma grande ideia para o enredo, a confiança que seria capaz de o desenvolver devidamente e até elaborou um plano de acção: comprou um computador topo de gama, tirou um ano sabático, arrendou uma casa numa aldeia transmontana e manteve um telefone só para eventuais emergências de saúde da mãe.
Quando voltou à cidade, os amigos nem queriam acreditar que tivesse ganho 20 quilos e que se tivesse transformado num campeão de sueca. Nunca mais lhe ouviram pretensões literárias nem qualquer outra explicação.



(também na minha casa de todo o ano)

sábado, 2 de agosto de 2008

O QUE SINTO AGORA…

Latejam em mim as palavras deste poema
Acompanham as batidas do coração…
É verdade. Não é fita de cinema…
É o que sinto por dores de uma ilusão.

Angustia e morre na garganta o fonema
E o medo faz parar a irregular pulsação
Utópicas e estranhas imagens são o lema,
Da vida que não vivo, nem por mera imaginação…

O teu sono sem o meu sono é a ansiedade
Que não partilho, nem por necessidade…
Porque a saudade controla todas as pulsões…

Eis porquê neste poema deixo minha tristeza,
Deixo a fé, deixo aquele sonho de beleza,
Deixo as lágrimas defuntas, sem contemplações…


02.08.08
(comment ao último poema do Caderno da Alma)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Um mais um menos um


Marilyn Minter, Splish-Splash, 2005




Ele amava uma mulher. Por esse motivo, quando a encontrou na rua, pegou-lhe pelo braço e levou-a para casa. No quarto, encostou-a a uma parede, rasgou-lhe a camisa, levantou-lhe a saia e penetrou-a como se tivesse a certeza de que, naquele momento, não haveria outra coisa a fazer. Durou sete minutos e meio, o sexo. Quando acabou, pegou num cigarro, acendeu-o, puxou as cuecas para cima e disse: «Vou casar contigo.» Era este o grande objectivo de vida dele. Levá-la ao altar e enfiar-lhe o anel da santa ligação no dedo. Minutos depois, ao vê-la deitada no chão ainda com o esperma espalhado pela roupa rasgada, ele sentiu que um pequeno monte se começava a manifestar um pouco abaixo da sua cintura. Voltou a enfiar o pénis dentro dela. Ela começou a chorar.

«Não faças isso», murmurou-lhe ele aos ouvidos.

«Não faças tu isso», respondeu ela.

«O quê?», perguntou ele, meio surpreendido.

«Violar-me.»

Paragem. Algumas palavras doem mais do que certas doenças.Violação. Um homem pegar numa mulher à força e possuí-la. Fazê-la sentir-se um lixo. Não ligar à existência dela. Transgressão. Estupro. Profanar um templo. Se ela lhe tivesse dado um murro no estômago, teria mais hipóteses de receber alguma compreensão do que a dizer: «Violar-me».

«Não te violei, querida. Amo-te praticamente desde a primeira vez que te vi. Já lá vão três anos. Hoje, encontrei-te na rua. Como não encontrei palavras que te pudessem convencer do quanto te adoro, peguei em ti e trouxe-te para dentro da minha intimidade.»

«A tua intimidade deixou-me a deitar sangue», respondeu ela muito secamente.

«Não te violei.»

«Deixa-me ir», pediu ela.

«Espera.»

Ele foi buscar uma corda à garagem. Despiu-a completamente e atou-a à cama, não a deixando sequer com liberdade para mexer um braço ou uma perna. Se ele quisesse, ela ficaria naquela espécie de prisão para sempre.

Ela começou a berrar. «Deixa-me ir embora, peço-te.»

Ele foi buscar uma câmara de filmar e começou a filmá-la. Pediu-lhe para sorrir, que deveria ter uma cara bastante fotogénica. Mas ela só sabia chorar. Ele aplicou-lhe o remédio: deu-lhe uma bofetada na cara.

«Agora, ri-te.»

A muito custo, ela esboçou um sorriso.

«Agora, diz que me amas.»

«Amo-te», disse-lhe ela.

«Sou o homem da tua vida, diz.»

«És o homem da minha vida.»

«Muito bem, temos filme.»

Depois, deitou-se em cima dela e penetrou-a. Ela adormeceu. No dia seguinte, acordou sozinha, na cama que a sua mãe lhe comprara no Natal. Não haviam sinais de cordas ou de homens violentos. Só ela e um despertador a garantir que chegara a hora de ir para a escola.